Luz

Niña

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CAPÍTULO 01: EU

 

Nasci numa manhã bela de Dezembro, 2ª quinzena começando, ar quente, com o sol já alto às 7:30. Foi em casa mesmo, como eram os partos nos lugares distantes de tudo...quase morri...mas penso que tinha uns deveres a cumprir, então decidi sobreviver. Chamaram-me Ana, simples como nossa vida. Pena que, pelo parto complicado, uma lesão se fez, deixando uma seqüela na minha córnea.

Passei a infância como toda criança simples que vive no interior...pé no chão...mergulhos no Rio...brincadeiras e brigas com meus irmãos (éramos 4...2 homens, 2 mulheres)...vida fácil e difícil quando tínhamos que comer angu salgado no almoço e doce no jantar, por causa do mês que teimava em continuar depois que o salário de Papai já tinha ido embora. As coisas ficaram melhores com o tempo.

Meus Pais...gente humilde, mas de almas essencialmente nobres...daquelas pessoas em cujo olhar se pode observar a limpidez que somente a dignidade traz ao Homem. Deram-me muito Amor e a sapiência de apreciar a generosidade com que nos brindam diariamente as coisas simples, que realmente importam.

Até a puberdade, meu problema de visão não incomodou muito...enxergava um pouco embaçado e precisei usar óculos de correção após os 10 anos...nada que prejudicasse minha graciosidade faceira de morena mestiça (desculpem a falta de modéstia!). Cabelos lisos e longos, pele morena, estatura mediana e peso dentro da tabela...mas acho que o melhor são os olhos, grandes e negros, bem como o sorriso, que fica entre o inocente e sapeca...bem, assim os meninos começaram a dizer quando cheguei aos 15, 16 anos!

Foi nessa época que um incidente fez com que a lesão da córnea se agravasse. Uma brincadeira entre colegas...uma bolada no rosto...e tudo ficou escuro inesperadamente! Doeu muito! A bolada? Não! Doeu mais o pavor de não ver mais as coisas do dia-a-dia que eu tanto amava! O sol nascer e se pôr...o Rio descendo pela pedra e formando uma cachoeira cristalina...o rosto da minha Mãe quando meu Pai elogiava seu coque bem feito...os olhos de Papai brilharem e quase uma lágrima cair ao ouvir “Viola Enluarada”...o semblante de meus amigos a rirem um dos outros pelas bobagens que só os adolescentes entendem e acham graça...Ah! Tanta coisa eu deixaria de apreciar com o Sentido que sempre me foi mais caro! E assim foi por alguns anos.

Com a perda da visão, tive que me adaptar aos detalhes de uma rotina nova e dolorosa por si mesma. Contei com a benção de ter uma família maravilhosa que me ajudou a ser independente e exigir dos outros, respeito e não piedade. Todos tivemos que mudar para a cidade grande, a fim de tornar meus estudos viáveis. Formei-me em Direito com muito sacrifício; mas não de minha parte, e sim de minha família que renunciou seu bem-estar interiorano, para dar-me a oportunidade de ser alguém normal, com uma profissão e que por acaso não possui 5 sentidos como a maioria.

Na faculdade reencontrei um colega do 1º grau, Alberto, que sempre foi “caidinho” por mim, e que era também muito olhado (eu ainda enxergava e muito bem!). Ele fez questão de me ajudar durante todo o curso e nos formamos juntos. Nem é preciso dizer que nos apaixonamos e um ano após terminada a Universidade, nos casamos. Voltamos a morar em nossa cidade Natal, uma pequena cidade grande, com 250.000 habitantes. Ele arrumou um excelente emprego numa multinacional como Advogado para assuntos tributários; e eu decidi abrir um escritório com uma amiga de faculdade, Márcia, que cansada da cidade Grande, resolveu tentar a sorte no interior. E que sorte ela deu! Casou-se um ano depois de instalada, com um próspero comerciante local, um boa-praça chamado Carlos.

A vida transcorria bem! Engravidei, trouxe ao mundo um lindo garotinho chamado Flávio, que deu um sentido todo especial a minha existência. Minha falta de visão nunca foi problema para cuidar de meu filho e ele cresceu sem sentir que eu não o via com os olhos do rosto, pois eu o enxergava com os olhos da alma. Tinha um relacionamento estável e tranqüilo com meu marido. Confesso que após o nascimento do Flavinho, nossa vida sexual ficou um pouco monótona, não sei se é comum entre os casais, mas esse fato não comprometeu nossa relação e terminamos por dar mais valor ao companheirismo e parceria na vida, que aos desejos efêmeros. Bem, pelo menos era assim que imaginávamos, ou pelo menos, que eu pensava ser.

Por conta do meu problema de visão, sempre tive um oftalmologista que acompanhou toda a trajetória de minha doença e sofreu muito comigo e com os meus, quando deixei de enxergar. O Dr. Olavo...homem bom, excelente profissional, que ficou amigo de todos nós e nunca deixou de ter e dar esperanças de que minha cegueira seria temporária, pois na fé “cega” em sua Profissão, ele nunca deixou de acreditar que a reversão da cegueira seria possível. Essa esperança eu guardava bem escondidinha num canto em mim, pois o medo da decepção de algo pouco provável nunca se realizar, tornava-me aparentemente mais cética e resignada...mas era só no exterior. Na minha escuridão solitária, eu rezava todas as noites, para que a Luz voltasse aos meus olhos, para que eu pudesse voltar a olhar tudo aquilo que havia guardado na memória...a natureza, os rostos, as cores, os olhos alheios, as emoções que eles nos revelam...sentia muita falta disso!

Dr. Olavo me dizia, que um transplante de córnea, com os medicamentos corretos e algumas técnicas que recuperação, poderiam me devolver a visão. Porém os tais medicamentos ainda estavam sendo pesquisados e não era permitida a sua utilização, por isso o transplante para o meu caso ainda era algo ineficaz...como eu ainda era jovem, poderia esperar um pouco mais para que essas pesquisas tivessem um final feliz, para alegria de todos que tinham o mesmo problema que eu.

Havia uma peculiaridade no meu trabalho, por causa da falta de visão. Eu sempre tinha que ter um Estagiário em Direito, me acompanhando nas atividades do Escritório, especialmente no Fórum, nos Cartórios e nas Audiências. Eles tinham que ler ou escanear (para que mais tarde o computador lesse para mim) os processos, dependendo de cada situação. Isso me obrigava a ter sempre alguém de confiança e eficiente, para manter o nome e a credibilidade do meu Escritório, construído ao longo do tempo. Eu tinha me tornado uma excelente profissional, na área Civil, de Família e trabalhista, e possuía o dom que minha falta de visão só fez aperfeiçoar, a Oratória. Defendia meus clientes e meu ponto de vista com fibra e um “plus” que a falta de um sentido faz por incrementar os outros. O uso de óculos escuros, ajudava a cobrir qualquer travo de insegurança que por ínfima possibilidade pudesse vir um dia a me acometer. Meus Estagiários costumavam se tornar bons profissionais, pois realmente aprendiam o que é exercer o Direito de maneira honesta, digna e eficaz. Meu Escritório acabou por ser cobiçado entre os Estudantes de Direito que buscavam realmente aprender a profissão. Dois desses Estagiários, Denise e Fábio, mais tarde tornaram-se sócios do Escritório, que a cada nova ação ganha, continuava a sua trajetória de expansão.

 

 

Capítulo 2: O ENCONTRO

 

Quase dez anos havia se passado desde o casamento e o inicio da vida profissional. Eu, Ana, 33 anos, tinha tudo o que uma mulher sonha desde criança...uma família bonita e saudável, felizes...uma profissão gratificante, que realizava uma vocação e trazia um excelente retorno financeiro. Mas havia algo! Uma inquietude, algo que nunca se completava! Como aqueles lindos Quebra-Cabeças de mil peças, que ficam com uma faltando, trazendo o incômodo nervoso a quem o monta. Estranha e engraçada essa natureza eternamente insatisfeita do ser humano! Seria o problema com a falta de visão? Talvez, mas sabia que não era isso exatamente. O que faltava??? Era algo além, mas não sabia o que, ainda não sabia!

O começo do Ano é sempre meio turbulento no Escritório, as ações parecem duplicar, pois todos decidem passar a vida a limpo. O trabalho fica mais pesado, e justamente nessa época minha fiel escudeira Janine, resolve ir morar com o namorado em outra cidade e transferir-se de Faculdade! Meu Deus, o que faço?! Ela podia ter avisado no final do Ano Passado! Assim, eu poderia ter me preparado com antecedência e tentado selecionar alguém. Pôxa, tudo complicou! Logo agora, nesses meses de começo de ano, quando tudo é tão estafante! Preciso de alguém urgente!

Após uma consulta de rotina com Dr. Olavo, fiz um comentário sobre o que se passava no Escritório, sem minha Assistente...eu podia contar com outros três Estagiários que nós tínhamos, mas quem ficava ao meu lado tinha que ser Especial. Era necessário agilidade de raciocínio, ser excelente aluno e estar nos últimos períodos da Faculdade, estar sempre disponível para pequenas viagens a trabalho, saber dirigir, e por fim, não ser complacente comigo...irrita-me por demais, essa gente que deixa transparecer na voz uma piedade a qual eu não faço jus. Preciso de alguém eficiente, seguro e que não seja idiotamente benevolente, achando que está sendo generoso com a ceguinha. Quero alguém firme, que se dirija a mim como uma pessoa comum e profissional respeitável que sou.

Senti na voz do Dr. Olavo que ele teve um lampejo, após o comentário. Me disse que sua filha mais nova, Lívia, estava no 7º período da faculdade e sonhava há muito tempo em Estagiar no meu Escritório, no entanto, ele nunca havia pensado em me pedir, pois achava que poderia estar extrapolando nossa amizade, ao me pôr em uma situação em que talvez tivesse que rejeitar sua filha por não se encaixar nos meus parâmetros, por algum motivo.

Eu não conhecia Lívia. Dr. Olavo não costumava freqüentar minha casa e nem eu a dele, tínhamos uma amizade profunda pelos anos de confiança e respeito, mas por algum motivo, acabamos sempre nos limitando a encontros profissionais e nunca sociais. Já tinha encontrado com ele, a mulher e as filhas, Lívia e Laura, mas não lembro da voz delas, sinceramente. Laura, a mais velha das filhas, fazia medicina na cidade grande. Lívia decidira por ficar e seguir uma carreira completamente diferente da do Pai, para a qual julgava ter muita vocação.

Sabendo disso, falei ao Dr. Olavo:

_ Doutor, diga a Lívia para ir ao meu Escritório amanhã às 10 da manhã. Gostaria de conversar com ela um pouco. Não prometo nada, OK?! Porque se ela não tiver todos os requisitos que procuro, não vai ser por ser sua filha que vou contratar ela. Gosto muito do Senhor, mas preciso de alguém que supra minhas necessidades profissionais e não vou ser boazinha com ela só por ser sua filha.
_ Hahahaha! Eu entendo Ana! Direta como sempre! Fique tranqüila, Lívia é muito pé no chão e eu vou fazer questão de dizer a ela, que não terá nenhum privilégio por ser minha filha.

No dia seguinte, às 9:50 da manhã, lá estava Lívia sendo anunciada pela Secretária:

_ Dra. Ana, a Srta. Lívia já chegou!
_ Obrigada Lúcia, mande a moça entrar.

A porta se abriu e em seguida um leve perfume cítrico com um pouco de floral fez presença no ambiente. A porta foi fechada e ouvi os passos suaves de Lívia se aproximar. Como sempre faço, estendi a mão para que Lívia se apresentasse antes de dar tempo para que ficasse constrangida pela minha cegueira. Ela a apertou firme, mas com delicadeza, mostrando no toque um pouco do seu jeito de fazer as coisas. Primeira impressão já foi boa!

_ Muito prazer Lívia!
_ O prazer é todo meu, Dra. Ana!

A voz do outro lado era suave, mas levemente rouca...demonstrava uma certa ansiedade...natural...

_ Sou cliente do seu Pai há muitos anos. Ele deve ter falado isso pra você. E deve ter dito também que estou precisando muito de uma Assistente, mas apesar da urgência, não vou selecionar alguém que não se enquadre no que busco. Meu trabalho é levado muitíssimo a sério por mim. Mexo com a vida de muita gente e não posso correr o risco de ter ao meu lado alguém que não tenha a competência necessária para o cargo. Eu pago bem, para alguém que ainda não se formou, mas exijo muito também, inclusive excelentes notas na faculdade. Costumo viajar a trabalho, mas sempre para as cidades vizinhas e nunca mais que um ou dois dias, por isso, não costuma atrapalhar a faculdade.

Tomei um gole de água...do outro lado, não se ouvia nem a respiração da moça...

_ Dois de meus antigos Assistentes, são hoje, meus sócios! Isso mostra que escolho sempre os melhores e se eles aprendem a lição direitinho, são muito bem recompensados. Exijo alguém que dirija, nem preciso dizer porque! O carro é o meu mesmo. Tenho um motorista, o Antonio, que me leva aos lugares, mas quando se trata de negócios, eu prefiro que esteja somente eu e meu Assistente, para temos mais liberdade de conversarmos sobre as causas, sem ferir o sigilo.

Nossa! Parecia que a menina estava morta! Eu não ouvia ela respirar! Só sentia o seu perfume gostoso e nenhum outro ruído além da minha voz. As pessoas costumam dizer interjeições quando falam comigo, do tipo: “hum,hum”, “Sei”, “Entendo”. Ela estava absolutamente muda. Será que desmaiou de nervosismo? Hahahaha.

_ Quero alguém que goste de ler, que esteja sempre disponível quando eu precisar e que acima de tudo seja fiel às nossas causas e a mim, é claro! Bem, depois dessa explanação toda sobre o que busco, vamos às perguntas...primeiro, você tem algum problema em falar em público ou fica embaraçada facilmente? Ainda não ouvi direito a sua voz. Lembre-se que sou cega, não posso ver seu rosto, isso deveria tornar as coisas mais fáceis pra você, não acha?

Nessa hora, ouvi uma risadinha de leve, com um certo tom de ironia...

_ Dra. Ana, com todo respeito que a Sra. como pessoa e como profissional, que admiro muito, merece, eu só estou tendo oportunidade de falar agora. Estava ouvindo com bastante atenção tudo o que a Sra. busca, pois quero demais essa chance e não pretendo deixá-la escapar! Não tenho problema algum em falar, seja em público ou com alguém como a Sra., por exemplo. Gosto do Direito e quero muito aprender pra ser uma profissional brilhante e correta, como ouço dizer que a Sra. é, mas que só vou poder constatar se é verdadeira a afirmação, conhecendo-a melhor. Sei dirigir muito bem. Minhas notas na faculdade estão entre as melhores da turma, posso provar isso. Estudo Direito por vocação. E estou, à partir de agora, a sua disposição, se assim a Sra. quiser.

Tudo foi dito num fôlego só, mas com clareza e segurança. Tenho que confessar que gostei do tom da voz de Lívia, do modo como se dirigiu a mim e como falou na hora em que deveria dizer algo que importasse. Sua voz era firme e educada, mas deixava transparecer uma emoção meio contida. Essas coisas que só apurando bem o sentido, dão pra perceber. Eu estava gostando, mas precisava saber mais:

_ Me diga uma coisa, Lívia... como é sua vida pessoal? Com os colegas de faculdade, família, amigos, namorado...me fale um pouco mais de você...como você acha que essas pessoas te vêem? O que enxergam em você quando te olham?

Fez-se um silêncio profundo! Durou uns 10 segundos, mas pareceu um tempo enorme. Lívia deu um longo suspiro e disse:

_ Eu me faço essa pergunta quase todos os dias! Como será que as pessoas com quem convivo me enxergam? Não sei ao certo. Talvez elas me vejam somente do jeito que deixo transparecer. Às vezes penso, que nem eu ainda me vi direito. As coisas da nossa rotina costumam embaçar muito nossa visão física. Acho que alguém cego como a Sra., talvez veja nas pessoas aquilo que quem usa todos os seus sentidos não consiga ver. É verdade que quando perdemos um sentido os outros 4 ficam mais apurados?

Eu sorri, voltei-me para a direção em que vinha aquela voz boa de se ouvir...

_ Não apenas os outros 4 ficam mais apurados, mas o que chamamos de 6º sentido também se faz presente em muitas situações. Só devemos saber usá-lo e perceber aquilo que ele nos diz...e sabe o que o meu está dizendo agora?
_O que?
_ Que talvez valha a pena fazer uma experiência de três meses com você e ver no que dá. Esse meu sentido é muito apurado e não costuma falhar comigo. Quer começar agora?

 

 

CAPITULO 3: LÍVIA

 

Lívia não cabia em si de tanta contentação. Ficou por alguns segundos estática digerindo o que acabara de ouvir. A Dra. Ana Mendes, que tanto admirava, deu-lhe um voto de confiança e a aceitou como Estagiária e sua Assistente Pessoal! E o incrível é que tudo foi tão rápido! Óbvio que para Lívia pareceu uma eternidade, o nervosismo, a ansiedade, pareciam não deixá-la raciocinar com clareza, mas parece que deu tudo certo no final. É fato que seria só uma experiência, mas eram três meses! Os três meses mais importantes de sua vida até então, e se desdobraria em mil para que esses três meses se prolongassem pelo tempo que fosse necessário ao seu aprendizado e quem sabe, poderia vir a ser um dia, também sócia do Escritório de Ana Mendes. Parecia um sonho e Lívia não pretendia acordar tão cedo desse torpor gostoso.

Lembrou-se da primeira vez em que vira a Dra. Ana. Devia ter uns 6 ou 7 anos e ela já era uma moça uns 10 a 12 anos mais velha. Seu Pai já havia feito comentários em casa sobre o caso de Ana e numa manhã, estavam na praça principal da cidade assistindo à festa da Padroeira quando aquela bela moça passou. Na sua inocência infantil não sabia explicar o encantamento que aquela figura lhe causou...fixava sem parar o seu rosto e seu jeito de mover-se, como que se seu olhar estivesse pregado àquela menina grande e a todos os seus movimentos. Era incrível a beleza daqueles olhos grandes e negros, de cílios espessos, que teimavam em mirar o vazio, quando tinha tanta coisa a ver. Não entendia como não havia luz neles, se eram na verdade puro brilho! Porque não se voltavam pra mim? “ Quando Papai parou para falar com ela e sua família, que estavam na cidade justamente para a festa, fiquei ao lado dela hipnotizada como um mosquitinho de verão em torno da lâmpada. Não conseguia desgrudar os olhos das suas feições e do seu sorriso de satisfação em falar com meu Pai...lembro quando ele nos apresentou a eles e ela docemente tocou nos cabelos de minha irmã e depois nos meus...deslizou os dedos levemente pela minha face e sorriu dizendo:

_ Que lindas meninas, Doutor! Parabéns! Sua família reflete o Senhor!

Incrível como depois de tantos anos, ainda lembrava e podia até mesmo sentir de novo, aquele toque tão suave em seus cabelos e pele. Foi pura ternura que gravou na memória daquela menininha a beleza de um momento.”

Não houve um ruído sequer vindo de Lívia...lembrava de ter ficado desconcertada e agarrou-se ao braço do Pai, com os olhos fixos na moça...será que se ela pudesse olhar nos olhos daquela menininha de volta, esta teria sustentado seu olhar tão brilhante?!

À partir daquele encontro Lívia costumava seguir Ana com os olhos sempre que a via, fosse na Rua, num evento social qualquer, no Rio divertindo-se com os irmãos e com o namoradinho. Era só avistar Ana em algum lugar e Lívia não mais podia tirar os olhos dela! Ficava admirando seu jeito de andar meio titubeante, ora com o cão guia de nome Fred, ora apenas com a bengala, ou então com alguém ao lado. Adorava observar seus gestos suaves e o modo como mantinha a cabeça sempre erguida e o queixo levemente levantado, tornando sua aparente fragilidade, um mito. Tornava-se Altiva e vivaz, com os ouvidos sempre ligados a qualquer som ou movimento, parecendo um Predador atento aos meneios de suas presas. Adorava notar essa dubiedade nela... frágil e perspicaz ao mesmo tempo!

O tempo foi passando, Dra. Ana e a família costumavam vir para a cidade duas vezes ao mês ou quando havia algum evento na cidade. Fizeram questão de manter a casa da família, pois logo que Ana terminasse seus estudos, a idéia era de que todos voltassem à moram na sua cidade Natal, todos que quisessem, é claro. E era nessas vezes que Lívia sonhava em voltar a ver Ana, mesmo que de longe. Nunca conseguiu aproximar-se e falar com ela. Dizer que era aquela menininha, filha do Doutor Olavo, que um dia suas mãos delicadas tinham afagado gentilmente e que desde então passara a admirar seu jeito de ser. Sempre ficava de longe, olhando até que a silhueta de Ana sumisse de suas vistas, ou então quando alguém a flagrava nesse olhar tão insistente. Ficava rubra, desconcertada, e abaixava o olhar disfarçando seu embaraço.

Um dia, soube que Ana iria se casar! Sim, casar com aquele tal namoradinho que não desgrudava dela, e assim foi...foram todos convidados para a bela festa, que acabou sendo o grande acontecimento da cidade na época. Doutor Olavo e família foram à Festa, porém Lívia não quis comparecer à badalação. Apenas fez questão de admirar de longe quando Ana chegou na Igreja de noiva...Linda! Parecia uma Fada no meio de um bando de Elfos! E do outro lado da Rua, Lívia olhava embevecida para aquela bela mulher, que se tornava ainda mais bonita e encantadora, pelo fato de não ter noção da sua beleza e do efeito que causava nas pessoas à sua volta.

Não soube definir dentro de si, porque fora acometida por uma melancolia profunda no dia do casamento de Ana. Era como se ela estivesse prestes a ser maculada na sua Perfeição por permitir que alguém compartilhasse seu Encantamento; e isso deixou Lívia muito triste por algum tempo.

Mas a vida segue seu curso, como o Rio que corta a nossa cidade. Com ou sem pedras pelo caminho, ele invariavelmente segue adiante. Lívia cresceu e tornou-se também uma bela moça. Aos 14 anos, seus cabelos cor de mel, exatamente da cor de seus olhos, começaram a atrair a atenção dos meninos mais que o normal. Era alta, de corpo esguio e andava com leveza. Ela era descolada e popular na escola e todas queriam ser amigas ou então como ela. Algumas meninas copiavam seu corte de cabelo moderno, suas roupas fora do comum pra cidade pequena e seu gestual peculiar. Tinha o dom de falar aos outros, adquirido com os muitos debates em casa com o Pai médico e a Mãe, Lúcia, Psicóloga; bem, como as horas que gastava todas as noites, mergulhada em seus livros. Ah, amava os livros! Adorava transportar-se para aqueles mundos tão diferentes e fazer parte das tramas. Tomou gosto pela Poesia, mas também pela história e sociologia. Por ser de uma família abastada, desde cedo viajou muito e conheceu cidades no Brasil, EUA e Europa. Isso ajudou e muito o seu enriquecimento cultural e fez com que pudesse comparar mundos tão díspares. Desde o 2º grau, já sabia que cursaria Direito na faculdade. Pensava que era para poder tentar utilizar um pouco a máquina Estatal em favor dos menos favorecidos pela Justiça...mas sempre que tentava convencer-se disso, vinha à sua mente a imagem de Ana, advogada jovem com uma carreira promissora e que superara suas dificuldades com o brilhantismo de seu intelecto e uma perseverança fora do comum. Queria ser como ela! Queria um dia poder aprender com ela! Estar ao lado dela!

Pensava: “Um dia ainda vou ter a oportunidade de me fazer notar por ela, e nesse dia, não vou perder minha chance! Quero trabalhar, estar no mesmo ambiente todos os dias e poder conhecê-la melhor, para confirmar ou então desconstruir a imagem que fiz dela.”

No segundo grau, foram tantos os namoricos, que Lívia, não fosse por sua segurança e jeito firme de ser, poderia ter ficado mal afamada pela cidade. Mas a verdade é que as meninas queriam ser como ela, viver tudo o que ela se permitia, sem pudores ou repressão. Aos 16 falou francamente com a Mãe que queria perder a virgindade com o namorado (na época, Eduardo), e que por isso precisava ir ao Ginecologista pra não correr o risco de uma gravidez indesejada.

Sempre foi assim, dizia o que pensava e não tinha falsos moralismos. Não fazia gênero, apenas era desse jeito que pensava viver melhor.

Engraçado que quem visse Lívia segura de si, com seu jeito firme, seu humor sagaz e inteligência acima da média, jamais imaginaria seu encantamento com Dra. Ana. O mesmo encantamento infantil daquele dia na praça, que mesmo após tanto tempo, não havia perdido sua força.

Aos 18 anos, foi Estudar na nova Universidade que instalou-se na cidade alguns anos antes. Lá teve encontros, desencontros e muitas experiências de vida, sexuais, emotivas. Experimentou o que achou que devia e descartou o que não valia a pena. Apaixonou-se, e por ele (Ricardo) teve sua primeira experiência com outra mulher. Foi para realizar uma fantasia do namorado, topou transar a três. Não gostou muito de ter que beijar outra mulher, mas adorou quando ela lhe fez um sexo oral enquanto seu namorado a penetrava. Repetiu a experiência algumas outras vezes, com mulheres diferentes e o namorado, mas logo que acabou o Romance entre os dois, acabou-se também o tesão em “Mènages a trois” e nada ficou pelas mulheres.

Não se imaginava namorando e tendo uma vida a dois com outra mulher. Na verdade, também não pensava em se casar com um Homem, talvez ir morar junto se gostasse muito, mas casamento tradicional definitivamente não estava em seus planos. Não se via na mesma situação que Ana, vestida como uma Fada pronta pra receber um Homem no altar e fazer votos de fidelidade e Amor eternos. Queria um relacionamento leve, sem tantos protocolos e compromissos rigorosos. Além do mais era ainda muito jovem e queria mesmo era namorar bastante até se fixar em alguém. Gostava de sexo, nunca teve problemas nessa área, pois sempre teve conversas claras com sua Mãe, e a irmã mais velha também ajudava bastante. Por isso, tinha uma vida sexualmente saudável e ativa, sem problemas com tabus ou repressões. Dormia freqüentemente na casa do namorado ( o atual era Caio), ou ele na sua; tinham uma relação boa, leve e sem cobranças...é fato que não havia grandes Paixões entre ambos, pelo menos não da parte da moça, mas era algo satisfatório para o momento, agradava aos dois.

De vez em quando, acontecia de ver Dra. Ana com o marido e o filhinho. Nessas horas, sentia algo muito estranho que não conseguia definir ao certo...era um misto de ternura e inveja... ternura por ver como ela parecia feliz com a família...inveja por não fazer parte dela. Era tão esquisito esse sentimento, que fazia Lívia sentir-se mal e querer afastar prontamente o pensamento. Um dia ao avistar Dra. Ana, Lívia estava de mãos dadas com Caio e sem querer apertou com força sua mão. Caio perguntou o que tinha acontecido, se ela levou algum susto e foi um custo disfarçar e fingir que tinha sido uma bobagem qualquer.

Ainda faltavam 3 períodos para sua formatura, mas Lívia sempre manteve notas excelentes e sabia que colaria grau com honras. Poderia arranjar Estágio em qualquer bom Escritório ou Empresa, mas cobiçava apenas um...o Escritório da Dra. Ana. Naquela noite, quando seu Pai falou no jantar, que Ana buscava uma nova Assistente, não se conteve de tanta felicidade, a ansiedade que sentia transparecia no seu semblante e ela não conseguiu disfarçar toda a excitação de ter sua tão sonhada oportunidade com a querida Dra. Ana! Não dormiu a noite toda, ficava repassando mentalmente todas as possibilidades de diálogo entre as duas. Todas as perguntas que poderiam ser feitas, todas as respostas que “deveriam” ser dadas. Nossa, que tortura!

E tudo saiu completamente diferente do que imaginou! Quando chegou ao Escritório, quase não conseguia fazer sua voz sair de tanta ansiedade. Após o anúncio de sua chegada pela Secretária, o interfone reproduziu no viva a voz aquele som que ainda vivia em sua lembrança desde criança. Quando entrou na sala, viu Ana de pé virando-se lentamente com um sorriso no rosto e estendendo a mão para um cumprimento. Por um ínfimo segundo pensou que ela olhava diretamente para os seus olhos, como se pudesse enxergar e perceber a confusão que causava na moça à sua frente. Mas foi só impressão! Ela estendeu a mão para que Lívia a tocasse e ela soubesse exatamente para onde deveria olhar. Começou falar num tom grave e sério, que demonstrava ser de suma importância aquele momento. Lívia não conseguia nem respirar! Suas pernas estavam tão bambas que ela postou-se num determinado lugar e de lá não saiu mais até que fosse dispensada. Quando Lívia teve que falar, respirou fundo e pediu aos Céus que a ajudasse a manter a voz firme, sem titubear ou mostrar vacilação. Não podia correr o risco de perder aquela chance, queria muito estar ao lado daquela mulher que por tantos anos povoou seus pensamentos, enchendo seu coração de sentimentos, muitas vezes confusos, mas principalmente de admiração e ternura.

E assim foi...Lívia conseguiu a oportunidade que tanto sonhara e agora iria poder constatar se de fato Ana era alguém especial como ela sempre imaginou, ou se apenas uma mulher que superou suas dificuldades e deveria servir como um bom exemplo a todos. Será que aquela Imagem de um ser incomum era somente fruto da imaginação de Lívia? “Se for, será muito bom assim, pois aí eu destruiria de vez essa idealização que criei e poderia enxergá-la como alguém comum, sem mistérios ou algo que a tornasse tão especial pra mim. Muitas vezes, esses pensamentos e principalmente o que sinto e não encontro explicação plausível, me incomodam muito! Quero desfazer essa imagem! Que seja desmistificada, se assim tiver que ser!” – Pensou Lívia

 

 

Capítulo 4: O CONVÍVIO COMEÇA...

 

Lívia concordou em começar imediatamente, estava tão ansiosa por aquela oportunidade que não se oporia a nada que Ana lhe pedisse, também não havia porque se opor. Queria estar ali mais que tudo...nada do que fazia dava mais prazer a ela que estar ali naquele escritório, ao lado da Dra. Ana, prestes a começar sua vida profissional da maneira que sempre sonhara.

Pediu para ligar pra casa e avisar a todos que já estava trabalhando, o que foi feito com imenso prazer saltando pela sua voz, mal disfarçando a emoção quando a Mãe atendeu o telefone:

- Mãe, vou ficar por aqui no Escritório mesmo. Acabei de ser contratada por um período de 3 meses e estou felicíssima por isso.
- Filha, que ótima notícia! Vou ligar pro seu Pai contando a novidade...mas me diga como foi a entrevista?
- Conto tudo quando chegar em casa...um beijo...tchau!

Ana chamou Lúcia e pediu que Lívia deixasse com ela toda a documentação necessária pra sua contratação temporária. Não podia mais perder tempo com protocolos. Teria uma pequena viagem de 150 km a fazer na 4ª feira e precisava que Lívia estivesse ao seu lado no Fórum da cidade. Começou por mostrar a Lívia como deveriam estar juntas na maior parte do tempo:

- Lívia, primeiro de tudo, quero que você comece a se familiarizar com a rotina e com os pequenos detalhes da vida de alguém como eu, cega. Apesar de ser bastante independente em praticamente todos os aspectos da vida de uma pessoa comum, eu tenho algumas peculiaridades que outros não necessitam tanto. Uma delas é que você acostume-se a dizer algumas interjeições quando eu terminar de dizer algo, porque senão não vou saber se você estará voltada pra mim ou não. E espero que você esteja sempre atenta a qualquer coisa que eu diga, Ok?! Já que não vou poder ler no seu olhar isso.

Lívia deu uma risadinha e pensou: “Como se eu pudesse desviar minha atenção dela, da sua voz, dos seus olhos, da sua boca...”. Disse:
- Sim, Dra. Ana. Pode ficar tranqüila que não costumo dispersar minha atenção quando algo me interessa muito.
- Aí é que está! Quero sua atenção inclusive quando o assunto não a interessar muito!

Risos.
- Não se preocupe, Doutora . Estarei sempre atenta a tudo que me disser – disse com gravidade.

Ana continuou:
- Outra coisa importante é o contato físico. É fundamental pra mim que eu saiba reconhecer tudo relacionado ao seu aspecto físico, desde sua forma até detalhes como o cheiro e o som dos seus passos. Pode parecer estranho, mas eu preciso ter e sentir segurança em quem irá estar comigo mais tempo que minha própria família e isso, eu só consigo sentir conhecendo bem quem está perto de mim, fisicamente. Assim, eu consigo perceber pelos gestos, pelo suor nas mãos, pelos passos, até mesmo pelo cheiro, o que se passa com a outra pessoa. Todos os meus Assistentes passaram por isso e acho que não constrangi ninguém.
- Como assim? Desculpe, mas não compreendi direito!
- É simples – Ana levantou-se e começou a aproximar-se de Lívia. Ana conseguia movimentar-se no escritório com a mesma desenvoltura de alguém que enxergasse. Chegou perto da cadeira onde ela estava e tateando o espaldar, alcançou os ombros de Lívia. Segurou-os e fez com que ela se levantasse. Lívia era alguns centímetros mais alta que Ana.
_ Eu preciso saber como você é fisicamente. Por exemplo, já sei que você deve ser uns 6 a 8 centímetros mais alta que eu. – Disse passando os dedos sobre a cabeça de Lívia e depois deslizando a mão espalmada pra baixo até sua própria cabeça. – Sei que você é alguém que cuida bem da pele, do asseio pessoal e gosta de cheiros delicadamente cítricos ou florais.

Começou a passar os dedos delicadamente pelo rosto de Lívia. Fez o contorno da face, seguiu pelas sobrancelhas, deslizou os polegares sobre elas e desceu até os olhos, tocou o nariz, sentiu sua forma, com os quatro dedos de cada mão tocou as faces, o queixo e chegou até a boca, onde fez o contorno com o polegar e o indicador, percebendo sua forma e textura. Falou:
- Que cor são seus olhos e cabelos?

A resposta demorou um pouco a vir a Ana preocupou-se.

- Desculpe Lívia, mas estou constrangendo você?

Lívia suspirou e disse:
- Não, de jeito nenhum. Só fiquei um pouco nervosa com a inspeção. É novidade pra mim! Cor de mel. Ambos são cor de mel.

A voz de Lívia parecia levemente embargada, como se estivesse incomodada com o jeito que Ana tinha de “enxergar” fisicamente as pessoas. Ana resolveu, então, passar a varredura tátil direto pelos braços até o pé, como que medindo mentalmente a moça.

- Pronto! Não precisa ficar mais constrangida. Acabei minha inspeção física. Já sei que você é alta, magra, mas tem braços e pernas fortes. Faz algum esporte?
- Costumo correr ao longo das margens do Rio. Há uma espécie de pista lá perto. Próxima à trilha.
- Muito bem, eu também gosto de correr, mas só me aventuro à minha esteira elétrica, em casa! Você deve ser muito bonita, Lívia. Pude “ver” pelos seus traços. Tem uma pele ótima e ter olhos e cabelos cor de mel naturalmente, é uma raridade! Deve ser muito paquerada pelos rapazes. Tem namorado?
- Sim, tenho. Caio é como se chama.
- E vocês se dão bem?
- Sim, eu gosto dele. É uma relação tranqüila.
- Que bom! Quando se vai bem na vida pessoal, as coisas parecem mais fáceis também em outros aspectos, como o profissional. Só espero que você não esteja fazendo planos pra se casar logo, pois não quero perder outra assistente em tão pouco tempo.
- Não! Não pretendo me casar! – Disse Lívia num tom firme, que Ana já estava começando a reconhecer.
- Porque não? Você é tão jovem ainda, como pode ter certeza disso? Um dia irá se apaixonar de verdade e aí, tudo o que irá querer é estar junto da pessoa amada, casar-se, formar uma família.

Lívia foi contundente:
- Não preciso me casar no papel pra ter tudo isso. Se amar alguém de verdade um dia, pode ser que eu queira. Mas primeiro preciso acreditar nessas coisas, e isso, eu ainda não consegui até hoje.

Ana riu, meio que complacente com o que ouvira:
- Ah, criança! Você ainda é muito menina pra desacreditar. Ainda tem muito tempo pra descobrir essas emoções todas. Mas, o importante é crer sempre nas possibilidades de acontecer o Amor a qualquer momento em nossas vidas. Acho que manter essa crença é fundamental pra podermos perceber e reconhecer o Amor quando ele surgir. Além de não nos tornarmos amargos com a falta de fé nele.

Lívia pigarreou. Esse discurso sobre o Amor a incomodava e não queria discutir seu ceticismo com Dra. Ana. Ficava parecendo uma criança idiota que não sabe nada da vida e quer parecer inteligente negando suas emoções. “Droga! Que culpa tinha de nunca ter amado antes? Nunca sentira aquelas emoções que os livros, as novelas e os filmes retratam por nenhum de seus namorados. E não tinha que se sentir culpada por isso! Adorava poesia, emocionava-se com cenas ou narrativas sobre o Amor, mas nunca sentira de verdade aquela emoção tão propalada por aí. Também não queria saber se uma dia sentiria algo assim ou não. Não se preocupava, nem pensava sobre isso. E agora vinha essa Doutora “pretensão” querer ditar regras sobre o Amor pra ela!” – não entendia porque estava tão irritada com todo aquele discurso da Dra. Ana, mas o fato é que estava irritadíssima e isso transpareceu em sua voz quando falou:

- É Doutora, talvez eu seja mesmo muito criança pra esses sentimentos. Mas acho que o que nos interessa no momento é se vou ser competente na minha função. E nisso eu posso garantir que serei adulta e bastante responsável, pois vou fazer algo que gosto e quero muito aprender.

Ana percebeu que a conversa tomara um rumo diferente que não agradou nem um pouco sua interlocutora, voltou ao tema profissional:
- Outra coisa importante Lívia, é que você saiba como me conduzir nos lugares públicos. Eu adoro andar sozinha pela cidade de vez em quando, e uso meu cão-guia, o Fred, nesses momentos. Mas nas idas ao Fórum, nas audiências, nas viagens a outras cidades, não posso levar o cão, então meu Assistente tem que saber me conduzir sem me atrapalhar, entendeu? Vou lhe mostrar...

Ana aproximou-se de Lívia e pegou em seu braço direito, dizendo:
- Gosto que me conduzam pelo lado esquerdo, pois sou destra e quero ter a mão direita livre pra qualquer coisa. – E começou a caminhar pelo escritório, mostrando a Lívia como esta deveria levá-la.
- Eu seguro em seu braço e não você o meu. Só preciso sentir sua direção e acompanhá-la. Não seja complacente comigo sem necessidade. Isso é algo que me irrita muito!

Ana continuou, andando pela sala segurando o braço de Lívia:

- Quando formos ao Fórum, preciso que leia ou escaneie os processos pra mim, nas audiência preciso que me diga ao ouvido toda a movimentação em volta. Como está o semblante do Juiz, dos “ex adversus” e seus Patronos, fazer um resumo de toda a história e me deixar a par de todos os detalhes antes da audiência.

Parou de andar e virou-se na direção de Lívia:
- Nossa convivência será diária. Com o tempo vou passar a conhecer como está seu temperamento só pelo som dos seus passos. Eu preciso confiar em quem está ao meu lado e se esta confiança não se estabelecer com o tempo, está findo o nosso contrato, entendeu? Detesto “puxa-saquismos” ou “pajelança”. Se você me admira, ótimo! Mas não permita que isso influencie sua capacidade de analisar os casos com imparcialidade e cautela. Quero alguém que consiga ver o que não posso e que me transmita isso de modo claro e sem rodeios. Um exemplo disso, é quando se olha nos olhos de um cliente pra saber se o que diz é verdade ou não. Não tenho como fazer isso, e a voz, às vezes engana os ouvidos não muito atentos. Como já disse antes, você terá que ser fiel às nossas causas, mas principalmente fiel a mim. Se você não sentir honestidade em algum candidato a cliente, quero que seja clara e objetiva sempre comigo; que me dê sua avaliação do caso pra que eu possa decidir se aceito ou não. Bem, vamos começar com as coisas práticas...

Ana dirigiu-se à porta e, puxando Lívia pelo braço começou a mostrá-la todo o escritório, apresentando-a a todos que ali trabalhavam, desde os sócios até a faxineira.

- Pessoal, essa é Lívia. À partir de hoje ela será minha Luz aqui no Escritório, será meus olhos para aquilo que eu não posso enxergar. Por favor, colaborem todos com ela da mesma forma que fazem comigo. Pra começar, Fábio e Denise, passem pra Lívia as cópias dos dois processos que iremos fazer Audiência em “Campo Lindo” na 4ª feira, preciso que ela esteja totalmente inteirada do que se trata, pra termos sucesso logo na primeira. Vamos propor um acordo. Não pretendo voltar por lá tão cedo.

Lívia cumprimentou a todos com simpatia e foi bem recebida também. Gostou do ambiente, parecia que todos trabalhavam ali com prazer. Ana continuou levando Lívia pelo braço...

- Aqui será sua sala, será contígua a minha, pra qualquer eventualidade você estar logo ao meu lado, não há porta, somente esta divisória. Não iremos ter segredos profissionais, por isso não preciso estar isolada de ninguém. E quando quiser privacidade pra falar algo ao telefone ou com alguém, vou pedir que você saia.
- Entendi!
- Agora vamos ao trabalho, comece lendo os processos e todas as dúvidas que por ventura surjam, resolveremos juntas.

Ana deixou Lívia sozinha e foi para a sala ao lado. Começou dando vários telefonemas e depois foi fazer suas petições no computador, especial para cegos. Lívia começou a ler os processos, mas perdeu-se em outros pensamentos...


“Meu Deus! O que aconteceu comigo quando ela me tocou? Que reação doida foi aquela! Fiquei totalmente lívida, não conseguia mexer um músculo nem pensar em nada; só naqueles dedos deslizando pela minha pele, tocando de leve, em alguns momentos mais forte, como que pra gravar o que era sentido. E o pior foi quando ela começou a falar de Amor...será que ela percebeu o quanto fiquei desconcertada e irritada com tudo aquilo? Tive vontade de sair correndo e sumir dali. Me senti tão pequena, tão boba!”

Lívia não entendia sua reação aos toques de Dra. Ana, menos ainda se ela falava de sentimentos mais íntimos. Sentia-se tola com suas teorias a tanto tempo formuladas, que lhe pareciam tão seguras e verdadeiras. “Como ela estaria me vendo agora? Será que como uma menina idiotinha, cheia de arrogância, com certezas absolutas sobre tudo? Tomara que não, porque naquele momento sentia um monte de coisas, menos segurança e certeza. Eram emoções aos borbotões, coisas que desconhecia e que tinha até medo de pensar...”.

Voltou-se para a leitura dos processos e afastou aqueles pensamentos estranhos. Tinha que dar muita atenção aquilo que realmente importava naquele momento, o trabalho. Esse era o seu propósito e nada poderia desviá-la dele.

Ana, em sua sala, também pensava sobre a nova Assistente: “Ela tem algo que me intriga! Não é exatamente em relação a confiança ou a sua capacidade no trabalho. Mas algo no ar, que não consigo explicar, só sentir! Foi como seu leve tremor quando a toquei, senti sua boca mexer, como se quisesse dizer algo...senti seu nervosismo no ar. Claro que é normal esse nervosismo, afinal ela veio para uma entrevista e acaba ficando pra trabalhar. Mas tem algo além disso...com o tempo, descubro o que é...o que importa é que gostei do seu jeito firme, sem muito “rapa-pés”, preciso de alguém assim por aqui. Nada de puxa-saco ao meu redor! Tenho horror a essa gente!”

Ana voltou-se ao trabalho e esqueceu por ora sua Assistente. Quando Lívia terminou de analisar os processos, reuniram-se para discutir sobre eles e o dia transcorreu sem que se dessem conta.

O dia seguinte foi muito agitado por conta dos preparativos pra viagem e relatórios sobre os processos. Na 4ª feira Lívia chegou pontualmente as 7:00 horas na casa de Ana para que fossem para “Campo Lindo”. Foi atendida pelo Marido dela, Alberto, que foi gentil, porém seco, como costumava ser com estranhos. Disse que Ana já estava descendo e deixou Lívia na sala sozinha esperando. Ana desceu as escadas num Tailler verde-água acinturado que deixava suas curvas bem definidas, além de ter um decote que fazia a imaginação flutuar, porém nada que fosse vulgar ou fora do decoro das dependências Judiciais. Lívia sentiu seu coração acelerar diante da visão daquela mulher, mas não entendeu porque aquela reação do seu corpo. “Porque fico nervosa e incomodada diante da beleza dela? Não entendo! Parece que volto a ser aquela criancinha boba fascinada pelo brilho de um olhar sem luz!”

- Bom dia Lívia. Espero não ter feito você esperar muito, é que a arrumadeira trocou meus Taillers de lugar e não estava conseguindo encontrar este. Como está minha maquiagem? Não quero nada extravagante demais. O Juiz daquela Comarca é muito austero. Não posso parecer vulgar de jeito nenhum.
- A Senhora está linda, Doutora. Não se preocupe, jamais pareceria vulgar! – disse isso com o coração batendo forte e dirigindo-se na direção de Ana para que ela pegasse seu braço. "Como ela consegue se maquiar tão bem sem se ver no espelho?". Nesse instante, Alberto apareceu e despedindo-se de Ana com um selinho de leve disse:
- Tenha um bom dia, querida! Veja se come direito, você está emagrecendo e não gosto de mulher magra demais. Sabe disso! – Tirou o braço de Lívia e postou-se no seu lugar, levou a mulher até o carro e recomendou pra motorista: - Cuidado hein menina! Dirija com atenção e não desvie os olhos da estrada, nada de atender o celular. A Ana faz isso.

Lívia não gostou do modo como Alberto falava com ela. Parecia um Comandante do Exército pra um subordinado. Era autoritário demais e tratava Ana como um trofeu. “Ridículo!”

Ana foi a viagem toda conversando bastante com Lívia. Falaram sobre trabalho, a faculdade, como eram os professores, quais matérias Lívia mais gostava, em que área pretendia seguir carreira e várias outras coisas mais banais. Não tocaram em assunto pessoal. Na audiência Lívia ficou um pouco apreensiva quando se viu diante do Juiz, pela primeira vez não apenas assistindo à Audiência, mas efetivamente participando dela. Ana sentiu sua vibração e disse-lhe no ouvido, transmitindo-lhe calma: “Fique tranqüila, meu bem! Ele é apenas alguém que analisa o que ouve. Nós colocamos as cartas na mesa. Nas primeiras Audiências, você só irá me auxiliar fazendo um resumo de tudo o que vê e lê. Quando estiver mais preparada e segura, também poderá fazer suas alegações. Por enquanto, apenas observe!”

E foi o que Lívia fez...observou! Ficou olhando e admirando o modo seguro como Ana defendia a causa de seu cliente. O seu jeito de postar-se em direção ao Juiz e falar como se estivesse olhando diretamente nos olhos dele, coisa que os óculos escuros escondiam. Todos na sala também a olhavam como que hipnotizados por sua elegância feminina e contundência com as palavras. Ana discorria sobre os fatos transmitindo verdade, de maneira linear e calma. Conseguia atrair e manter a atenção de todos como uma atriz num monólogo interessante. Nem é preciso dizer que tudo saiu como ela planejou e Lívia teve sua primeira grande aula de como se exerce o Direito na prática.

Voltaram pra casa já era noite. Ana dormiu um pouco durante a viagem. A princípio parecia que ela fazia tudo muito naturalmente, sem grandes esforços, mas era óbvio que toda aquela postura e exibição de segurança, tinha seu desgaste físico e mental. Lívia dirigia pensando em tudo o que vira durante as duas Audiências, no almoço que tiveram entre uma e outra, nas conversas...mas seus pensamentos eram invariavelmente invadidos por outros nada convencionais...lembrava sua boca dizendo todas aquelas palavras; o movimento de suas mãos finas e de dedos longos em gestos delicados; o modo como afastava os cabelos que teimavam em cair pela face; o sorriso de satisfação com as causas ganhas; o jeito de comer, de falar, de andar; o toque, ah, aquele toque que queimava em sua pele, que fazia arrepiar sem querer!

“Não, não, não! Isso é muito doideira! Que pensamentos são esses? Eu devo tá ficando maluca mesmo! Deve ser o estresse emocional de uma novidade em minha vida. Estresse bom, por sinal!”

Deixou Ana em casa, estacionou o carro e foi embora pra sua casa a pé. Adorava caminhadas, principalmente quando estava confusa, querendo entender ou até mesmo esquecer algo.

Chegou em casa contando animadamente as novidades, estava excitada, feliz com tudo o que estava acontecendo, não iria permitir que esses pensamentos estranhos, incômodos, estragassem sua alegria.

Na cama demorou a dormir, ficou pensando nos acontecimentos do dia e eles voltaram a assombrá-la...os pensamentos incômodos! Rolou umas duas horas até conseguir dormir de vez. A última coisa que pensou antes de adormecer foi: “Doutora Ana, porque você me parece tão especial? Que pensamentos são esses que me deixam tão aflita? Ah, deve ser admiração pelo que ela é! Eu não tenho ídolos e talvez eu tenha mitificado demais a imagem dela, por isso essas emoções tão confusas! Mas e se toda essa idealização for aos poucos se confirmando verdadeira? Se esse sentimento de admiração e encantamento continuar me perseguindo?” – Dormiu. Com a frase “Estou Encantada” ronronando em sua mente.

 

 

Capítulo 5: VIDAS PARALELAS...

 

- Flavio, querido! Saia da piscina, você vai ficar resfriado assim! Já está na hora de almoçarmos, venha tomar banho!
- Ah, mãe! Deixa mais um pouquinho, vai! Já tô sabendo nadar que nem um peixe, olha só! Sem bóia, Mãe!
- Eu não tô vendo, mas pelo barulho, tá parecendo um Golfinho! Venha logo, porque sem comida o Golfinho afunda!
- Saia já dessa piscina, Flávio! Obedeça sua Mãe! Ela já sabe que você já está nadando sem bóia. Agora venha comer!

Alberto era sempre mais rígido com Flávio. Ana preferia conversar, mimar o filho, já que ficava pouco com ele. Era nos finais de semana que mais curtia seu lindo menino, que estava para completar 6 anos no mês próximo. Alberto tinha um ar um tanto altivo demais com o filho, gostava de mostrar sua autoridade de Pai, que Ana achava desnecessária. Claro que ele amava o filho, mas não o acarinhava, nem fazia dengos como Ana adorava fazer. Talvez fosse ciúme por ter que disputar a atenção da mulher com o filho. Desde o seu nascimento, sentia que Ana não era mais sua apenas e isso o irritava. Essa competição por atenção com o próprio filho era muito desgastante e injusta afinal. Era muito auto centrado e gostava de atenção exclusiva. Fora criado assim pela Mãe e achava injusto que seu filho o tivesse roubado a mulher.

“O fato é que depois de tantos anos juntos, o casamento perde mesmo o seu encanto” – pensava Alberto – “Ainda amo minha mulher, a acho linda, gostosa, mas o tesão se perdeu com o tempo. Que uma boa novidade seria uma tentação, isso seria! Adoraria ter uma pequena aventura, sem compromissos, com alguma Ninfetinha desavisada. Acho até que isso traria um incremento ao meu casamento. Uma apimentada na relação!” – Alberto continuou com suas conjecturas meio cafajestes, mas que pareciam muito naturais para um homem àquela altura de sua vida. Chega uma fase em que esse tipo de questionamento vem para alguns, outros preferem pensar a dois e não a três.

Ana também achava que o casamento passava por um momento delicado. “Talvez fosse a tão falada crise dos 10 anos que já se aproximava” – Pensava. Mas ela imaginava uma solução diferente: “Uma segunda Lua-de-mel, poderia ser uma boa solução. Não viajamos juntos somente nós dois há muito tempo. E quem sabe, alguns dias sem nossos problemas, trabalho, sem a rotina fatídica, sem criança por perto, poderia renovar nossa relação. Trazer mais tesão mesmo pro casamento, tá tudo tão morno e sem graça. Mas ainda amo meu marido e quero muito salvar nossa vida de casal.”

- Beto, porque não tiramos umas férias e fazemos uma viagem pra um lugar bem especial, só nós dois? Acho que umas duas semanas ou três seria perfeito! Eu posso deixar o escritório com os outros sócios, tenho mais 3 afinal e tenho certeza que alguns dias não iriam afetar nossas causas. Ainda mais agora, que tenho uma Assistente que mostra muito interesse em aprender. Tenho certeza que ela deixaria tudo organizado com muito jeito. Vamos?
- Tá louca, Ana! Logo agora que meu chefe vai tirar férias depois de uns 10 anos! Vou substituí-lo e não posso me ausentar de jeito nenhum. Além do mais, fui promovido a Diretor Jurídico da Empresa e não posso nem pensar em tirar férias pelos próximos 12 meses. Me dê um tempo, tá! Já chega o estresse que vivo no trabalho, não me cobre coisas que não posso fazer agora!

Ana nada disse. Sentiu-se muito triste pelo fato de não ter sido bem compreendida. Queria mostrar ao marido o quanto estava empenhada em tirar o casamento da rotina, em tentar fazer renascer a vontade que tinham em estar juntos, em fazer Amor...mas ele não captou nada e ainda ficou irritado com a proposta. Desistiu desanimada. Não via perspectiva em melhorar a situação por ora. Então que assim ficasse, já estavam acomodados mesmo!

Voltou sua atenção ao filho querido, ele sim lhe dava prazer com sua risadinha infantil, sempre alegre e carinhoso. Sabia que a Mãe adorava ser tocada por ele, com suas mãozinhas pequenas e delicadas e também adorava ser acarinhado por ela. Aprendera que a melhor forma de demonstrar seu afeto era através do toque e muitas vezes fechava os olhos para sentir como era o mundo em que sua Mãe vivia. Nessas horas, tocava seu rosto para senti-lo da maneira que ela o sentia e saber como ela o enxergava. Gostava muito de se transportar para o universo escuro e saber como sua mãezinha andava pela casa sem esbarrar nos móveis, como arrumava seu prato de comida, como ajeitava as coisas em casa sem poder vê-las. Era pequeno, mas compreendia perfeitamente bem as dificuldades e os obstáculos diários que sua Mãe tinha que transpor para levar uma vida normal. Muitas vezes até esquecia que ela não podia ver, e mostrava a ela os desenhos que gostava de fazer, os deveres de casa e as fotos que o Pai tirava dele e da família. Era engraçado como ela sempre sorria e pegava nos papéis como se pudesse realmente enxergá-los. Aprendeu na escola fazer desenhos com texturas, para que sua Mãe realmente pudesse vê-los. Fazia o mar com ondas em relevo de cola e areia de verdade colada ao papel. Casinhas com palitinhos de sorvete e bandeirinhas de verdade. Tudo para que a Mãe pudesse “ver” aquilo que ele fazia pra ela com tanto gosto. E ela retribuía com gestos de Amor e palavras de incentivo. “Pena que Papai não seja como ela! Anda sempre brabo e irritado comigo ou com alguma coisa. Não ligo, ele é bobo e chato! Mas gosto dele mesmo assim.” – Pensava o pequeno.

 

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Lívia gostava de passar os finais de semana curtindo suas coisas em seu pequeno mundinho chamado Quarto! Claro que adorava também aproveitar o dia ao ar livre ou sair à noite pra papear com os amigos, namorar, dançar. Mas aquele pequeno canto de sua casa, continha tudo que era importante pra ela em sua nova fase: o computador, os livros, os papeis de estudo, suas anotações e principalmente, seus pensamentos. Andava muito introspectiva mesmo, apesar de ser extrovertida e nem um pouco tímida, estava vivendo um período de muito silêncio e auto-análise. O pior de tudo é que quanto mais pensava, menos respostas lógicas encontrava para os sentimentos que vinham aflorando ultimamente. Admirava Dra. Ana, seu jeito em lidar com suas dificuldades, com o trabalho, com os clientes, os sócios, os empregados, o modo como a tratava sempre com cortesia e educação; seus olhos como brilhavam quando contava alguma gracinha que o filho tinha dito. Era uma mulher fantástica e despertava em Lívia sentimentos que ela desconhecia até então. Nunca havia admirado ninguém assim, amava seus Pais, adorava a irmã, teve vários professores, namorados, mas ninguém nunca despertara em Lívia tamanho interesse e admiração quanto Ana. O pior era a confusão de sentimentos, não apenas admiração, mas algo mais forte que a fazia ter vontade de ficar com Ana além do normal. Queria estar perto dela nas horas vagas, nos momentos de lazer, nos finais de semana. Era o primeiro final de semana depois de ter começado no novo Estágio e percebia que o que mais desejava era que chegasse logo a 2ª feira para voltar ao Escritório. Antes, seu dia preferido era a 6ª feira, pois sabia que poderia sair, aproveitar a noite à vontade, farrear bastante, e teria o sábado e domingo para fazer nada e tudo ao mesmo tempo. Agora, este final de semana parecia tão sem graça. Caio logo chegaria para que pudessem almoçar e passar juntos o resto do dia. Gostava dele, o sexo era bom e achava até que era esse detalhe que os mantinha juntos ainda. Nunca havia amado nenhum namorado, pelo menos não como se lê nos livros e na poesia. O que a ligava a eles era puramente a parte física, enquanto a vida sexual fosse boa e quente, ela os aturava, quando começava a esfriar, pronto! Já perdia o interesse e passava a buscar novos amores. Era frívola, sim! Mas não julgava ser culpada disso. Eram assim que as coisas se apresentavam a ela, que tudo se passava em sua mente e em seu coração. Não ficaria com ninguém por compaixão. Acabou o tesão, acabou a relação, sem conversa fiada ou “mas” e “porquês”. Não tinha paciência para sentimentalismos tolos e não iria fingir para agradar a ninguém. Achava por demais piegas esses sofrimentos e dores que as pessoas diziam sentir por Amor. O Amor deveria ser simples assim: sentiu, viveu, acabou, morreu, tchau! Sem devaneios desnecessários que tornavam as coisas tão risíveis!

E por falar em risível, havia coisa mais ridícula que esse seu encantamento pela Dra. Cega? Uma mulher que só possuía de diferente, uma cegueira que a tornava mais obstinada para sobreviver num mundo competitivo e predador como o nosso. Era isso! Admirava apenas sua perseverança em ultrapassar os obstáculos que se apresentavam em sua vida. Só isso! Sim, também a achava bonita, mas nada excepcional! “Aposto que alguns meses de convivência e toda essa admiração cai por terra! Daqui a pouco já vou estar achando ela uma chata de galochas, a beleza não verei mais, por se tornar comum pra mim, e vou acostumar com seu jeito. Com o tempo, tudo perde o seu encanto! É só deixar que ele passe e afastar os pensamentos incômodos quando eles chegarem. Não vou permitir que meu final de semana fique comprometido pensando no trabalho e na Dra. Ana Mendes. Que se dane tudo e vamos à diversão!!!”

Saiu e foi encontrar Caio para curtirem juntos aquele sábado de sol e muito calor.

No domingo Lívia acordou cedo e foi correr na trilha do Rio, como adorava fazer. No mesmo momento, Ana corria em sua esteira em casa. Gostavam da mesma atividade física, mas era tão diversa a forma como a praticavam. Lívia podia sentir o ar fresco da manhã, ouvir o Rio correr um pouco menos que ela, sentir o cheiro verde da mata ao redor e, vez por outra, parar no meio do caminho pra admirar algum pássaro mais exótico ou uma cotia correr entre os arbustos. Já Ana, em sua esteira, ouvia música e usava sua imaginação para trazer pra si todo o mundo que Lívia tinha e muitas vezes não se apercebia. As lembranças que Ana tinha de como era a natureza, a cor do céu num dia úmido e quente como aquele, os pássaros multicoloridos, as orquídeas grudadas nas árvores em sua forma e beleza ímpares. Sim, trazia tudo para sua mente e as transformavam em imagens ao longo do caminho que imaginava percorrer em sua esteira.

Eram vidas paralelas, cada qual com suas emoções próprias e modos únicos de ver e sentir. Ambas passavam por mudanças, nos sentimentos que até então eram bem conhecidos e definidos em cada uma. Mas que de alguma forma se convergiam mais adiante, por um capricho do destino ou brincadeira de Deus com seus pequenos Títeres de carne.

 

 

Capítulo 6: NOVOS SENTIMENTOS EM ANA...

 

O tempo transcorria sem grandes intempéries. Ana já desistira da idéia de umas férias, ainda mais, nova lua-de-mel. Todo o romantismo que ainda podia ter, ruiu com as palavras ásperas de Alberto naquela manhã de sábado e podia sentir que a relação entre ambos, tornava-se cada dia mais distante. Ana decidiu voltar-se ainda mais para o trabalho e nas horas vagas, dava mais atenção ao filho e às suas pequenas coisas. Eram o seu grande divertimento, seu prazer.

No Escritório Ana passou a reconhecer em Lívia uma grande companheira. Ela era sempre muito atenciosa, eficiente no trabalho e era incrível a rapidez com que aprendia os trâmites de um processo, como fazer as petições para cada caso, os Recursos, Agravos. Lívia era de uma habilidade sem igual. Realizava seu trabalho como se já estivesse formada e Ana admirava muito sua aptidão para a matéria. Não havia dúvida que Lívia preenchia todos os requisitos para um dia tornar-se sócia do Escritório, se assim quisesse, ou então iria se tornar uma grande concorrente, pois era por demais eficiente em tudo que fazia.

Dia após dia, Ana aprendia um pouco mais sobre a personalidade e o jeito intrigantes de Lívia. Tinha vezes que chegava ao Escritório falante, com um tom alegre na voz, era calma e muito gentil com Ana; por outras, era um pouco mais arredia, ficava quieta, quase não falava a parecia submersa em seu mundo particular; nesses dias, quase não tocava Ana, só quando estritamente necessário. E isso incomodava um pouco Ana, pois parecia que vinha dela a causa do mal estar de Lívia. Queria entender o que a fazia ficar desse jeito. Porque esses paradoxos no jeito de lidar com ela. Com o trabalho não podia reclamar, pois Lívia era sempre muito boa no que fazia, estivesse com o humor que fosse. Mas gostava muito quando ela era meiga, gentil; gostava do seu jeito de tocá-la com delicadeza e ao mesmo tempo firme, para lhe dar segurança; adorava seu perfume cítrico, sempre o mesmo, e sua voz transmitia verdade e confiança que tranqüilizava Ana.

Sabia respeitar os momentos de introspecção de Lívia, estava disposta e descobrir porque, mas sem ser inconveniente com questionários tolos. Esses momentos também não eram tão ruins assim, fazia com que Ana também se voltasse um pouco mais pra si e para seus próprios questionamentos. Além disso, as vezes em que Lívia estava bem humorada eram bem mais que seus momentos de quietude.

- Lívia, venha cá, por favor! Vamos conversar um pouco. – Chamou Ana.

Lívia saiu de trás da divisória que separava suas salas e sentou-se na cadeira de frente pra Ana. Ela estava num dia leve!

- Diga, Doutora! Alguma nova tarefa?
- Não sei. Vai depender da sua resposta. Sabe que dia é hoje? – Perguntou Ana.
- Não. É alguma data especial que deveria lembrar? Xiiiiii...acho que dei algum furo!

Ana riu do tom falsamente preocupado de Lívia. Já sabia reconhecer quando ela era sarcástica.

- Hoje faz três meses que você está aqui conosco. E quero saber se é do seu interesse continuar com a gente ou não. Gostaria muito de efetivá-la se assim for o seu desejo. Adoro o seu trabalho e o modo como nos damos bem. Só preciso saber se você também pensa assim.

Formou-se um silêncio longo, meio perturbador. Lívia não conseguiria articular a voz sem tremer, por isso ficou calada por mais tempo pra se refazer. “ Esperei tanto por esse dia! Contei cada minuto e hoje fiquei toda a manhã esperando ela me chamar. É bom demais ouvir isso dela!” . Respirou profundamente e falou:

- Dra. Ana, sabe que adoro estar aqui com a Senhora. Nesses três meses aqui aprendi mais que os primeiros 2 anos de faculdade. Tudo o que mais queria ouvir, a Senhora me disse agora. Quero muito ser efetivada sim, e só tenho uma coisa a pedir...
- Diga, querida.
- Vamos almoçar no Alfredo para comemorar, e por hoje a conta é minha. Por favor!

Ana riu, estava feliz com a alegria impressa na voz de Lívia. Gostava muito de estar com ela, da sua companhia, de trabalharem juntas e o que mais queria era efetivá-la logo, para dar-lhe mais segurança e motivação no trabalho. Ela merecia isso e muito mais, pela sua eficiência. Além do mais tratava Ana com tanta devoção e carinho que se pudesse, levaria Lívia pra sua casa. Engraçado, como até nessas horas, Lívia pensava em Ana. Ela havia comentado que “Alfredo” era o seu restaurante favorito. Uma típica cantina Italiana, com pratos da “Mamma” e música Napolitana ao fundo, bem suave. As mesas cobertas com aquelas toalhas quadriculadas de branco e vermelho e todos os detalhes de uma perfeita taberna de Nápoles. Esses detalhes não eram vistos por Ana, mas eram sentidos no clima criado para deixar o lugar com a cara da Itália.

O Almoço transcorria num clima tão ameno e alegre, que Ana e Lívia não se preocupavam com o passar das horas. Pediram antepastos, prato principal, vinho tinto e sobremesa. Tudo regado a uma conversa gostosa, que variava o tema entre o que gostavam ou não de fazer, livros prediletos, a dificuldade em conseguir títulos em braile, a facilidade que o computador trouxe pra vida de Ana, as corridas que as deixavam em formas perfeitas...era um papo tão gostoso, sem temas pesados, sem preocupações...ambas discorriam sobre o que mais dava prazer a cada uma e as coisas e pessoas maçantes que faziam com que as boas parecessem melhores ainda! Riam muito uma da outra. Ana achava graça da entonação na voz de Lívia ao falar de alguém ou algo desagradável e imaginava como devia ser seu rosto, imaginava feições delicadas e caretas engraçadíssimas. “Lívia era muito espirituosa.” Pensava Ana.

Lívia não tirava os olhos de Ana. Era linda a sua expressão de felicidade...sua risada quando Lívia fazia alguma graça...seu jeito de tocá-la no braço enquanto ria de suas piadas bobas. “Ana era brilho puro! Incrível como alguém que não via podia exalar tanto brilho pelos poros, pelos olhos, pelo sorriso...tem coisa mais bela do que ela nesse momento de relaxamento e diversão? Ela fica ainda mais linda sem aquela ruguinha de preocupação entre as sobrancelhas...com o semblante leve, risonho...Linda demais!!!”

O almoço acabou e decidiram ir até o Rio à pé, caminhar pela margem e desgastar a orgia gastronômica que se permitiram fazer. Na verdade, queriam desfrutar da companhia uma da outra mais tempo ainda. Não queriam que aquela tarde agradável acabasse e, como não tinham nenhum compromisso, resolveram prolongar o prazer que sentiam em estar juntas algumas horas mais.

- Dra. Ana...

Ana interrompeu Lívia dizendo:

- Quando estivermos a sós, pode me chamar só de Ana, Lívia. Nós já estamos juntas o dia-a-dia há três meses, e não precisamos dessa formalidade toda quando não houver outras pessoas a nossa volta.

Lívia estava um pouco desconcertada, mas feliz pela intimidade que compartilhavam.

- Tá bom! Ana...eu queria dizer que adorei nosso almoço. Estou muito feliz em continuar o trabalho junto de você e acho que vou ser uma excelente profissional mirando-me no seu exemplo de conduta e ética.
- Ora Lívia, deixa de rapapés...conduta, ética? Que palavras formais são essas? Obrigada, pelos confetes, no fundo eu adoro! Sou meio Narcisista mesmo. Apesar de não poder me apaixonar pelo meu próprio reflexo como Narciso. Hahahaha.

Ana segurou as mãos de Lívia, depois aproximou o rosto e beijou a face de Lívia...

- Eu também adorei nosso almoço e quis fazer essa caminhada, não apenas pra desgastar toda aquela comilança, mas para estar um pouco mais com você. Adoro sua companhia e os momentos que passamos juntas, no trabalho e mais ainda agora, fora dele.

Ana passou a mão próximo ao nariz de Lívia e imaginando onde estariam seus olhos, olhou profundamente nos de Lívia; deu um sorriso lindo e disse:
- Acho que se você não quisesse mais ficar no Escritório, eu estaria mais perdida que cego em tiroteio. Não deveria te dizer isso, porque você já é convencida e vai ficar mais ainda...mas se você não quisesse ficar, eu sentiria mais falta que de qualquer outra pessoa ali e qualquer outro Assistente que eu tenha tido até hoje. Gosto de você mais que profissionalmente. Te adoro como amiga e quero que nossa parceria seja por muito tempo.

Os olhos de Lívia ficaram marejados. Sorte sua Ana não poder ver! Lívia segurou a mão de Ana e começaram a caminhada assim, de mãos dadas, como velhas companheiras. Era essa a sensação que tinham...que eram companheiras de longa data.

- Já que gosta tanto de correr, porque não vem correr comigo aqui na trilha do Rio? Eu acordo cedo e poderia passar na sua casa, trazê-la pra cá. Aposto como seria bem melhor que correr naquela esteira da sua casa. Você vai poder sentir o cheiro bom das árvores, ouvir o canto dos pássaros, o Rio batendo nas pedras da margem. Diga que sim e amanhã mesmo começaremos.
- Sim, querida. Claro que sim, eu esperava há muito esse seu convite, mas tinha medo de ser um estorvo para a sua corrida. Tenho um bom preparo físico, mas vou ter que aprender a correr nesse novo caminho e posso tropeçar muito até conhecê-lo bem. Você terá paciência?

Lívia riu, era tudo o que queria há muito tempo também...

- Claro que vou ter paciência! Além do mais será uma ótima oportunidade de me vingar das suas maldades comigo lá no Escritório. Quando você for má, eu ponho o pé na frente e digo que foi uma pedra...hahahha.

Ana riu:

-Você que é uma menina muito má! Pobre Caio, deve sofrer muito nas suas mãos.

Lívia ficou séria. Havia terminado com Caio uma semana antes e não disse nada a Ana, não sabia porque. Pensava até que poderia voltar pra ele a qualquer momento, afinal ele insistia muito e ligava pra ela todos os dias. Lívia não tinha ninguém mesmo, porque então desmanchara com Caio que era tão legal? Era como se ele atrapalhasse seus pensamentos...estava querendo muito ficar só, com seus pensamentos, com suas novas tarefas e Caio sempre vinha tirá-la dos seus devaneios, cobrando carinho, atenção...estava farta de ter que dividir seu tempo. Mas tinha que confessar que sentia falta do sexo...será que eu poderia ter uma amizade colorida com ele?

- Nós não estamos mais juntos...mas também ainda não nos desligamos de vez...é meio complicado.
- Quer falar sobre isso? Pensei que gostasse dele.
- Gosto, mas não é aquela Paixão! Não quero falar sobre isso.
- Ok! Nada de estragarmos nosso fim de tarde com conversa chata. Me mostre a trilha onde terei que correr.

Lívia caminhou com Ana por toda a trilha ao longo do Rio, deveria ter uns 4 km de extensão, que formava um circulo ligando dois municípios. Lívia costumava correr o percurso ida e volta o que totalizava uns 8 quilômetros diários, fora mais 1 km, no mínimo que teriam que percorrer da casa de Ana até o começo da trilha; e Ana não se assustou. Estava empolgada com a possibilidade de um contato maior com a natureza que tanto amava e ainda estava na sua mente bem viva. E Lívia, aquele menina tão adorável, iria proporcionar esses momentos mágicos a ela.

- Obrigada, minha Luz! – Disse Ana beijando a mão de Lívia que ainda segurava.
- Luz? – questionou Lívia, com emoção.
- Sim, minha Luz! Você é minha Luz no trabalho, nas Audiências, nos caminhos que percorremos juntas nas cidades que temos que visitar...agora você será também minha Luz para as coisas que me dão prazer, como a corrida nesse lugar tão aprazível e a companhia agradável para um almoço gostoso, regado a um bom vinho, no velho e querido “Alfredo”.

Lívia emudeceu! O toque, o beijo suave por cima de seus dedos, aquelas mãos que não queriam largar as suas, aquele sorriso que iluminava tudo...

“Meu Deus! Que era aquilo! Não posso pensar nisso...não posso pensar!”

As mãos não se largaram até o carro. Lívia deixou Ana em casa. Já era por volta de 7 da noite e a empregada veio recebê-la com Flávio pulando no colo dela. Alberto chegou na porta, mas virou as costas logo que viu Lívia. “Não vou muito com a cara daquela garota! Ela até que é gostosinha, daria uns pegas nela se não fosse tão próxima de Ana, mas aí já seria risco demais! Não valia a pena, era muito antipática, e olhava pra ele com uma cara de poucos amigos. Que se danasse, não gostava dela também!”

Ana aproximou-se de Lívia, com Flávio no colo e a abraçou com o menino entre ambas...todos riram muito e Ana falou:
- Novamente obrigada pela tarde agradabilíssima que tivemos. Adorei cada minuto da nossa conversa e também dos silêncios que dividimos. Você é muito especial, Lívia. Tenho inveja do privilegiado que irá desfrutar da sua companhia neste final de semana.
- O privilegiado talvez seja meu computador e os livros. Pedi a Caio que me desse um tempo. Estou meio cansada dele. É péssimo dizer isso desse jeito tão cru, mas é a verdade.

Lívia beijou Ana na face, beijou também o pequeno Flavinho, que tanto gostava, e disse:
- O privilégio foi todo meu, Dra. Ana. Nem senti o tempo passar e agora estou aqui, doida pra temos outras tardes como essa. Obrigada pelo dia maravilhoso!

Virou-se e foi embora. No carro, um sorriso bobo teimava em não deixar sua boca. “Ela também aprecia a minha companhia como eu gosto da dela! Isso é muito bom! Eu não sinto sozinha”

Em casa, Ana ocupou-se com Flávio até tarde. No jantar não conversava muito com Alberto, também não sentia vontade de compartilhar com ele os momentos agradáveis que tivera com Lívia durante a tarde.

Engraçado como se sentia mais próxima de uma menina que conhecia há apenas três meses, que com seu marido, com o qual dividia a mesma casa e a vida por 10 anos! Era uma pena que tudo estivesse tomando esse caminho, mas sempre que tentava encontrar uma solução, Alberto a rechaçava com alguma desculpa ou muxoxo. Estava cansando!

Ana foi dormir...seus pensamentos estavam tão acelerados que demorou a pegar no sono...pensava muito em Lívia, na sua delicadeza com ela, na preocupação que demonstrava com seu bem estar, com as coisas que a agradavam...de dois em dois dias colocava flores frescas em cima de sua mesa, sabia que Ana adorava flores...mesmo sem poder vê-las, adorava sentir o perfume, a textura, o frescor delas...Lívia tinha todo esse cuidado e prestava sempre atenção nos detalhes do que Ana apreciava ou não. Aquela tarde tinha sido especial sim! Tinha aproximado as duas de um jeito que Ana nunca fora com ninguém. Sentia vontade de contar pra ela todas as coisas que vivera, todas os seus prazeres, todas as suas dores...tinha vontade de não largar sua mão, de convidá-la a entrar em casa e passar o resto da noite com aquela conversa gostosa, tomando mais vinho, brincando com Flávio...e claro, mandar que Alberto se desintegrasse por umas 200 semanas... “Que horror pensar assim, mas que vou fazer? Gosto muito mais de estar junto de Lívia que dele. Ele não liga quando começo a contar sobre minhas coisas, minha vida no trabalho, com as outras pessoas...está sempre desinteressado! Já Lívia presta atenção em tudo que digo...está sempre ligada e interessada naquilo que irá me agradar...faz questão de me fazer sentir bem...é muito prazeroso estar ao lado dela...há muito tempo não sentia alguém tão próximo, aliás, acho que nunca tive alguém que me fosse tão próximo, que me entendesse tão bem...”. Adormeceu com os pensamentos naquela menina delicada, de toque suave e firme, cheiro bom de fruta cítrica com flores do campo, risada fácil e gostosa de se ouvir, voz de contralto e um jeito todo especial de lidar com ela. “Eu gosto tanto da Lívia....ela é tão especial pra mim...quero ela sempre comigo...sinto demais a falta dela nos fins de semana....ainda bem que iremos correr juntas, assim, mesmo nos finais de semana poderemos estar juntas...junto...comigo...Lívia...Luz”. Sonhou! Era um sonho bom e Lívia estava nele. Mas quando acordou, já não lembrava mais como tinha sido.

 

 

Capítulo 7: A PERCEPÇÃO DOS NOVOS SENTIMENTOS

 

Era uma manhã linda, com céu azul, sem nuvens, ar fresco e úmido. Perfeito para uma corrida na beira do Rio! Ana estava pronta e um pouco ansiosa quando Lívia chegou, não via a hora de começar logo suas corridas, da maneira que sempre sonhou, próxima à natureza, ouvindo o barulho do Rio, sentindo o ar fresco...era disso que precisava para renovar suas energias!

Alberto desceu as escadas e estranhou Ana com calças jogging, camiseta e tênis, indo em direção à porta da saída tão cedo:
- Pra onde você está indo a essa hora da manhã? E sem o Fred? – Perguntou
- Estou indo correr na trilha do Rio, eu comentei com você ontem sobre essa minha nova atividade, mas você não deve ter prestado a mínima atenção, como sempre, né Beto? – Respondeu Ana, com impaciência.
- É, agora eu lembro, mas com quem você vai?
- Com a Lívia.

Alberto fez um muxoxo de desagrado. “Que puxa-saco essa garota! Deve tá doida pra ser logo efetivada e um dia poder tornar-se sócia de Ana. Só pode ser interesse mesmo!”

- Acho essa sua Assistente uma antipática! Não sei como você gosta tanto dela e tem saco pra ficar com ela tanto tempo! Ah, por falar em coisa chata, amanhã estarei viajando pra São Paulo, só volto na 6ª feira.
- Ok, Beto. Vou pedir a Cininha que faça sua mala. Quando Flavinho acordar, peça que ela dê o café da manhã pra ele. Volto antes do meio-dia pra almoçarmos. Tchau!

Saiu e Lívia já estava de pé junto à porta, segurou Ana pelo braço a falou entusiasmadamente:
- Preparada pra suar essa camiseta? Não vou poupá-la por ser deficiente ouviu Doutora?! Não tenho pena, pois sei que está em plena forma e tem fôlego suficiente pra no mínimo uns 8 quilômetros.

Ana pegou no braço de Lívia e riu empolgada:
- Você não tem idéia da vontade que estou de irmos logo pra essa corrida. Cheguei a sonhar esta noite!

A corrida foi mais que Ana esperava! Ela não podia ver, mas tinha de volta todo aquele ar que só podia sentir. Era o frescor da manhã que entrava pelas suas narinas e trazia de volta a cor do dia, o cheiro de verde, a umidade do Rio pelo ar, os barulhos que a natureza produzia...os passos sorrateiros dos pequenos animais, o vôo dos pássaros, o bater de asas e seus cantos, o tilintar dos galhos e folhas das inúmeras árvores ao longo do caminho...era tudo o que Ana precisava pra começar bem um dia, ainda mais ao lado de uma ótima companhia. E ela fez com que Lívia soubesse disso por todo o tempo que passaram juntas a correr...era um toque, um sorriso, um comentário de jubilo, tudo transbordava em Ana prazer por estar ali; e Lívia sentia-se imensamente gratificada por estar proporcionando esse pequeno deleite pra Ana. Lívia era muito cuidadosa com ela, prestando atenção aos obstáculos no caminho, fazendo com que Ana passasse a conhecê-los bem. Deu-lhe a exata dimensão da trilha e deixou que ela seguisse seus próprios instintos, mas sempre guiada pela mão macia de Lívia.

Durante a corrida conversaram pouco e sobre coisas amenas, estavam mais interessadas em sentirem o ambiente em volta. Lívia aprendeu com Ana a ter uma noção diferente daquela que seus olhos lhe davam, passou a prestar mais atenção naquilo que seus olhos não podiam ver, como os sons por entre as árvores, nos arbustos, da água batendo nas pedras da margem, nos cheiros que a natureza produzia. Estava tendo uma percepção diferente das coisas, daquilo que era tão comum em sua vida e que agora, parecia ter outro brilho, outro colorido. Mais ainda, percebia Ana ao seu lado, com seu jeito suave, deslumbrada pela nova experiência esportiva; que apertava sua mão sem querer quando sentia algo diferente no ar, um novo cheiro, um novo som.

Ana sentia o ambiente a sua volta como uma criança descobrindo o mundo...era tudo tão gostoso de sentir. “Ainda mais com Lívia ao meu lado. Adoro estar tendo essa experiência segurando a mão dela, com ela ao meu lado podendo me transmitir tudo que não posso ver, mas deixando também que eu sinta por mim mesma, sem interferências! Ela é sábia, sem saber! Tem uma sensibilidade pras coisas, fora do comum!”

Quando a corrida terminou, resolveram parar e beber algo que providencialmente Lívia trouxera, como sempre fazia, sentaram numa pedra e Ana disse:
- Adorei a corrida, Lívia! Repôs minhas energias e estou me sentindo muito mais viva, mais elétrica. Obrigada por mais uma experiência agradável. Quero que essas corridas se tornem freqüentes, se isso não for te atrapalhar, é claro!
- Claro que não irá me atrapalhar. Pelo contrário, adoro ter uma companhia pras minhas corridas matinais. Ninguém que conheço tem coragem pra acordar cedo e vir encarar uns 8 a 10 quilômetros de corrida. Só não venho quando saio à noite e vou dormir muito tarde, mas se quiser, umas 4 vezes por semana pelo menos eu venho correr. - Disse Lívia animada.
- Quero vir sim, sempre que você puder e quiser ir me buscar. Podemos combinar sempre no dia anterior. – Ana estava muito empolgada.
- Fique tranqüila que não deixarei de chamá-la, é um grande prazer ter você como companhia. Posso contar um segredo? – Perguntou Lívia.
- Claro. – disse Ana com curiosidade.
- Eu nunca gostei muito de correr com alguém ao meu lado, porque as pessoas sempre acham que devem ficar batendo papo por toda a corrida, e teimam em ficar tagarelando um monte de bobagens que raramente me interessam; que acabo perdendo o fôlego antes do final e ainda por cima fico entediada. – Suspirou e suavizou o tom de voz – Mas com você é diferente. Gosta de estar quieta como eu, apreciar o ambiente, sentir o caminho...e quando falamos, é algo que nos faz bem. Por isso gosto tanto da sua companhia, e não quero deixar de tê-la nas minhas corridas. Tá combinado então?

Ana sentiu o coração um pouco apertado com as palavras de Lívia. Não entendia o porquê, mas o fato é que estava com o peito doendo um pouco...estranho...tinha gostado tanto de ouvir aquilo e ao mesmo tempo sentia uma leve dor que não tinha explicação. Falou baixinho:
- Estamos combinadas sim, sempre que você quiser.

E levantou-se pra irem embora. Lívia notou a leve tristeza que acometeu Ana de repente e perguntou:
- O que houve? Algo errado? Eu disse que não gostava de companhia de gente chata, mas de você eu gosto, ouviu direito o que eu disse? – estava preocupada em ter sido mal interpretada.

Ana segurou a mão de Lívia e a ajudou a levantar-se, virou-se em sua direção e disse:
- Não minha querida. Fique tranqüila, entendi perfeitamente seu comentário. Não estou triste, só preocupada com algumas coisas em casa. – Disse Ana tentando disfarçar e continuou: - Às vezes penso o que pode ser pior, alguém nunca ter enxergado antes ou ter enxergado algum dia e perder a visão como em meu caso?! Eu sei exatamente a forma de tudo, as cores estão vivas em minha memória e quando sonho, eles tem forma, conteúdo e rostos dos quais me lembro perfeitamente bem. Dói não ver o rosto do meu filhinho, mas eu o tenho em minha mente nas formas que eu imagino, e o vejo da maneira que me parece ser. - deu uma pausa e suspirou profundamente: - sabe que conheci Alberto quando ainda enxergava, na adolescência; e o reencontrei anos depois, na faculdade. Eu tenho em minha memória aquele rosto de criança ainda. Claro que consigo formar uma idéia do que ele é hoje como homem, mas ainda vejo o sorriso e o olhar infantil dele e muitas vezes eles não combinam com as palavras e com o modo de agir do Homem de hoje. – Sua voz imprimia melancolia e Lívia perguntou interessada:
- Vocês estão em crise?

Ana deu um sorriso amarelo:
- Comum em todos os casais que estão juntos há tanto tempo.

Lívia comentou:
- Acho que quando há um Amor sólido, essas crises vêm e vão com a mesma facilidade e ele permanece lá, inabalável em sua estrutura. Elas não maculam sua rigidez e ele fica ainda mais forte depois.

Ana sorriu estranhando o comentário de Lívia:
- Engraçado ouvir isso de você que parece ser tão instável com seus Amores.

Lívia retrucou um tanto irritada:
- Dra. Ana, eu não sou contra o Amor, pelo contrário, acredito nele e peço a Deus que um dia me conceda a graça de senti-lo em toda sua plenitude. Não é porque nunca senti, que vou desacreditar um sentimento. Não tenho culpa de nunca ter vivido um grande Amor e não posso ser rotulada de volúvel por causa disso. Estou tentando...

Ana ficou sem graça com seu comentário leviano:
- Desculpe, Lívia. Não quis dizer que você é volúvel. Não posso realmente julgar seus sentimentos. Um dia você irá amar sim, pois me parece ter uma grande capacidade pra isso. Capacidade de Amar e despertar um grande Amor em alguém. Desculpe novamente. – disse com a cabeça baixa e um nó na garganta, o mesmo que não se desfizera quando Lívia elogiou sua companhia durante a corrida.

Lívia decidiu ficar calada, sentiu que havia algo no ar, ele se tornara mais pesado. Levou Ana para casa. Despediram-se e cada qual foi tratar de suas vidas. Ana foi dar atenção ao filho e preparar-se para o almoço. Lívia foi pra casa tomar banho e esperar Caio aparecer. O dia transcorreria bem, rotineiramente bem.

Algo tinha mudado dentro de Ana. Ela não sabia dizer o que exatamente, mas seu peito estava com uma leve opressão. “O que houve comigo? Porque aquelas palavras gentis de Lívia me tocaram desse jeito? Porque senti vontade de abraçá-la e beijá-la com força? Meu Deus, o que está acontecendo comigo? Eu não sinto desejo por mulheres, nunca senti. Que loucura é essa de querer estar ao lado dela todo o tempo.”

Ana estava angustiada e na tentativa de racionalizar seus novos sentimentos, mais se emaranhava nos “porquês” dessa sua nova percepção.

“Lívia é uma menina, devo estar confundindo a atenção que ela me dá, com sentimentos esdrúxulos. Ainda mais agora que Alberto está tão distante de mim. Claro, é isso! Estou carente de atenção, de alguém que seja companheiro, e como ela está ao meu lado todo o tempo, estou transferindo essa minha carência pra ela. Grande tolice! Tenho que aprender a lidar com isso e desfazer esses sentimentos tolos que estão me invadindo vez em quando!”

Ana não entendia como gostava mais do toque de Lívia que de qualquer outra pessoa até então. Não queria nunca largar sua mão, seu braço e sentia sempre uma vontade absurda de cheirar seu pescoço... “Ah, aquele perfume gostoso!”... “Que idiotice, Ana! Tem tanto perfume bom por aí, tanta gente cheirosa, porque essa obsessão com o cheiro de Lívia?! Já até sonhei com esse cheiro e uma dança, sim nós dançávamos uma música bem suave e eu sentia o cheiro dela o tempo todo, com minhas narinas grudadas em seu pescoço, próximo do ouvido. Imagino seu rosto e até o vejo em meus sonhos! Pare de pensar, Ana! Isso é a maior Loucura que já sentiu, não tem propósito! Esqueça esses sentimentos! Abafe-os urgente!!!”

Ana estava por demais incomodada com os novos sentimentos que lhe apavoravam. Estava explicada toda aquela opressão que sentia no peito, a melancolia...eram esses sentimentos estúpidos que vinha cultivando inconscientemente por Lívia...algo que não poderia nunca ter sido sequer imaginado, que dirá sentido!

Aqueles sentimentos traziam angústia e dor pra Ana. E o final de semana transcorreu com a habitual tranqüilidade aparente, mas só Ana sabia o turbilhão de novas emoções que a acometiam por dentro. Só Ana brigava contra si mesma desesperadamente pra entender e fugir daquilo tudo. “Não faz sentido isso. Não pode fazer. Tenho que ser racional e dominar essa estupidez! Não vou permitir que minhas carências acabem com uma bela amizade, com algo que me faz muito bem! Simplesmente, tenho que domar esses sentimentos estranhos, só isso! Não quero mais pensar, não vou mais pensar sobre isso!”

Mas o caminho para dominar seus pensamentos seria muito árduo, muito mais difícil que os obstáculos diários que enfrentava na rua, no trabalho, na vida... mas era perseverante, saberia como conduzir essas emoções loucas, saberia como segurá-las nem que fosse num lugar dentro de si, que nem ela alcançava. “Iria dominá-las sim, a qualquer custo! Mas não se privaria da companhia de Lívia! Ah, isso não!”

Lívia passou o final de semana como sempre fazia, mergulhada em suas anotações, nos livros, e com Caio à noite, pra relaxar. Sim, parecia muito animal que assim fosse, mas Lívia queria Caio só pelo sexo...adorava transar com ele e no final do gozo, pedir que ele chegasse um pouco pra lá, sem muitos abraços e beijos, pois estava cansada ou tinha que estudar ou terminar um trabalho. Caio sentia que ela não o amava, mas gostava demais de Lívia e enquanto ela o quisesse daquele jeito, ele a teria da maneira que fosse.

Lívia passou o final de semana pensando em Ana, como sempre! Pensava que o tempo iria desconstruir a imagem que criara da Dra. Ana Mendes. Achava que todo aquele encantamento cairia por terra em alguns dias. Mas o que estava acontecendo era totalmente fora do que Lívia imaginava ou pelo menos, queria que acontecesse. Após três meses de convívio, Lívia admirava e gostava ainda mais de Ana. Muito mais do que gostaria que fosse, muito mais que sua racionalidade deveria permitir que fosse. Aquele convívio diário, aquele proximidade, só fez com que Lívia gostasse ainda mais de Ana, e o pior de tudo, gostasse de um jeito que não queria admitir nem para sua própria consciência. Tinha vontade de fugir de si mesma, de voltar a ser aquela velha Lívia “sem coração”, que não se importava muito com esse negócio de sentimento, de desejo, de Amor...ultimamente vinha pensando nisso mais que o normal e ficava muito incomodada com essas suas sentimentalidades idiotas. “Será que virei uma dessas tolas românticas, que vivem criando fantasias melosas com Príncipes Encantados? Pior ainda, com uma Princesa Encantada! Que idiotice! Era só o que me faltava, ficar romantizando coisas com minha chefe. Tô fora! Não vou permitir isso! Adoro estar ao lado dela, mas gosto muito da minha vida do jeito que ela está também! Não quero me meter numa confusão com mulher casada e ainda por cima cega. Vão dizer que me aproveitei do fato dela ser deficiente pra seduzi-la, essas coisas...” – continuou suas conjecturas: “Além disso, ela não demonstra o menor interesse por mim, que não seja profissional e de amizade. Não posso ficar viajando numa história que é só minha! E quem disse que gosto de mulher? Já transei com algumas sim, mas sempre a três e porque Ricardo gostava, não eu! Xô com esses pensamentos pra lá! Não quero saber disso, não sou Lésbica, porque ficar criando fantasias com uma mulher então?!”

Mas se existe algo que domina o ser humano, são seus próprios pensamentos. Por mais que tentemos nos livrar deles, nos alijarmos de suas inconveniências, lá estão eles, insistentes, sempre nos cutucando com algo novo ou com os velhos detalhes. É uma tortura não ter domínio sobre sua própria mente. E eles seguem... impassíveis, soberanos... sobre nós!

Dormiu com um livro de Fernando Pessoa caindo pelas suas mãos...na cabeça martelava os versos da primeira estrofe do poema que lera antes da doce inconsciência de Morpheu:


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."