De repente é amor

Karina Dias

 

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Capítulo 1: O começo

 

Sempre fui diferente das meninas “normais” da minha idade; aos 11 anos, gostava de dormir ao lado das minhas primas mais velhas e de madrugada deslizava minhas mãos por cima da colcha a fim de sentir o contorno do corpo delas, adorava o calor que subia pelas minhas pernas quando eu fazia isso. Aos 13 anos, consegui beijar pela primeira vez os lábios de uma garota, ela se chamava Ana, era minha melhor amiga na escola, e tão curiosa quanto eu. Depois do primeiro beijo, nos beijávamos sempre nos intervalos das aulas, ou quando inventávamos uma desculpa para irmos ao banheiro juntas; foi numa dessas que nos surpreenderam aos beijos no banheiro da escola, a diretora chamou os nossos pais e ainda nos deu uma suspensão. Uma semana depois, começaram as férias do meio do ano. A mãe de Ana resolveu tirá-la do colégio definitivamente e meu pai me mandou passar uns tempos na casa de tio Túlio, numa cidadezinha pequena, no interior do Rio de Janeiro; logo eu que sempre gostei da cidade grande. Meu pai, autoritário como era, tomou essa atitude quando em uma de nossas discussões eu gritei com ele e disse que faria tudo novamente com Ana. Bom, ele resolveu que ir para o meio do mato seria um belo castigo. Acabei passando meu aniversário de quatorze anos na casa de meu tio e agradeço deveras ao meu pai por ter me dado um castigo tão bom. Logo que completei quatorze anos, tive também minha primeira relação sexual com uma mulher. Foi com Júlia, filha da empregada de tio Túlio. Ela vinha ajudar a mãe na cozinha todos os dias e sempre nos olhávamos diferente e eu, vivia inventando motivos para frequentar a cozinha da casa, hora procurando alguma coisa para comer, hora bebendo água...Tudo era motivo para ficar olhando Júlia mais de perto. Ela era uma mulher linda, tinha dezenove anos e os olhos verdes mais lindos que já vi até hoje. Passei a observá-la também de longe e percebi que sempre que terminava de ajudar sua mãe na cozinha, Júlia ia para a cachoeira que passava dentro do Sítio de tio Túlio. Um dia, fui atrás dela e fiquei observando-a por horas. Ela tomava banho na cachoeira só de calcinha e sutiã; logo que me viu saiu da água furiosa, resmungava, e veio colocando a saia e a blusa pelo caminho. Eu morria de rir do jeitinho caipira que ela falava, não estava acostumada com aquele sotaque arrastado, porém, eu sabia que isso me encantava muito nela, a tornava diferente das meninas que eu estava acostumada a conviver e sempre gostei de pessoas diferentes. Além de que, Júlia, era extremamente sensual, tinha um corpo bem desenhado, seios grandes e durinhos, coxas grossas e uma pele tão branquinha que contrastava com os cabelos negros que caiam pelas suas costas.
- Tá me espiando, menina? – Disse ela.
- Você fica linda nadando.
- Pare de dizer asneiras, é melhor “ocê” ir pra casa antes que seu tio pegue a gente conversando por essas bandas.
- Tá com medo de que, Jú? – Disse segurando suas mãos geladas – Não consigo tirar você da cabeça, sabia? – Completei.
- Eita menina! Eu sou empregada do seu tio, “ocê” não devia falar essas coisas comigo, não.
Olhei pra sua blusa molhada, o bico dos seus seios faziam volume. Senti meu corpo todo tremer de desejo, ela percebeu, cruzou os braços obstruindo a minha visão, mas, de nada adiantou, eu estava tomada de desejos por Júlia.
- Vai, Jú, admite! Você gosta do jeito que eu te olho.
- Ôxe! “Ocê” é uma criança! – Disse irritada – Sei muito bem porque seu pai te trouxe pra esse fim de mundo.
- Ai, Jú! Deixa eu vê os seus seios – Disse com a cara mais deslavada do mundo, sempre fui direta quando queria alguma coisa, nunca gostei de rodeios, acho desnecessário e demorado. Puxei-a pelas mãos sentindo o meu corpo colar no dela.
- Pare já com isso Rafaela! – Disse, embora seus olhos estivessem denunciando o quanto ela queria aquele contato.
Beijei seus lábios gelados, ela não se opôs. Encostei-a devagar numa pedra enorme que ficava à margem da cachoeira e passei de leve as mãos nos seus seios; senti minhas mãos pegarem fogo. Logo tirei sua blusa molhada e seu sutiã, me deliciei com aqueles seios fartos, caí de boca chupando seus bicos e apertando-os contra o meu rosto. Fui deslizando minhas mãos pelo seu corpo, sua pele queimava na minha. Tirei sua saia. A calcinha. Júlia ofegava quando minhas mãos percorriam suas coxas, mais ainda quando passei de leve pelo seu sexo; estava úmido e quente. Baixei-me diante dela, afastei suas pernas e quase morri de tesão quando minha língua entrou dentro do seu sexo encharcado, suguei com vontade, e adorei aquele gosto de mulher. Júlia gemeu alto e prendeu minha cabeça com as mãos, pedindo que eu não parasse, logo gozou na minha boca, e eu, estava tão maravilhada que continuei chupando-a e ela gozou de novo... E de novo... E de novo... De repente ela começou a tirar minhas roupas e quando me dei conta, já estava deitada no chão e Júlia me chupava como uma louca, me penetrava com os dedos... Eu não sabia como conter aquelas sensações, na verdade, eu não queria conter nada, fora muito mais prazeroso do que todas as vezes que me masturbei. Depois daquele dia, não conseguíamos ficar longe uma da outra. Sempre que a mãe de Júlia se distraia, trocávamos beijos apaixonados na cozinha, e todas as tardes nos encontrávamos na cachoeira, até que um dia, tio Túlio, desconfiado com meus sumiços repentinos, resolveu seguir-me e nos pegou no maior flagrante; estávamos nuas tomando banho de cachoeira. Foi péssimo! Mais uma vez meus pais foram chamados e a pobre da mãe de Júlia também. Fizeram o maior “barraco” como dizem popularmente. Resumindo, voltei para o Rio de Janeiro e nunca mais vi Júlia.
Meu pai, até hoje não digeriu muito bem a minha “condição sexual”, nos falamos pouco, porque sempre que tentamos um diálogo, acabamos discutindo. Eu o envergonho como ele mesmo diz, e ele me decepciona com seu preconceito absurdo. Afinal de contas, com quem dormimos não devia importar, o que deveria valer mesmo é o nosso caráter. Bom, minha mãe era mais reservada, preferia fazer vista grossa mesmo, evitava qualquer conversa do gênero, fazia o tipo de quem não sabe de nada, no fundo, nutria a esperança de que isso fosse uma fase e passasse com o tempo. Depois de Júlia tive várias outras namoradas, mas, nenhuma que eu pudesse dizer que amava, acho muito forte a frase “eu te amo” e guardo para uma pessoa realmente especial, não que não tenham passado pessoas especiais na minha vida, passaram, muitas, mas, nenhuma que me fizesse ultrapassar as barreiras do sexo.
Hoje, tenho dezessete anos, estou concluindo o segundo grau, me preparando para um vestibular que nem sei se quero prestar. Estou perdida, não sei que curso fazer, Educação física? Administração? Psicologia? Medicina? Advocacia? Nossa! Confusão é o meu nome.
Eu estava no pátio da escola, tentando decifrar minha aptidão para alguma coisa quando Lucas chegou com novas notícias, interrompendo de vez meus questionamentos. Por falar em Lucas, ele é meu melhor amigo na escola e o único que sabe da minha “condição sexual”. Ele sim sabe ser amigo de verdade, jamais usou do “título de amigo” para fazer algum tipo de crítica preconceituosa, ou simplesmente implicar com minhas namoradas, mas, tinha liberdade para falar caso não gostasse de alguma delas. Estranho ter um homem como confidente, né?
- Sabe da última, Rafa?
- O que houve, Luca?
- Ouvi dizer que vai vir uma professora de matemática substituta pro colégio.
- Às vésperas do vestibular? Eles estão loucos?
- Professor Mário tá doente. Ouvi o diretor dizendo que ela já está no colégio, e vão nos apresentar daqui a pouco na sala.
- “Bora” pra sala, então! – Puxei-o pelas mãos, só larguei-o depois que estávamos sentados em nossos lugares.
O diretor do colégio entrou na sala e anunciou que teríamos uma professora de matemática substituta, até aí não tem nada demais, no entanto, ficamos sabendo por terceiros que a nova professora era lésbica e logo ouvi comentários maldosos na sala. Disseram que ela devia ser uma velha, gorda, com trejeitos masculinos e que ainda teríamos que aguentá-la nos pedindo silêncio. Fiquei indignada, afinal de contas, eu estava ali, diante deles, era lésbica também e não tinha jeito masculino, tão pouco agia como tal, pra dizer a verdade, recebia até muitas cantadas dos garotos.
Nossa! Quando Amanda, a nova professora chegou na sala de aula, ficamos todos surpresos e quietos. Ela era linda! Morena, corpo atlético, usava roupas bem femininas, e atuais, que valorizavam bastante as belas formas que exibia, tinha cabelos escuros, abaixo do ombro e também possuía um leve tom de mel nos olhos; era uma mulher jovem e simpática, não tinha mais que vinte cinco anos; na verdade, fiquei tão curiosa que perguntei-lhe a idade e descobri que a polêmica professora tinha vinte oito anos.
Passaram alguns dias, e todos estavam convencidos de que Amanda não era lésbica, e que tudo não passara de fofocas, afinal de contas, ela era linda demais para ser lésbica, mas, eu não estava convencida ou não queria estar. Eu não conseguia parar de pensar nela. Nas suas aulas, sentava-me na primeira cadeira para vê-la mais de perto, sempre inventava uma dúvida qualquer para ir até sua mesa e poder sentir o cheiro suave do seu perfume, e também conseguir um pouco mais da sua atenção.
Minhas noites estavam sendo torturantes, eu sonhava com Amanda e me masturbava várias vezes pensando nela. Meus amigos me ligavam, chamando para sairmos, e eu não tinha vontade, só me sentia feliz quando estava nas aulas dela, ou quando esbarrava com ela nos corredores da escola, ou simplesmente quando ficava observando-a do lado de fora da sala dos professores. Bastava fechar os olhos para conseguir ouvir a voz dela no meu ouvido, a sua gargalhada gostosa quando algum aluno fazia uma piada. Ela era tão doce, levava tudo na esportiva, não tinha um aluno sequer que não gostasse das aulas dela; Amanda tinha o poder de transformar a temida matemática com sua paciência e dedicação.

 

 

Capítulo 2: Dias de tortura

 

Cheguei atrasada no colégio, o ônibus que eu estava ficou preso num engarrafamento horrível no centro da cidade. Logo hoje que a aula de Amanda seria no primeiro tempo. Ela estava todos os dias no colégio, sendo que, só dava aulas para minha turma nas terças e quintas. Nas terças-feiras, eu esperava até o último tempo para estar pertinho dela e nas quintas-feiras, suas aulas eram logo no primeiro tempo e não tinha como começar mal o dia vendo aquele anjo logo cedo, a menos que eu estivesse atrasada, isso deixou-me deveras aborrecida, um minuto longe dela, já fazia diferença. Pedi licença, e entrei. Sentei-me na ultima cadeira, bem no final da sala. Odiei aquela distância toda, mais ainda os meninos que ocuparam todos os lugares lá na frente, pareciam um bando de tarados tentando ver a calcinha da professora. Amanda virava-se para passar a matéria no quadro e os delinqüentes baixavam-se todos ao mesmo tempo para olhar de baixo da saia da professora, nessas horas, eu sempre jogava uma bolinha de papel no quadro para obrigar Amanda a virar-se para nós; numa dessas, ela pegou-os em flagrante e eu sorri aliviada. Nenhum deles ousou olhar novamente, tamanho foi o ar de reprovação que ela os olhou. Amanda tinha disso, não brigava com ninguém na sala, quando alguém passava dos limites, ela levantava as sobrancelhas e encarava a pessoa, isso intimidava bastante, ninguém mais ousava cometer o mesmo erro.
Passei a aula inteira rabiscando o nome dela na última folha do meu fichário, eu estava completamente perdida em meus pensamentos, imaginava como seriam os beijos dela, em como seria bom sentir o calor do seu corpo nos meus braços, eu suspirava, sorria, e depois ficava séria... Eu precisava falar com ela, dizer tudo o que está sufocando os meus dias, essa agonia que pairou nos meus olhos parecia não ter fim. Porque eu estava demorando tanto para conseguir falar com ela? Sempre fui cara de pau mesmo, digo o que penso sem me importar com o que vão achar! No entanto, perto dela, não conseguia ser mais do que uma aluna de dezessete anos cheia de medos e inseguranças.
O sinal tocou, todos saíram da sala, menos eu. Continuei sentada, filmando-a enquanto aquele anjo apagava o quadro, seus movimentos eram tão leves, eu queria ser aquela tela branca para sentir suas mãos deslizarem sobre mim, como estava fazendo com aquele quadro. Meu Deus! Senti inveja de um quadro! Quando terminou de apagá-lo, virou-se e sorriu ao me ver ainda ali.
- Quer falar comigo, Rafa?
Seu sorriso era lindo, e ela sabia o meu nome, sua terceira aula, e ela sabia o meu nome.
- Quero – Disse com a voz insegura – Quero dizer tudo o que estou sentindo por você – Pensei.
Amanda delicadamente puxou uma cadeira e sentou-se ao meu lado. Senti meus pêlos se arrepiarem só de estar perto dela, estávamos tão perto uma da outra, que eu conseguia sentir o seu hálito gostoso no meu rosto.
- Pode falar, querida – Disse com uma calmaria invejável, sim porque, eu era toda apreensão.
- Falar? – Disse atrapalhada.
- Você disse que queria falar comigo, não quer mais?
- Tô com medo do vestibular – Disse num impulso. Foi a primeira coisa que passou na minha cabeça.
- Essa insegurança é normal – Segurou minhas mãos – Já sabe o que quer fazer?
Olhei para as mãos dela envoltas na minha, acariciei de leve os seus dedos, Amanda sentiu o carinho, logo olhou também para nossas mãos.
- Suas mãos estão geladas, Rafa – Disse – Está se sentindo bem?
- Não – Disse com um nó preso na garganta, queria aproveitar o momento e dizer tudo a ela.
- Vou ligar para os seus pais, qual o número? – Disse preocupada enquanto procurava o celular na bolsa .
- Não precisa – Segurei suas mãos novamente – Fica um pouquinho aqui comigo, já vai passar.
- Não prefere ir para a secretaria?
- Não – Apertei suas mãos, meu coração disparou no mesmo instante. Com aquele simples gesto de carinho, eu senti uma força tão grande circular dentro de mim, era algo totalmente inexplicável, uma ansiedade misturada com desejo, uma vontade louca de abraçá-la.
- Não fica assim, menina! Ainda estamos no mês de agosto, tem tempo para o vestibular – Disse com a voz doce e confortante, ingênua também, posso acrescentar - Percebi que você tem muitas dúvidas na minha matéria e se você estiver sentindo muita dificuldade como tem demonstrado nas primeiras aulas, podemos marcar algumas aulas extras.
- Podemos? – Sorri surpresa.
- Claro. Será um prazer te ajudar. Sei que na sua idade, escolher uma profissão é algo totalmente estressante, e isso pode até estar criando um bloqueio na sua cabecinha, dificultando um pouco o seu aprendizado.
- Eu não sou tão criança assim – Disse um pouco decepcionada – Já tenho dezessete anos.
Amanda sorriu, o sorriso mais acolhedor que já vi em minha vida.
- Não te chamei de criança, Rafa – Sorriu mais uma vez – Desculpa se te ofendi.
- Esquece, você não me ofendeu – Sorri também – Nossas aulas podem ser todos os dias?
- Nossa! Precisa de tantas aulas extras assim?
- Você não imagina o quanto – Pensei – Às vezes penso que vou enlouquecer- Disse olhando profundamente nos olhos dela.
- Vou ver um horário disponível para começarmos nossas aulas, não garanto que serão todos os dia, mas, vou ver o que posso fazer. Prometo.
Amanda estava levantando-se quando puxei-a pelas mãos, ela virou-se rápido, um pouco assustada até, não esperava aquele gesto meu.
- Obrigada – Disse decepcionada com a minha covardia.
Covardia compensada, Amanda passou as mãos levemente pelo meu rosto.
- Sempre tenho tempo para alunos interessados realmente em estudar.
Nossa! Como ela é lindaaaaaaaaaaaaa! Amanda me deixava sem palavras, sem chão e totalmente entregue a simplicidade do que eu podia ter dela no momento, como um toque, uma palavra... Um olhar, desinteressado, diga-se de passagem. Eu poderia ficar horas e horas só olhando aquela boca deliciosa; era fascinante a maneira que ela mexia os lábios. Ela era sensual até sem querer e eu ficava enlouquecida quando ela molhava de vez em quando os lábios com a pontinha da língua; sentia minha calcinha molhar na hora. Uma vontade quase incontrolável de beijá-la circulava pelo meu corpo, nem sei como consegui me conter, se fosse outra mulher, eu já teria beijado sem medo das conseqüências provocadas por um ato tão impensado, mas, com Amanda era diferente, não podia por tudo a perder, o que eu sentia por ela era muito maior que desejo, maior até do que qualquer sentimento que eu já havia experimentado até o momento em que meus olhos a viram entrar pela primeira vez naquela sala.
Olhei-a dispersar-se até sua mesa, não consegui mover-me dali, não conseguia suportar a dor que se formava dentro de mim quando meus olhos não alcançavam aquela mulher. Era tão pouco tempo para sentir tudo aquilo, na verdade, nem sei se existe tempo certo para um sentimento tão grandioso como este nos arrebatar a alma, o coração...
- Não tem mais aula hoje, Rafa?
- Tenho – Disse levantando-me de sobressalto – Já vou... Quando vai ter uma resposta pra mim?
- Você é muito ansiosa, menina! – Brincou – Passa na sala dos professores depois da sua última aula, eu já terei uma resposta pra você.

 

 

Capítulo 3: Somos mesmo idiotas?

 

Entrei na sala de Filosofia desnorteada. Embora estivesse esperançosa com as aulas extras que teria com Amanda, sabia que tinha perdido uma grande oportunidade para me abrir com ela e dizer tudo o que estava me corroendo. De uma certa forma, talvez fora melhor desta maneira; eu não tinha argumentos suficientes para fazê-la acreditar nos meus sentimentos e esses estavam tão confusos dentro de mim, e também, não era tão simples como das outras vezes que me declarei para alguém, com ela, eu não podia simplesmente chegar e dizer: - Ei Amanda, eu estou louca por você, quer namorar comigo? – Sorri do meu pensamento infantil. Amanda riria de mim ou nunca mais me olharia nos olhos... A menos que ela estivesse apaixonada também e essa hipótese fora descartada imediatamente. Ela me tratava como uma criança ou com a mesma simplicidade dos demais alunos, isso me irritava, eu queria ser diferente pra ela, especial, quem sabe?
Lucas havia guardado o meu lugar ao seu lado desta vez. Sentei-me depressa, aproveitando a ausência do professor na sala.
- Até que enfim! – Disse simulando um falso aborrecimento – Pensei que iria matar aula.
- Tô mal, Luca! – Disse desanimada.
- Tô te sentindo meio esquisita mesmo nesses últimos dias, isso tem a ver com a nova professora de matemática?
- Como sabe? Estou dando tanta bandeira assim?
- Poxa, Rafa! Só não vê quem é cego – Sorriu debochado – Você tá arrastando o maior bonde pela professorinha! Aquelas bolinhas de papel que você jogou no quadro hoje foi a gota d`água... Sem contar, que toda hora cê vai na mesa dela perguntar alguma coisa. Desde quando você tem dificuldade em matemática? Pelo que me lembro, você é quase uma professora de matemática.
- Tá fora do meu controle, Luca – Respirei fundo – Segurei nas mãos dela hoje – Disse.
- Ela é lésbica mesmo? – Disse surpreso – Pensei que fossem boatos – Completou.
- Não viaja, cara! Ela nem imagina que eu gosto dela, acha que estou sofrendo de ansiedade “pré-vestibular “- Sorri já mais animada – Me ofereceu até aulas particulares de matemática.
- Se tá enrolando a professora, sua espertinha? - Baixou o tom de voz – Rapá! Foi só mão na mão mesmo?
- Você diz só? – Fitei-o indignada – As mãos dela são tudo, cara!
- Nossa! Rafaela Martins se contentando só em segurar nas mãos de uma mulher? Meus avôs iam mais longe no tempo deles. – Disse irônico.
- Você não entendeu, né? – Ajeitei-me na cadeira, joguei os livros sobre a mesa e baixei ainda mais o tom de voz – Eu segurei as mãos dela, e foi a sensação mais... Especial? – Pensei por um instante, logo retomei as falas – É! Especial! – Disse deslumbrada – Foi a coisa mais especial que já fiz na vida; meu coração disparou, minhas pernas tremeram, minha boca ficou seca... Quase dei um treco! Se tivesse acontecido algo mais, acho que eu teria morrido.
Lucas olhou-me surpreso, nunca me vira falar assim de nenhuma garota antes.
- Caraca, Rafa! Você está apaixonada!
- Não, estou boba mesmo! Me sinto uma idiota perto dela, mal consigo dizer uma frase completa.
- Você é uma idiota mesmo, pessoas apaixonadas tendem a ficarem idiotas – Disse debochado.
- Algo me diz que você está se aproveitando da situação para me chamar de idiota.
- Você disse idiota primeiro.
Sorrimos.
O professor de filosofia entrou na sala já nos pedindo silêncio, pra variar estava de mau humor. Não consigo entender como uma pessoa consegue estar mau humorada vinte quatro horas por dia. Desde que tenho aulas com ele não lembro-me de tê-lo visto pelo menos uma vez chegar sorrindo na sala de aula. Será que isso é falta de mulher? Não conseguia conquistar uma mulher? Sabíamos que era divorciado. Não tinha nenhuma namorada ou ficante? Logo ele, que se dizia ser uma pessoa tão inteligente... Vivia nos esfregando na cara suas viagens por vários lugares do mundo, as culturas que teve o prazer de conhecer e estudar... Falava dos seres humanos como se fosse um verdadeiro conhecedor da alma humana, como se soubesse quais são e como se resolve os problemas de alguém. Nos olhava com ar de superioridade a maior parte do tempo, porque na sua concepção, nós, reles mortais, não tínhamos nada de bom para oferecer-lhe. Dava até a impressão de que não fazíamos parte da realidade em que ele vivia, tamanho era o seu descaso com as nossas opiniões. Como uma pessoa que se julga tão viajada, “inteligente”, superior... Pode viver com aquela cara de infelicidade? Alguém pode me explicar? Ele não entende a si próprio, como quer entender e julgar os outros? Naquele instante, perdida em meus pensamentos, me fiz uma promessa: quando ficasse mais velha, jamais trataria os mais jovens com essa falta de interesse desmedido. Ele nos subestima, mas, sequer pára pra ouvir nossas opiniões! Isso é muito triste! Estava ali, diante de nós, um ditador convicto.
Nossa! Aquela aula demorou uma eternidade! Aquele homem metido falava como um papagaio de pirata.
Ufa! O sinal tocou e nós fomos para o recreio. Antes de ir comer alguma coisa, passei como quem não quer nada pela sala dos professores e não foi uma idéia ruim, Amanda estava lá e o que é melhor: sozinha! Estava entretida com as mãos apoiadas na mesa, cabeça baixa, cabelos estrategicamente presos atrás das orelhas e um livro aberto a sua frente. Cheguei de mansinho por trás dela...
- Também adoro Herold Robbins – Disse quase no seu ouvido, voz suave para não assusta-la.
Amanda sorriu, olhou a capa do livro.
- Os caçadores – Disse - Já leu?
- É o meu preferido.
- Esse não é um livro indicado para sua idade.
- Porque? Só pelo fato dele citar o sexo com naturalidade?
- Naturalidade? – Sorriu – Tem tempo pra tudo na vida, talvez não seja tempo pra você ler um livro como esse.
- É meu autor preferido.
- Suponho que seja por ele falar de sexo com naturalidade, certo?
- Também... Mas, gosto mesmo da maneira fácil e emocionante que ele escreve, um livro não precisa ter palavras difíceis, tem que ser bom. A qualidade de detalhes que ele expõe, suas idéias, seus personagens são ricos em personalidade. Ação, suspense...Romance... tudo em um só livro. Sem falar a maneira despreocupada que ele narra cenas de sexo, conseguindo até mesmo fazer o mais preconceituoso leitor fascinar-se com um romance a parte entre homens.
- É, você leu mesmo esse livro.
- O Jerry Cooper já foi pra guerra? – Disse quase irônica.
- Bom saber que ele vai pra guerra, não tinha chegado nessa parte ainda.
- Desculpa – Sorri – Como pode ver, não sou tão criança quanto pensa.
- Prometo que não vou usar sua idade pra justificar mais nada, está bem?
- Assim melhora. Quando terminar de ler este livro, leia também “79 park Avenue”, “o magnata” e “os devassos”... Herold também soube escreve-los com maestria.
- Pode deixar. Não vou esquecer de ler esses também – Disse sorridente – Meu Deus! Ele escreveu um livro chamado “os devassos”? – Completou extrovertida.
- Despudorado ele, né? Isso porque eu não citei: "o garanhão", "os insaciáveis"... e por aí, vai...Sua marca registrada é poder, intriga e sexo.
- Nossa! É mesmo fã desse cara – Continuou sorrindo.
Fiz um gesto com a cabeça dizendo que sim.
- Tem tempo pra mim? – Disse de imediato.
- Agora?
- Na sua agenda... Aulas extras, lembra?
- Ah sim! – Levantou-se, pegou sua agenda nas mãos, abriu-a e começou a examina-la, dois minutos intermináveis, eu ali parada na frente dela, suando frio por medo que ela não tivesse tempo disponível para nossas aulas. – Saio daqui e ainda dou aulas em mais dois colégios. – Disse um pouco desanimada – Só estou disponível depois das seis, fica tarde pra você?
- Não, claro que não! – Disse de imediato – Horário perfeito.
- Então... – Anotou algo num pedaço de papel – Aí tem meu endereço e meu telefone, quando quiser começar, já sabe onde me encontrar, além de aqui na escola, é claro. – Sorriu - Como estou livre mesmo depois das seis, podemos ter aulas todos os dias até você ficar preparada em matemática para o vestibular.
- Posso passar na sua casa hoje? – Disse num impulso, se ela dissesse “não”, seria bem esperado.
- Hoje? – Pensou por um instante – Hoje só estarei em casa depois das sete.
- Sem problema, posso? – Estava deveras ansiosa.
- Se começarmos às sete, vai ficar tarde pra você voltar pra casa, e você é muito novi...
- Ei! – Disse interrompendo-a – Esqueceu da sua promessa?
Ela sorriu.
- Está bem, passa na minha casa lá pelas sete.
- Beleza! – Disse eufórica .
- Nunca vi um aluno tão feliz por que vai estudar mais.
- Sou dedicada. – Disse – Quanto vai ficar minhas aulas?
- Sou professora por que amo lecionar, te garanto que se fosse pelo dinheiro já tinha desistido. Portanto, não se preocupe com isso, não vai te custar nada.
- Faço questão.
- Eu também faço questão que você não pague, se quer ter aulas particulares comigo, vai ter que ser do meu jeito – Fingiu uma expressão séria – Entendeu? – Logo voltou a sorrir.
- Não está mais aqui quem falou .
O sinal tocou, eu esqueci até mesmo que estava com fome, naquele instante estava alimentada por algo muito melhor do que comida: “felicidade”. Antes de sair, Amanda chamou-me.
- Me diz, o Jerry morre na guerra? – disse ela.
- Leia o livro, menina ansiosa! – Disse sorrindo, logo acenei com uma das mãos, dando tchau pra ela.
Àquela altura, meu coração estava disparado. Saí da sala dos professores cantarolando e dando pulos no ar; eu parecia uma adolescente apaixonada pela primeira vez, ei, pêra aí! Eu era uma adolescente apaixonada pela primeira vez! Sorri da minha idiotice. Lucas tinha razão, pessoas apaixonadas tendem a ficarem idiotas e o mais engraçado, era que eu estava feliz por ser uma “idiota”.

 

 

Capítulo 4: Primeira aula

 

Eu era pontual. Parei de fronte ao portão de madeira. Olhei novamente o papel que segurava nas mãos...
- Casa vinte nove – Disse – É aqui- Suspirei.
Toquei a campainha. Minhas mãos tremiam, meu coração batia cada vez mais acelerado... Toquei de novo a campainha... Ninguém veio atender-me. Olhei pro interfone. Já estava indo embora quando o portão fez “treck” e se abriu na minha frente. Amanda estava linda! Usava uma calça jeans surrada, uma camiseta regata na cor branca e chinelos havaianas nos pés.
- Simples e perfeita. – Pensei enquanto notava os cabelos um pouco bagunçados. - Oi! Cheguei cedo demais? – Disse um pouco desconcertada olhando o relógio que marcava 18:45h.
Amanda abriu aquele sorriso lindo.
- Imagina! – Fez um gesto pra que eu entrasse – Acabei de chegar também, vem cá. – Disse, enquanto passávamos da sala para a cozinha. Logo que chegamos, vi umas sacolas de supermercado sobre a mesa.
- Acabei de chegar do mercado – Disse ela.
- Dá pra perceber – Sorri.
- Comprei muitas coisas que você deve gostar. Biscoitos, iogurte, leite...
- Lá vem você me chamando de criança de novo – Disse ofendida. Defendia-me porque queria que ela não me visse como uma simples garotinha de dezessete anos.
- Ei, pera aí! Não estou te chamando de criança, mocinha – Disse com aquele jeito doce de sempre – Sou bem mais velha que você e gosto de tudo isso.
- É que detesto ser tratada como criança, entende?
- Só crianças bebem iogurte? – Disse enquanto abria o lacre de um – Adoro isso. Quer? – Tomou um pouco.
- Quero o que está na sua boca – Pensei – Não. Obrigada – Disse. Senti minha face corar, não lembro de ter me definido antes, mas, tenho 1,65m de altura, peso proporcional a minha estatura, cabelos castanhos escuros, olhos da mesma cor e o que me denuncia, uma pele pálida, por isso, quando penso alguma besteira ou quando fico envergonhada minhas bochechas ficam rosadas. Isso me irrita. Ela não deve ter percebido, afinal, não falou nada.
- Se preferir, posso fazer um sanduíche pra você, quer?
- Não, obrigada. Comi alguma coisa quando sai de casa.
Amanda era tão atenciosa, será que estava pensando que era minha mãe? É pecado desejar a mãe da gente. Ri sem perceber.
- Tá rindo de que? – Disse ela.
- Você está enrolada, quer ajuda?
- Jura que você me ajuda? – Disse feliz com a minha solidariedade.
- Claro.
Fui tirando as coisas de dentro das sacolas e dando a ela para que as guardasse nos seus devidos lugares. De vez em quando esbarrava nela para encostar na sua pele. Uma vez, ela sentou-se no chão para guardar algumas coisas no armário de baixo e na hora de entregar-lhe latas de conservas, passei meu braço perto dos seus seios; encostou de leve, fiz parecer um acidente, mas, pude notar que os pêlos do seu braço se arrepiaram todos. Senti um calor subindo pelas minhas pernas... Pena que acabamos rápido, acredito que em menos de meia hora. Ela estava agradecida e cansada, percebi pela sua face um pouco abatida.
- Se não fosse a sua ajuda, ainda estaria arrumando essas coisas.
- Adoro me sentir útil, se quiser, pode me ligar todas às vezes que fizer compras, venho te ajudar rapidinho.
Nós rimos.
- Até parece.
- Tá cansada, né?
- Um pouco.
- Se quiser deixar essa aula pra outro dia...
- Que isso, até parece que eu iria fazer você vir até aqui àtoa, pra perder seu tempo.
- Ver você nunca será perda de tempo – Pensei – Se quiser tomar um banho pra relaxar, eu espero – Disse.
- Vai ficar ainda mais tarde – Olhou o relógio preocupada.
- Eu espero – Disse – Se quiser me levar junto... – Pensei.
- Então...Já volto. Fica à vontade. Tem uns livros espalhados na estante, pode mexer em tudo, não fica com vergonha. – Disse enquanto caminhava pelo imenso corredor que separava a sala do banheiro.
- Você deixa mesmo eu mexer em tudo? – Pensei, logo sorri – Até na sua boca, na sua pele, no seu sexo? – Balancei a cabeça negativamente, sentei-me no sofá que estava à minha frente. Eu já estava toda molhada.
Amanda não demorou no banho, devia estar preocupada comigo, afinal de contas, eu estava à sua espera. Voltou pra sala de cabelos molhados, exibindo um cheiro delicioso que impregnou de imediato todo o ambiente. Vestia agora um short e uma camiseta, ambos de malha. Suas pernas à mostra me deixou deveras desconcertada, impossível não reparar naquela pele lisinha e de formato tão bem torneado. Ela sentou-se no sofá ao meu lado, senti o toque gostoso da sua perna na minha, ela ajeitou-se, pousou suas mãos levemente sobre os meus ombros, haviam livros do outro lado do sofá, eu nem tinha percebido, estava tão consumida em meus pensamentos.
- Pega pra mim – Disse percebendo que não ia alcançá-los.
Ergui os braços para pegá-los, com o movimento, minha perna roçou na dela e isso fez meu corpo inteiro se decompor de desejo. Não sabia se podia controlar.
- Pronto – Disse entregando-lhe os livros.
- Demorei muito? – Perguntou-me enquanto folheava um dos livros.
- Não – Disse tentando sufocar a vontade de tomá-la em meus braços e beijá-la.
Nossa! Foram quarenta e cinco minutos de tortura. Ela me explicava algumas coisas, e eu fingia não ter entendido, ela explicava pela segunda vez com a mesma paciência da primeira, e então, eu agia como se tivesse entendido naquele momento, Amanda sentia-se orgulhosa e admirada com a minha facilidade em absorver a matéria, logo, abria um largo sorriso. Eu me sentia péssima fazendo isso com ela, na verdade, tudo o que estudamos ali, eu já estava careca de saber, mas, fora o único jeito que encontrei de tê-la mais perto de mim. Eu disse quarenta e cinco minutos, não disse? Isso porque, foi exatamente após esse tempo que a porta da sala se abriu e logo entrou um cara por ela. Ele devia ter uns trinta anos, era alto, magro de cabelos bem curtos e negros. Usava um terno azul marinho e carregava uma pasta preta de couro nas mãos. Quem era aquele idiota? Antes que eu pudesse pensar mais alguma coisa, Amanda levantou-se, foi até ele e os dois trocaram um beijo rápido, mas que para mim, durou uma eternidade. Foi imediato, olhei para as mãos de Amanda, nem sinal de alianças.
- Rafa – Chamou-me – Esse é o Rodrigo, meu noivo.
- Oi – Foi só o que consegui dizer.
Ele cumprimentou-me com a cabeça.
- Dando aula particular? – Disse.
- Sim, mas... – Olhou o relógio pendurado na sala – Já está ficando tarde...
Levantei-me.
- Continuamos amanhã – Disse desconcertada.
- Amanhã você pode vir mais cedo – Sorriu – E não vamos ter sacolas para arrumar.
- Amor – Disse ele – Tô morto, vou tomar um banho e já volto - Me deu tchau também, e saiu.
Amanda  Olhou o relógio novamente.
– Tá tarde, vou ficar preocupada com você.
- Pego um táxi e chego em casa rapidinho.
- Você mora aqui perto?
- Hurum... Uns quinze minutos daqui.
- Quinze minutos? – Pensou por um instante – Espera então, vou só pegar as chaves do carro, te levo em casa.
- Não precisa.
- Amanhã você sai mais cedo daqui e pega um táxi, hoje não. Se eu não fizer isso, nem sei se consigo dormir direito.
Quase dei um beijo nela. Preocupada comigo? Já era um começo. E aquele cara? Vai dormir com ela? Tá usando o banheiro dela! Que abusado! Esmoreci novamente. Ela tinha alguém e nem era uma outra mulher. Fiquei imaginando porque inventaram aquela história dela ser lésbica. E agora? O que eu iria fazer da vida? Eu estava perdidamente apaixonada por uma hetero? Muitas informações pra absorver naquela noite.
Amanda tirou o carro da garagem. Entramos e ela foi me perguntando o caminho.
- Vira aí – Eu dizia – Segue em frente...
- Gostou da aula?
- Gostei de te ver com esse shortinho – Pensei – Você faz a matemática ficar tão interessante – Disse.
- Ei, não precisa exagerar – Disse sorrindo como sempre.
- Vai casar Amanda? – Disse num impulso.
- Não sei, talvez – Disse.
- Ué! Não está noiva?
- Noivado não oficializado. Por enquanto – Disse – Rodrigo quer noivar mês que vem, e casar no fim do ano.
- Rápido assim? – Não contive minha surpresa.
- Já namoramos muito tempo... Seis anos, se eu não estiver enganada.
- Seis anos? – Fitei-a confusa, com vontade de perguntar se ela nunca sentira nada por uma outra mulher – É aqui – Disse fitando minha casa.
Ela estacionou próximo a calçada.
- Tá entregue – Disse – Até amanhã, Rafa.
Fitei seus olhos com dor. Eu não queria descer daquele carro, não queria me afastar do cheiro bom que vinha dos seus cabelos. Inclinei meus lábios o mais perto possível do seu rosto, beijei quase o cantinho da sua boca. Amanda me olhou assustada, acho que pensou que eu iria beijar os seus lábios. Não foi por falta de vontade, foi por medo mesmo.
- Tchau, e...Obrigada – Disse.
- Espera – Puxou-me pelas mãos, impedindo que eu saísse - Sua mochila – Fitou o banco de trás.
- Ah, tá! – Sorri pelo canto da boca, um sorriso amarelo como dizem – Já ia me esquecendo.
Amanda só foi embora quando entrei em casa, fiquei olhando pela janela o carro dela desaparecer no fim da rua.
- Isso são horas? – Disse meu pai. Interrompendo meu “momento melancolia”.
- Tava estudando.
- Desde quando tem amiguinhas de carro?
- Era minha professora.
- Sua professora? O que ela veio fazer aqui?
- Eu disse que estava estudando, não disse? Mas, acho que o senhor nem ouviu – Fitei-o aborrecida – Parece que não ouve o que eu digo! Ela me trouxe porque estava me dando aula até agora.
- Está com notas ruins no colégio?
- Dificuldade em matemática – Menti pra ele também, sabia que não se importava mesmo.
- Ela está te dando aulas particulares?
- Está.
- E quanto isso vai me custar?
- Que merda! – Irritei-me ainda mais – Será que só pensa no seu maldito dinheiro? Ela não está me cobrando nada! Pro seu governo, ainda existem pessoas que fazem favores prás outras sem interesse.
- Fala baixo comigo, menina! – Disse autoritário.
- Eu disse que estava com dificuldades em matemática e o senhor só se preocupa se vai lhe custar alguma coisa minhas aulas particulares?– Fitei-o ainda furiosa, embora contida – Nem se importa se estou me esforçando, não é?
- É mais que sua obrigação – Disse arrogante – Não trabalha, só fica andando com essas amigas esquisitas que você tem, leva uma vida promiscua...
- Tava demorando, né? – Joguei minha mochila no sofá – Me mira e me erra! – disse antes de sair da sala.
- Volta aqui! Eu estou falando contigo, menina!
Tranquei a porta do quarto e liguei para o Lucas... Tocou uma...Duas...três...
- Alô! – Disse ele.
- Oi, sou eu, Rafa.
- Que voz é essa? Aconteceu alguma coisa?
Engraçado, só de ouvir a minha voz ele sabia que eu não estava bem e eu também conseguia detectar isso nele com a mesma perfeição.
- Briguei com meu pai pra variar.
- Que chato.
- Mas, não é por causa disso que liguei – Troquei o celular de mão, deitei-me na cama – Luca, você sabe quem inventou aquela historia de que Amanda seria lésbica?
- Foi o Marcos – Disse – Porque?
- Cara, tô arrasada! Fui na casa dela hoje, tudo estava maravilhoso, até...
- Até o que? – Disse ansioso.
- Até o futuro noivo dela chegar.
- Que balde de água fria, amiga!
- Nossa! Cê falou igual um viadinho agora – Sorri do meu comentário.
- Ah pára! Não diz isso nem brincando, nós dois sabemos como mulher é bom.
- Sei disso não, ainda acho que você é virgem – Disse sarcástica.
- Se ficar me zoando vou desligar.
- Tá, desculpa! Amanhã vou tirar essa história a limpo com o Marcos, afinal de contas, onde há fumaça, há fogo... Pra que ele iria inventar uma história dessas?
- Sei não, mas, acho que se você fosse mais esperta, tentava tirar a professora da cabeça.
- Não dá, cara! Não penso em mais nada, só nela.
- Te cuida, Rafa!
- Aê! Falou igual homem agora.
- Tô desligando, cê fica deprimida e me zoa, pow!

Cheguei cedo no colégio, queria falar com Marcos o mais cedo possível. Droga! Passei a noite inteirinha remoendo essa história. Comecei a imaginar um abismo entre eu e Amanda... Tive sorte, logo que cheguei, encontrei Marcos sentado no pátio. Lucas chegou logo depois e juntou-se a nós.
- Oi, Marcos – Disse já premeditando como iria perguntar-lhe sobre o que aconteceu com Amanda.
- Oi, Rafa.
Lucas nos comprimentou também, mas, logo ficou calado. Sabia exatamente o que eu iria conversar com Marcos.
- Marcos – Disse- Me conta aquela historia que estavam espalhando da professora Amanda - Literalmente, não conseguia fazer rodeios.
Marcos riu, ele adorava espalhar uma fofoca.
- É serio, não é fofoca não, ela é lésbica – Disse persuadido.
- Como tem tanta certeza?
- Deixa eu contar – Disse fazendo um gesto para que nos sentássemos ao seu lado – Minha irmã, trabalhava como secretária num colégio que Amanda deu aula – Pensou por uns instantes – Isso tem quase seis anos, gente! E mesmo assim, quando Sabrina olhou pra ela, lembrou da historia toda e me contou. Disse que eu tinha que alertar as meninas da minha turma.
- Alertar? – Disse – Que ridículo! – Pensei.
- Deixa eu contar o que minha irmã disse, aí vocês vão entender. Bom, nesse colégio, Amanda dava aula pra uma turma do terceiro ano e seduziu uma menina de dezessete anos, foi um escândalo! O colégio todo ficou sabendo, os pais da menina ficaram sabendo... Amanda foi despedida e a menina, foi parar numa clínica, dessas de maluco, entendem? Os pais dela eram muito tradicionais.
- Seduziu? Como assim? – Perguntei intrigada, e passada com a história.
- Seduziu, poxa! Amanda devia estar com uns vinte um...Vinte dois anos... E a menina que se chamava Fabiana – Pensou antes de retomar as falas – Isso mesmo, minha irmã disse Fabiana. Bom, a menina sofreu muito, gostava dela pra caramba e a Amanda foi embora sem deixar nem o endereço, sumiu do mapa mesmo. Depois, os pais dela internaram a coitada, achando que ela era louca por gostar de uma mulher.
- Isso só pode ser piada – Disse abismada.
- Minha irmã não ia mentir, trabalha aqui no colégio a anos, ia se queimar com uma professora?
- É, tem razão – Um minuto de reflexão – Não faz sentido, Amanda tá quase noiva, vai casar.
- Só se ela deixou de ser lésbica – Disse Marcos.
- Só se ela deixou de ser lésbica? Desde quando existe ex-gay? – Pensei, indignada com aquele raciocínio de Marcos.
- Agora entendem porque eu falei pra todo mundo? Foi para as meninas tomarem cuidado.
- Você disse porque é um fofoqueiro, seu merda! – Pensei, na verdade, quase falei – Fala sério! Essa historia dela ter seduzido a menina isso realmente é patético... Se isso for verdade, a garota fez porque quis e pronto! – Disse indignada.
- Sei lá! E me responde uma coisa, porque você tá tão interessada nessa história? Tá afim dela? – Disse debochado.
- E se tiver, algum problema?
- Tá falando sério? – Olhou-me assustado.
- Claro que ela não tá falando sério – Disse Lucas.
- Ah! Se tivesse falando sério mesmo, eu diria que se eu fosse você, Rafa, ficaria comigo. Eu faria você esquecer a sua curiosidade em dois tempos.
- É mesmo? – Disse sarcástica – E se eu fosse você, enfiava essa língua no cú – Disse e sai, deixando-o com cara de bobo. Só deu tempo de ouvir a última frase do Lucas.
- Podia ter ficado sem essa, né cara? – Saiu também.
Lucas logo alcançou-me.
- Tá vendo como as pessoas são? – Disse ainda irritada.
- Pelo menos você sabe que ela já teve algum rolo com outra mulher, devia estar feliz.
- Mas...Não tô! – Passei a mão no cabelo – Porque ela vai se casar? E a menina? A tal da Fabiana? Porque Amanda foi embora sem deixar pistas?
- Pergunta pra ela –Disse convicto – Acaba de vez com essa agonia, diz que gosta dela... O máximo que pode acontecer é Amanda te dar um “não”.
- Não é tão simples, Luca! Gosto mesmo dela, não quero perder o que já conquistei, as aulas particulares, nossas conversas sobre o Herold... Entende?
- Mais ou menos...
- A companhia dela é muito importante pra mim e se eu perder isso, meus pais vão ter que me internar também, vou enlouquecer!
- Poxa! Você exagera, hein?
O sinal tocou. Fomos para aula de Português.
Foi uma correria hoje no colégio, não vi Amanda a manhã toda. No final da minha última aula, fui ao banheiro, e encontrei-a no corredor, coisa bem rápida, só deu tempo dela mostrar aquele sorriso lindo e dizer que iria me esperar na sua casa às seis. O coração quase saiu pela boca como sempre.

 

 

Capítulo 5: Coragem

 

Eu estava gostando dessa história de ser pontual. Olhei o relógio, faltava um minuto para às seis. Toquei a campainha. Desta vez ela não demorou, atendeu-me rapidinho. Entramos, ela pediu para eu me sentar... Sentei-me, mas antes, olhei-a da cabeça aos pés, pra variar: estava linda! Vestia uma blusa de um ombro só e um short jeans rasgado nos bolsos, o mesmo chinelo nos pés. Cabelos soltos e molhados, o mesmo cheiro gostoso de ontem.
- Quer beber alguma coisa? – Disse ela.
- Um uísque por favor, sem gelo – Sorri – Nada não.
- Tá engraçadinha hoje – Sorriu também – Viu algum passarinho verde?
- Verde não, dourado.
- Dourado? Essa é nova – Sentou-se ao meu lado, já estava com um livro nas mãos – Vamos começar?
- Vamos conversar? – Disse fitando seus olhos.
- Conversar? Sobre o que quer conversar comigo? – Ficou um pouco apreensiva.
- Vai casar mesmo Amanda? – Estava voltado a minha forma “cara de pau”.
- Não sei nem se vou estar viva amanhã – Brincou – Engraçado, desde que comecei a dar aulas, não me lembro dos meus alunos me chamando de Amanda, ou era “professora” ou “Professora Amanda”.
- Gosto de ser diferente dos teus outros alunos.
- E consegue ser diferente – Disse fechando o livro que havia aberto – Nunca vi alguém gostar tanto de estudar, nem sei porque se preocupa  com o vestibular, tem tanta facilidade em aprender. Na sua idade, as meninas só pensam em namorar.
- E você? Gosta de namorar? – Pensei por um instante, ela ficou me olhando, não respondeu – Deixa eu formular melhor a minha pergunta: gosta do seu futuro noivo?
- Vai pedir meu CPF também? – Sorriu – Onde quer chegar?
Tirei o livro das suas mãos. Ela estava tão próxima de mim, eu podia sentir e ouvir a sua respiração. Toquei suas mãos de leve com a ponta dos dedos, meus olhos fixos nos dela, Amanda estava parada me olhando, como se não acreditasse no que eu estava fazendo, ela levantou-se, levantei-me junto com ela. Dei um passo pra frente, agora dava pra sentir o calor do corpo dela, éramos praticamente da mesma altura, senti o seu hálito no meu rosto, e enchi-me de coragem, segurei sua face delicadamente com minhas mãos, e encostei meus lábios nos dela, ela tentou fugir, mas desistiu quando minha língua invadiu a sua boca, forçando aquele beijo. Sua língua enroscou-se na minha e nossa respiração começou a ficar ofegante, agora minhas mãos livres, sem sua repulsa, deslizavam pelas suas costas, e eu a puxava pra mim, querendo encostar cada vez mais meu corpo no dela, minha perna estava no meio das suas coxas e eu podia sentir seu sexo quente. De repente ela empurrou-me e eu quase caí no sofá da sala.
- Você está louca? – Disse irritada.
- Tô louca por você Amanda! Penso em você o dia todo, desde quando te vi pela primeira vez...
- Pára! – Disse alterada.
- Não respondeu a minha pergunta, gosta do seu noivo?
- Não sei – Disse confusa.
- Não gosta, eu sinto – Puxei-a para mim novamente. Tentei beijar-lhe os lábios, mas, Amanda virou o rosto, abracei-a com desejo e pressionei-a na parede da sala, ela relutava, pedia incansavelmente para que eu parasse, mas, eu não conseguia, estava louca de tesão por ela, deslizei minha boca quente pelo seu pescoço, seus pêlos se arrepiaram, seus seios comprimidos nos meus estavam cada vez mais salientes na blusa. Naquele momento, Amanda não tinha forças para me empurrar, foi deixando eu beijar o seu pescoço, a sua nuca... Minhas mãos passeavam por baixo da sua blusa...
- Pára Rafaela – Continuou dizendo, agora com a voz quase desaparecendo – Pára – Repetia ofegante.
Seu corpo tremia de desejo tanto quanto o meu e sua pele queimava na minha. Toquei seus seios por baixo da blusa, tentei tirá-la e nesse instante ela se esquivou. Ainda tentei puxá-la de volta, mas desta vez ela realmente não deixou.
- Não faz isso comigo, por favor – Disse – Não me evita.
- É melhor você ir embora, Rafaela – Disse com semblante sério.
- É melhor você largar aquele babaca e ficar comigo.
- Eu vou me casar e esquecer que isso um dia aconteceu – Disse brava.
- Vai fugir até quando de si mesma? – Fitei-a aflita, quase desesperada, era a minha oportunidade, não podia voltar pra casa sem fazê-la pensar ao menos em uma possibilidade, mesmo que fosse remota, eu queria uma esperança.
- Eu não estou fugindo de nada – Alterou-se.
- Você nem gosta desse Rodrigo! Porque não admite logo que uma simples garotinha de dezessete anos fez você sentir mais coisas do que aquele idiota pôde sonhar em fazer você sentir um dia? Sim porque, se você fosse mesmo feliz com ele, não hesitaria em dizer o que sente pelo seu suposto noivo e nem ficaria com essa cara de enterro quando fala em se casar com ele.
- Você é muito pretensiosa, acha que me fez sentir o que? – Disse quase sarcástica.
- Não estou falando de mim, estou falando da Fabiana – Disse já com lágrimas nos olhos.
Amanda ficou em silêncio por quase um minuto.
- Quem te falou dela?
- O Marcos, irmão da Sabrina que trabalha na secretaria do colégio.
Ela sentou-se no sofá quase desacreditada.
- Ela disse que não contaria essa história pra ninguém – Disse perplexa.
- Mas contou – Sentei-me ao seu lado – Não foge do que você é – Disse quase num sussurro.
- O que eu sou? Você não sabe nada da minha vida! Eu não sou lésbica se é o que está pensando – Continuou na defensiva.
- Sei que você se apaixonou por uma garota, e sabe-se Deus porque, depois dela, se trancou pra vida, e vive se escondendo atrás de um panaca que você literalmente não ama.
- Eu amo o Rodrigo.
- Tá mentindo pra quem? Pra mim? Não obrigada! Prefiro o que os seus olhos me dizem, e quer saber o que eles falam? Falam que você adorou tudo o que aconteceu aqui nessa sala, e aposto que tá com a calcinha toda molhada, mas, nunca vai admitir, porque tem medo de dizer que sente atração por mulheres.
Amanda olhou-me quase desacreditada com tudo o que eu tive coragem de dizer. Eu senti-me aliviada, poderia perdê-la para sempre, mas, pelo menos fui sincera com ela, e comigo.
- Você está doida, menina? – Levantou-se – Acho melhor você ir embora – Disse aborrecida – Não sou lésbica! – Repetiu com os olhos cheios de reprovação pela palavra “lésbica”.
- Preconceito é burrice, sabia? Pensei que boa parte dos professores fossem inteligentes, e te inclui nesse meio, mas, acho que me enganei profundamente com você.
- Está me chamando de burra?
- Estou te chamando de covarde! – Gritei.
- Você não sabe de nada! – Disse absorvida em sua agonia, seus olhos lacrimejavam agora.
- Droga! Eu tinha vinte e dois anos, ela dezessete, nunca daria certo! – Disse baixando a guarda.
- Nada dá certo se não tentarmos.
Amanda secou algumas lágrimas.
- Quando os pais dela souberam, trancaram Fabiana em casa, reclamaram na escola, praticamente obrigaram o diretor a me despedir e foi difícil pra mim, era o primeiro colégio que eu dava aulas – Respirou fundo – Logo meu pai ficou sabendo também, ele ficou louco, tenho certeza que você nem conseguiria imaginar como eu fui hostilizada por ele, e pior, chegou a ponto de expulsar-me de casa.
- Sei bem o que é ser hostilizada pelo próprio pai, mas, termina, me conta tudo. Porque abandonou a Fabiana?
- Eu procurei por ela, muitas vezes, mas seus pais começaram a dizer que internariam a menina em um sanatório caso eu não me afastasse dela, então, por ela... Eu fiz um acordo com sua mãe e me afastei de vez, para que ela cumprisse a promessa de não internar Fabiana numa clínica.
- Não adiantou nada, eles internaram-na – Disse.
- O que? Quem disse? Como sabe? – Ficou confusa.
- A Sabrina também contou isso pro Marcos.
- Meu Deus! Eu nunca soube – Disse sincera.
- Você sumiu, e... – Fiz um gesto para que ela continuasse a falar.
- Fui morar na casa de uma tia em Goiás, conheci o Rodrigo nessa mesma época. Contei a ele o que tinha acontecido, ficamos amigos e depois começamos a namorar. Rodrigo veio morar no Rio e eu voltei com ele, nesse tempo, eu já falava com meu pai pelo telefone, e ele estava feliz por eu estar namorando um rapaz... Enfim, voltei pra casa, só que... Nunca mais foi a mesma coisa, então, resolvi voltar a dar aulas, e saí de casa novamente, aluguei um apartamento, mas, como meu pai tinha certeza que eu me casaria com Rodrigo, deu-me esta casa de presente.
- E então, você se anulou completamente – Disse magoada com sua falta de coragem.
- Eu sou feliz agora – Disse aborrecida com meu comentário.
- Feliz? Consegue mesmo ser feliz com esse cara? E os seus desejos... Suas vontades? Não contam?
- Ah é, espertinha! Então defina felicidade, já que você é tão feliz assim.
- Felicidade? – Sorri – O ser humano vive em uma busca eterna pela felicidade, não seria diferente comigo... Bom, felicidade pra mim, é ver você todos os dias, mesmo que seja pra ficar te olhando quando você está dando aula para outra turma, ou quando passa correndo pelo corredor... É ouvir a sua voz logo de manhã e acreditar que o mundo inteiro está tão alegre quanto eu, no momento em que você sorri, mesmo que seu sorriso não seja pra mim, ou quando você diz “oi”, iluminando cada pedacinho do meu corpo – Meus olhos começaram a lacrimejar sem que eu tivesse percebido, enxuguei algumas lágrimas, e sorri – É também, inventar que não sei nada de matemática só pra poder ficar mais perto de você...
- Vai pra casa – Disse baixando os olhos.
- Então... Promete que vai pensar em nós? – Segurei suas mãos trêmulas – Acho que Deus está te dando uma segunda chance e você nem tá vendo.
- Não envolva Deus nisso! – Disse áspera, logo puxou a mão.
- Não estrague tudo de novo. Seus olhos não podiam estar mentindo quando nos beijamos – Disse agora sem lágrimas nos olhos.
- Não vou pensar – Estava irredutível – Amanhã viajo pra Goiás para comemorar o aniversário da minha sogra, quando eu voltar, espero que você já tenha esquecido essa história – Disse severa.
- Minha mãe não faz aniversário amanhã – Pensei – Quando você volta? – Disse.
- Domingo à noite – Disse inexpressiva.
- Dois dias sem te ver? – Disse aflita – Não acredito!
- Vai se acostumando, agora que sei das suas reais intenções, nos veremos bem pouco – Pensou por um momento – Agora sei porque você aprendia tudo tão rápido.
- Já nos vemos pouco – Disse ignorando completamente seu último comentário.
- Nos veremos menos ainda – Continuou inexpressiva.

Ela conseguiu me arrasar. Cheguei em casa e tranquei-me no quarto. Nunca tinha chorado tanto na vida. Só conseguia pensar em como tinha sido bom o beijo dela, e de como seu corpo reagiu ao meu, não podia estar enganada – Ela gostou! – Disse várias vezes pra minha solidão. Deitei a cabeça no travesseiro e chorei mais... E mais... E mais...Tive vontade de gritar, e gritei, meus gritos sufocados pelo travesseiro não puderam ser testemunhados.
Lá pelas onze da noite, minha mãe entrou no quarto. Ela acendeu a luz, logo pedi que apagasse, meu rosto estava inchado de tanto que eu tinha chorado. Mamãe estava preocupada, nunca antes me vira chegar em casa tão transtornada.
- O que aconteceu minha filha?
- Não sabia que as pessoas eram tão complicadas.
- Isso tem a ver com algum namoradinho novo?
- Mãe! – Disse calma e ao mesmo tempo decepcionada – Pára de fingir que não sabe – Olhei-a nos olhos, ela baixou os dela, fitando a beira da cama – É tão difícil falar namorada? Sei que não sou a filha que a senhora sonhou, mas, acho que a senhora teria um desgosto bem maior se eu fosse uma drogada. Gostar de outras garotas não influencia no meu caráter, mãe!
Ela simplesmente levantou e saiu.
- Queria poder tê-la como uma amiga. – Disse antes que ela fechasse a porta.

 

 

Capítulo 6: Esperança

 

O fim de semana demorou uma eternidade para passar. Lucas me ligou várias vezes, sempre com uma proposta diferente e eu recusei todas. Estava literalmente curtindo o meu “momento melancolia”. Sair de casa e não ver nada que possa me fazer esquecer Amanda, seria perda de tempo e no meu quarto eu podia chorar a vontade e ouvir aquelas músicas que a gente só lembra de escutar quando estamos realmente deprimidos. Deitada na cama, com as cortinas fechadas, o ar condicionado gelando, tamanho era o calor que estava fazendo naquele dia, nem ouvi meu celular tocar... Depois de uns segundos, me dei conta dele.
- Alô! – Disse afobada.
- Oi, Rafa – Disse Lucas do outro lado da linha – Como você está?
- Cara! Não tem nem cinco minutos que você ligou perguntando a mesma coisa.
- Tô preocupado contigo, não posso? Dá pra sentir o cheiro do seu mau humor daqui, sabia?
- Desculpa, mas... Preciso da minha solidão, entende? – Tentei procurar palavras para dizer-lhe que o mesmo estava incomodando – Você tá me deixando maluca ligando toda hora – Disse já arrependida pela falta de jeito.
- Foi mal! – Disse aborrecido – Bruna tá aqui.
- Manda um beijo pra ela – Bruna era uma menina que eu costumava ficar de vez em quando. Nada sério, nada interessante...
- Devia esquecer a professora – Disse.
- Se fosse fácil, eu já tinha esquecido.
- Nunca te vi tão derrubada por uma mulher desse jeito.
- Nem eu pensei que uma mulher pudesse me deixar com tanta dor de cabeça desta maneira.
- Vou te deixar nessa solidão que você tanto tá curtindo – Respirou fundo – Te cuida mana- Disse carinhoso.
- Ei! – Disse – Não liga pro meu mau humor, tá? Eu te amo Luca! Você é o irmão que eu não tive.
- Eu sei – Sorriu – Não ligo quando você dá esses ataques de grosseria. Já te conheço de longa data. Sua sinceridade não me assusta mais. Tchau.
- Tchau.
Desliguei o telefone, acho que se ele quis fazer eu me sentir melhor, conseguiu. Pelo menos por cinco segundos. Depois, minha cabeça voltou a doer novamente e as lembranças de Amanda voltaram ainda mais veementes. Podia sentir o gosto dos lábios dela, o cheiro gostoso que sua pele exalava, o seu corpo quente roçando no meu, desesperado por mais contato... Fiquei molhada, coloquei as mãos por dentro do short, e comecei a me tocar pensando nela. Imaginei seus dedos dentro de mim, sua boca deslizando pela minha pele... Meus toques começaram a ficar mais acelerados e eu logo gozei. Abri os olhos e voltei pra minha realidade: Ela não estava ali.

Segunda-feira... Acordei cedo, na verdade, mal consegui pregar os olhos nesses últimos dias, estava visivelmente abalada com a situação indefinida que ficara entre nós duas, eu não conseguia me conformar com aquela rejeição. Precisava de mais tempo, tempo para fazê-la entender o que eu estava sentindo de verdade. Queria que ela visse meus sentimentos, não como o de uma adolescente inconseqüente apaixonada, mas, sim, o de alguém que a queria mais do que qualquer pessoa já quis um dia.
Cheguei no colégio antes do horário das aulas, na verdade, faltavam meia hora para começar as aulas naquele dia, sabia que os professores sempre chegavam mais cedo do que nós. Parei defronte à sala dos professores; haviam oito deles na sala tomando café. Amanda que costumava ser uma das primeiras a englobar aquele grupinho dos apressados, não dera o ar da sua graça ainda. Professora Carla me viu parada diante da sala e veio a meu encontro.
- Quer falar com um de nós, querida? – Disse agradável como sempre. Era uma mulher de aparentemente trinta e sete anos, professora de Português e uma das melhores amigas de Amanda desde que a mesma chegara ao colégio.
- Queria falar com a professora Amanda – Disse ansiosa.
- Ela não vem hoje – Disse – Só com ela mesmo? Não posso te ajudar?
- Não, obrigada – Disse confusa e decepcionada – É só com ela mesmo. Sabe me dizer se aconteceu alguma coisa? Ela não costuma faltar...Sempre chega cedo...
- Bom, o que ela adiantou por telefone é que teve uns problemas em Goiás, e que chegaria hoje de viagem.
- Sei – Passei as mãos pelos cabelos, estava nervosa.
- Aconteceu alguma coisa, Rafaela? Não prefere deixar eu mesma tentar te ajudar?
- Obrigada mesmo Professora Carla, mas, é só com ela.
Carla fitou-me um pouco pensativa, logo senti medo de ter dado muita bandeira com aquela reação tão negativa à falta de Amanda aquele dia no colégio.
- A Professora Amanda ficou de me emprestar umas apostilas de Matemática para eu estudar, vestibular, entende? – Disse tentando fugir das suas suspeitas, não sabia se Sabrina tinha espalhado aquela fofoca para os professores também.
- Se quiser algumas apostilas de português, posso conseguir pra você – Disse.
- Quero...Quero sim... Obrigada.
Não preciso nem dizer o quanto fiquei frustrada aquele dia, né? Deu vontade de sair correndo, pegar o primeiro avião pra Goiás e vasculhar todos os cantinhos daquele lugar, até achar a casa dessa “ex-sogra” de Amanda. Deixa eu sonhar! Tenho esperanças de que um dia ela seja “ex-sogra”. Nossa! Eu ri, um sorriso carregado de tristeza. São pensamentos assim que me fazem pensar no porque dela me achar infantil. Senti raiva por ter apenas dezessete anos.

Terça-feira... Primeira coisa que fiz quando cheguei na escola, foi ir até a sala dos professores...
- Professora Carla – Chamei-a.
- Oi?
- Professora Amanda vem hoje?
- Já deve estar chegando – Pensou por uns instante – Falei com ela por telefone sobre as apostilas, ela me pareceu não saber do que se tratava.
- Ela deve... Ter esquecido... – Gaguejei – Tem tempo que falamos dessas apostilas, acho que foi na segunda aula que tive com ela.
- Bom, então acalme-se, vai pra sala e espera pra falar com ela no tempo de aula que ela terá com a sua turma – Disse atenciosa.
- É o que vou fazer, obrigada.
Agonia! Essa era a palavra, passei o tempo inteiro tensa, com vontade de procurar Amanda pelo colégio, mas, não o fiz. De qualquer forma, queria me preparar para encará-la depois do ocorrido na sala da sua casa. Tinha também as palavras que eu iria dizer... Nossa! Eu estava perdida, dividida mesmo. Tinha vontade de vê-la, mas, o medo da sua reação ao nosso encontro depois daquele beijo, me deixava deveras insegura.
Enfim, o último tempo de aula... Amanda estava na sala quando entrei, olhei pra ela, cumprimentei-a. Ela disse um “oi” seco e baixou os olhos fitando uns papéis que estavam sobre sua mesa. A aula começou e Amanda ainda mal me olhava, isso incomodou-me. Esperei que terminasse a explicação e se sentasse. Fui até sua mesa.
- É dúvida? – Disse indiferente.
- É.
- Pode falar, então.
- Não entendi porque está fugindo tanto do meu olhar. – Disse baixinho, quase no seu ouvido.
- Perguntei se tinha dúvidas sobre a matéria – Disse quase aborrecida.
- Tá fugindo de mim, professora?
- Você está sendo inconveniente, menina! – Disse olhando para os lados, temendo que os outros alunos prestassem atenção na nossa conversa.
Percebi seu receio. Aproximei meus lábios do seu pescoço.
- Diz que não pensou em mim pelo menos um minuto – Sussurrei no seu ouvido – Me dá uma chance, Amanda. Deixa eu dizer o que estou sentindo – Disse já contaminada de desejo.
- Isso é loucura – Continuou tensa olhando para os alunos a nossa frente – Você não está sentindo nada, você é uma criança.
- Você precisa me ouvir – Insisti. Afaguei suas costas de leve com meus dedos, seus braços sob a mesa se arrepiaram. A parede atrás dela foi testemunha do meu gesto – Não sou criança, uma criança não deixaria você tão arrepiada – Sorri sarcástica.
- Sente-se na sua cadeira, Rafaela! – Disse enérgica – Espera terminar a aula, fica na sala e a gente conversa – Disse sentindo-se acuada.
- Tá bom- Passei novamente os dedos nas suas costas, logo sorri ao ver seus pêlos do braço se levantarem novamente. Amanda fuzilou-me com os olhos.
Fiquei olhando o relógio de cinco em cinco minutos.As horas custavam a passar, eu estava ansiosa, não consegui sequer copiar a matéria que foi lançada no quadro, só ficava olhando Amanda explicar... Explicar... Ela me olhava de vez em quando e ficava pensativa, nessas horas parava de falar, como se não soubesse o que estava dizendo. E eu, olhava pra ela, com os olhos suplicando por algum fio de esperança.
Enfim a aula terminou. Esperei que todos saíssem, como combinamos. Amanda estava tensa, fingia naturalidade, ajeitava os livros e as folhas soltas que estavam na sua mesa. Tentava demonstrar indiferença, evitava cruzar seu olhar no meu. Fiquei parada de frente pra ela uns cinco minutos e ela se quer dirigiu seu olhar na minha direção. Fiquei agoniada, o barulho daquela gaveta que ela puxava sem ter nada dentro, perdi as contas de quantas vezes abriu aquela mesma gaveta sem que tivesse nada pra pôr ou tirar de dentro dela... Os papéis que ela bagunçava fingindo que os arrumava, os livros que ela abria e fechava como se procurasse algo dentro deles... Isso aguçou ainda mais a minha ansiedade, nossa! Já estava sendo difícil estar ali parada diante da mulher que eu sonhei encontrar a vida inteira, só não pensava que seria tão cedo, ignorada por ela, então...
- Vamos conversar, ou não? – Disse quebrando o silêncio.
Amanda parou o que estava fazendo. Deu a volta na mesa dela, encostou-se na mesma.
- Não sei o que você pode ter pra falar comigo – Continuou gélida – A menos que queira alguma ajuda com o vestibular, algumas apostilas, quem sabe? – Disse sarcástica.
- É piada? – Disse também irônica – Sabe que meu assunto contigo é pessoal. Desde que você chegou nesse colégio...
- Pensa bem no que você vai dizer, Rafaela – Interrompeu-me.
- Ai, Amanda – Disse abraçando-a sem que ela esperasse tal atitude, apertei-a em meus braços e senti o cheiro bom que vinha dos seus cabelos – Te quero tanto – Disse bem pertinho do seu ouvido.
A professora esquivou-se sutilmente do meu abraço.
- Nunca mais faça isso de novo. – Disse reprovando a minha atitude – Quero que me respeite, está bem? – Completou.
Fiquei muda ouvindo-a falar. Ela conseguiu intimidar-me completamente com aquele semblante pesado de reprovação.
- Se você continuar com esse assédio desmedido vou ter que tomar atitudes drásticas – Retomou as falas, segura nas palavras – Vou pedir transferência deste colégio, ou vou deixar de dar aulas pra esta turma.
Continuei olhando-a sem saber como administrar as palavras dela, enquanto seu discurso se prolongava.
- Não me importo com a sua preferência sexual – Disse.
- Condição sexual – Corrigi-a.
- Que seja – Disse indiferente – Só não quero que me inclua nas suas tentativas de conquistas. Sei que é natural alunas se apaixonarem por professores, por professora no seu caso, mas, isso passa e ninguém tem que se envolver, entendeu?
- Tá subestimando meus sentimentos, Amanda?
- Sei bem o que você está sentindo e é natural na sua idade. Se me dá licença... – Pegou a bolsa e iria sair, quando segurei seu braço impedindo sua dispersão, puxei-a com áspera força, nossos lábios quase se tocaram...
- Eu te amo, Amanda – Disse – Guardei essa frase pra você – Completei.
Ela me olhou como se não tivesse entendido uma só palavra. E então eu continuei.
- Nunca disse isso pra ninguém na minha vida, porque só eu sei o que está dentro de mim, e não é você com esse seu discurso puritano que vai mudar o que eu sei que sinto – Soltei-lhe o braço, e saí da sala antes dela.

 

 

Capítulo 7: Cadê o meu amor próprio?

 

Eu queria ficar sozinha naquele momento, sempre faço isso quando tenho algum problema, ou quando estou triste, hoje, queria ficar sozinha pelos dois motivos, meu problema era amar... Minha tristeza era amar... Pensei que o amor fosse bom, mas, desde que me deparei com ele, percebo que está sendo doloroso e mortal... Deu vontade de me jogar na frente do primeiro ônibus que vi passando na rua, só não o fiz, porque fiquei pensando em como veria Amanda novamente. Engraçado, depois das suas palavras duras, seria natural sentir raiva dela, não seria? Mas, não consegui. Ela continuou na minha cabeça, endeusada pelos meus pensamentos. Seria cômico se não fosse trágico? Não...Não! Esquece essa frase, ela já está muito batida, além de que, nada cômico em se sentir o último dos seres humanos, muito menos em continuar venerando uma mulher depois dela ter dito tantas palavras duras, palavras que rasgaram meu coração, não ao meio como se diz, mas, em pedacinhos minúsculos que nem dá pra ver.
Subi no primeiro ônibus que passou na minha frente e lá estava eu indo pra praia... O sol não estava muito quente naquele dia, apenas fazia um lindo dia para caminhar na areia da praia, andar de mãos dadas com quem se ama, tomar água de côco e sentir o vento fresco bagunçar os cabelos da gente... Eu não fui lá pra fazer nada disso... Sentei-me na areia e fiquei olhando o mar, a onda vinha, molhava a areia e voltava para depois vir de novo, molhar a areia... Perdi as contas de quantas ondas contei, será que era a mesma onda que voltava sempre? Meu telefone tocou... Olhei o número, lá de casa.
- Oi, mãe – Disse inexpressiva.
- Não vai vir almoçar em casa?
- Não – Disse seca - Finalmente mamãe lembrou-se de que tem uma filha! Vai chover – Pensei.
- Sua professora ligou – Disse – Pediu seu telefone.
- Que professora?
- Amanda. Parece que você esqueceu alguma coisa na escola.
- Quando ela ligou? – Fiquei ansiosa.
- Tem uns dois minutos, ela queria saber se você já tinha chegado em casa... Você está demorando mesmo... Fiquei preocupada, filha, por isso estou ligando.
- Desde quando se preocupa comigo? Nem gosta de saber o que sinto, o que penso... – Pensei – Não se preocupe, já estou indo embora. Tchau, tchau. – Disse tentando encerrar rápido aquela conversa, tive medo de Amanda ligar e desistir por estar ocupado meu telefone.
Depois que minha mãe desligou, coloquei o celular na areia bem na minha frente... Fiquei olhando-o pedindo aos céus, a Deus, ao mar, aos Anjos... A quem quer que fosse para ele tocar. Enfim tocou. Atendi no primeiro toque.
- Alô? – Disse meio sem jeito. O número era privado.
- Rafaela? – Disse com a voz suave.
- Oi – Eu sabia que era ela.
- Bom... Liguei pra sua mãe...
- Como conseguiu meu telefone?
- Na secretaria do colégio – Disse – Eu estou ligando... porque vi você saindo da escola meio... Desnorteada – Disse hesitante – E... Como pegou um ônibus aqui na frente que não vai na direção da sua casa, fiquei preocupada, você está bem?
- Remorso agora? – Pensei – Eu tô na praia, pensando em tudo o que você me disse.
- Ei, menina! Vai pra casa, sua mãe acabou ficando preocupada com meu telefonema.
- O que eu esqueci aí?
- Nada... Sua mãe já te ligou, não é? – Disse e ela mesma respondeu – Não quis deixá-la preocupada, por isso disse que você tinha esquecido alguma coisa.
- Não sei porque você se preocupa comigo.
- Me sentiria culpada se alguma coisa te acontecesse – Disse com a voz calma – Não te quero mal, Rafaela.
- Obrigada pela sua preocupação, mas pode deixar que já sou bem grandinha, sei me cuidar – Meu tom de voz não era tão calmo – E se acha que eu estava desnorteada o bastante para fazer uma besteira, saiba que um pensamento tão infantil como esse, nem passou pela minha cabeça – Disse, lembrando-me da vontade que tive de jogar-me na frente do ônibus.
- Fico feliz em saber que você tem maturidade o suficiente para não cometer nenhuma loucura – Disse sarcástica – Tenha um ótimo final de tarde – Completou.
- Ótimo? Tenha também um ótimo final de tarde, Amanda – Usei do mesmo tom sarcástico.
Ela conseguiu me irritar com aquele telefonema, o que pensou que eu iria fazer? Me matar por causa dela? Não seria má idéia, já que isso a faria sentir-se culpada pelo resto da vida... Respirei fundo, logo acalmei-me, ficar pensando desta forma, não resolveria nada e ainda me faria lembrar mais uma vez que eu era uma pirralha apaixonada pela professora mais linda do colégio, que tem medo dos seus desejos reprimidos e por isso me deu o maior “chute” da vida... Nossa! Eu estava mesmo deprimida...Queria desaparecer, não, não! Queria ser um tatuí pra me enfiar na areia da praia e poder me esconder.

 

 

Capítulo 8: Apostilas?

 

Quarta-feira não fui à escola, estava sentindo dores de cabeça horríveis e meu estado de espírito também não era dos melhores para ver Amanda. Tinha conversado bastante com Lucas ontem a noite e entre lágrimas e desabafos, resolvi tentar esquecer de vez Amanda. Não sabia ainda por onde começar, por isso talvez aproveitei-me das dores de cabeça para faltar aula e ficar sem vê-la pelo menos um dia. Meus pais? Nem souberam que faltei aula. Só se lembram da minha existência por dois motivos: criticar minha “condição sexual” e jogar na minha cara o dinheiro que gastam comigo.
Na Quinta-feira... Primeira aula do dia era de Amanda. Entrei na sala, ela já estava sentada na sua mesa arrumando uns livros. Alguns alunos já estavam sentados, outros na porta esperando o sinal tocar... Sentei-me na última cadeira, encostada na parede, ao lado da janela que tinha vista para o jardim lá embaixo. Amanda acompanhou-me com os olhos, fingi não ter visto. Afinal de contas, ela mesma quem queria distância de mim. O sinal tocou, todos sentaram e ela colocou umas apostilas sobre a mesa dos alunos que estavam na primeira fileira, pediu que cada um tirasse uma e passasse o restante para trás.
- Matéria de vestibular, galerinha – Disse ela sorridente como sempre. Na verdade, ela sorria pra todo mundo na sala, menos pra mim. Sempre que me olhava estava séria, talvez por isso, passei a aula inteira sem perguntar-lhe qualquer coisa sobre a matéria. De qualquer forma, eu não estava prestando atenção em nada mesmo. Só ficava ouvindo ela falar, falar... Suas palavras soavam desconexas pra mim, eu não entendia nada, apenas fechava os olhos e ouvia o som gostoso que vinha da sua voz. Pela primeira vez na vida tive que “colar” de Lucas.
A aula estava quase no fim quando comecei a olhar através da janela e imaginar como teria sido bom se ela não tivesse me dado aquele “chute”. Eu estava tão apaixonada, faria qualquer coisa para ficar com aquela mulher. O gosto do seu beijo ainda queimava nos meus lábios, o cheiro dos seus cabelos teimavam em se fazer presente em minhas narinas, a maciez da sua pele... Sabe quando você não consegue nem ouvir alguém te chamar? Assim que eu estava.
- Porque não copiou a matéria? – Disse balançando o meu ombro para me tirar daquele momento de ilusão profunda.
- O que? – Disse dispersa.
- Você olhou lá pra fora a aula toda – Fitou as folhas bagunçadas do meu fichário que estavam sobre a mesa, abaixo delas a apostila que ela havia trago para nós – Nem tocou na apostila que eu trouxe.
- Não se preocupe, eu colei do Luca – Disse debochada.
O sinal tocou, todos saíram às pressas da sala. Nós continuamos alí.
- Quando um aluno meu não aprende a matéria que eu passo, me sinto uma péssima professora.
- Gosta mesmo de ensinar, não é? – Levantei-me – Então porque não começa me ensinando a te esquecer? – Disse contendo a vontade que eu estava de chorar. Não queria chorar na frente dela, não queria parecer um bebê chorão.
- Vai começar? – Disse cruzando os braços e reprovando o meu comentário.
- Droga! Eu me sentei aqui, bem longe porque você quer distância de mim! Mas...Você tinha que vir falar comigo?– Encostei-me na mesa – Não precisava ter vindo falar comigo, isso piora as coisas, porque quando eu fico muito perto de você, sinto vontade de te beijar, te abraçar, te tocar...
- Quero deixar uma coisa bem clara – Fitou-me ainda mais séria - Se fosse qualquer outro aluno que tivesse ficado indiferente a minha aula, eu teria tido essa mesma conversa, exatamente porque me preocupo com cada um de vocês. Mas, se você não sabe distinguir as coisas e acha que eu vim falar contigo pra te provocar prometo que deste momento em diante, não me aproximo de você, nem como sua professora muito menos como sua amiga – Amanda iria dispersar-se, no entanto, segurei seu braço, fazendo-a virar-se novamente para mim.
- Espera – Disse – Sei que não acredita no que eu sinto por você, mas, tá doendo muito. Não sei como agir diante de você.
- Não disse que não acreditava - Respirou fundo, logo ficou pensativa – Não quero que uma bobagem como essa atrapalhe o seu futuro, você tem um vestibular pela frente.
- Tá dizendo que o que eu sinto é bobagem? – Fitei-a indignada – Bobagem é você ficar posando de falsa moralista enquanto seu corpo clama por um contato com o meu – Aproveitei que ainda segurava no braço dela e puxei-a um pouco mais, Amanda balançou a cabeça negativamente e olhou para porta. Não tinha mesmo ninguém ali. Fingiu um olhar severo, que se desfez quando meus dedos deslizaram pelos seus cabelos e tocaram seu pescoço, puxei-a pela nuca e nossos lábios quase se tocaram. Malditas vozes no corredor. Soltei-a depressa – Você vai me enlouquecer, sabia? – Disse juntando as folhas espalhadas e colocando às pressas dentro da mochila. Saí antes que ela dissesse qualquer coisa. Logo os alunos da outra turma entraram na sala. - Barulhentos e irritantes esses adolescentes! – Pensei - Que graça! Como se eu não fosse um deles. Querer não é poder mesmo.
Fiquei na porta mais uns dez minutos sem que ela percebesse. Notei que Amanda estava tensa e isso renovou minhas esperanças.
Quando cheguei na aula de filosofia o professor já estava escrevendo algumas coisas no quadro. Pedi licença e entrei.
- Isso são horas, mocinha? – Disse ele. Não falei? Mau humorado pra variar. Essa falta de mulher iria enlouquecer esse homem.
- Desculpe professor – Disse – Tive que pegar um livro na biblioteca – Menti.
- Dá próxima vez, não vai assistir minha aula – Disse incisivo.
- Jura que não vou mesmo? Quer me fazer esse favor porque? – Pensei – Obrigada por deixar eu assistir sua aula hoje – Disse levemente debochada.
- Guarde as suas ironias para seus amiguinhos que são da sua idade.
Sentei-me ao lado de Lucas, engoli a seco aquele comentário.
- Tava onde, Rafa?
- Com Amanda.
- Com quem? Fazendo o que? – Disse ansioso.
- Cara! Não dá pra esquecer aquela mulher! – Disse encantada – Quando ela chega perto de mim eu fico irracional.
- Cê beijou ela de novo?
- Infelizmente não! – Respirei fundo – Eu não tenho que esquecê-la, Luca! Tenho que conquistá-la.
- Cê tá loca mesmo, né amiga! – Disse assustado.
- Fala igual homem, merda! – Brinquei.
- Não começa com a sua implicância, tá? – Começou a copiar a matéria que o professor estava passando no quadro – Quer insistir nessa besteira, tudo bem, mas depois não diga que eu não te avisei. Quer sofrer? Dane-se!
- Tá me saindo um pessimista de primeira, hein? – Dei um tapa de leve na cabeça dele – Copia essa matéria pra gente, cara! Eu tenho coisa melhor pra fazer, vou sonhar com o beijo que não dei.
- Cê vai é repetir de ano, isso sim – Balançou a cabeça negativamente – O vestibular, tá na porta, sabia?
Não respondi sua pergunta, estava muito consumida na lembrança dos olhos de Amanda. Aqueles olhos lindos me olhando como se não soubesse o que fazer diante da real possibilidade dos nossos lábios se tocarem. Ela sabia se defender como ninguém das suas vontades, tinha noção que suas palavras mordazes poderiam me afastar dela, mas, ela se rendia quando minhas atitudes impediam-na de se defender, e então, ela cedia ao seu desejo. Essa luta que ela travava com o seu corpo, era interessante, fascinante também, porém desnecessária, porque na minha concepção, se temos vontade de fazer alguma coisa, é só fazer e pronto, se isso não prejudica ninguém, que mal pode fazer? Amanda com certeza não pensava assim.

 

 

Continua...