Simplesmente irresistível
(Não dá pra tirar da cabeça o que tá no coração....)

Karina Dias

 

 

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Eu me chamo Cristina. Podem me chamar de Cris, eu prefiro. Tenho vinte cinco anos. Sou uma mulher dentro da média no quesito beleza. Corro todos os dias pela manhã para manter a forma, meço 1,68m, tenho 68kg, cabelos lisos com tom de mel abaixo dos ombros, olhos castanhos claro, pele branca. Há dois anos e meio não moro mais com os meus pais, tenho um emprego estável na loja de carros da família e, estou terminando a faculdade de jornalismo. Apesar da pouca idade já tenho a minha casa e um carro. Meu ciclo social é constituído por um seleto grupo de amigos, e uma família maravilhosa, constituída por: Carlos, meu pai, 55 anos. É o cara mais incrível que conheço, sabe tudo sobre carros. Quando mais moço trabalhava de taxista nas ruas do Rio de Janeiro. Dois anos nesse ramo e já estava com uma frota de táxis. Quando o negócio começou a ficar maçante e não despertando mais o seu verdadeiro “eu” empreendedor, passou a vender alguns carros. Com o dinheiro de um táxi vendido ele comprava dois ou três carros em leilões públicos, fazia os pequenos reparos que sempre tinham para fazer, depois os vendia na porta de casa mesmo, tendo um lucro de mais de cem por cento do que havia investido. Quando o negócio cresceu, quase um ano depois, papai comprou um galpão praticamente abandonado, vendeu o último táxi que ainda estava em seu poder e abriu o CARROS JÁ, que é onde trabalha até hoje. Além de mim, que sou sua filha, tem mais doze empregados, entre eles meu irmão Luiz que é um ano mais velho do que eu, e é tão sensacional quanto meu pai, vende carros como quem vende balas, adora o que faz, é dedicado, trabalhador, bom caráter, e amigo, isso mesmo, Luiz é um dos melhores amigos que alguém pode ter. Completando o time da família tem também minha mãe Ana, dona de casa dedicada, nos criou com o máximo de amor, jovem ainda, principalmente de espírito, tem 48 anos, com aparência de vinte nove, quando saímos juntas, parece minha irmã. Por falar em irmã, também tenho uma irmã mais nova, Amanda, essa tem dezoito anos, é linda, uma bonequinha em todos os sentidos, um pouco desinteressada pelos negócios da família, só passa na loja quando precisa de dinheiro.  Está cursando o primeiro ano de cinema, é uma sonhadora incondicional, adora Internet, shopping e homens, bem diferente de mim, que adoro ficar em casa, vendo filme na TV, estudando ou jogando baralho com os amigos, confesso que nem sempre fui assim, mas... Deixa pra lá... Hoje sou assim. Ah! Já ia me esquecendo, não gosto de homens, quer dizer, não gosto de namorar homens, desde os meus quinze anos, quando beijei pela primeira vez a boca de uma mulher, não consigo parar de pensar em outra coisa, talvez seja por isso que eu e meu irmão Luiz nos damos tão bem, é nosso assunto preferido, ele sempre brinca dizendo que Deus não o deu um irmão mais novo para que pudesse ensinar-lhe algo sobre as mulheres, no entanto, fez melhor, lhe deu uma irmã mais nova que tem a vantagem de conhecer as mulheres como ele jamais conhecerá. Engraçadinho, não acham? Bom, no time da família também inclui: um cachorro vira-lata chamado Rex que é o xodó de minha mãe, o papagaio Frederico, sim, porque louro já é muito ultrapassado, e uma gata angorá chamada Patrícia em homenagem a minha irmã. Aos Domingos nos reunimos para matarmos a saudade, embora nos vejamos quase todos os dias, isso porque a loja fica ao lado da casa dos meus pais, e minha casa fica a duas ruas dali, na verdade saí de casa quando conheci Aline, foi uma paixão fulminante, ela não tinha um bom relacionamento com seus pais, então resolvemos juntar nossas escovas de dente, mas, Aline sempre fora muito geniosa, ficamos alguns meses morando com minha família, a experiência não foi tão boa, pra ser sincera, foi um fracasso mesmo, a menina queria mandar mais do que minha mãe, vê se pode? Devido a esse pequeno contratempo, resolvi partir para um aluguel, no entanto, meu pai, sábio como sempre, me proibiu de cometer essa loucura, e nos presenteou com um apartamento perto dali, um apartamento pequeno, porém aconchegante e quitado. Bom... Acho que vocês estão se perguntando, e daí? Porque tá dizendo tudo isso? Calma! Eu só quero que vocês me conheçam melhor... Voltando a Aline... Aline sempre fora uma mulher maravilhosa, adorava cozinhar, e era muito quente, tinha um corpo atraente, voz excitante, era morena, de cabelos cumpridos, isso me atrai bastante, lembro-me de quando nos conhecemos numa boate aqui no Rio, eu estava bêbada, e ela me odiou a primeira vista, não me deu à mínima, e naquela época, eu estava literalmente na “galinhagem”, acho que está explicada aquela frase: “nem sempre fui assim”... Como começamos a conversar? Ah! Nosso primeiro diálogo foi muito construtivo, eu estava no estacionamento da Boate quando de repente... Vomitei no pneu do carro de Aline. Foi sem querer. Como eu iria saber que o carro era dela? E eu sou tão azarada que ela estava chegando bem naquele momento, posso dizer que essa foi a Segunda vez que nos vimos.

- Mas que droga! – Disse ela.
- Calma – Foi o que eu consegui dizer – Eu tô bem – Sussurrei.
- Estou falando do carro... Tanto lugar para você vomitar, tinha que ser no pneu do meu carro? – Ela estava realmente brava.
- Credo menina! Pensei que você estava preocupada comigo.
- Com você? Por acaso alguém te obrigou a encher a cara? – Disse fitando-me com aquela carinha que diz: “vou te esganar”
- Tudo isso por causa de um pneu? – Tirei um cartão do bolso da calça e entreguei-lhe – Leva o seu carro nesse endereço, temos um lava jato ao lado, vamos resolver o seu problema – Olhei-a séria.
- Até parece que eu vou me despencar do Méier até Copacabana para lavar um pneu – Olhou-me novamente. Agora eu já estava de pé, vomitar sempre faz bem quando estamos passando mal, ou bêbados, como era o meu caso. Acho que ela gostou de mim ao terceiro olhar... Ela sorriu e pôs a mão na cabeça como se estivesse arrependida por tudo o que me dissera. Claro, né? Fez uma tempestade em um copo d’água – Acabei de fazer dezoito anos... Peguei minha habilitação ontem... Essa foi a primeira volta que eu dei no carro do meu pai, e uma louca vomita no pneu – Disse e sorriu. Eu sorri também, claro. Dezoito anos? – Pensei – Com aquele corpo? – Continuei pensando.

Ela foi gentil, não foi? Ah sim! Eu ainda não disse o porquê dela ter sido gentil... Bem, ela levou-me para casa, eu havia perdido às chaves do meu carro... E quando chegamos na minha casa, já eram cinco da manhã, todos estavam dormindo e Aline ficou com peninha de me deixar jogadinha por lá... Foi comigo até o meu quarto, e ajudou-me a tirar a roupa para eu tomar banho, no entanto... O que aconteceu foi bem simples, roda a fita aí: começamos a nos beijarmos antes mesmo de entrarmos em casa, nos semáforos do caminho. Quem nunca fez isso? Um dia vai fazer, pode apostar. Depois, foi fácil, já estávamos sem roupa no banheiro... Aquela pele quente que ela tinha, sua boca percorrendo meu pescoço... Senti seu corpo se esquivando da água, alcançando o apoio da parede... A menina me puxava para ela, e minhas mãos não conseguiam sair do meio das suas pernas... Eu penetrava Aline cada vez mais rápido e ela estava insaciável, sempre querendo mais... Abaixei-me no meio das suas pernas e descobri naquele momento o que satisfazia aquela menina...Minha língua se perdeu por horas dentro dela... Depois dessa noite... Digo, manhã de amor... Manhã de sexo? Decidam-se por favor. Bom... Sempre vivemos bem, até o mês passado, justamente quando Aline recebeu um convite irrecusável de ir para os Estados Unidos fotografar, esqueci de comentar o quanto ela queria ser modelo. Era sua chance, eu não podia pedir para ela ficar, e nem poderia ir com ela, então, em uma Segunda-feira ela recebeu a proposta, na Sexta-feira, ela estava na ponte aérea, Aline nem ligou para dizer se havia chegado bem, fiquei dias do lado do telefone, olhava o celular de dois em dois minutos na esperança dele tocar, fiquei sem comer, sem dormir e meu rendimento no trabalho estava péssimo nesses dias, foi então que Aline ligou, pediu-me desculpas, disse que sentia minha falta, mas que estava vivendo o melhor momento de sua carreira, e então, nós terminamos. Chorei a noite inteira, na manhã seguinte, recebi a visita de Cíntia, amiga de trabalho de Aline, elas estavam disputando a mesma vaga para esse trabalho no exterior, ambas são belíssimas, nem sei como tiveram a coragem de descartar uma delas, bom, eu ficaria com às duas, mas, isso não importa... Fiquei surpresa com a visita, porém curiosa, tomamos café juntas enquanto conversávamos, só então fiquei sabendo o real motivo de Aline ter me descartado tão friamente pelo telefone, a safada engrenou um romance com o produtor do evento para se dar melhor e conseguir a vaga, e pensar que chorei a noite toda.

- É o preço que se paga por se envolver com uma pirralha de vinte anos – Pensei.

Hoje, faz quinze dias desde a visita de Cíntia, acordei mais cedo, encaixotei todas as coisas que Aline deixara em meu apartamento, e deixei na casa dos seus pais. Agora, são dez e vinte da noite, percebo que o apartamento ficou bem menor, embora tenha tirado tantos objetos dali. Não sei bem como estou me sentindo, mas, acho que estou melhor, esses últimos dias me fizeram amadurecer, e sei que não vou chorar mais, nem por Aline que não teve a mínima consideração por mim, nem por alguma outra que venha usufruir de algum espaço na minha cama, estou bem dura interiormente, será impossível confiar e entregar a minha vida novamente a outra pessoa. Estava exausta, havia dois recados na secretária eletrônica. Sentei-me no sofá.

- Cris! É o Guga, me liga assim que chegar, beijo.
- Cris! Atende Cris! É o Guga de novo. Tá em casa? Eu sei que não está, se estivesse não faria isso comigo. Olha, sabe aquela garota que eu te falei? Ela tem uma amiga gostosona que está doida pra te conhecer, me liga!

Que piada! Gustavo, o Guga, meu primo, filho da minha tia Vera, irmã mais velha do meu pai, ele tem a minha idade, não tem emprego, não terminou os estudos, vive de pensão da mãe que o trata feito bebê, e sempre se mete em furadas, a última foi ter se envolvido com uma mulher casada, e o pior, o marido dela, um policial que estava doido para saber quem era o canalha que comia sua mulher quando ele ia trabalhar, uma vez chegou mais cedo em casa, e quase surpreendeu Guga com a esposa na cama, sorte que o cachorrinho de estimação da mulher deu sinal, então meu primo atrapalhado correu de cueca de Santa Teresa até a Praça Quinze, no centro da cidade, às roupas na mão eram quase invisíveis para ele, sabe pra quem ele ligou? ligou para mim, e eu ainda tive que ir buscá-lo, porque o trouxa deixou o dinheiro cair pelo caminho, nem o do ônibus ele tinha, conseguem imaginar o desespero desse desmiolado?  Hoje essa estória é motivo de piadas, mas... Na época... Nossa!!!!! Sorri lembrando-me do incidente.

Já passava da meia-noite quando o interfone tocou.

- Quem é? – Disse sonolenta.
- Cris, sou eu, Guga – Disse aflito – Abre, é urgente. Rápido por favor.

Era bem provável que meu priminho irresponsável tivesse aprontado alguma de suas peripécias. Abri a porta...
- Surpresa! – Disse ele sorridente.

Bom, o que dizer daquela cena barata? Guga estava diante de mim com duas... Duas loiras exuberantes. A situação fora no mínimo desconfortável. O que deu na cabeça dele pra trazer visitas àquela hora na minha casa?

- Oi – Cumprimentei as meninas, logo fitei Guga com fúria nos olhos. Olhei o relógio pra ver se ele se mancava, mas, meu primo desconhece essa palavrinha.
- Cris, essa é a Luana, e essa aqui é sua futura esposa – Sorriu – Brincadeira, é a Susy. Trouxe batatas e cervejas – Abriu uma sacola – Filmes eróticos e ... Camisinha, pra mim, é claro.

Puxei-o no canto.
- Você só pode estar brincando, não é? – Disse furiosa.
- Relaxa prima! Ainda vamos brincar – Sentou-se no sofá – Sou sua fada madrinha, há quanto tempo não sai de casa? E o que é pior, há quanto tempo não tem uma noite daquelas? – Concluiu animado.
- Lamento desapontá-lo, mas, não quero dividir a minha cama com ninguém, muito menos com uma garota que eu nem conheço – Disse absoluta.
- Meninas, fiquem à vontade – Puxou-me pelo braço – Vamos só pegar uns copos.

Fomos até a cozinha. Abrimos umas cervejas, batatas na tigela...
- Guga, está tarde, eu quero dormir – Disse desanimada – Porque não leva as duas para um motel?
- Cris, a Susy é toda sua, o meu negócio é com a Luana, ela não é uma delicia? – Tomou um gole de cerveja, logo acendeu um cigarro – Vou ficar com o quarto de hospedes, tá?
- Eu sabia, tá sem grana para o Motel – Fitei-o reprovando suas intenções.
- Não é isso, só que... Como sou seu amigo, quis trazer essa gatinha para curar sua deprê, tá legal? Mas, você é mal agradecida mesmo!  - Disse cínico – Nunca liga para as boas ações que faço, tá pensando que eu faria isso por outra pessoa? – Só faltou chorar. Que cara dramático!
- Seu mané! Pode parar de tentar me enrolar – Acendi um cigarro também – Tá vendo? Eu tinha parado de fumar, você é um mau exemplo – Sorrimos, independente de qualquer defeito daquele sacana, eu gostava bastante dele – Pode ficar com o quarto de hospedes, a Susy dorme no meu quarto, e eu... Me ajeito na sala mesmo.
- Vai dispensar aquela gata? Cris, você deve estar com febre – colocou a mão na minha testa – A garota veio te conhecer, vai amarelar?
- Se prefere colocar desta maneira, vou amarelar sim – Abri a geladeira, coloquei água no copo... Bebi - Nada de filme pornô, está bem? – Disse autoritária. Conheço bem o meu primo, ele precisa de regras, se não... – Vou falar com as meninas, e depois vou dormir o sono dos justos, se quiser, faz uma festinha com as duas, eu tô fora!

Vocês tinham que ver a cara dele, ficou atônito, cara de bobo, ele já tem normalmente. Confesso que se fosse há alguns anos atrás, mais precisamente, antes de ter tido uma vida em comum com Aline, eu estaria deveras animada para aquela festinha com Susy.

Quando voltei do quarto com lençóis e travesseiros, percebi que o aparelho de DVD não estava no mesmo lugar, sorri imaginando onde estaria. Ele realmente não obedecia a nenhuma regra. Susy voltou do meu quarto com o roupão que eu havia lhe emprestado, olhei-a melhor, sem dúvida era uma mulher bonita, cabelos cumpridos num tom castanho claro, quase loiros, combinavam com sua pele bronzeada de praia, seus olhos esverdeados ganhavam destaque na face jovem e delicada, devia ter entre vinte e vinte três anos, e seu corpo era bastante atraente. Iríamos começar um diálogo quando o barulho do quarto ao lado chamou-nos a atenção, eram tantos gritinhos e gemidos que ficamos constrangidas, eu pelo menos fiquei, ela? Ela sorriu...

- Esse meu primo é incorrigível – Disse envergonhada. Chato sentir vergonha pelas atitudes dos outros.
- Ele disse que você precisava de companhia, mas acho que estava enganado - Disse usando de um tom de voz extremamente sensual. Deus que me perdoe, mais ela parecia um Demônio do bem. Que carinha de safada era aquela?
- É... Ficar sozinha às vezes tem o seu valor... Estou preferindo... Reorganizar...  Minha vida – Disse insegura, e não muito convicta do que eu queria. Ela me olhava como quem olha um pedaço de pizza.
- Que pena – Disse com aquela voz saliente que as mulheres Demônio costumam ter.

Susy abriu o roupão, estava completamente nua, aproximou-se de mim, gelei ao sentir sua pele em minhas mãos, sim! Ela segurou minhas mãos e conduziu lentamente até os seus seios... Queriam que eu fizesse o que? Eu estava deprimida, não morta. Apertei os bicos e ela se contorceu, logo, colocou-os na minha boca, chupei-os com vontade... Susy sentou-se no sofá de pernas abertas para que eu chupasse melhor seu sexo, minha língua agradeceu... Logo meus dedos invadiram-na fazendo-a gemer de prazer, ela se contorcia, colocava o dedo na minha boca... Parecia estar no cio.  Minhas mãos passeavam pelo seu corpo, ela me beijava e mordia o meu pescoço... Deixando marcas...  Arranhava minhas costas e falava barbaridades no meu ouvido. As palavras mais “lights” que eu ouvi dos lábios dela, foram:
- Mete mais fundo, assim... – Dizia e gemia, lambia a minha orelha... Mordia também – Me fode gostoso... Chupa a minha boc... – Bom... Ela disse coisas piores, mas, tenho vergonha de dizer, então... No minuto seguinte, estávamos rolando no tapete da sala, nos acariciando como se não houvesse mais amanhã... Perdi as contas de quantas vezes gozamos. Mais meia hora com aquela mulher Demônio, e eu enlouqueceria de vez...  Acharia que é melhor garantir um pedacinho no inferno do que no céu. Ela tinha argumentos pra isso... Susy levantou-se... Iria vestir o roupão, no entanto.... Desistiu... Que bom, ela ficava bem melhor nua... A menina parou na porta que separava a sala do corredor, pensou por um instante, me olhou...
- Se eu soubesse que seria tão bom, não tinha nem cobrado - Disse antes de ir tomar banho.
- Opa! Mas... Q filho da mãe! – Pensei – Não acredito! Garotas de programa? É bem a cara dele – Disse frustrada. Deixei meu corpo cair do sofá para o tapete, eu não tinha forças nem para questionar a atitude do meu primo.

Dormimos na sala mesmo. Acordamos com o maluco do Guga gritando e ligando o som no último volume.

- Acordem meninas! – Abriu às janelas – Olhem o Sol! Está lindo lá fora. Vamos todos à praia – Me sacudiu – Cris, que noite, hein?

Mal podia abrir os olhos, tamanha era a claridade. Cheguei à cozinha tropeçando nas pernas, e o chato do Guga não parava de tagarelar.

- Seu tarado! – Disse indignada – Elas são garotas de programa, sabia?
- Me deve duzentos paus – Disse naturalmente.
- O que? Você sabia? – Fitei-o brava – Tá maluco? Eu chupei a mulher toda!
- Relaxa! São garotas de luxo, digamos assim – Pegou o pote de biscoitos – Que fome, nessa casa não tem comida de gente? – Abriu a geladeira – Fazem teste de DST regularmente, usam camisinha sempre, e só dão para políticos e empresários, mas, como eu tenho meus contatos, consegui as duas por uma pechincha, tá vendo como sou legal contigo?
- Só me mete em furadas seu louco! – Disse perplexa – Não consigo nem olhar pra menina, sabia? –       Esfreguei às mãos nos olhos, eu precisava voltar pra cama, ainda estava exausta, e minhas costas doeram bastante por ter dormido no tapete da sala, e pensar que minha cama ficara vaga a noite inteirinha, que idéia essa! Porque não dormimos na cama? – Pensei – Preciso dormir mais – Disse.
- Dormir nada... Anda, vai se arrumar – Empurrou-me, quase derrubei uma garrafa de cerveja vazia que estava sob o armário. Desorganizado esse cara, deixa tudo espalhado - Vamos à praia brincar mais um pouquinho com as sereias – Disse ele sorridente.
- Esquece! Tô fora. Tenho prova na Segunda - Tirei a garrafa do caminho.
- Essa não! Eu consigo duas gatas de primeira, e você diz que tem prova na Segunda? – Ficou analisando-me por uns segundos - Cris, você tem vinte cinco anos, mora no Rio de Janeiro onde ninguém dorme enquanto a cerveja não acaba, está livre e desimpedida, aposto que tem dinheiro guardado no colchão, e se preocupa com prova? Eu estou ouvindo bem, ou ficando maluco?  - Ele estava indignado? É estava! O que será que ele pensa da vida?
- Você não está ficando maluco, você é maluco!
- Um acordo, não te cobro os duzentos paus pela noite, e você vai com a gente pra praia, tá? – Olhou-me com aquela cara de inocente.
- Um acordo: te pago os duzentos, e te dou mais cem pra você ir com elas sem mim – Disse.
- Fechado! – Me deu um beijo no rosto – Você sabe mesmo fazer negócios – Disse sorridente - Vocês também pagariam para se verem livres dele, aposto que pagariam.

Dei graças a Deus quando eles foram embora. Tomei um banho gelado para mandar a preguiça para bem longe... Coloquei uma garrafa transbordando de café ao meu lado, hoje eu estava de folga no trabalho. Estudei o dia inteiro. Guga ligou-me duas vezes para ter certeza de que eu não iria mesmo encontrá-los na praia... No fim da tarde liguei para mamãe e fiquei de buscar Luiz na faculdade.


Fazem dois dias que não penso em Aline da mesma forma, quero dizer, nem com raiva, e muito menos com saudade, e também, depois da noite que tive, vou demorar para sentir saudade de alguma coisa, e se eu for mais a fundo em meus pensamentos, posso até dizer, que Aline não é tão diferente de Susy, ambas fazem por dinheiro. Tem diferença? Não, não acredito que tenha.

Às dez da noite, eu e Luiz estávamos tomando cerveja em um bar de fronte a faculdade que ele estudava, Luiz faz curso de administração, acha que será bom para os negócios da família, tem planos de ampliar a loja, e expandir filiais. Meus planos para esta vida, é ter paz, ultimamente isso está tão difícil, que chego a acreditar que ela, a paz, não existe.

- Como você está hoje? – Disse ele preocupado, minha cara não devia estar boa, né? – Tem tempo que não te vejo correr de manhã na praia. Poxa! Perdi minha companhia mais animada!- Sorriu pelo canto da boca, eu não sorri de volta... Não costumo sorrir sem vontade.
- É, tenho andado desanimada... Acordando tarde mesmo.
- Não tem dormido bem?
- Até me acostumar com a vida de solteira novamente, leva tempo – Disse. Acendi um cigarro, literalmente havia voltado a fumar, tinha parado quando conheci Aline, ela detestava o cheiro, mas, nos últimos dias, ele, o cigarro, diminuía a minha ansiedade, e eu às vezes nem o punha na boca, mas gostava de ver a sua fumacinha subir – Não se preocupe comigo, Luiz... Hoje estou melhor – Disse – Sabe o que o Guga aprontou?
- Imagino que não foi coisa boa – Sorriu, logo balançou a cabeça no sentido negativo.
- Pior é que foi boa demais – Sorri pelo canto da boca, agora sim tive vontade de sorrir – Ele levou uma garota de programa lá em casa esta noite.
- Sério? – Fitou-me perplexo.
- Nossa! Foi... Foi... Maravilhoso – Disse enquanto respirava fundo, lembrando-me daqueles momentos que passei com Susy.
- Cris, você é louca? Dormir com uma prostituta? – Fitou-me preocupado.
- Eu não sabia, pensei que fosse amiga dele... Sei lá! Quando me dei conta, nós já tínhamos feito de tudo, só depois fiquei sabendo que era um programa.
 - Que loucura – Tomou um gole de cerveja – Por falar em Guga, Domingo terá um almoço na casa dele, você vai? Faz um esforço, tem dois Domingos que você não almoça com a gente.
- Talvez dou uma passadinha para não deixar os velhos preocupados – Disse.

A conversa fora agradável, bebemos um pouco, e depois terminei a noite como sempre, sozinha em meu apartamento. Solidão era a minha companhia cativa... Ela jantava comigo, via filmes comigo, até jogávamos cartas... Paciência, eu jogava paciência no PC.



Acordei de ressaca, e olha que eu nem bebi muito, acho que era ressaca de desânimo mesmo, ressaca de desânimo? Credo! Isso existe? Engraçado, quando sofremos uma desilusão, há dias que acordamos tão bem, cheios de esperança, com vontade de tocar a vida, acreditando realmente que as coisas vão melhorar, porém, há outros que parecem ser os piores de nossas vidas, são nesses dias, que sentimos o peso do mundo sobre nossos ombros, parece até que não somos capazes de nos recuperarmos. Era Sábado, o dia estava lindo, mas, eu queria ficar trancada no quarto remoendo tudo de bom e de ruim que eu havia vivido com Aline, se quer entendia o porquê de sentir mais raiva do que saudade. Ah! Voltei a sentir raiva dela.  Às vezes pergunto-me se era amor, ou algo bem parecido, será que quem ama pode sentir tanta raiva assim? Tenho questionado muito isso ultimamente.

Eu tinha duas opções, ficar trancada em meu quarto remoendo minhas lembranças fatídicas, ou... Optei por reagir, era minha folga, e o Sol estava explodindo na janela como um convite para a vida. Vocês não teriam feito o mesmo? Liguei para o Guga, não o encontrei em casa, e o celular só caia na caixa de mensagens, Luiz estava cheio de trabalhos da faculdade para terminar, passaria todo o Sábado estudando, Amanda... Não! Amanda estava fora de cogitação. Tentei contato com alguns velhos amigos, uns estavam viajando, e outros não consegui nem notícias. Porque sempre que estamos deprimidos, tudo fica mais difícil? Será que hoje não é o meu dia? Não me intimidei, tomei um banho, coloquei camiseta, short e chinelo... Em dez minutos estava na praia de Copacabana. Caminhando na areia, tudo deveria ficar melhor, tanta gente bonita e feliz, acho até que elas eram bonitas porque pareciam felizes, mas que droga! Será que ninguém se sente como eu? – Pensei. Sei que é um pensamento egoísta, mas...  É que... Pensei que, se talvez encontrasse pessoas tão solitária quanto eu, sem sorriso no rosto, meu pesar diminuiria, no entanto, acho mesmo que minha única companhia é o cigarro, por falar nisso, percebi que estou fumando como nunca, uma boa olhada envolta de mim... O telefone tocou antes que eu pudesse terminar meu raciocínio.

- Alô? – Disse.
- Cris, sou eu, Guga – Um silêncio – Preciso de ajuda – Tinha a voz trêmula.
- Em que furada se meteu desta vez? – Não preocupei-me com aquele suspense, ele sempre fazia isso, gostava de nos deixar preocupados para depois rir da nossa cara.
- Eu... Eu... Tô preso na favela – Disse hesitante.
- O que? – Logo fiquei aflita... Verdade ou não, isso era bem sério – Não me diga que mexeu com a mulher de alguém daí! Seu palhaço!
- Não... Não... É nada disso!- Disse gaguejando – Tô na Rocinha... Tô devendo uma grana na boca, entende? Se não pagar, os caras me apagam.
- O ... O que? – Sabe quando alguém toma uma pancada e fica atordoado? Exatamente assim que me senti naquele instante - Não acredito que está usando drogas! – Disse indignada e furiosa.
- Não estou, foi... Mas que merda! – Pensou por uns segundos - Aquela vadia da Luana me ferrou, a dívida é dela!
- Como assim te ferrou? – Não o deixei responder, não achei que aquela pergunta fosse necessária naquele instante – Quanto? – Disse.
- Três... Três mil... – Disse hesitante.
- Não tenho essa grana em casa, vou ter que falar com sua mãe, ela deve ter – Estava visivelmente aflita, saí da areia e sentei-me na cadeira de um quiosque.
- Não! Não Cris! Deixa ela fora disso, minha mãe me mata se souber- Disse desesperado.
- Droga! Hoje é Sábado, não tenho como levantar essa grana toda – Disse enquanto ouvia o choro desesperado de Guga do outro lado da linha. Tentei pensar em algo rápido, mas, não me veio nada na cabeça... Se eu falasse com meu pai, minha tia ficaria sabendo... Luiz não teria o dinheiro, banco? Não! Hoje é Sábado... Mas que droga! – Pensei – Mas que droga! – Disse.
- Cris, não me deixa aqui... Por favor... – Sussurrou, ele parecia não Ter forças pra falar.
- Calma – Disse tentando contornar a situação – Tô indo te buscar.
- Tô apavorado – Disse e desligou, ou desligaram, não sei.

Passei em casa, peguei um dinheiro que estava guardado para uma eventual emergência, afinal de contas, concordam comigo que essa era uma emergência? Meu celular também valia algum dinheiro, e eu também tinha um cordão e uma pulseira de ouro que não eram de se descartar.

Na entrada da favela, pisquei o farol duas vezes, como me foi informado perto dali. Confesso ter ficado ainda mais deprimida ao ver aquelas crianças com pistola e armamento pesado nas mãos, e na medida em que eu subia a ladeira, os meninos passavam as características do veículo por um rádio comunicador.

- Quer bagulho tia? – Disse um moleque magricela.
- Onde é a boca? – Perguntei-lhe.
- Quer coisa grande, né? – Disse debochado – É só continuar subindo, lá no pé do morro, tá ligado? – Apontou o local.
- Obrigada – Mais uma olhada nos olhos daquele moleque, sabem o que eu vi? Nada! Não havia nada naquele olhar.

A sociedade e o governo fecham os olhos para isso, esse garoto podia ser meu filho, não deve ter nem oito anos, se estivesse na escola, não estaria empunhando uma arma como aquela, e o Guga, safado! Alimentando tudo isso, sim porque, quem compra sustenta esse desastre urbano, e eu, na medida em que me propunha a quitar a dívida do meu primo, por tabela também estou alimentando, mas, não podia deixá-lo morrer lá dentro. Sabemos como esses caras cobram dívidas de drogas. Respirei fundo e segui em frente.

Lá estava ele, ainda aos prantos, roupas sujas, marcas de agressões nas pernas e nos braços, deve ter levado uma surra, olhei para os lados, que ironia, minutos atrás estava vendo a beleza das pessoas em Copacabana, agora, vendo toda essa gente, percebo que parecem feias porque devem estar tristes, e mesmo que não estejam, parecem estar. Damos tanta importância as aparências, e digo com certeza que agora, diante dessas pessoas aparentemente tão solitárias, sem sorriso no rosto, não sinto-me melhor como pensei que me sentiria. E meus problemas? O que são meus problemas diante de tudo isso?

Desci do carro, dei uma boa olhada ao meu redor... Haviam cinco homens perto de Guga, o mais baixo, com uma cicatriz no lado esquerdo do rosto veio até mim, tive a impressão de estar falando com o cabeça de tudo.

- Cadê a grana gata? – Disse, voz grossa, ele cheirava a álcool. Àquela hora da manhã e o cara cheirando a álcool.
- Eu vim negociar – Mantive um tom de voz firme, não queria ser intimidada.
- Se não tem a grana, vão ficar os dois deitadinhos nesse chão – Engatou a pistola – Se ligou? – Disse ríspido.
- Calma aí cara! Hoje é Sábado, não deu pra levantar todo o dinheiro, mas trouxe umas coisas pra trocar, e acho que vocês vão sair no lucro – Disse quase sem ar nos pulmões, tamanha era a minha apreensão. Quem disse que eu consegui manter a voz firme?
- Senta aí! – Continuou ríspido.

Sentei-me em uma pedra, mas ao fundo tinha um barraco de madeira cheio de homens jogando baralho, ouvimos gritos, e logo uma discussão se propagou, em seguida, um tiro foi disparado, logo outro... E outro... Fiquei assustada e muito chocada quando vi dois homens puxando um cara morto pelos pés, o mesmo encoberto de sangue... Senti vontade de vomitar, minhas pernas começaram a tremer, minhas mãos suaram frio, e a vontade de fugir dali era a mais latente que circulava dentro de mim. Cicatriz, como o caracterizei, sorriu, logo voltou a me olhar.

- Tem o que pra mim, gata? – Disse.
- Bem... – Gaguejei, na altura do campeonato, certeza era a única palavra que não estava no meu dicionário – Tenho oitocentos reais... Meu celular que está novo, tem um preço bom...E... E essa corrente de ouro – Tirei mortificada o objeto do pescoço.
- Só isso? É pouco! – Disse furioso. Ele levantou-se, colocou a pistola no elástico do short – É muito pouco – Completou.
- Tenho também essa pulseira de ouro – Mostrei-a para cicatriz, deixei-a por último devido ao valor sentimental, tinha ganhado de presente quando fiz dez anos, e fora o falecido pai de Guga quem me dera - Pra mim, não tem preço – Pensei – Tem bastante valor – Disse receosa.

Cicatriz olhou os objetos, logo sorriu novamente, mesmo quando ele sorria, não deixava de nos intimidar, na verdade, aquele sorriso dava medo.

- Gosto de dinheiro vivo, entende? – Guardou o dinheiro no bolso – A dívida dele é grande, tem muito juros – Chamou um outro homem, esse era alto, forte, não tinha mais que vinte três anos - Leva ele lá pra dentro! – Disse com autoridade.
- Espera! – Desespere-me – Me dá um prazo até Segunda, eu trago o que falta.
- Sem prazo! Não me ouviu? Leva o moleque!– Gritou.

Guga gritava, seu desespero transformava sua fisionomia, nesse instante, também comecei a chorar, depois que nós vimos aquele homem ser morto dentro daquele local, imaginei que fariam o mesmo com Guga.

- Fica com o carro! – Disse numa última tentativa – Fica com o carro! – Repeti, tirando a chave do bolso do short... Minhas mãos estavam trêmulas... Deixei as chaves cair no chão de terra, estávamos num beco, não tinha asfalto, mais ao fundo um matagal... Cicatriz olhou-me indiferente... Nada adiantou, trancaram a porta. Fiquei imóvel, esperava apenas o barulho dos tiros, não os ouvi. Dez minutos depois, ouvi risos vindo do local, logo a porta se abriu e jogaram Guga para fora, estava vivo, mas parecia morto pra mim. Corri em sua direção.
- O que fizeram com você? – Disse assustada.

O mais alto dos cinco saíra do barraco também.
- Ele chupa igual uma putinha – Disse – Pode levar essa bichinha daqui.

Não dissemos uma só palavra durante todo o caminho até minha casa. Depois de tudo o que aconteceu, achei que Guga não seria mais o mesmo, e não me importava se ele havia mentido sobre a dívida de drogas, eu não passaria nenhum sermão que havia preparado antes de todo aquele incidente, e certamente, o silêncio que nos envolvia, selava aquele que seria o nosso segredo para sempre.

Guga tomou um banho demorado, depois comeu um sanduíche de queijo que eu preparei, o refrigerante ajudava a descer pela garganta que tinha um nó, ainda estávamos em silêncio. O que eu iria dizer pra ele depois do ocorrido? Ele nem olhava-me nos olhos.

- Quer conversar? – Perguntei receosa.

No mesmo instante Guga começou a chorar, logo apoiou a cabeça no meu ombro. Senti muita pena dele, mas, não tinha palavras para consolá-lo, na verdade, eu também estava precisando ser consolada, fora uma tarde de horror, que espero jamais viver novamente. Tenho certeza que vocês também pensariam da mesma forma.

Na manhã seguinte, acordei com o telefone tocando, olhei para os lados, e Guga não estava. Atendi o telefone ainda sonolenta.

- Alô.
- Oi Cris. É o Luiz. Pensei que já tivesse saído de casa.
- Que horas são? – Perguntei preguiçosa.
- Onze e meia. Já estou na casa do Guga, e está rolando o maior churrasco.
- O Guga tá por aí?
- Chegou quase agora, e trouxe duas gatas incríveis, a Susy é linda! – Disse empolgado.

Podem acreditar nisso? Nem esfriou o ocorrido de ontem, e ele já estava se metendo com essas meninas novamente. Será que ele nunca vai tomar jeito? Tive vontade de contar tudo o que aconteceu para Luiz, na verdade, o que eu queria mesmo era matar meu primo com minhas próprias mãos. Se eu o pego agora... Juro que o mato. Tá, é mentira, mas... Estou chateada com ele, e isso me dá o direito de sonhar em matá-lo... Esquece, esganá-lo fica melhor.

Em menos de meia hora eu já estava na casa de Guga, e lá estava ele, à beira da piscina, como se nada tivesse acontecido, aos beijos e abraços com Luana. Ele não tem vergonha?

- Oi Cris! Quer cerveja? – Disse logo que me viu, sorridente como sempre.
- Seu maluco! Ainda tem coragem de andar com essa garota? – Fitei-o aborrecida.
- Calma aí Cris! Ela estava sendo chantageada por aqueles caras.
- Você é um mentiroso! Eu devia te entregar – Disse furiosa – Droga! Nós vimos um cara morrer, você quase levou um tiro bem no meio da testa – Nossa! Eu tinha mesmo dito aquilo?

Meu primo puxou-me para um canto mais afastado das pessoas, demos a volta na piscina... Ele estava receoso que alguém nos ouvisse. Nunca o tinha visto tão sério.

- O que você quer que eu faça? Quer que eu fique chorando pelos cantos, remoendo essa desgraça toda? Ou prefere me ver reagir e tocar a vida pra frente?  porque é o que estou tentando fazer! – Fitou-me pensativo, logo retomou às falas – Eu estou vivo, e de hoje em diante, não passo nem perto de drogas, e se quer saber, eu menti, a Luana não tem nada a ver com isso.
- Que merda Guga!
- Agora eu tô limpo Cris, olha pra mim! – Segurou meus braços – Me dá uma chance, não conta pra ninguém, eu vou te pagar, prometo.
- Não é pelo dinheiro! – Disse irritada – Não quero te ver metido nessa furada. Eu te amo da mesma forma que amo o Luiz, não quero que estrague a sua vida.
- Eu sei, então me dá essa chance – Disse, enquanto tentava encerrar aquela conversa.

Antes que eu pudesse dizer-lhe outras palavras, Amanda aproximou-se de nós com uma amiga, bom... Não dava mesmo para continuarmos nossa conversa, não diante... Dela! Meu Deus!  Pensei que essas coisas só acontecessem em filmes, sabem aqueles romances água com açúcar que a gente assiste nas tardes durante a semana? Meio estranho dizer, nunca tinha passado por isso na minha vida, eu olhei pra menina, e não consegui ver mais ninguém ao meu redor, olhei bem fixo nos olhos dela, e fiquei desconcertada com as sensações que meu corpo sentiu...  Devia ser desejo! Só pode, a amiguinha de Amanda era... – Linda! – Pensei – Eu devia ter dito gostosa, porque eu não disse? - Diante dela, nós ficamos totalmente... Hipnotizados, isso! Hipnotizados seria a palavra perfeita para descrever aquele momento.

- Oi gente? – Disse Amanda notando nosso... Fascínio? É!
- Oi – Dissemos ao mesmo tempo. Dois bobos, podem ter certeza.
- Essa é a Natasha – Virou-se para a menina – Minha irmã Cris, e meu primo Guga – Apresentou-nos.

Fiquei admirada com a beleza daquela garota, Natasha tinha a pele mais alva que meus olhos já viram, tinha cabelos e olhos tão negros quanto a noite, e seus olhos exibiam um mistério difícil de se encontrar, sua boca parecia ser deliciosa, na verdade, eram os lábios mais perfeitos que já vira em toda minha vida, e a menina exibia um decote que mal dava para disfarçar o olhar, e sem falar no cheiro dela, dava pra sentir a km de distância aquele cheiro suave que exalava da sua pele.

- Oi – Disse ela, beijou-nos no rosto... Amanda puxou-a pelas mãos.

As duas caminharam até a cozinha, meus olhos também as acompanharam. De onde nós estávamos, dava pra ver toda a movimentação dentro da cozinha.  Sem educação essa minha irmã, né? Foi puxando a menina, nem deu tempo de dizer “tchau”, só um aceno com as mãos. Vendo-a de costas, não pude deixar de notar aquelas formas perfeitas – Uau! – Pensei – Essa mulher saiu da onde? Dos meus sonhos? – Continuei pensando.

- Cris, tô apaixonado – Disse, enquanto apoiava a mão no meu ombro.
- Deixa de ser ridículo, cara! – Tirei a mão dele de cima de mim.
- Sério, não é todo dia que eu esbarro com um avião desses.
- Ainda mais medindo um e setenta de altura, né? – Sorri, eu também estava atordoada com a presença dela.

Guga olhou-me com um “?” na testa.
- Como sabe que ela tem essa altura?
- Eu não sei, imagino que tenha – Disse.
- Vai lá!  Fala que eu estou afim dela – Disse empurrando-me.
- O que? Porque você não vai lá falar com ela? – Disse indignada – Me solta, cara!
- Tô com medo de levar um fora daqueles – Ele riu – Eu com medo, pode?
- Azar o seu. Eu não vou falar com ela – Disse convicta.
- Não se esqueça que a Susy está aqui, e  foi eu quem te proporcionou aquela noite – Sorriu – Ela está afim de ficar com você novamente.
- Não vou falar com a garota, está bem? E se quer saber, também não quero ficar com a Susy – Disse contrariada – Nem com ela, nem com ninguém.
- Está bem, não quer me ajudar, não ajuda. Eu mesmo vou falar com ela – Disse e saiu pisando forte.

Continuei olhando Natasha na cozinha – Natasha – Pensei – Esse nome combina com ela, ela tem cara de Natasha – Sorri, essas palavras continuaram no meu pensamento... Nem notara a presença de Susy, na verdade, notei quando percebi que meu sorriso despontava mais do que eu queria nos meus lábios.

- Acorda! Estou falando com você – Disse ela.
- Desculpa, o que disse?
- Disse que podíamos fugir para o seu “apê”, agora sem o compromisso de patrão e empregado, entende? – Fitou-me da cabeça aos pés, mordeu os lábios.
- Não é uma boa hora, pra ser sincera, não quero estar com ninguém nesse momento – Disfarcei, olhei novamente em direção a Natasha. Pronto agora vou ficar querendo repetir o nome dela o tempo todo... Natasha, Natasha, Natasha...
- Você disse algo bem parecido na quinta-feira, mas, nós ficamos – insistiu.
- Dá licença, vou tomar água – Disse fugindo daquele olhar, logo saí de perto dela. Mulher Demônio, né? Dá medo.

Guga parou-me ainda na porta.
- Não consigo! – Disse.
- Não consegue o que? – Eu estava literalmente de saco cheio daquela cara de babaca que ele estava exibindo naquele dia.
- Falar com ela – Pôs a mão no meu ombro – Quebra o galho Cris, fala que eu estou querendo ficar com ela, você é boa nisso... Eu estou sem assunto – olhou-me com tristeza – Por favor – Disse com aquela cara de cachorro sem dono.

Pow! Cheio de dedos só para falar com uma menina? Será que o que aconteceu ontem acabou de vez com a sua alto estima? Acabei cedendo as lamentações de Guga,  detesto ouvir frases repetitivas, na verdade, sem hipocrisia, pra vocês eu conto... Eu queria mesmo falar com Natasha. Respirei fundo. Aproximei-me...

A menina estava sentada na varanda, não havia muitas pessoas naquela parte da casa, todos preferiam ficar próximos a piscina e a churrasqueira, era lá também que o som estava alto... Amanda havia deixado-a para pegar cerveja. Porque minhas mãos estavam suando frio? Era só uma menina. Ela estava de costas pra mim, toquei levemente o seu ombro, ela virou-se...

-  Oi – Disse confusa... E... Tímida? Acho que sim, quanto eu vi aqueles olhos mais de perto... Senti um nó na garganta horrível.
- Oi – Disse, logo olhou-me curiosa.

Ei! Eu estava completamente constrangida diante dela, tanto quanto Guga... Fiquei sem palavras. Com cara de babaca? Será que isso pega? Ela não devia ter me deixado daquele jeito, acabamos de nos conhecer.

- Bom...Posso me sentar um minuto? – Continuei receosa, boca seca... Nervosa.
- Claro – Disse receptiva.
- Bom... – Puxei uma cadeira... Sentei-me quase ao seu lado.
- Você já disse isso – Fitou-me sorridente.
- É que...
- É que... – Sorriu novamente.

Seu sorriso era encantador, tinha uma luz que não se pode comparar com nenhuma outra, era algo extremamente angelical, e... Sedutor! Nossa! Como aquele sorriso combinava com aquele rostinho de anjo.

- É que... O meu primo... – Gaguejei, será que era porque eu não queria falar do Guga? E aqueles olhos... O que tinha naqueles olhos que me deixava tão desprotegida? Nesse instante, olhei pra trás...
- Não acredito, Cris! – Disse aborrecida – Você vai cantar a minha amiga, é sério? – Minha irmãzinha apoiou a bebida na mesa, cruzou os braços e bateu o pé... Ela sempre faz isso quando está aborrecida. Menina mimada, sabem?
- Calma aí Amanda! Não estou cantando ninguém – Disse também aborrecida, logo levantei-me, não deu tempo nem de esquentar a cadeira.
- Vamos Naty – Puxou a menina – Vamos beber a nossa cerveja em outro lugar – Disse.

Naquele momento, senti vontade de esganar a minha irmã. Porque ela tinha que levar a menina embora dali? Mas que metida! Não demorou nem dois minutos para o Guga vir até mim... Pronto, já veio encher a minha paciência – Pensei.

- Falou com ela? – Disse ansioso.
- Não deu, a Amanda achou que eu tivesse dando em cima dela.
- E estava? – Disse aborrecido.
- Não! Claro que não. Vê se não me enche mais, tá legal? – Empurrei-o e saí.

A sala era o único lugar quieto da casa, fechei às janelas e encostei a porta para sufocar os ruídos que ainda teimavam em me atormentar. Liguei a tv. Hoje o dia estava bem... Complicado! Mas, será possível! – Pensei, enquanto olhava para Luiz que parou na minha frente com uma cara de... De... Trouxa!

- Cris – Disse – Você não vai acreditar!
- Não vou acreditar em que Luiz? – Disse entediada.
- Ainda bem que está sentada – Sorriu - A Susy é garota de programa.
- Eu sei, com duzentos reais você come ela – Continuei indiferente, fiz um gesto pra ele sair de frente da TV. Comecei a mudar de canais com o controle remoto...
- Ela me cobrou trezentos – Pensou por uns segundos – Saquei! Foi com ela que você estava na Quinta-feira – Sentou-se ao meu lado – Vamos, me conta mais detalhes...
- Será que pode me deixar em paz?! – Aumentei o volume da TV.
- Nossa! Que bicho te mordeu? – Olhou-me confuso – Que mau humor infernal.
- Putz! Quero ficar sozinha, posso?
- Tchau – Disse e saiu apressado, bateu a porta ao fechá-la.

Afundei minhas costas no sofá... Nada parecia ter sentido para mim, Guga continuava o mesmo, enquanto uma nuvem negra rondava a minha cabeça, o barulho dos tiros, o cara morto sendo arrastado pelos pés, Guga saindo daquele barraco... Pra piorar ainda mais o meu estado de espírito, meu irmão queria dormir com a garota que eu transei, e eu estava completamente encantada por Natasha, a garota que meu primo queria ficar. Esse mundo está ficando louco mesmo, ou sou eu quem estou ultrapassada? Balancei a cabeça no sentido negativo... Fechei os olhos... Aspirei o ar que perpetuava o ambiente, senti um perfume gostoso circular, olhei para trás...

- Ora, ora... Fugindo do tumulto? – Disse aproximando-se – Posso sentar?
- Claro – Olhei-a desconcertada – Ah! Só para constar, eu não estava te cantando.
- Eu sei – Sorriu – Estava tentando falar sobre o seu primo.
- Como sabe?
- Ele veio falar comigo, e me desculpa, mas... Ele é um idiota – Disse com um sorriso tímido no canto dos lábios. Fitei-a mais de perto...
- Não se importa por eu ser...
- Porque me importaria? Você não está me cantando, está? – Sorriu, um sorriso digno de Natasha, sua face iluminava quando ela sorria daquele jeito, seus olhos se fechavam um pouco, e... Era encantador.

Natasha parecia ser divertida, seu bom humor conseguiu fazer-me esquecer a nuvem negra que rondava a minha cabeça.

- É, não estou mesmo – Sorri também, um sorriso tímido, mas, já era alguma coisa – De onde conhece Amanda? – Perceberam que eu queria puxar conversa, né? Que bom.
- Nos conhecemos na faculdade, comecei a duas semanas no curso de cinema, ela tem me ajudado bastante, estou um pouco perdida.
- Já trabalha com cinema?
- Não, na verdade não gosto muito de falar do meu trabalho, é algo que faço só para me dar prazer, é um hobby, sem fins lucrativos mesmo – Disse.
- Estranho não gostar de falar do trabalho, não é algo ilícito, é? – Que besta! Ela disse sem fins lucrativos – Pensei - Eu tô só brincando – Completei.
- Não é nada ilícito, fique tranquila – Disse animada.
- Você não parece ser infantil como as outras amigas da Amanda – Mais uma mancada, putz! De onde veio essa pergunta? Sempre segui a seguinte opinião: “não tem o que dizer, fica quieto”. Então, porque eu não calava a boca?
- Dezenove – Disse
- O que?
- Tenho dezenove anos... Deixa eu ver... – Pensou por uns segundos - Ah sim, moro com meus pais ainda, tenho um cachorro de estimação, mas, queria mesmo uma cobra... – Sorriu – Brincadeira – Disse – Minha mãe me mataria se eu levasse uma cobra para dentro de casa.
- Você está falando sério? É muito estranho alguém ter uma cobra como bicho de estimação – Balancei a cabeça, logo sorri – Isso só pode ser uma piada, não é?
- Não é uma piada, uma vez, viajei para o Maranhão e conheci uma amiga de uma prima minha que tinha uma cobra de estimação. Gostei da idéia, achei... Extravagante – Sorriu, deve ter sorrido da minha cara de espanto - Mas... E você?
- Não tenho vontade de criar cobras, se quer saber.
- Eu sei – Ela não parava de rir, será que era a cerveja, ou a companhia literalmente hilariante?  – Quantos anos tem?
- Eu? Bom... Eu tenho vinte cinco anos, não moro com os meus pais, tenho cachorro, papagaio e um gato.
- Tudo isso no apartamento?
- Como sabe que moro em apartamento? – Disse curiosa.
- Sua irmã disse, e ela falou também que o cachorro, o gato e o papagaio são da sua mãe.
- São da família.

Nós rimos. Deu pra perceber que a menina tinha um humor sofisticado.

- Acho que vou voltar lá pra fora – Disse – Vim só pegar uma cerveja – Mostrou-me duas latas de bebida - Se não, daqui a pouco sua irmã entra por aquela porta, e diz que você está me cantando, ou pior, que está me violentando.
- Fique tranquila, eu não te cantaria.
- Por quê? Sou tão feia assim? – Disse extrovertida.
- Feia? Jamais! – Sorri também – Você iria gostar se eu te cantasse?
- Não, mas, gostei de conversar com você – Levantou-se, olhou para as suas mãos ocupadas, piscou o olho e saiu, aquilo havia sido um “tchau”?

Ganhei o dia! Conversar com aquele monumento de mulher, fora a coisa mais prazerosa que pude usufruir nos últimos tempos, Guga tinha razão, um avião como este não se pode ver todos os dias. Não consegui mais ficar sozinha na sala, preferi enfrentar o barulho lá fora mesmo. Fiquei olhando Natasha de longe, de vez em quando ela até desviava o olhar em minha direção, sempre com a certeza de que eu estava observando-a, na maioria das vezes ela mexia no cabelo, e exibia um sorriso saliente no canto dos lábios, esse tipo de provocação me deixa louca... Nossa! Ela estava me deixando louca... Às horas foram passando, e eu ainda estava ali, sem conseguir piscar os olhos diante dela, na verdade, eu nem vi às horas passarem. Olhei pro relógio lá pelas dez da noite, quando Natasha começou a dançar com o Guga. Ao segundo olhar, percebi que o clima entre eles estava mudando... Tenho que confessar... Bastou isso para tudo voltar ao normal dentro de mim, a mesma nuvem negra sobre a minha cabeça, só que diferente, mais pesada e extensa, o beijo que os vi trocarem, apenas confirmou o que já deixava sinais. Não pensei duas vezes, apressei os passos, dei a volta na piscina... Destranquei o portão com agilidade, e já estava dando a partida no carro quando alguém bateu no vidro. Eu nem pensei no que iriam achar por eu ter saído daquele jeito da festa. Eu estava confusa demais para raciocinar.

- Não vai se despedir, mal educada? – Disse séria.
- Mudou de idéia muito rápido, pensei ter ouvido dizer que ele é um idiota – Disse irônica.
- Não sei por que está tão magoada, você disse que não me cantaria.
- Claro, você disse que não iria gostar de ser cantada por mim.
- Eu não sirvo pra você Cris, desencana – Continuou séria.
- Porque ria quando sabia que eu estava te olhando? – Disse ainda mais confusa.
- Porque nunca ninguém me olhou como você - Nesse instante eu vi seus olhos mais vivos, mais negros, mais brilhantes... Olhos de Natasha, só ela tinha aquele olhar, um olhar que me deixava, sem ter o que pensar.
- Chega desse papo – Liguei o carro – Pra mim, essa festa já deu o que tinha que dar - Pisei fundo no acelerador, hesitei em olhar pra trás, mas não resisti – É muito linda! – Pensei. Logo o meu desapontamento fora maior do que aquele pensamento... Tentei desvincular-me da imagem de Natasha a noite inteira, noite essa que passei em claro, bom gente... Uma xícara de café não tem todo esse poder, mas, Natasha certamente tinha.  Nessa altura, ela poderia estar na cama do meu primo, ta certo que ela não parece ser esse tipo de garota, que dorme com o cara no primeiro encontro, mas, eu estava tão deprimida, que podia vê-los naquelas circunstâncias. Será que ela podia mesmo estar na cama dele? Afundei minha cabeça no travesseiro... Isso era ridículo, não era? Podem dizer, eu agüento... Eu tinha prometido que depois de Aline, não me envolveria sentimentalmente com mais ninguém, muito menos com uma... Uma... Pirralha de dezenove anos? Mas que loucura! Como posso estar pensando em sentimento? Acabei de conhecer a menina... Logo que consegui mandar aquelas imaginações embora, veio em minha cabeça novamente as lembranças daquele homem morto na favela, o ocorrido com Guga... Senti vontade de vomitar novamente, um gosto amargo na boca... Sequer discutimos esse assunto hoje. Parece que acabamos de acordar de um pesadelo, isso será sempre uma sombra em nossas vidas, não dá para sermos indiferentes ao que vivemos, toda vez que eu olhar uma favela como aquela, lembrarei de tudo, do sofrimento daquelas pessoas que abrem suas janelas, e dão de cara com aquele mundo de descaso e insegurança, e também daqueles que não conseguem se livrar da escravidão do vício das drogas, e morrem por isso, ou são aprisionados para sempre naquele sofrimento, espero que Guga não seja mais um...



Matéria de Faculdade


Quando cheguei na Faculdade, estava aquele rebuliço, fomos divididos em grupos, e tínhamos que conseguir uma matéria, tema livre... Discutimos o assunto, e chegamos à conclusão de que queríamos fazer um trabalho maduro, não só um trabalho para ganhar nota, e sim algo que pudesse representar crescimento, tanto em nós, futuros jornalistas formadores de opiniões e cidadãos, mas também para as pessoas que veriam e comentariam nosso trabalho, queríamos chocar, deixar um marco em nossa passagem pela faculdade, e sem falar que a melhor matéria teria um destaque em um dos jornais locais mais lidos da cidade, o Folha Branca, um jornal sério, e o sonho de qualquer jornalista, os mais consagrados, ou já haviam passado por lá, ou simplesmente estavam lá, e se não bastasse isso, a melhor matéria passaria na tv. Podem imaginar como isso seria significativo? Ou melhor, o pontapé inicial da carreira de qualquer um de nós. Pensar nessa possibilidade renovou minhas expectativas, ao menos o lado profissional tinha chances de se dar bem, concordam comigo que minha vida até o dado momento está uma merda? Desculpem a “expressão merda”. Sabia que vocês iriam me compreender. Bom... Na primeira reunião estávamos os quatro, eu, Vitor que era o mais falante de todos, magro, alto, cabelos ralos, já despontando uma pequena calvície, apesar dos seus vinte quatro anos, Janice, uma menina sensacional, alegre e espontânea, apenas não queria entrar em atrito com ninguém, o que decidíssemos, para ela estaria bom, embora nenhum de nós tivesse a mínima idéia do que iríamos fazer. Janice tinha uma face brilhante e rosada, e estava bem acima do seu peso, mas, isso não a incomodava, estava sempre bem humorada, diferente de outras pessoas que conheço, que simplesmente não se aceitam e por isso estão sempre insatisfeitas com tudo. Esse povo parece que não sabe viver... Bom, Anselmo era o mais cabeça dura de nós quatro, ele tem trinta e dois anos, cabelos grisalhos, magro, alto... Gênio difícil, autoritário e inflexível. Barba sempre bem feita, roupas sempre alinhadas, tinha até uma pasta de couro de Jacaré legítimo.

- E então meu povo? – Disse Vitor fazendo a mesa de tambor.
- Pára de bater na mesa... – Ergueu às sobrancelhas irritado - Acho que devemos fazer a matéria sobre animais em extinção – Disse Anselmo convicto.

Foi inevitável. Dei uma nova olhada na sua pasta. Sorri por entre os dentes.

- Não acho uma boa idéia – Disse.
- O que vocês decidirem, pra mim, está bom – Disse Janice, como já era de se esperar.
- Podíamos fazer uma matéria sobre esportes radicais, ou sobre a “night”... Mulheres, os bares mais populares... Baladas! Boates... – Disse Vitor empolgado.
-     Vocês são muito teimosos – Disse Anselmo aborrecido – Vamos falar sobre os animais em extinção, atingiremos o alvo certo, mulheres e crianças, é sucesso garantido, podem apostar – Concluiu empolgado.
- Nós temos que bolar algo mais chocante – Disse pensativa – Algo maior, que façam as pessoas pensarem, que influencie nossas vidas de alguma forma... Tá certo que falar de animais em extinção é uma boa idéia, é um absurdo mesmo não preservar os animais... Esportes radicais também daria uma matéria interessante, mas... Acho que podemos ousar mais.
- Então o que sugere, dona sabe tudo? – Disse Anselmo sarcástico.
- Penso que... – Lembrei-me de tudo o que aconteceu comigo e com Guga na Rocinha... Senti um frio na barriga, contudo, meus pensamentos foram mais além do que aquele terror vivido, pensei nas conseqüências, no entanto, pensei mais ainda nos benefícios - Podemos subir o morro – Disse - Mostrar a realidade do subúrbio, o crime e seus escravos, a falta de oportunidade e seus herdeiros, a miséria em um todo, e a hipocrisia... Gente, somos futuros jornalistas, naturalmente formadores de opiniões... Hoje nós vivemos numa guerra urbana e quanto mais pudermos mostrar isso, é como arregaçar as mangas e ir a luta...  Podemos conseguir uma boa matéria, e por tabela vamos jogar mais uma vez na cara da sociedade e dos nossos governantes esse caos em que vivemos.
- Belas palavras Cris – Disse Vitor – Tô fora! Não vou me arriscar dessa maneira.

Se eu tivesse pensado como Vitor, não teria tirado Guga de lá.
- Ninguém vai querer se meter dentro da favela, menina! – Concluiu Anselmo – Nem estamos ganhando pra isso..
- Que raio de jornalistas serão vocês? Se eu não puder usar a minha profissão para retratar assuntos que atinjam diretamente a sociedade, eu não quero me formar... Não tô ralando na faculdade pra cobrir a coluna de esportes – Disse inconformada com a covardia deles. 
- Concordo! – Disse Janice que estava pensativa até o momento – Eu vou, Cris! Pode ser uma experiência legal.

Confesso ter me surpreendido com Janice. Nunca sabemos mesmo o que esperar de uma pessoa.
- Então... – Anselmo continuou inflexível – Vocês duas fazem a matéria das favelas, eu e Vitor, cobrimos os animais em extinção.
- Somos um grupo, temos que chegar a um consenso – Fitei-o aborrecida, cara individualista.
- Espera! – Disse Vitor enquanto descia da mesa em que estava sentado - Prefiro a favela, posso editar as informações que vocês colherem – Respirou fundo – Admito, sou um covarde!  - Disse – Favelas têm tiroteios o tempo todo... Polícia querendo invadir, facções rivais tentando tomar o controle da venda de drogas... Agora tem até milícia tentando tomar o poder – Respirou fundo novamente – Vou me sentir melhor cobrindo a coluna de esportes.
- Covardes vivem mais – Pensei, enquanto lembrava do meu ato insano de falso heroísmo, até agora questiono-me de onde viera tanta coragem para ir direto na “boca”, na verdade, estava tão absorvida na preocupação com Guga, que ceguei-me. Duvido que vocês não teriam feito o mesmo, Guga é como um irmão pra mim. E também, gosto não se discute, eu pelo menos não iria chegar perto da coluna de esportes... Gosto do jornalismo investigativo.

Como Anselmo não nos deu outra alternativa, decidimos que nós três faríamos a matéria na favela, e ele, se propôs a fazer sozinho sua cobertura sobre animais em extinção. Eu disse individualista, não disse?

O primeiro passo seria escolher o local para as pesquisas, não cogitei a possibilidade de ser na Rocinha, lá seria o último lugar onde eu gostaria de ir, pelo menos por enquanto. Trauma, sabe?

Vocês devem estar se perguntando: e a Natasha? Não pensou nela? Pensei... Cada vez que eu fechei meus olhos, veio a fisionomia daquela menina na minha frente... Posso afirmar, que mesmo em meio a toda essa discussão sobre “uma boa matéria”, fechei os olhos muitas vezes, no entanto, tentei buscar forças para concentrar-me em algo que não tivesse ligado a ela.



Surpresas, são surpresas


Já passava das oito da noite quando cheguei na casa da minha mãe, resolvi no caminho mesmo que hoje faria uma visita, muito tempo não fazia isso, na verdade, eu queria estar perto das pessoas que amo para exorcizar certos fantasmas que me rondam, sempre pensei desta forma. Carinho de papai e mamãe nunca são demais. Péssima idéia, Por quê? Simples, Amanda estava lá com Natasha. No mesmo instante, tive vontade de dar meia volta e ir embora, ir ou não ir? Fiquei naquela indecisão... Mas, logo pensei que minha mãe se zangaria, se zangaria? Na verdade... Acho que vocês perceberam que isso era uma desculpa para não admitir que aquela garota me fascinava tanto, que eu queria ao menos poder olhá-la, tá bom, admito, sou um fracasso para desculpas. Fiquei parada na entrada da porta da sala por alguns segundos, às luzes estavam apagadas, o ambiente ficara acolhedor com a claridade que vinha da televisão...  Elas nem se deram conta de que eu estava ali. Duas batidinhas na porta pra fazer barulho, nesse momento as duas desviaram a atenção para mim... Amanda sorriu, Natasha fiou séria, digo, continuou séria.

- Olá! – Cumprimentei-as.
- Oi Cris – Disse ela quase num sussurro. Também estava surpresa ao me ver.
- Senta aí, mana – Disse – O filme é bem legal.

Sentei-me ao lado de Natasha, acendi um cigarro, no entanto, apaguei-o antes que Amanda reclamasse. Conhecendo minha maninha como eu conhecia... Ela era chata, digo, mimada... Ah! Tem diferença?

- Não foi à faculdade? – Disse ela com um risinho debochado no canto dos lábios ao ver que eu apaguei o cigarro.
- Saí mais cedo... Prova, sabe? – Olhei para Natasha de rabo de olho.

Amanda levantou-se...
- Vou pegar pipoca e refrigerante – Disse e saiu. Três segundos de silêncio...
- Você foi muito grosseira ontem – Disse a menina aproveitando a ausência de minha irmã – Infantil também – Concluiu.
- Você foi muito dissimulada – Dei uma olhada em direção ao corredor, pra ver se Amanda não estaria por ali.
- O Que? – Disse indignada.
- Dissimulada sim, uma hora diz que o Guga é um idiota – Disse inevitavelmente com rancor nos olhos – Em outra, está com a língua dentro da boca dele – Virei-me de fronte para a menina, a pouca luz no ambiente não me deixava ver seus olhos com nitidez, no entanto, quando um fio de luz clareava o rosto dela, parecia o flash de uma máquina fotográfica, os gestos que eu conseguia ver, ficavam registrados na minha memória como uma fotografia num álbum, os álbuns têm esse poder, conseguem parar o tempo, fotografe uma folha caindo de uma árvore, e ela jamais tocará o chão, consequentemente nunca morrerá, e era exatamente o que eu queria fazer, parar o tempo, meus olhos jamais se cansariam de vê-la.
- Está sendo grosseira novamente, e estúpida também – Disse ainda mais aborrecida.
- Natasha, esse papo não vai nos levar a lugar algum, eu te conheci ontem, e o que você faz da sua vida é problema seu, só que... Esquece.
- Só que... Você queria sair comigo, e eu sai com o seu primo – Disse irônica.
- Pretensão é o seu forte?- Disse sarcástica.
- Não – Fitou-me debochada – Sou realista, só está chateada porque te tratei como trato todas às pessoas, sem diferenças, mas, talvez, você não esteja acostumada com isso, ficou frustrada, achou que eu estava te dando condições pra me cantar, só que não estava Cris, não mesmo, e se quer saber, seu primo é bem interessante.
Senti o sangue subir para a minha cabeça.
- Você realmente é muito pretensiosa – Sorri irônica – Mas, tem razão, eu queria ter ficado contigo mesmo, senti muita vontade de trepar com você, mas é só isso, você é o tipo de mulher que eu gostaria de comer, só de comer – Frisei bastante a última frase. Acho que ela não gostou muito, também, né? Nenhuma mulher iria gostar de ouvir isso.

Confesso que... Minhas palavras doeram mais em mim, do que nela. Pela primeira vez em minha vida levei um tapa na cara de alguém, eu não disse que doeu mais em mim? Bom...  Ainda assim, não consegui sentir raiva de Natasha, o que realmente estava ferindo-me por dentro, foi tê-la visto aos beijos com Guga, e também ter ouvido dos lábios dela palavras tão duras. Queria irritá-la, e não conseguia sufocar o desejo que exalava dos meus poros quando eu olhava pra ela, num impulso, segurei seus braços, e num impulso ainda maior, ou vontade, sei lá! Era mais forte do que eu... Dei-lhe um beijo na boca, senti sua língua macia tocar os meus lábios numa tentativa fracassada de dizer algo, a minha logo entrou dentro da sua boca, puxei-a um pouco mais para junto de mim, não larguei seus braços... Seus seios rígidos encostaram nos meus, me fazendo tremer de desejo, fiquei molhada na hora... Aos poucos seus lábios cansaram da resistência, e sua língua ousou tocar na minha... Foi coisa de menos de um minuto, sabem? Mas... Eu não trocaria aquele “quase um minuto” por nada deste mundo. Nunca em minha vida tinha sido tão ousada, e fiquei perplexa por não ter sentido nenhum remorso por esse ato tão inusitado, seus lábios eram exatamente como imaginei, deliciosos.

- Sua idiota! – Disse com aquele olhar furioso.
- Acho que você gosta de beijar idiotas – Ainda podia sentir o seu hálito no meu rosto - Sua boca é muito gostosa – Sussurrei, logo dei-lhe um outro beijo de leve nos lábios. Aqueles beijos roubados, sabem?
- Sua idiota! – Repetiu.
- Você já disse isso – Fitei-a com ironia, e completamente maravilhada com o gosto daquela boca.
- Estou namorando o seu primo – Disse ela num impulso.
- Namorando? Pensei que... – Soltei-lhe os braços.

Assim que me levantei, Guga entrou na sala abraçado com Amanda. Meu santo é forte, viram?  Ainda bem que eu já tinha soltado a... Namorada dele? Foi isso o que eu ouvi? Ela disse isso mesmo?

- Fala aê Cris!  - Acendeu a luz da sala, em seguida deu-me um tapinha cordial nas costas, logo um beijo em Natasha. Será que eu estava pagando todos os meus pecados de uma vez só? Que injustiça! – Pensei. Agora pude ver os olhos da menina, aqueles lindos olhos negros estavam carregados de receios.
Fiquei sem palavras, foi uma péssima surpresa.
- Oi Guga – Cumprimentei-o encabulada – Já estou... De saída – Completei meio desconcertada.
- Acabei de chegar! Vamos tomar uma cerveja – Puxou-me pelo braço...
- Não posso – Evitei fitá-lo nos olhos – Não posso mesmo – Repeti quase sem forças, ainda podia sentir o gosto dos lábios de Natasha na minha boca, agora, além de doce estava com sabor de proibido também.
- Cris, a mamãe está te esperando pro jantar – Disse Amanda – Ela saiu com o papai, mas já está chegando, e eu falei que você estava aqui.
- É... Mas... Tenho um compromisso urgente... Não... Posso desmarcar – Disse insegura, com vontade de sair correndo dali... Já sentiram essa vontade? É algo extremamente desconfortável, vai subindo um desespero pelo corpo todo, a gente não consegue ficar parado no mesmo lugar, fica mexendo nas coisas, andando de um lado pro outro...
Guga sorriu.
- Aposto que esse compromisso tem nome, Susy, não é? – Disse animado, um novo tapinha nas minhas costas.
- Faculdade – Disse enquanto tirava um cigarro da carteira, olhei para Amanda, desisti de acendê-lo – É a única coisa boa que tenho na vida.
- Credo Cris! – Fitou-me Amanda, reprovando meu ar de desânimo – A sua família não é nada pra você? Devia esquecer logo essa Aline.
- Aline? – Fitei-a confusa – Que Aline? – Pensei por uns segundos - Ah! Aline...

Guga sorriu novamente.
- Não sabia que tinha outra mulher na jogada. Não vai me falar quem é? – Roubou o cigarro que estava na minha mão, logo ficou fingindo que iria acendê-lo, ele gostava de irritar minha irmã. Pareciam duas crianças.
- Você não vai gostar de saber – Pensei - Não tem mulher nenhuma – Olhei para Natasha – Só estou... Cansada mesmo – Disse – Meu Deus! Porque ela tem que ser tão... Linda? – Pensei.
- Pois devia ter uma mulher – Disse – Assim iria parar de esquentar tanto a cabeça com faculdade – Tornou a beijar Natasha, um beijo rápido nos lábios, e pensar que eu tinha acabado de sentir o gosto bom daqueles lábios... Não! Eu juro que não joguei pedra na cruz! – Minha namorada não é linda? – Continuou exibido.
- Linda! – Pensei – Bonitinha – Disse, na verdade, nem sei se eu disse. Eu estava confusa, droga! Perdida, alienada... Não sabia mais distinguir o que eu disse do que eu pensei.

Não jantei com eles, fiquei rodando de carro pela cidade, afim de digerir às últimas notícias...Já passava da meia noite quando cheguei em casa, larguei-me no sofá e liguei a TV... “...O tráfico de drogas na favela da Roc...“ – Mudei de canal – “...Está sendo transferido para a penitenciaria de segurança máxima Bangu 1...” – Mão no controle remoto de novo – “...Mais uma vítima de bala perdida...” – Desisto! – Gritei! A pilha do controle remoto devia estar fraca... Levantei-me e desliguei na própria TV, depois fui tomar banho pra tentar dormir – Que tédio! É assim que quer ser jornalista, D. Cristina? Não suporta ver uma reportagem na TV... Minha monografia?  “Jornalismo investigativo...” – Pensei.




A semana seguiu péssima para mim... Na faculdade, não  tiramos o projeto da gaveta, todos esperavam por uma definição de onde faríamos a matéria, eu na verdade, estava morrendo de medo do que iríamos encontrar nas favelas, já disse a vocês que estou traumatizada? Então, desculpa.... No trabalho, meu rendimento caíra bastante, pra ser mais exata, meu rendimento há tempos não era mais o mesmo.  Poxa! Uma porrada quase todo dia! Ninguém agüenta... Meu pai chamou-me para conversarmos duas vezes, e eu disse sempre a mesma coisa, que estava muito pressionada na faculdade, ainda não tinha me acostumado com a falta de Aline... Isso é mentira, mas, ele não precisa saber... E também que eu estava doente, doente? Dores profundas no coração e na alma...

Fiquei quase duas semanas  sem atender os telefonemas de Guga, claro! Ele só queria falar sobre Natasha por isso achei melhor evitá-lo, para o meu próprio bem, e também, para o bem da nossa amizade... Até na casa dos meus pais eu não conseguia ir, eles é que sempre vinham almoçar ou jantar comigo. Via Luís na faculdade, mas, não tinha coragem de contar-lhe o que estava acontecendo, nem eu mesma sabia, apenas era marcante a lembrança de Natasha, e me pergunto várias vezes ao dia o porquê de estar vivendo isso, há vi duas vezes, havia uma distância impressionante entre nós, éramos diferentes, ela namorava o  meu primo, me dera um tapa na cara, e eu roubei-lhe um beijo para afrontá-la ainda mais, bom... Que beijo aquele! Mas... Nada justificava! Minha vida havia parado, ela não saia da minha cabeça... Aline? Sei lá, espero que esteja muito feliz.



Era Sábado a noite, e eu estava em casa sozinha como sempre, a campainha tocou duas vezes,  demorei para atender, tinha acabado de sair do banho, coloquei um roupão às pressas... Abri a porta.

- Oi Cris! – Beijou-me o rosto – Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé... É assim mesmo que se diz?– Sorriu – Conhece a Natasha, não é? – Disse com tom de brincadeira.
- Claro – Disse desconcertada enquanto cumprimentava-a.
- Preciso de um favor teu, prima – Falou no meu ouvido.
- Favor? – olhei-o confusa.

Guga fez um gesto para que fossemos até a cozinha.
- Já volto gata – Disse.
- Precisa de dinheiro? –Logo abri a geladeira e servi-me de um copo d`água, não preciso nem dizer que só de olhar pra menina, meu coração disparou, minha boca ficou seca e minhas pernas ficaram trêmulas, né?
- Não! Não é dinheiro agora – Baixou o tom de voz – Me conhecendo como me conhece, não imagina?
- Não mesmo – Disse ainda mais confusa.
- Quero...  Ver vocês transando – Disse sem rodeios.

Engasguei com a água que bebia.
- O que? – Fitei-o assustada – Ela é sua namorada!
- Sou tarado por isso, você sabe, só de pensar, eu fico...
- Pensei que gostasse dela – Disse quase indignada.
- Gosto! – Disse – Nunca gostei de nenhuma mulher como gosto dela.
- Ela sabe o que você está me pedindo?
- Deu o maior trabalho convencê-la a fazer isso – Colocou água no copo – Levei a Susy no Motel com a gente, e não rolou nada.
- Se não rolou com a Susy, porque acha que vai rolar comigo? – Disse confusa.
- Com você ela disse que faz – Sorriu – Que mulher Cris!
- Você é um pervertido – Disse furiosa – Não vou fazer isso, ela é sua namorada.
- Não estou te entendendo – Disse aborrecido – Qual o problema? Não vai ser a primeira vez que você transa com uma namorada minha, sempre gostei de ver, e você sabe disso.
- Naquela época, eu era tão cabeça de vento quanto você – Fitei-o pensativa – Depois que conheci Aline às coisas mudaram. Poxa! – Passei às mãos pelos cabelos, estava confusa - De qualquer forma, eu só topava dormir com as suas namoradas porque sabia que delas você nunca gostou de verdade, mas... Da Natasha... – Uns segundos de silêncio – Eu gosto – Pensei – Você gosta – Disse.
- Eu sei... Por isso que... Quero te pedir pra não beijar ela na boca – Disse envergonhado.
- O que? – Olhei-o desacreditada – Está dizendo que eu posso comer a sua mulher, mas não posso beijá-la na boca? Eu entendi bem?
- É estranho, eu sei... Mas, pra mim, tem que ser assim. Droga! O que há com você Cris? Ela topou, Porque está pondo tanta dificuldade?

Meus pensamentos estavam totalmente... Confusos... Não posso deixar de admitir que era uma proposta tentadora, mas... Como eu poderia aceitar uma proposta daquelas? Natasha perpetuava os meus sonhos, não saia da minha cabeça dia e noite, eu queria tocá-la sim, acho que eu queria isso mais que tudo na vida, no entanto, como seria depois que acabasse? Como a menina me olharia? Como ficaria minha cabeça? E o meu coração? Só eu sabia o que estava dentro dele, e posso garantir que não era pouca coisa. Continuei muda e pensativa.

- Vem comigo – Puxou-me até a sala. Ele não queria me dar tempo de pensar.

Natasha estava linda sentada no sofá. Sua fisionomia envergonhada  contrastava com a fisionomia ansiosa de Guga. Sentei-me ao seu lado, também constrangida, Guga voltou para a cozinha com a desculpa de pegar algo para nós bebermos, nós sabíamos que ele queria nos deixar a sós.

- Como você pode ser conivente com uma loucura dessas? – Fitei-a nos olhos.
- Sei que parece loucura Cris, mas... Ele quer tanto, está me perturbando com isso há dias, na verdade, nem sei se terei coragem, e se você não estiver afim, não tem problema, é bom que ele desiste dessa história – Disse, fugindo do meu olhar incisivo.
- Você sabe que eu quero – Disse num impulso... Passei a mão de leve no seu rosto – Só não queria que fosse nessas condições.
- Só estou fazendo isso por ele... – Esquivou-se do meu carinho.
- Mentira! Você quer uma desculpa...
- Não fantasia Cris – Disse aborrecida – Ainda estou furiosa com aquele beijo que você me deu.
- Se um beijo te deixou tão furiosa, imagina se nós fizermos...
- Resolveram? – Disse Guga antes que eu pudesse terminar minha frase.

Olhei para Natasha, seus olhos iluminavam a minha vida, eu sabia que poderia me arrepender profundamente se compactuasse com aquela história, mas, era só olhar para ela, e meu coração já não sabia como pulsar, não dava para dizer não, na verdade, eu jamais conseguiria dizer não para Natasha, ela é o tipo de mulher que só precisa de um olhar para nos jogar literalmente aos seus pés... É! Realmente... Ela me tem aos seus pés...

- Resolvemos – Disse segura, a menina olhou-me um pouco desacreditada, ou decepcionada, eu realmente não sei – Só uma objeção – Frisei a última frase.
- Qual? – Disse Guga ansioso.
- Você só vai olhar como sempre fez  – Disse – Não tô afim de ver ninguém trepando.
- Caraca Cris! – Agora ela olhou-me furiosa – Precisa usar palavras tão vulgares? Isso me irrita, sabia?
- Tá certo – Disse Guga sorrindo, encerrando a discussão e achando graça da irritabilidade de Natasha – Só olho então, nem encosto na minha namorada – Concluiu.

Dei mais uma olhada nos olhos dela... Senti raiva por ela ter concordado com uma coisa dessas, no fundo, bem lá no fundo, eu nutria a esperança de que um dia fizéssemos amor, mas, não com platéia, não para agradar... O namorado dela – Pensei com um nó na garganta. Levantei-me, puxei a menina pelas mãos até o quarto... No primeiro momento eu senti repulsa por ela, no entanto, no minuto seguinte, meu coração disparou... Ela me olhou assustada, não dei tempo dela dizer nada... Era uma mistura de raiva com desejo acumulado... Segurei Natasha pela cintura, beijei sua nuca, meus lábios desceram pelo seu pescoço... Deslizei minhas mãos pelo seu corpo... Eu já estava sem ar, ela não precisou nem encostar suas mãos em mim, para deixar-me sem ar... Coloquei a mão por baixo da sua blusa, ela conteve meu toque, me olhou e balançou a cabeça no sentido negativo... O sangue ferveu... Comprimi-a na parede, segurei seus pulsos acima de sua cabeça... Coloquei minha coxa no meio das suas pernas... Vi seus olhos se fecharem, logo ela gemeu no meu ouvido...  Soltei seus braços e segurei seu queixo com uma das mãos, a outra passeava pelas suas nádegas, apertando-as com desejo, desnudando-a ... Tapei seus lábios com as mãos e devorei seu pescoço, tapei sua boca porque tive medo de não resistir e beijá-la... A menina mordeu minha mão, e foi inevitável não deixar de soltá-la, não senti dor, senti mais desejo aflorando de dentro de mim... Senti sua respiração perto do meu ouvido, suas mãos laçadas envolta de mim, me puxando pela nuca  para que eu não desencostasse meus lábios do pescoço dela... Com as duas mãos livres, eu logo livrei-me da sua saia, depois passei os dedos por baixo da sua calcinha... Arranquei-a... Dei uma rápida olhada no seu corpo quase nu...  Coloquei novamente minha coxa no meio das suas pernas, senti um líquido quente escorrer, molhando a minha coxa... Respirei fundo... Eu não queria perder o controle...  Subi minha mão pela sua nuca, e deixei seus cabelos serem aprisionados pelos meus dedos, puxei-os até que minha boca alcançasse o seu ouvido,  primeiro passei minha língua envolta dele, depois...

- Você não vale nada – Sussurrei, logo senti seus pêlos se arrepiarem... Beijei seu queixo, passei a língua... Tirei sua blusa, e desabotoei seu sutiã... Seus seios eram lindos... Rosados, médios, rígidos... Senti algo escorrendo no meio das minhas pernas também... O calor que emanava dos nossos corpos, parecia queimar a nossa pele. Afastei-a da parede, caminhamos lentamente para a cama... Minhas mãos apertavam suas nádegas, e a puxavam para mim, para junto do meu corpo... Beijei novamente o seu queixo, depois o cantinho da sua boca... Natasha fitou os meus olhos, agarrou meu rosto com força e tentou beijar os meus lábios, não deixei, virei o rosto... Ela ficou brava, logo passou a língua macia e quente no meu pescoço, e depois cravou os dentes no mesmo.
-  Aiiii – Disse baixinho... Ela olhou-me, sorriu e mordeu mais forte. Deixou-me tonta com aquelas mordidas no meu pescoço.

A menina sentiu sua perna encostar na cama, e jogou o corpo para trás, caí por cima dela,  procurei seus seios, com as mãos, com a boca... Suguei com vontade... Minha língua passeava por eles, enquanto minhas mãos deslizavam pelo seu corpo à procura do seu sexo... Quando minhas mãos pousaram no meio das suas pernas, eu suguei seus seios com mais força, e ela gemeu mais alto...

- Tá toda molhada – Disse novamente no seu ouvido.
- Aproveita, não vai ter outra vez – Disse com a respiração entrecortada.

Coloquei as mãos por entre suas coxas... Acariciei seu sexo e ela deu um grito de prazer, sua respiração ofegava, logo meus dedos entraram sem resistência, na mesma hora, Natasha forçou a saída dos meus dedos de dentro dela,  puxou-me pelo roupão, desamarrou o mesmo... e me fez deitar no meio das suas pernas, ao sentir nossos corpos em atrito, não resisti e beijei-a com desejo, nos esfregamos freneticamente,  e o suor dos nossos corpos molhava o lençol bagunçado da cama... A menina disse no meu ouvido que iria gozar, parei o ritmo daquele contato, eu precisava sentir o gosto dela, desci e segurei seu quadril com as duas mãos, puxei-a pra mim, ela abriu mais as pernas e ficou me olhando com os dentes cravados nos seus lábios, e com os olhos saltando fogo...  Coloquei a minha língua no seu sexo, comecei a gozar antes dela, ela percebeu que eu estava gozando por tocar nela, inclinou a cabeça para trás e deixou aquela eclosão de sensações tomarem conta do seu corpo que arfava por aquele orgasmo, orgasmo intenso, demorado...  Aquele que arranca gemidos, gritos sufocados pela falta de ar nos pulmões, espasmos nas pernas... Deitei-me ao lado dela na cama... Passei a língua envolta dos meus lábios para degustar um pouco mais do sabor daquela mulher, e posso garantir, era deliciosa demais... Nunca tinha sentido um gosto tão bom na minha vida. Nesse instante, ela virou-se de lado, fitou meus olhos... Aqueles olhos negros, cheios de malícia...Puxei-a pela nuca num impulso e dei a ela o seu próprio gosto pra provar, a menina sugou os meus lábios com fervor... Quem disse que nós percebemos a presença de Guga? Só depois que a ficha foi caindo... Ele nem entrara no quarto, ficara parado na entrada da porta... Parecia uma estátua, acho que não acreditou muito no que aconteceu... Olhei pra ela novamente, ela olhou pra mim, baixamos os olhos... Recoloquei o roupão, mal consegui olhar para Guga, que não escondera a sua insatisfação ao ver que havíamos nos beijado,  e também, que o nosso contato havia sido bem maior do que os outros que tive com suas ex-namoradas, só para constar, foi a primeira vez que meu primo me vira sem roupa, das outras vezes eu apenas... Apenas... Tocava nas namoradas dele. Deu pra entender?  Senti-me uma canalha, ainda podia sentir minhas pernas trêmulas. Natasha era exatamente como havia idealizado em meus sonhos, fora a experiência mais extraordinária de toda minha vida - Ela é perfeita – Pensei.

O que aconteceria depois que tudo acabasse? Lembram dessa pergunta? Pois é... Nenhum de nós era mais o mesmo. Posso afirmar com toda certeza que eu pelo menos estava entrando em parafusos.

- Preciso de uma bebida – Disse Guga antes de ir para cozinha. Ele estava tonto, e arrisco dizer que não era de prazer pelo que viu.

Naquela altura, eu também queria mergulhar em uma garrafa de vodka, quem sabe não  resolveria todos os meus problemas, e também, se não resolvesse, me deixaria com uma dor de cabeça tão grande que ao menos me distrairia.

Natasha continuara quieta, não olhava-me nos olhos. Ergui sua face até que seus olhos encontrassem os meus.

- Como vou conseguir te esquecer agora? – Disse.
- Cris, eu nem sei o que dizer... Se ele não tivesse insistido tanto, você sabe que eu não teria feito.
- Tudo bem – Disse com nó na garganta – Não precisa ficar repetindo que fez porque ele quis... – Afaguei sua face – Mas, já que fez...Vai embora e acabou? É simples assim?
- Não tô afim de te  magoar, e...

Nem deixei que ela terminasse sua frase, abracei-a e beijei seus lábios com paixão, Natasha não se opôs,  alimentando ainda mais todo aquele sentimento que queimava dentro de mim.

- Posso te ligar? – Disse insegura.
- Deixa que eu te ligo Cris.