Accidental Love

B.L Miller

 

 

Direitos de propriedade literária: Os personagens que aparecem nesta história são de minha própria criação e possuo os direitos de propriedade literária deles desde 1998 B.L.Miller. Não redistribua ou copie esta história para qualquer lugar. Os elos se permitem tão logo quando lhes esclareço que a história está em meu site. Qualquer pergunta ou comentário podem se dirigir a mim a blmillerstories@aol.com.

Situações adultas:Esta história contém cenas explícitas de duas mulheres que fazem amor. Se isto lhe ofende, não deveria estar lendo nenhuma de minhas histórias.

Espero que desfrutem. B.L.

Nota da tradutora: Embora a tradução tenha sido feita do espanhol e se vocês quiserem enviar comentários, críticas ou outras coisas a autora, não se esqueçam que devem escrever em inglês, pois nossa querida autora não fala português.


Título Original:Accidental Love

 

 

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Capítulo 1

 

 

Rose Grayson subiu o fecho de sua jaqueta azul marinho e baixou o capuz sobre sua cabeça. O cordão que normalmente o teria mantido em seu lugar havia sido retirado muito antes que ela a tivesse comprado no brechó. Não tinha dúvida de que a primeira rajada de vento frio penetrante o tiraria de sua cabeça, mas pelo momento, isto era o melhor que podia fazer. Olhou a intensa iluminação do estacionamento do Money Slasher, o grande supermercado em que trabalhava em meio período. Já esperava estar em período integral, mas com a economia da maneira em que estava, os trabalhos de tempo integral eram difíceis de se obter. O louco horário que lhe designaram lhe fazia impossível conseguir outro trabalho de meio período para completar o buraco e Rose não podia correr o risco de deixá-lo. Havia demorado semanas para conseguir entrar para os armazéns de Albany só para conseguir este trabalho.

Como a meteorologia havia previsto, os pequenos flocos de neve estavam caindo quando seu turno começou. Agora estava soprando um forte vento e um pouco de neve havia caído interminavelmente a vista. Rose baixou o olhar a seus desgastados tênis e gemeu. Esta era a pior parte de ter um trabalho a duas milhas de seu apartamento. A longa caminhada para casa lhe garantia que seus pés estariam congelados, para não mencionar o resto de seu corpo. Teve sorte de que Kim, a encarregada do departamento, tivesse lhe conseguido este emprego. Às vezes ela a levava para casa, mas esta noite Kim havia terminado seu turno há uma hora atrás e de nenhuma maneira Rose teria lhe pedido que a esperasse. Respirou profundamente, meteu seu cabelo loiro avermelhado dentro do capuz dobrando este para frente, e saiu ao implacável clima.

 

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Verônica Cartwright deu uma olhada em seu relógio com diamantes pela décima vez em uma hora. De todas as miseráveis noites, esta teve que fazer uma aparição em Sam’s, à casa de mariscos em que também era o lugar para as reuniões dos ricos e poderosos de Albany. Em qualquer noite se podia ir até ali e ver o governador, senadores de estado, e gente comum, que desejava gastar centenas de dólares em um jantar. O maitre sabia quem era quem e os sentava como correspondia. Nunca sentaria alguém como Verônica, quem encabeçava uma das maiores famílias a qual possuía corporações na área, perto de alguém quem inclusive não possuísse sua própria casa. Verônica não gostava de ir ali, apesar do prestígio mundial de sua cozinha. Esta noite, no entanto, teve poucas alternativas. Mark Grace, o Zoning Board of Appeals Commisioner, lutava por uma troca de petição e haviam apelado para ela para que usar todo seu charme para conseguir que a negociação se concretizasse. Seus primos tinham uma pequena ramificação da corporação familiar, Cartwright Car Wasches. Era um negócio pequeno, em termos de renda para a família, mas enorme aos olhos do público, especialmente com os trinta túneis de lava a jato de automóveis sobre a área e os numerosos anúncios de televisão. "Tenha seu carro lavado adequadamente em Cartwrights" era um acertado slogan, e fazia muito tempo, financeiramente falando, que o nome dos varões da família era comentado em casa. John e Frank, os primos a cargo do serviço de lava jatos, desejavam construir um novo na esquina de Lake e State Streets. Era uma excelente localização em uma área predominantemente residencial. Inclusive queriam, por hora, comprar a parte da esquina do armazém que havia estado previamente ali e as casas adjacentes à espera de uma transação. Agora o encarregado Grace estava questionando a destruição de três "magníficos antigos edifícios" de Albany para pôr outro "estúpido lava jato". As reuniões e negociações não funcionaram, ofertas de grandes doações cívicas não funcionaram, inclusive os subornos falharam. E quando os irmãos haviam esgotado todas suas idéias e ainda não podiam tê-lo convencido, apelaram para Verônica para colocar as coisas corretamente. Ao encarregado lhe saltou os olhos à oportunidade de se encontrar com uma das mulheres mais cobiçadas da cidade e insistiu em jantar com ela essa noite.

Assim em resultado disso ela teve que sair de seu agradável lar no meio de uma dessas piores nevascas que já haviam caído pela cidade há anos, para vir e jantar com o encarregado para que este lhe autorizasse a transação. Era uma situação para negociar e Verônica estava acostumada a isto. O único problema era que Grace queria mais do que a boa vontade da belezura de cabelos escuros que dirigia Cartwright Corporation. Devido a sua insistência em que eles se encontrassem essa noite, não teve a oportunidade de fazer a reserva da mesa. Para quase qualquer pessoa, teria significado não entrar na prestigiosa casa de ostras. Mas para Verônica, o maitre os colocou no bar, enquanto desesperadamente tentava encontrar um lugar para a presidente de Cartwright Corporation e seu convidado. Durante a espera, a mulher de olhos azuis sofria tendo que escutar os clamores poucos recortados de um homem que lhe dizia tudo sobre seus títulos e o quanto era inteligente e como ela deveria realmente considerar passar mais tempo com ele. A única parte boa da noite havia sido o constante reabastecimento de sua taça de vinho com o mais fino da colheita por parte do garçom. Pelo menos havia podido gozar de um bom vinho enquanto o escutava.

Agora uma hora mais tarde, estavam sentados em sua mesa, comendo um jantar que lhes havia sido servido a poucos minutos.

"Verônica... você sabe que é um nome tão bonito. Um nome bonito para uma bela dama", Mark esticou seu garfo para roubar um pedaço de lagosta do prato dela. "Não entendo por que você acha que uma área com tal classe e beleza precise de um lava-jato. Pode você imaginar o tráfego que atravessaria por ali? Interrompendo as pessoas enquanto eles estivessem dormindo, perturbando-os com o forte barulho que essas máquinas fazem". Seu garfo encontrou outro pedaço de lagosta, o resto da cauda. "Com certeza você não desejaria um desses ao lado de sua porta, não é mesmo?".

Os olhos azuis se ofuscaram ao ver a melhor parte de sua lagosta a caminho da boca de outro alguém. Havia sido cortês e agradável toda à noite e agora já era tempo de ensinar a esse pequeno homem uma lição. Limpou seus lábios com o guardanapo de linho.

"O lava-jato fica aberto somente das oito da manhã as dez da noite. Estou certa de que ninguém vai acordar e ficar incomodado, e se você roubar mais um pedaço da comida do meu prato eu vou lhe apunhalar a mão com este garfo, fui clara?". Disse claramente enquanto levava a taça de vinho aos lábios. "Agora você e eu, ambos sabemos que nessas ruas há muito tráfego, e certamente os residentes gostarão da idéia de ter um lava-jato em sua área, e isto também significa dez empregos a mais para a comunidade. O que acha que aconteceria nas próximas eleições se nós apoiássemos aos Democratas e se lhes déssemos uma pequena peça de informação? Qual seria sua designação se o novo prefeito resolvesse limpar a casa?".

"Agora você está deixando escapar certa presunção, Srta. Cartwright," disse ele recostando-se e acendendo um cigarro. Fumar certamente era proibido nessa seção do restaurante, mas Mark acreditava que com sua posição podia ficar a cima do que considerava uma estúpida lei. "Os Cartwrights sempre apoiaram aos republicanos, todo mundo sabe". Ele deu uma outra tragada de seu cigarro, a fumaça fez cócegas no nariz de Verônica.

"É verdade?" Ela esvaziou sua taça e a pousou na toalha de linho da mesa, reprimindo um sorriso ao pensar na bomba que estava a ponto de jogar no desgraçado encarregado. "Deixe-me lhe dizer algo, Sr. Grace. Os Cartwrights, financiam a mais de um democrata durante anos e agora que eu estou no comando, há cada vez mais". Seus olhos azuis perfuraram nos dele quando se inclinou e tomou o cigarro de sua mão, afundando-o profundamente em seu caranguejo recheado. "Esta transação não significa nada para mim exceto conseguir que meus primos fiquem fora de minhas costas. Sua posição não significa nada para mim. Pagaria centenas de milhares na próxima eleição se isso significasse lhe tirar do departamento e colocar alguém que visse que o trabalho é mais importante que o poder de representar, assim você precisa tomar uma decisão. Você pode se tornar o bom individuo que trouxe mais dez empregos ou o idiota que conseguiu ser eleito para sair do departamento, a decisão é sua". Verônica havia decidido que logo haveria um novo encarregado. "Acho que esta reunião terminou. Espero que tenha desfrutado do jantar". Em seu sobressaltado olhar acrescentou, "O que foi? Pensou que ia ter sorte esta noite, Sr. Grace?" Seus olhos o olharam rapidamente uma vez mais. "Desculpe. Não durmo com cães. Nunca se sabe quando podem ter pulgas". Pegou sua maleta e saiu rápido, deixando o encarregado irritado, porém encurralado com uma só posição e a conta.

 

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Rose cruzou a rua e entrou no parque Washington, um gigantesco lugar no centro da cidade. Ao anoitecer o parque ficava fechado por causa dos crimes que cruzavam por ali. Normalmente Rose o rodeava, mas isso significaria seis quadras adicionais fora de seu caminho e com o alarido do vento e o agressivo frio, a rota mais direta para casa era a necessária. Nas cinco quadras do caminho do supermercado a beira do parque, as orelhas de Rose já estavam vermelhas como uma beterraba por causa do frio e seu nariz havia começado a escorrer. Não podia sentir os dedos de seus pés e os bolsos de sua jaqueta não faziam nada para proteger seus dedos. Decidindo que a falta de pegadas na neve e a temperatura a baixo de zero era seguro, Rose caminhou de maneira cansada além da enorme estátua de Moses que marcava a entrada e a neve que cobria o sinal que advertia contra estar no parque à noite. O feroz vento se negava em lhe permitir que seu capuz ficasse em sua cabeça e seu cabelo até os ombros balançava livremente sobre seu rosto. Seu corpo tremia ferozmente e tudo o que ela podia pensar era em chegar em casa e afundar em um agradável banho quente. Estava a meio caminho através do parque e dentro da vista da Madison Avenue quando os ouviu se aproximarem, seus rápidos passos cruzando a neve debaixo de seus pés.

"Ora, ora, ora, o que temos aqui?" Virou sua cabeça para ver quatro homens se aproximando rapidamente, não corriam, mas se asseguravam de caminhar muito rápido.

"Vamos doçura, temos algo para você, pare agora".

"Sim, por que não vem a uma festa conosco?".

O intenso frio fazia que suas pernas fossem como chumbo, mas a idéia de ser roubada na metade do escuro parque por quatro homens dava nova vida a seus passos. Tentou ignorá-los e continuar em seu caminho, mas os homens continuaram seguindo-a.

"Vamos vadia, deixa o Danny ter alguma diversão", o mais próximo disse, fazendo com que o coração de Rose começasse a palpitar com dolorosa força em seu peito. Tinha que sair dali e tinha que sair dali agora mesmo. Começou a correr, mais que tropeçando, através da neve até as brilhantes luzes da Madison Avenue.

Verônica despreocupada atravessava as luzes da já adormecida cidade, no meio do caminho seu Porshe deslizava sobre a neve. Não havia ninguém ao redor há essas horas. Passou a rua Lark sem pensar e maldisse em voz alta. Agora teria que cruzar todo o parque para pegar a rua seguinte. Não vendo nenhum carro a sua frente, pisou no pedal de seu Porche 911 e o lançou a toda velocidade. Ia muito rápido pela rua coberta de neve, especialmente dado que os tira-neve não haviam passado recentemente, mas não se importava com isso. Não teria que parar logo e ainda estava abaixo do limite fixado, embora definitivamente estivesse rápido para as condições das ruas. O cruzamento seguinte estava a menos de uma milha. De repente um brilho de azul e ouro apareceu diante dela, uma figura saiu correndo de dentro dos automóveis estacionados. Verônica colocou ambos pés nos freios e deu um puxão forte no volante para a esquerda, mas não houve tempo. A neve não lhe deu nenhuma tração e um horripilante silêncio encheu o ar quando viu como a frente baixa do Porsche golpeava a um pedestre e lançava a pessoa indefesa contra o pára-brisa. O carro esportivo vermelho finalmente parou a vários carros mais adiante e o corpo resíduo caiu da capota sobre o chão coberto de neve. Durante vários segundos Verônica não pôde fazer nada senão agarrar-se ao volante e olhar fixamente a teia de aranha que agora constituía seu pára-brisa, enquanto que seu coração palpitava com força sem controle. A realidade do que havia acontecido finalmente penetrou em sua mente e com as mãos trêmulas abriu a porta. Deu uma olhada para ver se havia alguma testemunha, mas as 12:30 AM, porém era quarta-feira à noite e todo o mundo estava na cama. No viu a gangue de criminosos que estavam perseguindo a vítima dar a volta e fugir novamente dentro da escuridão do parque.

O sangue estava começando a se juntar no chão debaixo do corpo, embora o extremo frio fizesse o fluxo menor do que normalmente teria sido. Verônica se ajoelhou junto à desabada forma e com sua mão enluvada virou a vítima para o outro lado. Ofegou quando viu o maltratado rosto da uma jovem mulher. "Oh, meu deus". Um brilho verde justo na beira de sua visão causou que a mulher de cabelo escuro virasse e procurasse. Era o reflexo de um semáforo. Deu uma olhada sobre o cruzamento da Avenida New Sclotand. Estava somente a três quadras do centro médico. Abriu rapidamente a porta do passageiro e empurrou a alavanca que reclinava o assento. Verônica sabia que a melhor coisa era tentar imobilizar a mulher, mas não havia nada com que pudesse fazer isso nesse momento e a poça de sangue estava continuamente crescendo. O hospital estava muito próximo para pensar em chamar uma ambulância e perder preciosos minutos. A decisão foi tomada, Verônica deslizou seus braços debaixo dos ombros da inconsciente mulher e a arrastou para o carro. Menos de um minuto mais tarde estavam correndo até o centro médico.

Enquanto dirigia ligou para a "emergência", um pensamento ocorreu à magnata empresaria. Não só havia estado correndo velozmente e atropelado a esta mulher senão que se um policial decidisse lhe fazer a prova do bafômetro não haveria maneira alguma que pudesse passar, não depois de todo o vinho que havia consumido em Sam’s há um tempo atrás. Virou o carro para a direita no último momento e estacionou no espaço do estacionamento dos cirurgiães. Na escuridão com só a parte traseira do Porche projetando-se, ninguém a questionaria por que estaria estacionada ali. Saiu do carro e caminhou até a entrada de emergências, tentando desesperadamente pensar no que fazer. A resposta veio quando avistou uma maca colocada justo no interior das portas de vidro. Verônica agarrou a maca e a empurrou até seu carro. As horas passadas em seu ginásio particular lhe permitiram levantar facilmente a inconsciente mulher e colocá-la sobre a maca. Durante a transferência, uma pequena carteira esportiva caiu do bolso traseiro da vítima e aterrissou no chão coberto de neve. Verônica a pegou, metendo-a no bolso de sua jaqueta de pele, e correu tão rápido como podia enquanto empurrava a maca até a entrada de emergência.

"Preciso de ajuda aqui! Esta mulher foi atropelada por um carro!" Gritou logo que as portas internas se deslizaram abrindo-se. A enfermeira encarregada e o interno da noite correram para o outro lado da maca para começar a examinar.

"Temos tesões múltiplas, comprovemos o quadro e vamos ver quem chamar para O.R". O médico loiro disse. Uma recepcionista foi imediatamente buscar o cirurgião e chamar ajuda enquanto a enfermeira começava a medir a pressão arterial da mulher inconsciente. Afastando-se do caminho, Verônica olhou com horror quando o médico cortou a jaqueta e as roupas da mulher jovem tirando-as de seu corpo. Tudo parecia estar coberto de sangue, especialmente as calças. Um velho médico chegou ao lugar, tinha o cabelo despenteado pelo sono.

"Que temos?".

"Atropelamento e fuga. Compõe-se de fraturas de ambas as tíbias e perônios, Doutor Maise", o jovem médico explicou. "Prováveis lesões internas também. Quem quer que lhe atropelou ia a alta velocidade".

"Façam que preparem O.R. 2. O tipo de sangue e análises para coincidir seis unidades de sangue e procurem os doutores Gannon e Marks para operar". O resto da conversa foi perdido por Verônica quando colocou as mãos em seus bolsos e sentiu a fria carteira que estava metida dentro. Abriu a magra carteira, surpresa com a carência de conteúdo. Não havia fotos, nenhum cartão de crédito, inclusive nem carteira de motorista. Um cartão azul da biblioteca identificava a vítima como Rose Grayson e dizia seu endereço como sendo rua Morris. Um cartão de seguro social e um cartão de uma conta atual de Money Slasher eram as únicas outras partes de sua identificação. Abriu o compartimento de velcro de dentro e encontrou dois bilhetes de ônibus, uma chave de casa, e doze centavos. Não havia nada mais. Bem, pelo menos tinham um nome e endereço para avisar, pensou enquanto caminhava até a mesa da enfermeira no comando. Quando se aproximou, ouviu duas mulheres atrás da mesa falando.

"Parece uma indigente para mim. A registre como Jane Doe... Deixe-me ver...". Arrastou os papéis sobre a mesa. "... número 77. Uma vez que ela esteja fora de perigo a transferirão para o Memorial de toda maneira".

"Com licença", Verônica a interrompeu. "Ela foi atropelada por um carro e está gravemente ferida. Por que eles a transferirão para outro hospital?".

"Olha senhorita", disse a enfermeira encarregada, que em sua placa simplesmente se lia senhora Garrison. "Este hospital está ao encargo do estado de Nova Iorque para atender aqui todos os casos de urgências médicas. Uma vez que não corram mais perigo de morrer por suas lesões, temos que transferi-los para outro hospital que não tenha excedido sua cota para os indigentes".

"Cota para indigentes?".

"Nós estamos obrigados a dar cuidado completo para certo número de indigentes, para não estimar o custo de cada ano. Já cobrimos este requisito. É obvio que ela não tem dinheiro e muito provavelmente nenhum seguro. Agora a estão levando para a cirurgia, intervenção cirúrgica que provavelmente nunca pagará. Este hospital não funciona só de boas intenções. Se não tem capacidade para pagar, será transferida para o Memorial. Não cumpriram ainda suas obrigações este ano".

A mulher de cabelo escuro entendia as implicações... Se não se tinha nenhum seguro, não permaneceria no melhor centro médico da região. "Mas ela tem seguro", Verônica deixou escapar, havia tomado uma decisão. "Quero dizer... a conheço. É minha funcionária".

"Ela tem seguro?" A enfermeira Garrison perguntou incrédula. "Srta., estamos a vinte graus abaixo de zero lá fora com um vento gelado. Estava correndo por aí com uma jaqueta de primavera que parecia que havia sido pega na lata de lixo. Fraudar o seguro é um crime em Nova Iorque. Onde está seu cartão de seguro?".

"Não, estou lhe dizendo que ela tem seguro. Olha", Verônica meteu sua mão dentro de sua jaqueta e tirou sua pequena carteira de cartões de visita. "Sou Verônica Cartwright, presidenta e CEO de Cartwright Corporation". Rapidamente baixou o olhar ao cartão da biblioteca em sua mão. "A senhorita Grayson acaba de começar a trabalhar para nós. Não houve tempo para que eles lhe expedissem seu cartão, mas juro que ela tem seguro através de minha companhia. Agora há algum formulário ou algo que eu tenha que assinar para autorizar isto?".

Agora que percebia que poderia ter se equivocado a enfermeira voltou atrás. Ela esticou o braço e pegou uma das várias pranchetas que já continham uma caneta e de variada forma. "Preencha os itens de um a dez dentro de suas possibilidades. A senhora sabe como entrar em contato com seus familiares?"

"Uh, não... tenho certeza que a informação está no escritório em alguma parte. Posso ligar para isso amanhã".

"Bem". A enfermeira voltou a se dirigir a sua companheira de trabalho. "Mude na listagem Jane Doe 77 para... seu nome é...". Olhou de novo a alta mulher de maneira inquisidora.

"Rose Grayson".

"Rose Grayson," a enfermeira Garrison repetiu, como se a enfermeira mais jovem não tivesse ouvido da primeira vez.

Verônica se afastou da mesa de recepção e se despencou em uma das cadeiras de vinil alaranjadas para completar a pouca informação que sabia e instalar-se para a longa espera.

 

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Durante as três horas de cirurgia Verônica estava muito preocupada. Não havia tido notícias da jovem mulher que havia atropelado e a falta de informação colocava os nervos da executiva em um caos. E se ela morrer? Verônica se estremeceu ao pensar. Então outro pensamento chegou a sua mente. A luz do dia chegaria logo e o dano óbvio na frente de seu carro seria evidente. Evidentemente significaria perguntas, perguntas que não queria responder. Caminhou até o telefone público. A mulher que sempre concedia favores agora precisava de um. Verônica discou o familiar número. No terceiro toque, uma voz masculina cheia de sono lhe respondeu. "Você, é melhor que tenha uma boa razão de merda para me acordar".

"Frank, sou eu Ronnie".

"Ronnie?". O tom mudou imediatamente. "Hei Cuz, que aconteceu?".

"Eu preciso..." engoliu em seco. "Preciso de um favor".

"Você conseguiu que aquele idiota concedesse a transação?".

"Isto está no papo. Escuta Frank, isto é mais importante". Ouviu o som de um isqueiro quando seu primo acendeu um cigarro na intenção de despertar completamente. "Preciso que venha e pegue meu carro e me deixe outro".

"Desde quando me converti em seu serviço de reboque particular de carros?"

"Desde que tive que passar uma noite afiançando seu traseiro saindo com aquele imbecil do Grace", grunhiu. "Está no estacionamento de emergências no Centro Médico de Albany. Coloca o outro carro no estacionamento geral e traga-me as chaves na sala de espera das emergências. Frank, tem que fazer isto agora. Não posso esperar até amanhã". Sabia que o custo de pedir o favor compensaria muito o atual favor, mas às vezes era justa a maneira que devia ser. Pelo menos sabia a quem avisar quando precisava fazer algo discretamente. Seu primo preferido não era nada senão cuidadoso.

"Sala de emergência? Ronnie, você está bem?".

"Calma Frank. Vai acordar a Agnes. Sim, estou bem, só muito perturbada". Olhou para seu relógio. "Realmente preciso que venha aqui e leve o carro".

"Seu carro está funcionando ou o embrulhou em torno de uma árvore?"

"O pára-brisa e a frente estão em pedaços. É melhor dirigi-lo por um par de quadras e depois o coloque em um guincho".

"Caramba, não pede muito, não é mesmo? Sabe que terei que pedir ao John para me ajudar? Não posso dirigir um guincho e um carro de reserva".

"Coloca o reserva no guincho, então não vai precisar de outro motorista, só faça isso agora". Desligou e voltou para cadeira que estava fazendo com que seu traseiro ficasse incomodo pelas últimas três horas. Pegou uma revista do quarto mês da People e havia justo começado a passar as páginas quando o Doutor Maise entrou na sala.

"Grayson. Há alguém aqui para Grayson?" Ele perguntou em voz alta, embora Verônica fosse a única pessoa na sala.

"Aqui". Levantou-se rapidamente. "Como ela está?".

"Tão bem como pode estar em seu estado, suponho. Está descansando agora. A senhora é da família?".

"Uh... não, sou sua chefa".

"Oh... a senhora pode contatar sua família?".

"Não ainda. Minha secretária está trabalhando nisso", mentiu. "Como ela está?".

"Bem, ambas as pernas estão seriamente fraturadas e havia uma pequena fratura em seu crânio, muito provavelmente ao chocar-se com o carro. Com exceção de arranhados e um corte profundo em seu rosto que requereu vários pontos, não havia muito mais. Nenhuma lesão interna de toda maneira. Ela viverá, mas passará um bom tempo antes que possa voltar a trabalhar, estou certo". Ele tirou seus óculos e os limpou com a ponta da jaqueta. "Diria que provavelmente uns três meses para que as pernas se curem, então talvez três a seis meses de terapia física".

"Oh Deus". Verônica se sentou novamente, incapaz de acreditar que em uma fração de segundo havia arruinado a vida de alguém por quem sabe quanto tempo.

"A senhora viu o acidente?". Ele lhe perguntou, a tirando de seus pensamentos.

"Uh, não, eu não", rogando que Frank não tenha voltado a dormir e estivesse a caminho com o guincho e um carro de reserva.

"Bem, quem quer que tenha atropelado a essa pobre garota a golpeou fortemente. Provavelmente algum bêbedo que inclusive nem se deu conta que a atropelou".

"Provavelmente", repetiu.

"Bom, se a senhora me der licença, preciso ir vê-la". Ele saiu da sala de espera. Ela o viu se afastar, então se afundou novamente na cadeira alaranjada. A mulher, Rose, viveria. Suspirou aliviada por isso, mas a culpa ainda pesava fortemente sobre ela. Em um breve momento havia destruído as pernas da jovem mulher, em sua mente possivelmente a Srta. Grayson ficaria lesada de vida.

 

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O céu continuava escuro quando Verônica fechou os olhos, o cansaço ameaçava reclamá-la. Minutos mais tarde eles se abriram outra vez quando seu nariz foi atacado pelo cheiro ao longe de uma barata colônia. "Cuz".

"Olá Frank", disse com cansaço quando ele se sentou no assento a seu lado. "Já fez o que lhe pedi?".

"Tudo feito", disse orgulhosamente, lhe estendendo um jogo de chaves. "Mazda Azul. Terceiro andar, placas do distribuidor. Não há como errar".

"Obrigada".

"Por nada. Sempre fico feliz de fazer um favor a minha prima preferida". Sorriu, mostrando os dentes que eram muito brancos para serem verdadeiros. "Então, o que fez? Atropelou alguém?".

"Cale-se!" Sussurrou apertando os dentes, surpresa pela quantidade de estupidez que seu primo parecia possuir.

"Desculpe". Levantou suas mãos em um gesto apaziguador. "Caramba, você está naqueles seus dias ou algo assim?".

"Obrigada por fazer o que lhe pedi, Frank. Agora me faça um favor e assegure-se de que o Porsche seja levado a minha casa. Coloque-o na garagem. Farei com que Hans vá até lá e o conserte".

"Não entendo por que não o leva, poderia ter Michael trabalhando nele. Sabe que ele é o proprietário...".

"Michael possui uma representação de Toyota. Trabalha em carros de vinte e trinta mil dólares, não em Porsches. Hans é o melhor mecânico que conheço. Só assegure-se de que seja colocado na garagem, fora da vista de alguém. Mova o jipe se precisar de espaço".

"Bom", suspirou, sabendo que nunca ganharia a discussão. Deu uma olhada procurando algo interessante.

"O que foi?". Questionou, olhando-o de maneira mordaz e logo para a porta.

"Você vai me dizer por que está aqui ou o porquê de seu carro estar todo destroçado, não vai?".

"Frank, o que aconteceu a meu carro ou por que estou aqui, é assunto meu, assim como todos os lucros do lava-jato são seu negócio. Entendeu?".

"Entendo". Sabia que era melhor mijar longe de sua prima, sabendo perfeitamente bem como o quanto ela podia ser volátil às vezes. Levantou-se. "Sabe meu número se precisar de algo".

"Sim". Abriu a revista People e olhou através das páginas, eficazmente despedindo-o. Esperou até que ele saísse pela porta antes de se dirigir à seção de enfermeiras para perguntar sobre as condições da jovem mulher.

 

*********

 

Verônica saiu ao deprimente dia cinza. A neve havia parado e agora as ruas estavam cheias de pessoas que tentavam de alguma maneira passar através da neve congelada. Meteu a mão no bolso e tirou o cartão da biblioteca. Morris Street. Tentou imaginar onde estava a rua em referência ao hospital. Certamente não estava longe e poderia a encontrar sem um mapa, Verônica se dirigiu até a garagem dos vários andares do estacionamento.

O pequeno carro azul estava estacionado justamente onde Frank havia dito que estaria. A mulher de cabelo escuro lançou sua maleta no assento do passageiro e dobrou seu longo corpo dentro do pequeno espaço do assento do motorista, agachando-se até que encontrou a alavanca que lhe permitiu empurrar o assento para trás de modo que seus joelhos não beijassem seu queixo. Teve que girar a chave várias vezes antes que o 323 pudesse crepitar-se a vida. Verônica bombeou a gasolina em várias ocasiões até que o velho carro pareceu disposto a continuar. "Frank, seu filho de uma cadela", jurou que lhe daria uma surra como desculpa pelo veículo, lentamente o tirou do estacionamento e se dirigiu até a rampa.

Verônica virou a esquerda da garagem do estacionamento e dirigiu sobre a avenida New Scotland até o parque. Dirigiu por duas ruas antes que pudesse ver algum sinal da rua que procurava. Como pensou, Morris Street era em um só sentido, com certeza na direção contrária do caminho que queria ir. Um rápido giro sobre Madison e outro em Knox a colocou no outro extremo da rua e finalmente pode subir pela estreita rua.

Morris Street foi uma vez o lar para doutores e famílias ricas, mas há muito tempo havia mudado para uma rua conhecida unicamente pelos esporádicos motoristas que passavam de longe e pelas baratas ou algo assim. As casas estavam abarrotadas firmemente juntas, normalmente com menos de um pé de distância entre elas. Verônica estacionou sobre o único espaço aberto que encontrou, não fazendo caso da marca vermelha da saída contra incêndios que estava proeminente localizada sobre a calçada quebrada. Verônica pegou sua maleta do assento ao lado e saiu do carro. Pensou em fechar o ordinário e maltratado carro, mas decidiu que não valia a pena o esforço. Se um ladrão queria lutar com a coisa estúpida para conseguir que funcionasse isso estaria bem para ela. Subiu sobre o banco de neve e deu uma olhada para o número da casa. Na maioria dos prédios faltava um número ou ambos dígitos, mas finalmente encontrou o lugar que Rose Grayson chamava de lar.

Verônica subiu os desconjuntados e escorregadiços degraus da escada até que chegou ao exterior da porta que conduzia ao primeiro e segundo andar de apartamentos. Uma olhada nas caixas de correspondências montadas na parede mostrou que Rose vivia no apartamento do sótão. Tirou da pequena caixa de correspondências as cartas que havia e deu um passo para trás sobre a plataforma. Maldizendo em pensamento ter que descer a escada coberta de neve outra vez, a mulher de cabelo escuro colocou sua mão enluvada sobre o instável metal do corrimão e lentamente voltou ao nível da rua. Debaixo das escadas encontrou uma porta em que a maioria de sua pintura havia desaparecido. Um pequeno cartão preso ao vidro dizia simplesmente "Grayson". Verônica bateu várias vezes, mas não recebeu resposta. Talvez a jovem mulher vivesse sozinha. Metendo a mão em seu bolso, tirou a chave da gasta carteira esportiva e a introduziu na fechadura montada dentro da maçaneta da porta. Fez algumas tentativas, mas finalmente a fechadura girou, permitindo a executiva entrar no pequeno apartamento.

Dizer que Rose vivia em uma miserável pobreza seria amável. O primeiro cômodo em que Verônica entrou era muito provavelmente a sala, embora carecesse de móveis. Uma cadeira de jardim que faltavam várias tiras estava colocada no centro do cômodo, livros marcados "Albany Public Library" estavam empilhados junto a esta. Isso era todos os móveis. Nem um só quadro ou pôster preso nas paredes. Não que uma dezena de quadros pudesse fazer diferença. O gesso velho, esmigalhado havia desaparecido em vários lugares, mostrando as secas ripas que saiam debaixo. O teto estava em um estado similar de deterioração. As manchas amareladas pela água formavam acidentados círculos e em vários lugares este cedia visivelmente. Verônica duvidou que passasse muito tempo até que o teto começasse a cair. O apartamento estava extremamente frio e uma rápida comprovação do termostato demonstrou o porquê. A poeira havia se colocada no marcador, indicando que a temperatura não havia sido mudada há bastante tempo. Foi marcado em trinta, mas com as rajadas que vinha das velhas janelas do cômodo se sentia mais como dez. Deixou sua maleta na desconjuntada cadeira, então meteu a mão em seu bolso e tirou duas cartas que havia pegado na caixa de correspondência de Rose. A primeira era nada mais que propaganda postal anunciando que se o número ganhador fosse igual ao número que estava no envelope em que estava "inscrita a Grayson" ela seria a ganhadora de onze milhões de dólares. A outra carta era um envelope amarelo da companhia de luz. Embora soube que não deveria, Verônica deslizou um unha muito bem feita embaixo do canto do envelope e o abriu. Como havia suspeitado, era um aviso de corte. Meteu a carta na parte traseira de seu bolso e se dirigiu ao dormitório, esperando encontrar uma agenda de endereços ou algo que indicasse a quem deveria avisar que a jovem mulher estava no hospital.

O dormitório era tão revelador como a sala. Uma pequena cama estava encostada junto à parede e uma cadeira servia como uma improvisada penteadeira. Um par de jeans que fazia muito tempo que tiveram dias melhores e igualmente gastas algumas jaquetas compunham a pequena pilha de roupas junto com alguns pares de meias que pareciam mais a queijo suíço do que calçado. Uma minuciosa procura, não que isto tomasse muito esforço, faltava revelar alguma agenda de endereços ou outros artigos pessoais. Nem uma carta de um amigo, nenhuma fotografia, nada que indicasse que Rose conhecia a alguém... Ou que alguém conhecesse a Rose.

O banheiro foi só outra deprimente parada no percurso de Verônica. O caixa de primeiros socorros continha um quase vazio tubo de desodorante e um esmagado tudo de pasta de dentes, ambos da marca de Money Slasher. Dois tampões colocados sobre a tampa do vaso sanitário junto com um rolo meio vazio de papel higiênico. Uma toalha gasta estava esticada sobre a beira da tina e três pares de roupa interior esfarrapadas penduradas sobre o tubo do chuveiro. "Como você consegue viver assim?". Perguntou em voz alta enquanto girava deixando o pequeno banheiro. Enquanto fazia isso, notou o único artigo que previamente havia passado por alto antes. Entre a tina e a parede havia uma pequena caixa de areia. "Bem, pelo menos não está sozinha". Como se tivesse ouvido a frase, um alaranjado e branco gatinho de não mais de quatro meses veio correndo ao banheiro, miando bastante forte para anunciar sua presença. "Hei, olá".

"Mrrow!" Verônica se inclinou para acariciá-lo, mas o gato correu até a cozinha. "Vem aqui. Não vou lhe fazer mal".

"Mrrow!" O gato permaneceu na entrada da cozinha, negando-se a se aproximar. "Bem, será dessa maneira, veremos se lhe dou algo". Passou ao lado do gatinho e entrou na cozinha, desejando rapidamente não tê-lo feito.

A cozinha era um velho modelo de gás que provavelmente foi bastante eficiente nos tempos de sua avó. Situados em cima uma pequena frigideira e uma cafeteira, enquanto uma bem usada forma para fazer biscoitos jazia dentro do forno. Abriu uma gaveta e deu um pulo para trás quando várias baratas correram ao redor, tentando furtivamente regressar para dentro da escuridão. Fechou a gaveta rapidamente, mas não antes de notar o único jogo de talheres que este continha. A geladeira continha uma garrafa de plástico de leite que havia sido enchida com água, a metade de um frasco de maionese, um pote de margarina, e uma quase vazia garrafa de ketchup. Quando Verônica alcançou a porta do armário, suas pernas foram rapidamente rodeadas pelo ansioso gato.

"Meow, meow, mrrow?" Efetivamente, o armário tinha dentro uma caixa meio vazia de comida para gatos de Money Slasher e uma caixa de macarrão. "Mrrow, meow?".

"OK, OK, entendi a indireta", disse, tirando a caixa. O alaranjado e branco gato perambulava sobre sua vasilha, esperando sem muita paciência que a alta humana lhe desse de comer. "Quanto comem os gatos de seu tamanho, hein?".

"Mrrow?".

"Não importa". Serviu o seco alimento na vasilha até que chegou ao limite. "Aqui está, isso deve lhe entreter por um tempo". Olhou a vasilha de água. "Quer um pouco de água também, sua majestade?". O gato estava muito ocupado comendo embaixo para responder. Verônica levou a vasilha até a torneira e jogou fora o resto da água antes de abrir a torneira. Um horrível som veio da tubulação e rapidamente a fechou. "Parece que você conseguiu água do congelador". Deixou a vasilha no chão ao lado da vasilha de comida e estava a ponto de continuar sua busca quando ouviu batidas na porta.

"Grayson, sei que está aí dentro. Ouvi você abrir a água". Uma irritante voz do outro lado da porta gritava. "Já é o terceiro e quero meu puto dinheiro do aluguel agora!" Bateu outra vez. "Droga, estou doente de sua choradeira sobre seu minúsculo cheque. Se você não pode pagar o lugar então você nunca deveria ter mudado para aqui... Droga pedaço de lixo!".

A porta foi aberta de repente para revelar a um corpulento homem que fedia a álcool apesar de ser tão cedo. "Quem merda é você? Disse a ela que com companheiros de quarto ia custar extra".

"Quanto ela lhe deve?". Verônica perguntou, tentando de maneira muito difícil manter seu mau humor controlado.

"Quatrocentos e cinqüenta. Seiscentos se descubro que você está vivendo aqui também", grunhiu. "E quem merda é você?".

Verônica não respondeu, em lugar disso foi até a cadeira e revirou sua maleta até que encontrou seu talão de cheques.

"Qual é seu nome?".

"Para que?".

"Se você quiser receber o aluguel, preciso um nome para endossar no cheque... ou posso só colocar as palavras estúpido pedaço de burro?".

"Não pego cheques de merda. Eles sempre voltam".

"Garanto que este não voltará. Dê-me seu nome".

"Cecil Romano, mas não aceitarei nenhum cheque de merda".

"Já ouviu falar de Cartwright Corporation?" Perguntou enquanto preenchia várias partes do cheque.

"Claro que sim. E quem não?".

"Sou Verônica Cartwright. Este cheque é da minha conta pessoal. Se você quiser seu dinheiro do aluguel eu lhe sugiro que pegue este". Entregou o cheque. Cecil o olhou cuidadosamente, com certeza era um engano.

"Preciso da identidade".

"Gostaria de ver minha habilitação ou algum importante cartão de crédito?" Perguntou, alcançando sua maleta e tirando sua carteira. Nesse momento o alaranjado e branco gatinho decidiu sair e ver o que era todo aquele escândalo.

"Que merda é essa?".

"Para mim, se parece a um gato. Diga-me você é capaz de formar uma frase completa sem a palavra merda nela?".

"Disse a ela, nada de mascotes. Nada de mascotes significa nenhuma mascote de merda. Nada de mascotes, nada de companheiros de quarto, nada... quem quer que você seja". Dobrou o cheque e o guardou em seu bolso. "Já tive o suficiente. Ela reclama de tudo desde o pequeno ruído nas tubulações até falta de pintura nas paredes e agora isto. Quando você encontrar a pequena vadia lhe diga que a quero fora daqui antes do final de semana. Ela e essa pulguenta coisa peluda podem ir viver no banco de neve não me importa".

"Farei com que suas coisas sejam levadas daqui imediatamente. Acredito que você seja o proprietário da velha cozinha e geladeira centenária, não?".

"Droga, claro que sou o proprietário. Sou o proprietário dessa cama em que ela dorme também. Estava por acaso querendo comprar por cinqüenta dólares, mas não a vi ainda".

"Agora você não a venderá. Você pode conservá-la". Meteu sua carteira e talão de cheques novamente dentro de sua maleta. "Há algo mais ou você sente a necessidade de continuara assaltando-me com sua insuportável respiração?".

"Não dou uma merda por você, não pode vir a minha casa e falar assim comigo dessa maneira", grunhiu. "Só se assegure de que o lugar esteja nas mesmas condições de quando ela se mudou ou não lhe devolverei a garantia".

"Duvido que você lhe devolveria a garantia de qualquer maneira", Verônica contra-atacou. "Depois de tudo, você é a sinopse de um senhor dos cubículos".

"É melhor você levar esse maldito gato com você quando for embora ou eu vou torcer o pescoço dele de merda e o atirarei no banco de neve". Saiu deixando as portas abertas, fazendo com que o ar frio se misturasse já ar frio de dentro do apartamento. "E se assegure de que ela retire seu correio de merda", grunhiu quando fechou a porta com uma pancada.

Verônica se virou e esfregou a testa.

"Meow?".

"Bom, acho que terei companhia por alguns dias, hein?". Disse, sentando-se no chão vazio ao lado do gato. "Gostaria de saber seu nome. Isso seria mais fácil do que ficar lhe chamando de ‘gato’ o tempo todo".

"Mrrow", o gatinho respondeu, subindo no colo da mulher de cabelo escuro. Verônica permitiu que o ronronante felino permanecesse por alguns minutos enquanto tentava pensar no que havia acontecido. Havia somente querido investigar a quem deveria contatar para avisar que Rose estava ferida e terminou por conseguir que expulsassem a jovem mulher de sua casa. Não que fosse uma grande perda, considerando as condições nas quais vivia. Não importa, decidiu. Seu primo Danielle, encarregado de Cartwright Properties, certamente solucionaria tudo, ali haveria um apartamento acessível disponível no qual poderiam colocar Rose. "Algo com paredes verdadeiras", murmurou, olhando para o buraco na parede oposta que era semelhante a um prato de comida. "OK, gato, hora de nos movermos". O gatinho objetou barulhentamente, mas finalmente aceitou quando a alta humana se levantou. "Vamos juntar as coisas de sua mamãe e sair e nos metermos em algum lugar quente".

Levar os pertences de Rose foi fácil, especialmente quando Verônica decidiu que as únicas coisas que tinham que sair do decrépito apartamento eram os livros da biblioteca e o talão de cheques que encontrou na gaveta da cozinha. A gasta roupa, o imprestável móvel... Decidiu que Cecil poderia limpá-los pelos quatrocentos e cinqüenta dólares. Jogou o talão de cheques em sua maleta, os livros da biblioteca levou debaixo de seu braço, e o gato dentro de sua jaqueta. Verônica deixou o apartamento e nem se incomodou em trancar a porta.

 

********

 

Rose abriu os olhos e olhou ao redor, gemendo de dor e se deu conta de onde estava. Uma jovem enfermeira loira que lhe levantou o olhar lhe sorriu. "Bom dia, Srta. Grayson. Meu nome é Mary". Tirou um termômetro digita de seu bolso, colocou uma capa protetora sobre a ponta, e o colocou na boca de Rose. "A senhorita sofreu um grave acidente". Envolveu o punho da pressão arterial ao redor da parte superior do braço de Rose e pressionou seu estetoscópio contra o interior do cotovelo da jovem mulher. O termômetro apitou e Mary o retirou comprovando a leitura. "Bom".

"Com licença...". Rose inalou agudamente enquanto a enfermeira fazia anotações em sua prancheta. Sentia-se tonta, mas assustada ao mesmo tempo. "O que... o que aconteceu?".

"A senhorita foi atropelada por um carro ontem à noite. Foi muita sorte que sua chefa passasse próximo e a visse. Ela a trouxe ao hospital".

"Minha chefa? Kim me encontrou?".

"Oh, não sei o seu nome, querida. Não estava aqui ontem à noite. Trabalho no turno do dia". Cuidadosamente limpou a pele ao redor da ordenada fileira de pontos no rosto de Rose. "A senhorita esteve na cirurgia durante bastante tempo e está no quarto de recuperação agora. Só precisamos nos assegura de que esteja estabilizada e então será levada a seu quarto".

"Minhas pernas?" Tentou se levantar, mas isso só serviu para incrementar a intensa dor que sentia em suas extremidades inferiores.

"Ambas pernas estavam quebradas. Os cirurgiões trabalharam durante horas ontem à noite colocando os ossos de novo em seu lugar".

"Isto dói". Rose levantou a cabeça para ver o desolador gesso branco em suas pernas.

"Estão lhe dando algo para a dor em sua intravenosa", a enfermeira disse. "Vou informar ao médico que a senhorita acordou".

Quando a enfermeira saiu do quarto, Rose começou a chorar. Seu rosto e costelas doíam, mas não era nada comparada a terrível agonia de suas pernas. Inclusive não queria pensar na conta do hospital, que sem dúvida aumentava com cada hora que passava ali. Esticou seu braço para se servir de um copo de água da jarra de plástico colocada ao lado da cama, mas o movimento lhe causou tanta dor que não conseguiu terminar a tarefa. O que quer que seja que estavam lhe dando para a dor também fazia com que sentisse os membros sumamente pesados e não demorou muito tempo para que Rose caísse novamente dentro de um inquieto sono.

 

*********

 

Verônica empurrou o Mazda para fora do seu caminho de entrada e o estacionou ao lado da garagem. Para sua grande irritação, tirar a chave da ignição não desligou o motor. Mesmo assim o carro continuou ligado e ofegando durante mais um minuto e depois finalmente morreu. "Bom, gato, acho que com certeza o próximo lugar que este pedaço de merda irá será para o depósito de sucata".

"Mrrow?". O felino respondeu quando tentou subir sobre o colo da alta mulher.

"Não, não, não. Agora não há tempo para mimos". Meteu o gato debaixo do braço e abriu a porta. "Vamos, vejamos se Maria pode encontrar algo na cozinha para você comer".

Quando saiu do carro com o gato em reboque, Verônica deu uma olhada sobre seus três carros na garagem. A porta estava meio aberta e através da meia lua da janela viu seu Porsche. Silenciosamente agradeceu a seu primo Frank por tê-la ajudado. O gato se retorceu no seu agarre. "Oh, não você, não. Não vou correr toda a vizinhança atrás de você".

Ronnie abriu a porta de correr e entrou na cozinha. Uma vez dentro colocou o alaranjado e branco gatinho no chão. "Maria? Maria está aqui?" As chaves do carro azul foram lançadas sobre a bancada.

"Estou aqui", uma voz respondeu da sala.

"Temos companhia", disse Verônica.

Maria era uma mulher idosa que já trabalhava há trinta anos para a família Cartwright e era próxima e querida ao coração de Verônica. De meia idade, cabelo negro como azeviche, o qual agora estava há muito tempo combinado com as canas, se estendia até seu colo perfeito para o qual estava sempre pronto para a jovem menina quando esta chegasse e pulasse em cima dele. Maria entrou na cozinha. "Não é bom passar a noite toda fora, Ronnie", a repreendeu. "Se sua mãe fica sabendo...".

"Não estava fora puteando por aí, Maria", respondeu, satisfeita com a impressionada reação na cara da mulher mais velha. Desabotoou sua jaqueta e a lançou sobre uma das banquetas ao lado da plataforma da cozinha. "Temos alguma coisa para alimentá-lo?" Disse mostrando o gato.

"Mrrow?".

"Um gato?" Finalizou.

Maria baixou o olhar aos pés de Verônica para ver o alaranjado e branco felino esfregar-se contra ela. "Oh, meu... Você trouxe um gato para casa?".

"Não é permanente. Ele ficará aqui alguns dias enquanto sua dona está no hospital".

A governanta se agachou e pegou o agora ronronador felino. "Odeio lhe dizer isto, Ronnie, mas ele é ela. Qual é seu nome?".

"Não sei. Chame-o de gato por agora".

"Oi doçura, que linda gatinha você é", Maria a elogiou, sustentando o feliz animal em seu amplo peito. "Gostaria de comer um pouco de atum?" Levou o gato a dispensa e tirou uma lata. "Humm, não parece que está delicioso?".

"Não acho que ele, quero dizer, que ela tenha alguma vez comido atum antes. Acho que só come alimento seco".

"Oh... então", Maria colocou a lata no balcão e deixou o gato suavemente no chão. "Não é bom mudar direto de seco ao enlatado. Seria bastante saboroso para ela. Pode misturá-los".

"Não trouxe nenhum. Acho que teremos que lhe conseguir um pouco de alimento".

"Bom, já fiz as compras desta semana, mas se quiser posso sair agora. Posso começar a fazer a comida quando voltar". Limpou suas mãos em seu avental e alcançou seus suspensórios.

"Não, tudo bem. Sairei e trarei um pouco de alimento para ela. Acho que vamos precisar de uma caixa também".

"Pegou um gato sem trazer uma caixa de areia? Ronnie, o que vou fazer com você?".

"Bom, sua caixa estava suja e não estive nem perto de tocá-la". Verônica protestou. "Olha, só me faça uma xícara de café enquanto tomo um banho e me troco. Logo saio e compro as coisas que o gato precisa".

"Vou lhe fazer uma lista. Conhecendo você, pegará a caixa e se esquecerá da areia".

"Engraçadinha" foi a sarcástica resposta, embora nem tenha pensado em trazer outras coisas além da caixa cama. "Volto logo. Tenta manter a bola de pêlos fora do sofá e longe das antiguidades, OK?".

 

********

O shopping estava abarrotado para uma tarde de quarta-feira e Verônica terminou tendo que estacionar no fim de uma fileira. Uma rápida pressão no botão em seu controle e as portas azuis brilhantes do Jipe Cherokee se fecharam e uma luz de advertência sobre o painel indicou que o sistema de alarme estava ativado.

Levou quinze minutos percorrendo o shopping até encontrar a loja de animais. Uma vez dentro, caminhou até as estantes até que encontrou os suprimentos para os gatos. Os cabides e estantes tinham de tudo, desde falsos ratos e postes para arranhar, para morder e colares que competiam por sua carteira. Verônica odiava fazer compras e quando a jovem atendente se ofereceu para ajudá-la a escolher as coisas para sua nova mascote, a mulher de cabelo escuro aceitou de boa vontade. O resultado foram setenta e cinco dólares pela caixa, areia, jogos, alimentos, catnip, e vários outros artigos que a jovem garota insistiu que eram necessários para fazer um gato feliz e sadio.

Após finalizar suas compras, Verônica foi ao hospital para saber de Rose. Ela não estava em nada preparada para o que viu. O lençol que cobria as pernas da jovem mulher contornava a completa largura do molde. Havia um aspecto horrível na fileira de pontos, rodeadas por um igualmente aspecto horrível na contusão que cobria uma das bochechas e marcas secas de lágrimas se destacavam em seu rosto. Um intravenoso, com várias bolsas estava pendurado ao lado, o qual dava a lesionada mulher os fluidos e os medicamentos para a dor que ela precisava. Um cateter desaparecia debaixo do lençol. O coração de Verônica doía ao ver a dor pela qual Rose estava passando e pela qual teria que passar quando se recuperasse. Interiormente estava ciente de que sua imprudência atrás do volante era a única razão da jovem estar aqui. Como se sentisse sua presença, a cabeça loira girou e os olhos verdes se encontraram com ela. "Olá". Disse educadamente, sua voz um pouco rouca.

"Olá Rose. Como você se sente?".

"Agradecida de estar viva, suponho", balbuciou, seus olhos se dirigiram à jarra de água. Verônica imediatamente se aproximou e lhe serviu um pouco em um copo amarelo plástico.

"Aqui". Deu-lhe o copo, mas rapidamente o segurou quando viu a mão da jovem mulher tremer. "Deixa-me ajudar". Juntas conseguiram que a metade do copo baixasse pela garganta de Rose antes que Verônica o devolvesse a pequena mesa. "Você se lembra de algo sobre o acidente?".

"Não, não realmente. Eu estava correndo... alguns homens me perseguiam... eu fugia pelo parque e saí correndo pela rua... É tudo o que me lembro antes de acordar aqui".

"Não lembra nada sobre o carro que lhe atropelou?" Verônica pressionou. "A cor, o tipo de carro, o motorista, nada?".

"Não, nada. Desculpe. A senhora é da polícia?".

"Não". Por dentro Verônica suspirou com alívio. Rose não podia lembrar o que aconteceu. Com um pouco de sorte ela poderia consertar isto.

"Oh, então suponho que está aqui para me falar sobre a conta?" Rose perguntou, achando que a bela e bem vestida mulher era a administradora do hospital, apesar de usar um casaco. Talvez estivesse no seu dia de folga, Rose pensou.

"Na verdade, preciso falar com você sobre isso, mas...".

"Eu não tenho dinheiro", interrompeu. "Não tenho filhos, eu não me qualifico para nenhum programa". Deu um suspiro de derrota. "Vou lhe dar o que puder cada semana, mas temo que isto não serão mais que cinco dólares". Resignou-se a entregar seu dinheiro do ônibus para ajudar a pagar a incrível conta.

"Não precisa fazer isso", Verônica disse, surpresa que alguém obviamente com pouco ou nada de dinheiro estivesse tão rapidamente tomando a responsabilidade financeira da conta do hospital. "Talvez seja melhor eu lhe explicar". Rose concordou. "Meu nome é Verônica Cartwright. Sou proprietária de Cartwright Corporation. Eu um... eu a encontrei depois do acidente e a trouxe para cá. Quando me dei conta que não tinha seguro, lhes disse que trabalhava para mim. Cartwright tem um excelente pacote de benefícios incluindo cobertura médica. Você não terá que pagar um centavo por sua assistência médica, eu prometo".

"A senhora? Mas eles me disseram que minha chefa..." Então entendeu. "A senhora lhes disse que era minha chefa?".

"Sim".

"Oh". Rose parecia meditar sobre a informação. "Assim que em vez de dever o hospital, deverei a senhora?".

"Não, não, não. Até o final do dia seu nome será acrescentado à lista do seguro. O colocarei na lista antes do acidente e estará coberta".

"Mas isto não é fraude?".

"Não, só se não trabalhasse para mim". Droga, por que tem que fazer assim tão difícil? Não poderia somente aceitar que a conta será coberta? Verônica não podia entender por que alguém que não tinha nada estava questionando uma boa coisa quando esta estava lhe sendo oferecida. Talvez tenha calculado mal só porque a jovem mulher era pobre. Precisava de mais informação. "Diga-me, onde você trabalha agora?".

"Eu...". Rose baixou o olhar, claramente envergonhada. "Trabalho meio período como empacotadora no Money Slasher. Devo dizer que trabalhava meio período. Estou certa de que eles não vão conservar meu trabalho até que eu possa caminhar outra vez".

"Tem alguma habilidade? Quero dizer, pode digitar ou anotar alguma carta ou algo assim?". O abatido olhar na cara da jovem mulher lhe respondeu a pergunta. "Bom então, acho que será uma auxiliar. É um trabalho de iniciante, mas é melhor do que empacotar comida".

"Mas não posso trabalhar". Baixou o olhar aos moldes que cobriam suas pernas. "Não posso inclusive nem caminhar".

"O trabalho estará lá quando você estiver pronta. Até lá, só concentre-se em se recuperar". Isso era tão simples, por que estava ela fazendo tão difícil? Verônica não previa isso.

"Senhora Cartwright?".

"É senhorita, mas, por favor, me chame de Verônica".

"Por que está fazendo isto? Quero dizer, a senhorita nem me conhece". Após uma vida de debaixo de luta e metida em um poço fundo, um ato de tamanha generosidade era muito para que ela pudesse acreditar. Teria que haver algo a mais em tudo isto. Tudo tinha um preço fixo.

A mulher de cabelo escuro pensava rapidamente, correndo através das histórias que havia inventado em sua mente a caminho daqui, se desfazendo de todas por serem tão pobres. "Acho que é só porque quero ajudar. Vi você atirada na rua e agi. A única maneira de lhe dar seguro era lhe fazer uma funcionária. Dirijo uma corporação grande que opera várias outras pequenas. Acrescentar você a lista não é um grande esforço. Desculpe, eu não tenho uma melhor explicação". Outra explicação implicaria em dizer a verdade e Verônica não podia se permitir isso. "Não se preocupe com o porquê de eu estar lhe ajudando. Só me deixe fazer. Agora, há alguém a quem devo contatar para informar que você está no hospital?".

"Um... Acho que Kim deveria saber para que ela possa empregar alguém na minha vaga". Rose disse de maneira reservada, lhe doía à perda do trabalho que havia trabalhado tão duramente para conseguir. Receber uma oferta de trabalho de uma companhia tão grande como a Cartwright Corp. era muito para se poder acreditar. "Ela é a encarregada da noite no Money Slasher no centro. Tenho que devolver o avental para receber meu último cheque".

"Era a coisa mais cinza que usava debaixo da jaqueta?" Rose assentiu. "Temo que o médico na sala de emergências o cortou em partes quando estavam lhe atendendo".

"Oh". Outra abatida olhada. "Eles descontam oito dólares pelos aventais estragados".

"Não se preocupe com isso", disse Verônica, não entendendo muito bem como importante era a pequena quantidade de dinheiro para a jovem mulher. Para Rose, esse era seu salário semanal, o qual gastava na loja de comida e que cuja metade ia para a comida de gatos. Através de sua droga que lhe leva as nuvens, um pensamento chegou a ela.

"Tabitha!". Exclamou. "Oh meu Deus, alguém tem que cuidar de Tabitha".

"Poderia ser este seu gato?".

"Sim. Como sabe?".

"Encontrei sua chave na carteira e fui a seu apartamento esperando encontrar um nome ou um número de alguém para contatar para você".

"A senhorita a alimentou?" Sua preocupação de que alguém tivesse descido em seu apartamento foi eclipsada por sua preocupação sobre a única coisa que lhe trazia um pouco de alegria a sua vida.

"Sim, fiz isso", Verônica respondeu quando Rose virou a cabeça, deixando que um longo silêncio se formasse entre elas. Uma solitária lágrima desceu pela bochecha da jovem mulher. "Hei, o que foi? Sente dor? Precisa que eu chame a enfermeira?". A mão de Verônica alcançava já o botão da campainha.

"Não", a jovem mulher aspirou, limpando a errante lágrima. "É só que..." Aspirou outra vez, "... se não estiver lá para cuidar de Tabitha, eles a levarão".

"Não, não, não. Ninguém levará a Tabitha para longe de você. Eu prometo. De fato, ela está na minha casa agora mesmo. Ela pode permanecer comigo até que você esteja totalmente estável". O coração de Verônica se sacudiu com o pensamento de como havia destruído facilmente a vida de Rose. Em um movimento havia custado a jovem mulher seu trabalho, seu lar, e muito mais dor que alguém merecia ter. Agora estava sentada ali, mentindo para proteger a si mesma. "Juro que ninguém levará a Tabitha".

"Eu... eu posso estender-lhe um cheque para sua comida. Não come muito. É muito amistosa". As palavras rodaram fora da boca de Rose e a mulher mais velha não pôde deixar de perceber o desespero em sua voz.

"Não se preocupe com isso. Por favor, concentre-se em melhorar. Tabitha ficará bem comigo. Vivo sozinha, estou certa de que desfrutarei da companhia".

A mulher de cabelo escuro estava para dizer algo quando umas fortes batidas na porta provocaram que ambas se virassem. O coração de Verônica saltou batendo forte ao avistar o uniforme azul e a placa brilhante. "Desculpem senhoras. Estou aqui para um relatório sobre o atropelamento e a fuga de ontem à noite". Entrou e tirou um pequeno livrinho de sua camisa. "Senhora Rose Grayson, correto?". Continuou sem esperar por uma resposta. "Agora, entendo o que aconteceu na avenida Madison por volta da meia-noite?".

"Acho que eram mais de doze e trinta", Rose disse.

"Sim, doze e trinta", ele repetiu. "Agora há algo que a senhora possa me dizer, como a marca e o modelo do carro que a atropelou, o número da placa, a cor?".

"Não, nunca o vi". Virou sua cabeça até Verônica. "A senhorita recorda?".

"A senhorita também estava lá?". O oficial perguntou. Ninguém havia lhe dito que havia uma testemunha.

"Eu um... eu devo ter chegado lá justo após o acidente. Não vi ninguém".

"Isso certamente foi por causa do inferno da tormenta à noite. Que estava fazendo fora de casa tão tarde, Senhorita...?".

"Cartwright, Verônica Cartwright. Tive um jantar de negócios com o Encarregado Grace no Sam’s e estava me dirigindo a minha casa".

"Cartwright, como os dos lava-jatos Cartwrights?".

"Sim, entre outras propriedades", respondeu, irritada por ver que depois de todo seu trabalho duro a parte mais conhecida de sua companhia fosse o estúpido lava-jato do primo.

"Bem... então". Dirigiu novamente sua atenção a vítima na cama. "Suponho que teve bastante sorte de que houvesse tido a ela para se encarregar de você. Parece que a golpearam bastante. Provavelmente um motorista bêbedo. Difícil de acreditar que o bastardo não teve a coragem de ficar e se assegurar de que a senhorita recebesse ajuda, mas suponho que tudo o que importa é que a senhorita está viva".

"Sim, foi muita sorte que a Srta. Cartwright aparecesse. Quem sabe quanto tempo estive ali".

"Bem, pode me dar seu endereço e número de telefone para o relatório, estaremos estabelecendo tudo. Tenho que lhe dizer que não há muito que fazer, assim então não lhe darei esperanças. A menos que esse indivíduo seja bastante estúpido para dirigir por lá com toda a parte dianteira danificada e admitir que estava na Madison à noite, não há muito realmente que possamos fazer".

"Entendo", Rose disse reservada. Não esperava que eles encontrassem o homem que a atropelou. "Não tenho um telefone, mas meu endereço é rua Morris, 98". As emoções de Verônica se encontraram entre o alívio de ter um policial tão desinteressado em investigar o acidente e a culpa pelo fato de que mentia para proteger sua própria pele as custas da paz mental de Rose.

"Bem, se houver alguma coisa que eu tenha passado por alto, creio que podemos encontrá-la aqui. Pelo aspecto de suas pernas acho que a senhorita não vai a nenhuma parte por um tempo". Verônica se arrepiou com o comentário, mas este não pareceu afetar a Rose.
"Obrigada", a jovem mulher disse. O policial dirigiu-se a porta e viu um amigo seu caminhando pelo corredor.

"Hei John, espera. Senhoritas, obrigado. Estou certo de que tenho tudo o que preciso". Saiu antes que as duas pudessem responder algo.

"Eles não vão encontrá-lo, a senhorita sabe", disse Rose silenciosamente. "Sei que a vida não é como na televisão. Inclusive não sabem nem que carro procurar". Moveu-se levemente, gemendo pela dor que agora era sua companheira constante. "Não importa de qualquer maneira", suspirou. "O mal já está feito. Inclusive se o encontrassem isso não faria com que minhas pernas sarassem mais rápidas".

Verônica não sabia o que dizer e estava agradecida quando entrou a provadora da televisão. "Boa tarde senhorita...". Olhou sua prancheta. "Grayson. Gostaria que eu ligasse sua TV?".

"Não obrigada", disse Rose rapidamente.

"Por que não?". Perguntou Verônica, embora estivesse certa de que sabia a resposta.

"Não gosto de televisão".

"Huh, Uh". A mulher de cabelo escuro se virou até a provadora. "Vire ela e a deixe ligada enquanto a Srta. Grayson estiver aqui".

"São três dólares por dia, vinte dólares por semana".

"Certo". Verônica pegou sua maleta do chão e tirou sua carteira. "Aqui está". Deu a mulher da televisão duas notas de vinte dólares.

"Certo". Fez uma anotação em sua prancheta, então estendeu o braço atrás da TV e abriu a tranca da caixa. Alguns segundos depois o televisor cantarolou a vida com a Juíza Judy gritando ao acusado em sua sala de julgamento no programa da moda.

"Aí está, agora você terá algo que lhe ajude a passar o tempo", disse Verônica depois que a provadora saiu.

"A senhorita não precisava fazer isso", Rose respondeu, se sentindo muito incomoda. "Poderia ter ficado bem sem isso. Esteve em meu apartamento. Sabe que não possuo uma TV". Suspirou. "Além disso, o que quer que eles estejam me dando para a dor me cansa. Não sei quanto tempo estaria assistindo-a. Certamente não por vinte dólares".

"Vamos fazer um trato, Ok? Precisa de ajuda e quero lhe ajudar. A televisão está paga agora. Pode aceitar e desfrutar dela ou pode deixá-la desligada e olhar fixamente para a tela desligada o dia todo".

O barulho da televisão interrompeu sua conversa. "... E se o senhor pensa por um minuto que acreditei que algum estranho se meteu em seu apartamento destroçando-o e roubando tudo o que pertencia a seu companheiro de quarto aqui e deixando todas suas coisas quietas então o senhor é um completo idiota. Não nasci ontem, senhor Richards. A pena para o demandante é a quantia de seiscentos e cinqüenta e três dólares e doze centavos. Caso encerrado". Verônica virou-se para ver Rose observando com completo interesse.

"É como estar em um julgamento", a jovem mulher disse, não deixando de dar atenção ao televisor.

"É um bom programa".

"Tem toda semana?".

"Todos os dias, Rose. Pode assistir todos os dias ao meio-dia". Sorriu e sussurrou de maneira conspiradora. "Estou muito ocupada para assistir quando está passando, mas o gravo e o assisto no fim de semana".

"Obrigada", a jovem mulher disse sinceramente, seus olhos verdes sorriram a Verônica. "Isto fará com que seja mais fácil passar o tempo aqui".

"É o mínimo que eu podia fazer". Reclinou os braços no corrimão da cama. "Então vai me dizer a quem eu posso contatar além de seu trabalho para lhes avisar que está aqui? Com certeza alguém deve estar sentindo sua falta".

O pequeno sorriso que havia estado no rosto de Rose desapareceu. "Não há ninguém a contatar".

"Ninguém? Nem sequer um amigo?" Rose deu um triste sorriso.

"Não vivo em Albany há muito tempo", disse, não desejando revelar a verdade, de que havia evitado deliberadamente fazer amigos porque os amigos queriam ir a sua casa visitá-la e estava muito envergonhada das condições em que vivia. Moveu-se e uma dor se dispersou queimando sua perna esquerda, fazendo com que ela gritasse. "Oh Deus isto dói", assobiou. Verônica imediatamente pressionou o botão de chamada várias vezes.

"O que foi?" Mary perguntou quando entrou no quarto.

"Ela sente dor. Não pode lhe dar algo?".

"Ela está recebendo uma quantidade apropriada através de sua intravenosa, mas se precisar de mais posso lhe dar uma injeção". Olhou para Rose, que estava tentando dificilmente não chorar. "Srta. Grayson?".

"Sim, está. Você não vê que ela está sofrendo?". Replicou Verônica de maneira irascível.

"Srta. Grayson?". A enfermeira repetiu. Rose contra a vontade assentiu, a dor era muita para resistir mais tempo. Para sua surpresa, uma mão grande envolveu a sua. Outra pontada de dor disparou através dela e então ela se agarrou a mão de Verônica firmemente. A enfermeira saiu e voltou um minuto depois com uma agulha. Pouco cerimoniosa puxou o lençol e a bata de hospital para trás expondo o quadril direito de Rose onde meteu a agulha dentro. "Isto vai doer um pouco". A mão da jovem mulher agarrou a de Verônica mais forte quando o medicamento foi injetado. "Pronto, pronto". A enfermeira levantou o olhar para a mulher de cabelo escuro. "Provavelmente dormirá em poucos minutos".

"Não vou ficar muito tempo". A enfermeira assentiu e saiu, não se incomodando de puxar o lençol novamente para seu lugar. Verônica utilizou sua mão livre para cobrir o quadril de Rose com o desolador linho branco. "Quer que eu fique mais um tempo até que você durma?".

"Não, é...". Não pôde conter um bocejo. "... Está bem... Estou bem". A potente droga atuava rapidamente, fazendo com que sua cabeça pendurasse de lado e seus olhos adquirissem um brilhoso olhar. "Tem certeza de que a senhorita não é um anjo?" Perguntou adormecendo quando suas pálpebras cederam. "A senhorita parece um anjo... a senhorita...". Outro bocejo, "... age como...". Seus olhos se fecharam e a mão que havia estado sustentando a de Verônica caiu de maneira frouxa ao lado.

Esperou vários minutos até que esteve certa de que Rose estava dormindo antes de se colocar de pé e remeter a manta ao redor da lesionada mulher. "Durma bem, Rose", sussurrou.

 

 

Continuará...