Elize. Quando os Anjos falam

Contos de Léa

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1ª Parte


Capítulo 1

 

Em algum lugar do passado

6:00 da manhã...


Elize saiu do bar onde trabalhava e foi caminhando lentamente pela praia rumo ao seu refugio. Ainda com um drink na mão, desceu a viela que dava direção à praia. Sentou-se e ficou por longos minutos olhando para o Mar remanso, o Sol ainda dava seu espetáculo no céu. Cores diversas destacavam-se por entre as poucas nuvens.
Tirou os sapatos, as meias, dobrou as calças até os joelhos e caminhou até a água. Caminhou descontraída por horas, o vento soprava-lhe a face suavemente, dobrou as mangas da camisa social e molhou o rosto n’água do Mar, molhou a nuca, aspirou o ar puro. O calor estava começando a ficar intenso. Subiu pelo porto que dava em frente a sua casa e deparou-se com sua irmã caçula em frente ao portão, sentada no capô do carro, com os braços cruzados.

- Bom Dia mana!
- Bom Dia minha criança!
- Eu fui ao bar, disseram que tu tinhas saído há horas.
- Eu vim pela praia. Estava sem sono. Como estão as crianças?
- Estão bem!
- Entra, eu te faço um café. Disse beijando-a no rosto e entrelaçando-a pela
cintura.

Entraram silenciosas, Elize colocou a chaleira com água para ferver, preparou as xícaras de louça branca e delicada fitada a ouro que herdou de sua mãe. Foi até o banheiro, jogou água no rosto tentando espantar o sono, ajeitou os cabelos longos e cacheados, prendeu-os num coque muito bem feito e voltou à cozinha. A água já fervia, coou o café e levou até a sala de estar da grande casa de madeira.
- Eu consegui uma hora pra ti. Na sexta-feira, as 18:00 horas.
- Sabe que eu não posso ir. Vou tocar na sexta-feira, no municipal. Tu vai me ver não é mesmo?!
- Elize, até quando tu vai fugir da vida?
- Até quando eu puder Camila. Já te pedi para não insistir neste assunto.
- Elize, por favor? Tu sabes que precisa resolver isso logo.
- O dia em que tu for me ver tocar, eu aceito tua vontade. Estou pedindo há meses Ca. Podia pelo menos levar as crianças... Mas nem isto...

O silêncio tomou conta da grande sala por alguns minutos, Camila abaixou o olhar, sabia que devia isto a sua irmã. Sabia que era importante para ela... Mas também sabia que seu marido (um bruto que atendia pelo nome de Osmar) jamais permitiria que Camila levasse seus filhos para ver Elize tocar na orquestra municipal, muito menos num bar a beira da praia.

- Eli, tu sabe que é complicado pra mim.
- Eu sei minha criança, eu sei.
Elize sorveu um gole de café, virou o olhar triste para o lado, não suportava saber que sua única irmã era prisioneira de um homem ignorante e egoísta.
- Preciso ir Eli.
- Fica em paz meu Anjo. Da um beijo nos meninos por mim.
- Eu darei.

Trocaram um beijo rápido no rosto e despediram-se. Elize acompanhou sua irmã até o portão. Voltou para seu refúgio, tomou um longo banho e jogou-se na cama. Precisava dormir, precisava recompor as energias, precisava não pensar. Caiu num sono profundo, cheio de sonhos estranhos, acordou completamente suada, tentou lembrar-se do sonho, mas foi em vão. Levantou-se, olhou no relógio, 14:00, tomou um comprimido, sua cabeça latejava, precisa dormir mais, descansar mais, precisava apagar. E apagou. Desmaiou em poucos minutos. Acordou quando o Sol já dava seu último adeus aos espectadores na Terra. A brisa suave animou-a. Tomou um banho e arrumou-se para mais uma noite de trabalho.

 

 

Capítulo 2

 

Elize vestiu-se com delicadeza, adorava estar bonita e bem vestida, mas só quando ia encarar uma noite em frente ao piano. Na maioria das vezes a simplicidade era seu forte.
Vestiu uma calça capri longa, definindo melhor seu corpo esguio, uma camisa social preta, com botões brancos, sapatos claros e soltou os longos cachos dourados. Pintou os olhos castanhos claros com lápis preto, realçando seus longos e delicados cílios.
Os longos e brancos dedos deram vida ao piano de calda antigo no bar. As pessoas no bar voltaram sua atenção à melodia que embalava a noite caiçara. Ao seu lado, o fiel amigo Márquez acompanhava com o violão muito bem afinado. Iniciaram a noite com canções mais alegres, samba, chorinho, bossa nova. Só com a chegada da doce madrugada tocaram canções românticas animando os casais que estavam no bar e na praia.
A noite seguiu com suavidade e sem que todos percebessem o dia tentava nascer mais uma vez.
Elize e Márquez encerraram seu repertório com um clássico do mestre Pinxiguinha (Carinhoso), arrancando aplausos dos sonolentos turistas no bar.
Fecharam as portas e Elize desceu a praia como de costume. Gostava de ver o Mar, sentir as ondas bailando sorrateiras na areia morna, ver o Sol iniciar seu espetáculo como todas as manhãs. Sentou-se na areia, tomou uma garrafa d’água. No bolso, papel e caneta para anotar os poemas que lhe surgiam na memória.
Escreveu um poema, levantou-se e caminhou pela praia sentindo as ondas em seus pés.

- Moça! Moça!

Elize virou-se calmamente, viu a mulher que a chamava em voz alta andando em sua direção com um pedaço de papel na mão.

- Moça, você deixou cair isto na areia.
- Eu?
- Sim caiu do seu bolso.

Elize pegou o papel, olhou e entregou de volta a mulher a sua frente.

- Tu podes ficar com ele, tu achastes, então ele te pertence.
A mulher só então abriu o pedaço de guardanapo, olhou, era um poema, leu rapidamente e voltou seu olhar para Elize.
No papel de guardanapo, um poema:

Encontro Marcado

 

 

Capítulo 3

 

Poema a Princesa Lua

Um brilho na noite
Olhar dos amantes
Um hino cantante
Um louco berrante.

Um amor profundo
Não é vento nem sol
É um beijo queimando?
É uma alma tão só?

Uma borboleta pousa
Um brilho encanta
Não é tempestade
O brilho descansa.

Um risco torto no céu
Ela abre os seus braços
Chama-me a compartilhar
Cada um de seus passos

Vives na noite boemia
Minh’alma agora é tua
Amor, este louco amor
És minha princesa Lua.

 

*************

 

- É lindo o poema. Muito lindo.
- É teu. Escrevi olhando e pensando no Sol.
- Escreveu um poema sobre a Lua pensado no Sol?
- Sim. Consentiu.
- Eu vi você tocando no bar esta noite. Toca maravilhosamente bem.
- Obrigada. Bondade tua. Eu tenho um bom parceiro, só isso.
- Bom, deixa que eu me apresente. Meu nome é Anita, mudei faz pouco tempo estou numa casa perto da ferrovia.
- Eu sou Elize.
- Elize. Aceita tomar um café comigo?
- Aceito sim, mas não posso demorar muito, preciso dormir um pouco.

Subiram até um quiosque na beira da praia e pediram um café forte. Conversaram coisas banais, despediram-se e foram para suas casas. Elize jogou-se na cama, seus olhos estavam ardidos de sono. Mal saiu do banho e apagou na cama ainda enrolada na toalha que envolvia seu corpo. Algumas horas de sono perturbado pelos mesmos sonhos fizeram-na levantar da cama. Vestiu-se e saiu, precisava fazer umas compras, abastecer a geladeira. Foi ao supermercado, detestava ir, mas foi. Comprou dezenas de pratos congelados, quase não cozinhava, preferia o prático, mesmo cozinhando muito bem. Entrou na mercearia próxima a sua casa, comprou queijo fresco, doces em calda. Encontrou com Camila na porta da mercearia.

- Oi mana.
- Oi criança. Estás bem?
- Estou. Eu ia até tua casa agora. Vou viajar levar os meninos para passar a semana com os avós. O Osmar não quer ficar uns dias com eles antes que iniciem as aulas.
- Voltas quando Cá?
- Em dez dias. Está um calor danado, vamos tomar um suco mana?
- Vamos até o bar, a Ivete tem um suco especial. Tu vais gostar.

Foram ao bar onde Elize trabalhava, Conversaram por cerca de uma hora, Elize adorava a companhia de sua mana querida, mas lamentava por passarem tão pouco tempo juntas. Camila era sua única família, seus pais haviam partido deste plano quando as irmãs eram ainda muito jovens Elize tinha apenas 16 anos, e Camila 10. Por anos uma fazia companhia à outra, permaneceram morando na grande casa de madeira que seu bisavô havia construído com as próprias mãos no inicio do século passado. Com o casamento prematuro de Camila, as irmãs afastaram-se muito e no decorrer dos anos ao lado de Osmar e sua família, viam-se raramente, quando muito encontravam-se longe dos olhos de Osmar, que detestava Elize e não fazia questão alguma de esconder seus sentimentos mesquinhos.

- Vai passar teu aniversário fora?!
- Vou sim mana, mas estarei pensando em ti.
- Promete que telefona para eu te desejar os parabéns?
- Eu telefono sim Eli. Prometo.

Terminaram o suco e foram caminhando pela rua de pedra em frente à praia. O carro de Camila estava parado perto. Despedirem-se num abraço terno. Camila prometeu novamente telefonar na semana em que estivesse fora.

 

 

Capítulo 4

 

Elize voltou ao bar, pegou suas compras e caminhou para casa. No caminho deparou-se com a mulher que havia conhecido na praia pela manhã.

- Olá Elize, tudo bem?
- Oi. Estou bem. E tu? Como estás?
- Bem. Estou dando uma circulada pela cidade, ainda não encontrei uma academia por aqui. Sabe de alguma?

Elize sorriu. Respondeu:

- Alguma? Porquê? Tens alguma preferência?
- Não. Quero apenas continuar com meus exercícios matinais.
- Tem uma academia ao lado do hospital. No final da rua, virando a esquerda. Vai ser fácil encontrar. É a única por aqui.
- Quer ajuda com as compras?
- Eu aceito. Isto aqui está um peso danado.

Foram caminhando e conversando descontraídas. Anita falava pelos cotovelos.

- Tem alguma danceteria por aqui?
- Não. Uma boate pequena no final da rua da praia. A dois km.
- Então é aqui que você mora?!

Disse Anita observando a casa e o jardim florido. O portão baixo pintado de branco. O gramado bem aparado. Muitas flores pelo jardim e em volta de toda a casa. No meio uma calçada de pedras e um grande galpão separado no final do terreno.

- Quer entrar. Beber alguma coisa?
- Sim. Até por que está muito quente hoje.

Elize gargalhou.

- Hoje? Aqui faz calor o verão e a primavera inteira. É de matar. Mas para compensar... Os invernos são sempre rigorosos. Faz muito frio e o vento corre gelado por estas ruas. Quer tomar o que? Tem suco, cerveja, água, licor, vinho, ah... Posso passar um café se preferir.
- O que você tomar eu acompanho. Vai tocar no bar esta noite?
- Não. O bar só funciona à noite de Quinta a Domingo. No mais Ivete fecha as 19:00.
- Hum, então está de folga hoje? Quer dizer. De hoje a Quarta né.
- Não exatamente. Estou de folga hoje. No restante da semana leciono pela prefeitura. Na parte da tarde.
- Você é professora? Nossa que máximo.
- Não professora como tu estás pensando. Leciono música para duas turmas no salão de festas da prefeitura. Uma turma é para as crianças carentes dos bairros mais pobres da cidade. Tenho um amigo que leciona também. Mas só duas vezes por semana.
- Você da aula de piano?
- Piano e teclado. O Márquez, aquele que toca comigo no bar, da aula de vilão e guitarra. Estamos tentando trazer mais cursos para a cidade. A garotada está cada dia mais empolgada com a música. Tenho dois alunos que querem estudar música e fazer dela seu trabalho.
- Você é casada Elize?
- Não e tu?
- Fui casada por 6 anos e meio.
- Faz tempo que te separastes?
- Faz um bom tempo já.
- Tens filhos?

Anita gargalhou com o comentário e prosseguiu:
- Não. Não tenho filhos. Bom, talvez este seja o lado positivo de uma separação, se tivesse filhos seria complicado.
- É verdade.
- Bom, você pelo jeito não tem filhos. Estou certa?
- Está sim. Moro sozinha aqui desde que minha irmã se casou. Estes são os meninos dela. Disse mostrando as fotos no porta retrato na estante. – Este é o Louis, tem 6 anos ele é meu afilhado, este fofo aqui fazendo caretas é o Enzo, vai fazer 3 aninhos.
- São crianças muito lindas, sua irmã deve ser uma mulher bonita.
- É sim. Tem cara de menina ainda, mas é um mulherão.
- Nossa. Esta casa é enorme Elize. Você não tem medo de morar aqui sozinha?
Elize gargalhou, enfim disse:
- Não. Claro que não. Bem, na verdade não moro sozinha. Tem um casal que mora na casa dos fundos. Eles cuidam de tudo pra mim. Eu não daria conta de tudo sozinha. Trabalham nesta casa há muitos anos.
- Tu moras sozinha naquela casa?
- Moro.
- E tens medo?
- Já tive medo, hoje não tenho mais.

 

 

Capítulo 5

 

Algumas semanas passaram, Elize a Anita tornaram-se amigas, confidentes, Anita revelou a Elize alguns segredos mais íntimos.
Camila, que pretendia ficar apenas alguns dias fora, acabou prolongando sua viagem por um mês, para a tristeza de Elize, que preocupava-se cada dia mais com a irmã.
Elize estava papeando no bar quando sua irmã entrou procurando-a.
- Elize, acho que é a Camilinha te procurando. Disse Ivete tirando-a do assunto com Márquez.
- Oi mana... Tu estás bem? Perguntou Camila beijando seu rosto.
- Estou Cá, e tu? E as crianças?
- Camila! Cumprimentou Márquez oferecendo uma bebida.
- Oi Márquez. Do que estavam rindo?
- Ah Camilinha, da tua irmã, como sempre né... Márquez gargalhou.
- Hum, e qual foi a piada desta vez mana? O que tu andou aprontando na minha ausência?
- Digamos que tua irmã é um “Don Juan” de saias. Márquez interrompeu rindo.
- Eu? Que é isso?! O Márquez é que acordou espirituoso demais hoje... Ele e Ivete tiraram o dia pra me atormentar... Me conta como foi a viagem Cá? Porque demorou tanto?
- Foi tudo bem... É foi legal. Camila desconversou. Eli? Porquê Don Juan de saias? O que tu andas aprontando?
- Elize anda abalando os corações... Disse Márquez.
- Tu estás com ciúmes por que a morena dos olhos verdes te deu um fora ontem à noite... Isso sim. Comentou Ivete caindo na risada.
- Gente! Não estou entendendo nada!
- Ah Camila, o Márquez tentou seduzir uma cliente aqui no bar ontem, mas ela estava era babando na tua irmã. Disse Ivete colocando mais lenha na fogueira.
- Como estão engraçadinhos hoje heim?! Meu Deus. Disfarçou Elize. Quer ir lá em casa Cá? Hoje está difícil agüentar estes dois. Riu.
- Quero sim.
- Tchau crianças! Até mais.
- Até Elize. Tchau Camila. Da um beijo nos meninos.
- Dou sim.
- Cá? Quem é a tal morena dos olhos verdes?
- Acho que é só mais uma turista, nunca a vi por aqui.
- Uau hein dona Elize! Tu não perdes tempo mesmo?!
- Eu? Que nada Cá, Ivete e Márquez que estão vendo coisas onde não tem.
- Sei... Sei... Te conheço. Gargalhou.
Camila e Elize atravessaram a rua, abriram o portão da casa, conversaram por algum tempo.
- Tu sabe o que quero conversar contigo né?
- Sei Camila, mas não estou a fim de iniciar mais uma discussão contigo.
- Caramba Eli, se eu não me preocupar contigo vou me preocupar com quem?
- Não se preocupe, eu estou bem.
- Poxa Eli, eu só tenho tu na minha vida.
Camila despediu-se da irmã, entrou no carro e partiu.
Ao acenar para sua irmã, Elize viu Anita do outro lado da rua. Anita veio em sua direção, sorrindo de longe.
- Oi Elize. Tudo bom?
- Tudo ótimo.
- Entra. Vou passar um café. Aceita um café né? Perguntou Elize dirigindo-se a Anita. Ela consentiu.
- Vai tocar o que esta noite?
- Na verdade não vou tocar hoje. Só no Domingo.
- Que pena. Ué? O bar vai ficar fechado no fim de semana?
- Não. Eu vou viajar. Mas o Márquez vai tocar. Senta, fica a vontade, vou fazer um café.
- Não vim até aqui pra tomar café Elize... Anita disse segurando-a pela mão. Elize encarou-a com seriedade. Anita aproximou-se dela, sussurrou em seu ouvido. – Vim até aqui por que...
- Porquê? Indagou Elize curiosa.
Anita beijou-a. Elize tentou protestar dizendo alguma coisa que Anita não deu tempo. Beijou-a com voracidade. Elize retribuiu ao beijo, entrelaçou-a pela cintura, num abraço sutil, tocou em seus lábios, olhou em seus olhos...

 

 

Capítulo 6

 

Elize acordou com o barulho estridente do despertador, tentou desligá-lo, o bendito continuou a apitar em seu ouvido, deu um tapa, desligou o botão, olhou no relógio 5:00 da matina: - Droga! Já?! Olhou para fora, pela janela aberta, ainda estava escuro, olhou para o despertador com a cara toda amassada: - Quer saber? Eu te odeio. Jogou o despertador na parede. O coitado parou de apitar. Levantou-se aos trôpegos, detestava acordar cedo, mas muito cedo era bem pior. Era de irritar.
- Ai meu santo Deus!!!! Ninguém merece! Muito menos eu.... rrrrrrr.
Tomou banho, desceu as escadas com a maior preguiça do mundo, encontrou Eva arrumando a casa.
- Bom dia menina! Caiu da cama foi?
- Praticamente! Preciso de um café bem forte Eva. Um não... Dois cafés. Muuuiiiittttoooo fortes!!!!!
Eva sorriu ao comentário, sabia que Elize detestava acordar cedo, desde criança, como seu pai. Foi até a cozinha e trouxe a bandeja com o café da manhã. – Eu já preparei tudo minha filha, ouvi o despertador tocando. Ué? Não foi pra esbórnia está noite? Está doente é?! Brincou.
- Se tu consideras mal humor uma doença, então... Estou em estado grave.
- Para de falar bobagem, ou vai levar umas palmadas. Vai viajar filha?
- Vou Eva. Acha que acordei há esta hora só para te dar bom dia foi? Ah aproveita minha ausência e pedes para o Zeca cortar a grama, assim ele pode fazer barulho à vontade com aquele treco horrível.
- Tu queres dizer cortador de gramas né? Eva riu, balançou a cabeça. – Tu és igualzinha ao teu pai, santo Deus! Vai viajar para onde Eli?
- Negócios Eva. Negócios. Um mal que me aflige!
Elize sorveu o café num só gole, levantando-se. Subiu as escadas, escovou os dentes e pegou sua mala no quarto. Voltou para a sala gritando: - Eva tu sabes onde estão minhas botas? Eu não encontro em lugar nenhum.
- Bom Dia linda! Cumprimentou Márquez encostado na porta da sala.
Bom Dia porquê? Ainda está escuro. Não amanheceu! Resmungou.
Eva olhou de canto, com as botas na mão. – Não precisa gritar.
- Tá, já sei. Tu estás velha, mas não estás surda. Eu já sei Eva.
- Acordou azeda hoje foi? Perguntou Márquez rindo.
- Cala boca Márquez!
- Vão viajar juntos?
- Não Eva, eu só vim trazer a chaves do meu carro para esta mal educada ai. Gargalhou.
Elize pegou as chaves, as botas e beijou Eva no rosto. – Obrigada por emprestar o carro. Vou cuidar dele direitinho. Vou cuidar dele como se fosse minha própria via!
- Este é meu medo. Brincou Márquez.
Alguém fica de olho na Camila por mim. Eu telefono amanhã à tarde. Beijos. Tchau! Fui!

 

 

Capítulo 7

Charmaine

 

Elize estacionou o carro, olhou para o prédio alto. Detestava cidade grande, detestava barulho, trânsito. Mas sair de casa por alguns dias sempre lhe fazia bem.
- Como pode alguém morar num prédio!? Comentou pra si mesma. – Parece uma pilha de sardinha em lata! Todo mundo em cima de todo mundo, bem apertadinho. Credo. Riu.
No prédio...
- Boa Tarde! Meu nome é Elize. Por favor, o senhor Sérgio Noronha.
- A senhora tem hora marcada?
- Hora marcada?
Elize gargalhou diante a jovem secretária à sua frente. - Vocês da cidade são tão engraçados. Fala para ele que Elize Louis Dushamp está aqui.
A jovem interfonou nervosa, de alguma forma Elize a tinha deixado inquieta e sem ação.
- Ah meu Deus, vou levar uma bronca por isso! Resmungou a jovem secretária levando o telefone ao ouvido. Elize debruçou-se no balcão, encarou severamente a jovem, a moça tremeu, olhou-a com os olhos arregalados.
- Com certeza tu vais levar uma enorme bronca por isso, mas vai levar uma bronca ainda maior se não chamar o senhor Noronha em 10 segundos. Minha querida, eu não tenho o tempo todo do mundo. Entendeu?
A jovem tremeu como vara verde. Elize sorriu, afastou-se do balcão e ficou em pé parada ao lado da porta encarando-a. Sergio abriu a porta e avistou Elize com cara de má fitando a pobre secretária.
- Vem cá? Me dá um abraço menina. Elize abraçou o velho amigo, beijou-o no rosto, acariciou suas barbas brancas e sorriu. – Não me diga que você andou judiando da minha secretária?!
- Eu não pude resistir... Elize gargalhou maliciosa lançando um olhar a jovem desconcertada.
- Você não toma jeito menina. Eu devia lhe dar umas palmadas. Vai ficar quantos dias na cidade.
- Dois dias...  No máximo. Quanto antes eu resolver tudo melhor.
- Aceita um café? Água?
- Café.
- Vou oferecer um jantar em minha casa amanhã à noite. Alguns amigos e acionistas. Será um jantar informal, porém, o homem de quem te falei estará presente. Seria bom você ir menina. Pode ser bom para os negócios. Sorriu.
- Tentarei ir, mas pretendo negociar com ele ainda hoje se possível.
- Claro. Eu já o avisei de sua chegada. Ele vai encontrar com você hoje à noite neste endereço. Disse entregando em pedaço de papel.
- Sergio aproximou-se da jovem: - Vá com Elize e a ajude em tudo que for preciso.
- Você será muito bem assessorada minha filha, minha secretária está a sua disposição pelo tempo que precisar. Ela conhece bem a cidade, saberá o que fazer. Você está em boas mãos.
Elize gargalhou, seguiu: - Não posso garantir o mesmo a ela.
- Elize, se comporte. Pega leve com a garota. Ela tem só 21 anos. Mas é bastante eficiente.
– Pode deixar. Vou cuidar direitinho dela. Prometo devolvê-la inteira. Elize fez cara de menina malvada. Riu. Elize e Sergio despediram-se com um beijo rápido no rosto, a jovem secretária disse:
- Podemos ir. Estou a sua disposição senhora Deshampi.
- Tsc. Senhorita Dushamp querida! Mas pode me chamar de Elize. Dispenso formalidades. Isto é perda de tempo.
- Carolina. Acompanhe Elize até o hotel. Ela precisa descansar da viagem. Mantenha este celular ligado e telefone caso precisem de alguma coisa. Ligue a qualquer hora.
- Sim senhor. Respondeu. Virou-se para e Elize e disse: Vamos?
Elize aproximou-se da jovem e sussurrou em seu ouvido: - Vamos! Virou as costas e saiu.
Carolina corou. Sergio balançou a cabeça sorrindo.
Seguiram para o hotel em silêncio, Elize ligou o rádio e cantarolou todo o percurso. Carolina estava nervosa diante a presença imponente da mulher que lhe fazia corar e perder as palavras. Chegaram no hotel, a jovem continuava muda, porém séria, tentando manter o controle da situação e pensando como faria para não se intimidar diante Elize.
Elize jogou a mala e foi para o banho. Carolina permaneceu sentada numa poltrona perto da janela. Elize saiu do banho, enrolada numa toalha, voltou para o quarto e separou sua roupa, secou os cabelos cacheados com a toalha, olhou para a jovem assustada a sua frente, pediu:
- Tu podes me alcançar o secador de cabelo?
- Claro. A jovem pegou o secador, levantou-se e foi até Elize. Entregou o secador e ficou imóvel fitando-a. Elize secou o cabelo, escovou e tirou a toalha que envolvia seu corpo. Pegou a blusa e olhou-se no espelho. Viu Carolina admirando seu corpo nu. Sorriu e virou-se fingindo não perceber. Carolina aproximou-se ofegante e beijou-lhe.

 

 

Capítulo 8

 

Elize respondeu ao beijo. A jovem segurou o rosto de Elize entre as mãos tremulas aprofundando ao beijo. Elize segurou suas mãos, afastou o rosto encarando-a com seriedade. Segurou firme em seus pulsos e disse:
- Quando disseste que estava a minha disposição... Não pensei que fosse tanto menina. Elize sorriu maliciosa e mordeu os lábios inferiores.
- Eu... Eu...
Elize apertou ainda mais seus pulsos, a jovem olhou com cara de espanto.
- Tu não deverias me provocar. Se era pra fazer esta cara de medo, deverias ter ficado em teu canto e bem quieta.
- Eu não quis te ofender... Eu... É...
Elize jogou-a na cama e calou suas palavras entrecortadas beijando-a sutilmente, segurando seus pulsos acima da cabeça. A jovem suspirou. Elize a olhou no fundo dos olhos e sorriu. Carolina beijou-a. Tentou soltar as mãos, mas Elize não permitiu.
- Primeiro os negócios menina, depois o prazer. Seria uma honra se eu não estivesse atrasada. Mas...
Carolina ficou com raiva, com vergonha e com medo. Não sabia direito como agir. Era impressionante o poder que Elize exercia sobre ela. Levantou-se da cama muito nervosa, ajeitou suas roupas, fechou a cara e ficou em pé, parada ao lado da porta olhando para o nada.
Elize sorriu, achou graça da timidez da jovem, vestiu-se elegantemente, ajeitou os cabelos. Carolina continuava olhando para o nada, com a feição rude, parecia que estava decepcionada. Elize aproximou-se da jovem, ergueu seu queixo com os dedos delicadamente, olhou-a nos olhos:
- Não fiques brava comigo, ok?
- Você não foi com a minha cara desde o primeiro momento em que viu não é mesmo? Indagou com soberba.
- Pare de bobagens. Não tenho nada contra ti menina. Estou aqui a trabalho. Não confundas as coisas.
- Então porquê me deu um fora?
- Não te “dei um fora”. Estou realmente atrasada e tu sabes disto muito bem. Podemos conversar no carro e ir agora?
- Ta certo Dona Elize. Vamos.
Elize gargalhou:
- Tu queres ir pra cama comigo e me chamas de “Dona Elize”. Vai entender. Jovens. Ai meu Deus.
- Ah, desculpe? É mania. Sabe como é!
- Então meu anjo, relaxa tá, esqueças todas as formalidades, os “Donas e Senhoras” também. Passes o relatório completo sobre o “Conde Drácula”. Quero estar há par de tudo antes de jantar com ele. Quero saber tudo mesmo.
- Certo. É o seguinte. Ele era dono de metade dos restaurantes da cidade. Tem uma coleção de carros importados. Três boates e duas padarias no centro. Uma casa de praia na tua vizinhança e um restaurante enorme por lá também. Segundo as más línguas, a receita federal está no pé dele há quase seis meses, ele está endividado até o pescoço. 60% de seus bens foram confiscados. Os outros 10 % ele usou como pagamento de fiança. Bom, ele quer vender a casa e o restaurante na praia pra tentar salvar o que sobrou de sua “Fortuna”. Mas o problema são as dividas que estes imóveis acumularam nos últimos três anos e meio. Você vai ter que saber negociar com ele, pois ele vai jogar o preço lá em cima, mas na situação que se encontra, não terá muito a escolher. Você vai ter que jogar duro com ele. Se bem que isto eu acho que você sabe fazer direitinho né?
Elize gargalhou ao comentário.
- Tu pareces uma metralhadora. Quase não falas... Riu. – Mas quando falas não para mais hein?!
- Pare ali na frente.
- Já era tempo.

 

 

Capítulo 9

 

No restaurante:

Elize e Carolina sentaram-se inquietas, sabiam que o homem era um dragão, que seria difícil negociar com ele com sutileza.
- Onde está o conde “Drácula” senhorita? Será que desistiu da venda?
- Ele deve estar atrasado.
- Bom, marque no relógio. Vou esperar por 15 minutos e só.
- Perdoem-me o atraso senhoritas. Boa Noite. Meu nome é Gustavo. Sou o proprietário dos imóveis que estão a venda no litoral. Quem de vocês é Elize?
- Eu. Boa Noite. Respondeu Elize. – Esta é Carolina. Ela quem vai registrar e terminar a negociação em meu nome.
- Boa Noite.
- Muito prazer Carolina.
- Bom... Vamos ao que interessa? Perguntou Gustavo.
- Perfeitamente.
Gustavo rabiscou alguma coisa no papel de guardanapo e entregou a Elize. – Esta é minha proposta. Meus imóveis no litoral valem uma fortuna. Menos que isto não posso fazer. O que acha?
- 380.000,00 reais? Por um restaurante falido e uma mansão que está preste a ir pra leilão?
- Bom, são imóveis de muito valor. Sem contar que é uma cidade turística, o comércio gira em torno de 70 % da renda local, a praia é maravilhosa, o local agradável e menina, o melhor você não sabe, aquela cidade é refugio de grandes magnatas do petróleo. Vou te contar um segredo, as exportações estão aumentando muito, vai rolar muita grana por lá. Você vai gostar da cidade, pode apostar.
- O senhor já esteve naquela cidade?
- Bom, claro. É... Eu sou um homem de negócios. Tenho estes imóveis há muito tempo... E...
- Creio que o senhor não esteja bem informado a respeito da situação atual da cidade e do comércio local. Eu pago 80.000,00 reais. Nem mais um centavo. Se o senhor estiver interessado em minha proposta, telefone para meu advogado neste número. Estarei na cidade até Domingo de manhã. Foi um prazer conhecê-lo. Boa noite.
Elize levantou-se sem dar tempo ao homem a sua frente. Carolina seguiu seus passos rápidos. Entraram no carro. Elize deu partida:
- Quer que eu te deixe em casa?
- Nossa! O que foi aquilo? Você deixou o homem sem ação.
- Ninguém pagaria mais que 70 mil. Eu mandei avaliar os imóveis. As dividas são muito grandes. Ele vai aceitar.
- Será Elize?
- Pode apostar. Amanhã ele telefona. Então. Onde eu te deixo?
- Duas quadras após o escritório.
- Tem alguma coisa legal para fazer nesta cidade esta noite?
- Bom, vai depender do que você considere legal. Carolina ironizou.
- Tu és sempre engraçadinha assim?
- O que tem em mente?
- Qualquer lugar onde eu possa tomar um drink e dançar um pouco.
- Se deixar eu tomar um banho posso lhe levar num lugar bem bacana.
- Menina! Olha lá aonde vais me levar hein, eu não tenho mais idade pra libertinagem e rock n’ roll. Riu.
Carolina caiu na risada. – Fica tranqüila. Minha casa é aquela ali, de portão branco. Quer entrar?
- Não. Vou esperar no carro.
- Eu não demoro.

Meia hora depois.
- Vamos. Disse Carolina assustando Elize e tirando-a de seu devaneio.
- Uau. Menina tu estás linda!
- Permita que eu dirija?
- Claro. Desde que tu me mostres tua habilitação.
- Engraçadinha você né dona Elize.
Elize gargalhou, pulou para o banco do passageiro e ligou o som.
- Aonde vais me levar?
- Gosta de MPB?
- Estás brincando comigo!? Eu amo.

A noite corria docemente, música ao vivo, uma boa conversa e alguns drinks, Carolina falava sem parar, nem parecia a jovem tímida que havia encontrado no escritório de seu velho amigo Sergio. Elize ficava observando-a falar, tinha bom gosto, por música, bebida e sabia se vestir com delicadeza.
- Acha que ele vai aceitar sua proposta Elize?
- Não quero pensar nisto agora, vim até aqui pra me divertir.
- Hum, quer se divertir. Então dança comigo?
- Claro. Vamos.
Elize levou-a pelas mãos até a pista de dança, segurou-a pela cintura e conduziu a jovem com seus passos lentos.
Ao fundo, a música embalava docemente a dança, na voz da artista e seu violão, interpretando Ana Carolina na belíssima canção “Eu te amo”.
Carolina deixou-se levar pala música e pelo momento, juntou seu corpo ao de Elize e apoiou a cabeça em seu ombro. Elize desceu a mão até sua cintura guiando-a, Carolina arrepiou-se com o toque suave em suas costas olhou-a nos olhos e não resistindo ao encanto da belíssima mulher a sua frente, beijou-a.
- Vamos sair daqui? Sussurrou Carolina cheia de desejos.
Elize sorriu. – Calma, vamos dançar.
Carolina não entendeu, mas deixou-se guiar pela vontade de Elize, dançaram até tarde da noite.

 

Capítulo 10

 

Mais tarde, voltaram para o hotel, Elize sentia os olhos da jovem fitando-a, mesmo não sendo de seu costume, o instinto falou mais alto naquela madrugada.
Juntou seu corpo ao da jovem e deixou a imaginação tomar conta de ambas. Numa melodia que embalou desejos e delírios, entregou-se ao prazer, como há muito tempo não fazia, Caroline suspirava a cada toque em sua pele, a cada beijo ardente. Deixaram-se levar pela magia do momento. Elize adormeceu tranqüila com Caroline deitada em seu ombro. Parecia uma criança dormindo.
Despertou do sono assustada, teve um sonho estranho, algo que atormentava sua paz, levantou-se, lavou o rosto, não conseguiu lembrar do sonho, mas sabia que era importante.
Desde menina tinha sonhos que quase nunca conseguia compreender na hora, presságios, avisos, tormenta.
Voltou a deitar e pegou no sono novamente.
Caroline acordou com os gemidos de Elize, estava tento um pesadelo, tentou acordá-la, passou a mão em seu rosto e sentiu que estava febril. Elize não acordou e a jovem permaneceu acordada velando por seu sono perturbado.
Ao acordar, Elize viu a jovem sentada na poltrona ao lado da cama olhando-a.
- Bom Dia! Disse a jovem.
- O dia nem começou, como tu sabes que é bom dia?
- Engraçadinha! Comentou Caroline sorrindo. – Eu pedi o café da manhã.
- Ótimo, vou tomar um banho.
- O Sergio telefonou agora pouco pro celular, quer saber por onde andamos, parece que o Conde Drácula ligou e aceitou a sua proposta.
- O que foi que eu disse menina?! Ele seria louco em perder o que eu pretendo pagar. Pulou da cama alegre e foi para o banho merecido. - Você é dura na queda mesmo.
- Eu sei. Mas consigo ser bem pior. Gargalhou. - Liga de volta para o Sérgio e diz que estamos a caminho. Quero resolver isto ainda pela manhã e pegar a estrada.
- Como assim Elize? Não vai a festa que o Sérgio vai dar na casa dele esta noite?
- Volto para casa ainda hoje menina.
Caroline sabia que Elize teria que partir, mas sentiu uma ponta de tristeza ao vê-la falar alegremente que iria embora naquele mesmo dia. Percorreu os olhos pelo quarto e relembrou a noite de amor que tivera com Elize.

 

 

Capítulo 11

 

Elize estacionou o carro em frente a sua casa, viu a grama aparada, o jardim colorido bem cuidado, Zeca molhando as plantas e cantarolando como sempre.
- Boa Tarde Zeca! Disse feliz por voltar para casa.
- Boa Tarde menina! Respondeu o senhor de barbas grisalhas com um enorme sorriso.
- E a Eva?
- Está lá nos fundos plantando umas Orquídeas que sua irmã trouxe hoje cedo.
Elize ouviu o barulho do mar, aspirou o ar profundamente, viu sua gatinha correr na calçada em sua direção e permaneceu ali por longos minutos a brincar com o animal.
- Oi Frida! Comportou-se direitinho? Hein menina?
A gata pulou em seu colo e pediu carinho como uma criança.
-Ah, mas tu estás muito mimada hein mocinha. Aposto que a Eva é a única culpada por este dengo todo.
Zeca sorriu e acrescentou:
- Pode apostar que sim.
- Zeca. Faz um favor?
- Claro!
- Leva o carro para o Márquez, vou tomar um banho e ensaiar um pouco.
Elize estava sentada ao piano, tocando descontraída, Eva foi atraída pela música e ficou parada na porta da sala ouvindo com os olhos rasos d’água.
- Esta era a música preferida de teu pai menina.
- Eu lembro como se fosse hoje, a primeira vez que ele tocou esta sonata. Tudo bem por aqui? Elize virou-se e beijou seu rosto com ternura.
- Tudo bem sim filha, a Camilinha esteve aqui hoje. Trouxe umas mudas de orquídeas lindas, tu vais amar. Coloquei em dois xaxins na varanda dos fundos.
- Como ela está?
- Me pareceu estar bem. Disse que queria falar contigo. Amanhã cedo ela vem aqui.
- Tenho uma novidade Eva.
- Hum, quando tu falas deste jeito sei que lá vem, o que tu andastes aprontando hein menina?
Elize gargalhou. – Sabe o restaurante do final da rua da praia?
- Sei. Eva lançou um olhar curioso.
- E sabe aquela casa que está fechada há alguns anos perto da ferrovia.
- Sei. São do mesmo dono não é mesmo? Perguntou com a pulga atrás da orelha.
- Bom Eva, eram do mesmo “DONO”, agora são da mesma “DONA”.
- Tu e teus mistérios em Dona Eli. Não entendi foi nada. Eva balançou a cabeça e armou seu ar de interrogação.
- Eu comprei Eva.
Eva olhou assustada, sabia que Elize era maluca, mas não podia imaginar que era tão maluca assim. – Que? Menina tu és doida? O que tu pretendes fazer com a casa e o restaurante? Não me digas que vais aprender a cozinhar?
- Uma pergunta de cada vez Eva. A propósito, vou precisar da tua ajuda. Elize explicou seus planos para Eva, mas esta continuou a achar que a moça era mesmo maluca.

Elize passou cinco meses cuidando das dividas dos imóveis e reformando, primeiro o restaurante, depois a casa. A cidade inteira queria saber o que Elize planejava, mas ela manteve segredo o tempo todo. Somente Eva, Zeca, Camila e Márquez sabiam dos seus planos.
Ao marcar a data de estréia do restaurante, que ela transformou completamente em outro atrativo turístico, ouve uma grande agitação em toda a cidade.
Elize estava cansada, porém feliz, principalmente por Camila aceitar trabalhar ao seu lado. Passar os dias inteiros com Camila era uma alegria imensa, assim poderia ter sua irmã por perto e ver seus sobrinhos mais freqüentemente.
Mas como toda ação tem uma reação, Elize, às vezes, era obrigada a suportar Osmar em sua porta.
Faltavam alguns dias para a inauguração do “Dushamp”, Elize sentia-se exausta, resolveu tirar dois dias para descansar e se preparar para a grande noite.
Saiu do “Dushamp” sentindo-se muito cansada, ao chegar em casa chamou por Eva ainda na porta da sala.
- Eva, me faz um chá, por favor!
- Minha filha o que tu tens que estás tão pálida?! Eva perguntou assustada, mas Elize não ouviu direito suas preocupações, sentia a voz de Eva longe, muito longe:
- Minha filha! Filha! Filha!

A voz ficou distante, em seguida foi aproximando-se vagarosamente, Elize virou-se e avistou Camila sentada no chão, chorando compulsivamente.
- Filha!
Ouviu novamente a voz mais próxima desta vez, mas não conseguia identificar de onde vinha. Olhou confusa ao seu redor. Sentiu alguém segurar em suas mãos com ternura e uma voz doce sussurrar em seus ouvidos.
- Anita? Indagou com os olhos assustados.
- Elize minha doçura. Anita respondeu acariciando sua mão e percorrendo-a com a ponta dos dedos. – Você tem uma estrela na mão.
- O que tu fazes aqui? Perguntou Elize sem compreensão do que acontecia ao seu redor.
- Veja Eli. Este sinal, na palma da tua mão. É uma estrela. Anita disse sorridente.
- Cadê Eva? E porquê Camila está chorando? CAMILAAA? Gritou em vão, tentando chamar a atenção de sua irmã.
- Eli minha doçura. Fique calma. Anita beijou-lhe os cabelos. – Você vai ficar bem.
- Eu estou bem, que droga! Resmungou. – Camila? Porquê Camila estava chorando?
- Pense Elize. Por que uma pessoa chora. Pense.
Elize olhou para os lados, mas não viu mais Anita, balançou a cabeça confusa, tentava entender que coisas estranhas eram aquelas. Ouviu a voz suave vindo de longe outra vez:
- Filha!
- Mãe?
- Calma minha filha, está tudo bem agora... Está tudo bem... Está tudo bemmm...
As palavras se repetiram e foram distanciando-se.
Elize ouviu um barulho muito estranho, um zunido forte, de repente as cores tomaram formas diferentes, sentiu a luz forte sobre seu rosto, alguém segurando suas mãos, abriu os olhos com dificuldade.

 

 

Capítulo 12

 

Elize acordou e viu Eva sentada ao lado da cama lendo um livro pacientemente, virou o rosto em sua direção e deu-lhe um sorriso de alivio:
- Oi menina, que bom que acordastes.
- Eva? Sussurrou meio confusa, meio dopada.
- Te sentes bem menina? Eva fechou o livro e passou a mão em seus cabelos cacheados. Sentiu um alivio enorme em vê-la acordar.
- Eva? O que houve?
- Tu desmaiaste, nós a trouxemos para o hospital. Mas agora está tudo bem...
As palavras ecoaram em sua cabeça, aos poucos, lembranças foram voltando. Lembrou-se do sonho, aos pedaços, mas não sabia bem se era sonho, ou realidade. Elize tentou levantar-se, mas Eva a impediu.
- Não Eli! Tens que ficar deitada são ordens do doutor. Eva levantou-se e saiu do quarto. Em seguida Camila entrou acompanhada do Médico.
- O que houve?
Camila aproximou-se da irmã e beijou-lhe a testa com carinho. Seu coração estava apertado. Deu um sorriso e disse:
- É muito bom tê-la de volta.
- Oi Elize, eu sou Eduardo, o médico que te atendeu. Como te sentes?
- Bem! Obrigada por perguntar. Quando posso sair daqui? Disparou.
- Vamos com calma mocinha! Respondeu Camila. – Tu não tens jeito mesmo hein!? Brincou com a irmã.
- Gente, estou bem, quero saber apenas quando posso sair? E além do mais...
- Elize! Interrompeu o médico. – Precisas fazer dois exames e ficar em observação por 36 horas no mínimo.
- Cá, vais ter que ficar a frente da inauguração e cuidar de tudo pra mim mana.
Camila sentou ao lado da irmã e segurou sua mão contra o peito, olhou em seus olhos e ficou feliz ao vê-la consciente.
- Tive um sonho estranho.
- Eu sei meu anjo, tente descansar agora. Camila acariciou seus cabelos e Elize adormeceu novamente. Após algumas horas, o médico entrou novamente no quarto, Elize estava com febre alta e resmungando coisas incompreensíveis.
- Doutor, o que minha irmã tem?
- Os exames que fiz chegam hoje à tarde Camila, ainda não é possível saber. Creio que tenhamos que encaminhá-la ao hospital das clínicas para uma tomografia.
- Tomografia?
- Sim, Elize teve um desmaio e demorou muito para recuperar a consciência.
- Pensei que fosse por conta da medicação.
- Sim, é normal a sonolência após a medicação, mas não se demora tanto para acordar apenas por um simples desmaio. Se precisar, pode me chamar.
Camila viu o médico sair do quarto com ar de preocupação. Sentiu medo, pena e remorso, por não ter sido mais presente na vida de sua única irmã. Olhou para Elize num sono perturbado, parecia que estava tendo mais uns de seus constantes pesadelos, passou a mão em seus cabelos e tentou acalmá-la. Ficou conversando com a irmã, mesmo dormindo, sabia que Elize poderia sentir sua presença. Elize acalmou-se aos poucos, seu sono tornou-se calmo. O que não acalmou foi o coração de Camila, preocupada com a saúde da irmã, começou a lembrar de quando eram meninas, da força que Elize transmitia, da segurança e tranqüilidade que sentia ao seu lado. Sempre segura de si, de suas palavras e atitudes.
Elize sempre fora uma pessoa forte, desde criança, após a morte de seus pais tornou-se madura da noite para o dia. Sempre consolando Camila, dando apoio em tudo, protegendo, abraçando nas horas duras, dando bronca quando necessário. Camila temia pela saúde de Elize, mais temia mais por si mesma. A ausência da irmã seria uma catástrofe em sua vida.
O remorso lhe consumia naquele momento, desde que casara, muito jovem, tinha se afastado de todos, tornando-se prisioneira de uma vida que nem nos pesadelos pudera imaginar, vivia com um homem que odiava sua irmã, um homem bruto e violento. Às vezes, sentia vontade de abrir seu coração e falar da sua vida amarga, mas sabia que Elize também não fazia questão alguma de gostar de seu marido. Tentou por diversas vezes a separação, mas com a chegada do segundo filho tentou concertar seu casamento. A alegria durava poucos segundos nos seus dias. Só sentia-se feliz mesmo, com a presença da irmã e de seus dois filhos. Agora Elize estava lhe dando uma chance de reviver, desde que começaram as reformas no “Dushamp” e Elize a chamara para trabalhar ao seu lado, seu coração tinha uma nova expectativa de vida.
- Eli, Eli. Fica boa logo meu Anjo. Sussurrou.

 

 

Capítulo 13

 

As cores tomaram tonalidades suaves naquele final de tarde a beira-mar, a brisa soprava com delicadeza e o cheiro das flores invadia a alma. Elize despertava lentamente, os sons invadiam seus ouvidos, o barulho do mar parecia tão próximo que parecia poder sentir as ondas batendo forte nas rochas, molhando seus pés brancos e delicados. Abriu os olhos na lentidão de seus pensamentos e avistou Anita olhando pela janela do quarto, fechou os olhos, respirou profundamente e os abriu novamente para ter a certeza de não estar sonhando.
Anita estava linda no vestido levemente florido, com os cabelos presos num rabo de cavalo muito bem feito, presos por um lenço que lhe caia ao longo dos ombros. O perfume de sândalo lhe invadia os pulmões.
Anita virou seu delicado rosto em direção a Elize e os últimos raios de sol deram um brilho encantador a sua face já tão bela e pura. Era preciso retratar aquela imagem num quadro para poder descrever. Anita sorriu, seu sorriso mais doce enchendo seu coração de uma paz tão profunda que Elize suspirou.
- Está melhor minha doçura? Perguntou se aproximando da cama de Elize. Sentou ao seu lado e segurou sua mão, beijou-lhe as costas da mão com delicadeza, num leve fechar das pálpebras. Elize sorriu. Repetiu o gesto.
- Sinto-me melhor agora. Respondeu tímida, desviando o olhar. Sentiu sua face rubra e seu coração bater mais forte naquele pequenino instante.
- Sabe quem sou eu minha doçura?
“Minha doçura”.
Aquela frase martelou-lhe a cabeça por alguns segundos intermináveis. Tinha a impressão de já ter ouvido alguém lhe chamar assim, mas não sabia dizer quem, nem onde. Fechou os olhos e apertou a mão de Anita contra seu peito apertado. Vieram lembranças desconexas em seus pensamentos, de repente viu-se num lugar desconhecido, porém familiar.
“- Quero saber vosso nome. Quero saber por quê me beijastes aquela tarde. Quero saber tanta coisa...”
Ouviu o barulho do mar revolto batendo forte nos rochedos, sentiu o frio intenso parecendo partir sua pele alva.
Abriu seus olhos e mergulhou naqueles olhos negros e profundos, teve a sensação de já ter vivido a imagem que se fazia em sua cabeça.
“- Vamos, mas antes me beijes novamente. Preciso da doçura de vosso beijo para suportar até amanhã.”

Elize abriu as pálpebras com dificuldade, aspirou o perfume da mulher sentada ao seu lado, seu coração parecia um tambor, sentia-se confusa, relembrando coisas que nunca tinha vivido, lembranças estranhas que pareciam querer lhe dizer algo.
- Anita, o que está acontecendo? Perguntou com um ar de preocupação.
Anita apertou sua mão e fez-lhe um carinho na face trêmula, Elize respondeu com um suspiro que nem mesmo ela era capaz de compreender.
- Não tente entender nada minha doçura, apenas sinta. Aproximou seu rosto ao de Elize e beijou-lhe os lábios com delicadeza. Elize respondeu ao beijo sem pressa. A calmaria se apossava de seu coração, sentiu o gosto doce dos lábios da mulher estranha e misteriosa.
Trocaram carícias, por um longo tempo, sem palavras que interrompessem a magia de toda aquela ternura.
- Dorme um pouco minha doçura, descanse e fique boa logo!
- Quando posso te ver novamente?
- Sempre que quiser. É só me chamar.
Elize mergulhou mais uma vez nos olhos negros e belos de Anita. Sabia em seu coração que ela estaria por perto.
- Como posso te encontrar?
- É só me chamar. Eu estarei aqui. Descanse agora, precisa ficar boa, sua irmã ainda vai precisar muito de você.
Elize adormeceu com Anita acariciando-lhe os cabelos. Dormiu por toda a noite com tranqüilidade, despertou pela manhã com Eva sentada na poltrona do quarto sorrindo para ela.
- Bom Dia minha filha!
- Oi Eva!
- Te sentes melhor menina? Indagou Eva muito preocupada.
 - Me sinto ótima Eva. E a Camila?
- Passou a noite aqui contigo, eu disse para ela ir para casa, que eu cuidaria de ti, mas ela insistiu e ficou. Sabe como tua irmã é teimosa!
Elize espreguiçou o corpo cansado daquela cama de hospital.
- Eu sei. Tem por quem puxar. Sorriu.
Eva retribuiu o sorriso e balançou a cabeça, abriu as cortinas e deixou o sol entrar, iluminando o quarto. Ao ver os raios de sol, Elize lembrou-se de Anita, do sol dourando sua face meiga, o vestido florido, o perfume de sândalo, o sorriso brilhante, o beijo. Passou a mão nos lábios e quase pode sentir o sabor adocicado do beijo de Anita. Não sabia ao certo se tinha sonhado ou se realmente vivido aquele momento tão lúcido em sua memória.
- Camilinha foi até a cantina pegar uma xícara de café e já deve estar voltando. Disse que queria te esperar acordar. Interrompeu Eva de seus devaneios.
- Eva? Ontem à noite alguém esteve aqui neste quarto?
- Não sei menina. Porquê? Perguntou sem dar maior importância ao assunto, enquanto ajeitava o travesseiro da Elize.
- Por nada Eva. Desconversou.
- Não sei se alguém esteve aqui, mas gostaria de saber o que foi que a senhora sonhou durante a noite hein dona Eli? Perguntou Camila entrando no quarto com um enorme sorriso ao ver sua irmã acordada e aparentemente bem.
 Elize gargalhou e abriu os braços pedindo o carinho de Camila. A irmã abraçou-a e beijou-lhe os cabelos.- Então?
- Então o que Cá?
- Bom, vou deixá-las a sós. Interrompeu Eva. - Vou em casa buscar umas roupas para ti menina. Não me demoro.
- Então? Vai me contar o que andou sonhando?
Elize riu, balançou a cabeça e sentou-se na cama. – Também quero café!
- Não me lembro o que sonhei.
- Duas perguntas dona Elize: Quem é Anita? E... Quem é Laura?
- Hã? Indagou confusa.
- Durante o sonho, tu falou estes dois nomes varias vezes. Mas não me pereceu pesadelo desta vez. Teve até uma hora que tu estava sorrindo. Seguiu sorvendo um gole de café.
Elize não respondeu, simplesmente por que não saberia o que dizer a sua irmã. Seus olhos vagaram nos raios de sol e na imagem que se fazia em suas lembranças.
- Camila, há quanto tempo estou aqui?
- No hospital?
- Não, no circo?
- Palhaça! Respondeu rindo e dando a xícara de café a Elize. – Estás aqui há quatro dias.
- Nossa! A inauguração é em três dias Camila. Preciso sair logo.
- Sim, mas primeiro, precisas te recuperar.
- O Márquez e Ivete estão lá fora, eles querem te ver maninha.
- Claro. Diga para entrarem.
Camila saiu e Elize voltou a lembrar de Anita, sentia ainda o sabor do beijo em seus lábios. – Não pode ter sido um sonho! Sussurrou.
Não demorou muito e Camila voltou acompanhada de Márquez e Ivete. Estes já entraram fazendo a maior farra no quarto, nem parecia que estavam num hospital, como sempre.
Márquez, como um excelente amigo, trouxe flores e Ivete contou-lhes as aventuras aprontadas no bar.
- A inauguração do Dushamp promete ser um sucesso amiga. Seguiu o músico. – Os convites a venda esgotaram ontem a tarde.
- Ai gente, eu preciso estar na inauguração. Resmungou Elize. – Alguém precisa conseguir meu “Hábeas Corpus”. Brincou. Todos caíram na gargalhada.
- Pelo jeito tu estás bem melhor né mocinha? Brincou Ivete por seu comentário. – Já está até engraçadinha. Isto é um bom sinal.

 

 

Capítulo 14

 

Elize recebeu alta na manhã seguinte e como era de se esperar, arregaçou as mangas e cuidou dos últimos preparativos para a tão esperada inauguração. Camila a controlava o tempo todo, não deixando sua irmã se esforçar demais, tinha medo que Elize sentisse-se mal novamente e precisasse ser hospitalizada, estava feliz por trabalhar e passar os dias com Elize e seus amigos.
Quem não estava muito feliz era Osmar, que a cada dia pegava mais no pé da esposa, tratando-a com palavras cada vez mais grosseiras. Mas Camila estava feliz demais, principalmente por ver Elize se recuperando rapidamente. Os exames de sangue e tomografia que Elize fizera acabaram atrasando e chegariam na próxima semana, mesmo com o medo e o aperto no peito que sentia, de certa forma estava feliz.
Camila tinha vida novamente, após muitos anos de sofrimento, a alegria de estar trabalhando e sentindo-se útil, próxima a pessoas que lhe faziam sentir-se bem e rir o dia todo, como Márquez e Elize, que passavam os dias fazendo palhaçadas, lhe davam coragem de pedir a separação a Osmar. Sabia que seria difícil, principalmente por conta dos meninos tão pequenos ainda. Mas Louis e Enzo já não eram crianças tão felizes na presença bruta do pai. Ao comentar com Elize que estava pensando em pedir a separação, a irmã apenas disse:
- Tu sabes que eu vou te apoiar sempre, a nossa casa está esperando por ti e pelos meninos, como sempre esteve.
Mesmo não se intrometendo muita na vida de Camila, suas palavras a encorajaram ainda mais.
Na tarde que antecedia a inauguração do Dushamp, a casa de shows que sempre sonhara ter, Elize desceu a praia para caminhar, como há dias não fazia, estava com saudades do mar, do barulho das ondas batendo nas pedras.
Pegou uma garrafa d’água no bar de Ivete e desceu o porto que dava até a praia. O sol parecia querer lhe presentear, o mar estava calmo, dobrou as calças até os joelhos e soltou seus cabelos cacheados ao vento. Queria sentir o vento suave em seu rosto, à maresia em sua pele, molhou os pés e fez sua oração para Yemanjá, a rainha do mar. Sem perceber começou a cantar baixinho, como uma prece:

 

Oguntê, Marabô
Caiala, e Sobá
Oloxum, Ynaê
Janaina e, Yemanjá

O mar, misterioso mar
Que vem do horizonte
É o berço das sereias
Lendário e fascinante

Olha o canto da sereia
lalaó, oquê, ialoá
Em noite de lua cheia
Ouço a sereia cantar
E o luar, e o luar sorrindo
Então se encanta
Com a doce melodia
Os madrigais vão despertar
Ela mora no mar
Ela brinca na areia
No balanço das ondas
A paz ela semeia
E quem é?

Oguntê, Marabô
Caiala, e Sobá
Oloxum, Ynaê
Janaina, e Yemanjá
Olha o canto da sereia
lalaó, oquê, ialoà
Em noite de lua cheia
Ouço a sereia cantar!

“Lenda das Sereias - Marisa Monte - Composição: Vicente/Dionel/Veloso”.

 

- Além de tocar maravilhosamente bem, vejo que tem uma voz deliciosa. Deveria cantar em público também!
Elize foi interrompida de sua prece e deu um salto ao ouvir a voz meiga em suas costas. Virou-se e sorriu ao ver Anita.
- Queres me matar de susto é?! Brincou ao aproximar-se da mulher e cumprimentá-la com um beijo sutil na face.
- Pelo jeito está bem melhor. Falou e pegou em suas mãos trêmulas, que mais pareciam as mãos de uma menina imatura.
- Estou sim, sinto-me ótima. Melhor agora que sei que tu não me és apenas um sonho. Comentou e baixou os olhos.
Anita aproximou-se e ergueu seu rosto pelo queixo, com a ponta dos dedos, delicadamente puxou Elize pela cintura e manteve-a tão próxima de si, que quase ouvia o descompassar de seu coração. Ouviu sua respiração ofegante, percorreu com os dedos em seus rosto, com muito carinho, afundou o rosto em seu pescoço, roçou o nariz, segurando-a pela cintura com firmeza. Elize segurou seu rosto com as duas mãos e beijou-a com paixão. Um beijo longo e profundo, vindo da alma e de cada poro do seu corpo, acariciando seus cabelos longos e macios. Beijou-a com toda a força do seu coração.
Os Deuses pareciam querer homenagear aquele momento, brindando-as com os últimos raios de sol, era um espetáculo da natureza, um presente maravilhoso que ambas quase não podiam ver de tão envolvidas estavam naquele beijo mágico, mas podiam sentir o crepúsculo dourado refletindo nas águas do mar com destreza.
Em seus lençóis...
Elize despiu cada peça do corpo de Anita sem pressa, beijando seus lábios e sua pele com carinho, sentadas na cama, entre os lençóis, trocaram caricias e beijos ardentes, durantes horas, com calma e o coração cheio de ternura. Anita despiu a mulher bela e jovem a sua frente com paciência, provocante e com um sorriso lindo iluminando o enorme quarto. Anita deitou sua doce Elize e beijou-lhe cada pedacinho do corpo, Elize suspirava, deixava escapar palavras incompreensíveis, arqueava seu corpo lúcido e perfumado a mulher que lhe provocava sensações nunca antes vividas.
Prendia suas mãos acima da cabeça beijando-a com sofreguidão. Elize enroscava seu corpo ao de Anita, entrelaçando-a com as pernas firmes, chamando-a, sem usar das palavras, para saciar a sede intensa que a aplacava.
- Eu tenho a impressão que sempre te amei Anita. Falou entre murmúrios em seu ouvido.
- E eu, tenho a certeza! Respondeu com segurança.

Elize movimentou seu corpo encaixando-se perfeitamente ao da mulher. Beijou-lhe a boca com força e cheia de paixão. Anita não suportou mais esperar e amou-a com desespero. Deitada em seu corpo quente e úmido, soltou as mãos de Elize e friccionou até levá-la ao êxtase. Explodiram juntas num prazer sem igual. Os gemidos foram abafados por um beijo longo, enquanto sentiam o prazer intenso da paixão aflorando, seus lábios colaram-se selando aquele momento de ternura.
Adormeceram tranqüilas, num abraço perfeito. Com os corpos suados e exaustos, porém, com a alma repleta de paz.

 

 

Capítulo 15

 

Elize acordou com os primeiros raios de sol que davam o Bom Dia a terra, o cheiro de flores de seu jardim invadiu o quarto, beijou ternamente os lábios de Anita dormindo como um Anjo, acordou-a com beijos e caricias, Anita sorriu ao despertar em seu abraço.
- Bom Dia!
- Bom Dia minha doçura! Sorriu o seu melhor sorriso.
- Porque toda vez que tu me chamas de doçura, tenho a impressão de que já nos conhecíamos?
- São apenas vontades do seu coração.
- Eu não entendo.
- O meu espírito é a sua voz... E a sua voz doce é a minha música, misturados num só espírito. Anita abraçou-a e tocou-lhe os lábios num beijo. – A noite é o seu esplendor e a sua voz traz-me de volta a vida.
- Tu me confundes Anita.
- Somente você pode fazer com que minha canção alce vôo, Eli.
- Me beijes? Pediu confusa com as palavras de Anita.
Anita beijou-lhe com paixão. Passou a mão em seu rosto e seguiu dizendo:
- Você vai entender tudo. Na hora certa. Hoje é a noite de estréia, quero que você cante como ontem a tarde na praia.
- Cantar?
- Sim, cantar. Sua voz é maravilhosa. Cante e terá uma grande surpresa.
- Tu vais à inauguração? Não vais?
- Estarei lá lhe prestigiando. Tenha certeza disso Eli. Mas para eu estar lá, você terá que cantar, sua voz me chamará.
Elize correu o dia todo, Camila e Márquez haviam providenciado quase tudo, faltava apenas a chegada dos músicos e suas instalações. Elize ofereceu sua casa para hospedá-los.
Os seis músicos escolhidos a dedo por Márquez e Elize chegaram no meio da tarde. Eva andava feito barata tonta em volta dos músicos fazendo de tudo para agradá-los. Elize divertia-se ao vê-la assim.
Elize juntou todos a mesa de café na sala, enquanto saboreavam as maravilhas que Eva preparara para o lanche da tarde, explicou para banda o cronograma do show. Deixou-os conversando e foi tomar seu banho, preparar a roupa que usaria na estréia. Eva subiu em seguida com um pequeno ramo de flores; (Angélicas).
- Menina, trouxe um pequeno arranjo para enfeitar seus cabelos.
Elize olhou de soslaio para Eva, sorriu:
- Eva, não precisas te preocupar, já estou quase pronta.
- Pronta? Com estes cabelos soltos, bagunçados, sem nenhum enfeite? Senta aqui minha filha, vou fazer uma trança embutida e colocar algumas flores de Angélica presas. Tu vais ficar ainda mais linda.
Eva trançou metade dos cabelos de Elize, deixando as pontas soltas e bem espalhadas pelas costas e prendeu as pequenas flores brancas em pontos variados.
Elize, mesmo antes teimando, olhou no espelho e gostou do penteado que Eva fizera.
- Eva! Ficou demais!
- Agora veste tua roupa que eu preciso descer e me arrumar também.
Sandálias, calça social creme e blusa grafite vestiram sua pele alva, delineando seu corpo, suas formas; e acentuando a pintura leve do rosto expressivo e delicado.
- Elize? Soou a voz do outro lado da porta.
Seu coração logo identificou a doce voz da mulher que passara a noite em seus braços. Abriu a porta com um sorriso enorme e beijou-lhe a face num cumprimento terno. Anita entrou rapidamente e beijou-lhe a boca cheia de saudades. Enlaçando-a pela cintura, Elize retribuiu ao beijo, passou a mão em sua face e penetrou naqueles olhos negros que tanto a enfeitiçavam.
- Você está linda minha doçura! Exclamou com a voz firme, fitando-a de cima a baixo.
- Tu é que estás linda, Anita. Retribuiu o elogio.
Anita usava um vestido longo, os cabelos presos e sandálias.
- Vim lhe dar um beijo de boa sorte, minha doçura.
- E estás esperando o quê?
Anita deu-lhe o beijo de boa sorte. Saíram juntas caminhando até o carro.  Elize recomendou que deixasse o carro distante da casa de show devido ao número de pessoas que se esperava na cidade. Despediram-se com um beijo rápido, ainda dentro do carro:
- Boa Sorte, minha doçura!

 

 

Continua....