Coquetel
Donna
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CAPÍTULO 40
O tempo é o dono da razão.
Fiquei por longos segundos tentando tomar censo do que estava acontecendo. Minha cabeça pesava um pouco e minha boca estava seca. Eduarda se aproximou devagar e como que não acreditando no que via quis averiguar mais de perto abrindo as cortinas que deixavam o quarto à meia luz. Eu comecei a me lembrar de alguns flashes enquanto cobria minha vista irritada do clarão do luar que agora banhava todo o quarto com sua luz prateada.
- Você... C-como você pôde!? – Disse baixo, sacudindo a cabeça de um lado pro outro.
Eu não disse nada. Afinal, o que se poderia dizer numa situação tão conflitante como essa? Fui atacada por um mutismo fora de hora.
- Eduarda...
- Cala a boca! – Ordenou, colocando o dedo nos lábios, irada.
Brenda se mexeu, mas envolta num sono muito pesado, não acordou de cara. Levantei da cama nua e tateei os lençóis, procurando minha calcinha, pra coisa não ficar mais humilhante do que já estava.
- Depois a vadia sou eu! – Bateu no peito com raiva. – Olha pra você... – Apontou pra minha nudez e meus cabelos desalinhados.
- Você não tem o direito de apontar meus erros, não fui que eu sumi por meses.
- E por isso você deita e rola com a primeira vagabunda que se oferece pra você!??
- Brenda não é nenhuma vagabunda!
Ela jogou-me o buquê de rosas, eu desviei e acabou pegando em Brenda, que com o impacto acordou assustada e quando notou Eduarda no quarto, arregalou os olhos e se cobriu cheia de pudores.
- Vocês se merecem... – Riu zombeteira.
- O que está acontecendo? – Perguntou uma Brenda confusa e ainda sonolenta.
- Tá acontecendo que você finalmente conseguiu o que queria sua piranha inglesa!
Vi uma lágrima rolar pelo seu rosto. Solitária, sentida, dolorida. Olhou-me desnorteada e podia ousar dizer que um pouco de nojo em suas expressões.
- Ela é toda sua...
Abaixou-se e pegou minha calcinha nas mãos a admirando. Sorriu amargo.
- Sua calcinha! – Jogou-me. – Era a minha preferida... em você.
Agora suas lágrimas vieram abundantes. Virou as costas e saiu em silêncio.
Eu vesti minha calcinha e desci desabalada pela escada atrás de Eduarda.
- Eduarda. Por favor, me escuta!
- Pra que? – Virou-se.
- Deixa eu explicar...
- Explicar!? – Debochou – O que? Eu vi! Não foi ninguém que me contou porque se tivessem feito isso eu não creditaria em uma única palavra do que diriam. Sabe porque!? Porque eu confiava em você! – Gritou quase histérica.
- Eu te procurei por tanto tempo... Você fugiu de mim e agora volta cheia de direitos como se nada tivesse acontecido!? Quem você pensa que é pra me acusar de ter cometido um erro se você também cometeu?
- Eu!?
- É, você! Se estivesse ao meu lado isso não teria acontecido! Mas onde você esteve por três meses, que não poderia ter se lembrado de mandar uma única notícia!?
- Você está me dizendo que transou com ela por vingança!? Tá de sacanagem comigo!?
- Eu sou humana. Não nego minha culpa e assumo de cabeça erguida, mas isso não te dá o direito de entrar em minha casa no meio da noite e me acusar de coisas que você nunca entenderia.
- Não... Não entendo mesmo e nem quero mais entender.
Aproximei-me e toquei no seu braço.
- Afaste-se de mim! Você tá cheirando a sexo. – Fez cara de nojo.
- Pensei que não se incomodasse com isso já que o cheiro de sexo fez parte da metade de sua vida e quem sabe por toda sua vida, não é mesmo!? – Alfinetei.
Eu estava com raiva também. Ela nem se deu ao trabalho de me ouvir e já me julgara uma traidora.
Ela arrancou a aliança e me lançou no rosto.
- Acho que isso é seu!
- Não faça nada do que você vai se arrepender, Eduarda.
Olhei pra aliança no chão e tive um assomo de piedade por mim mesma.
- Dê ela a sua amante. Talvez ela mereça estar na sua cama e na sua vida muito mais do que eu. Vocês são iguais... Fazem tudo pra sempre sair ganhando não importa se pra isso têm de pisar nas pessoas. Tanto faz se é um papel que vocês assinem ou um coração que despedaçam.
- Não é assim Eduarda e você sabe!
Olhei em seus olhos muito vermelhos e ficamos nos encarando durante longos segundos. Tantas coisas eram ditas no olhar sem precisar dizer. Meus olhos imploravam em silêncio pelo seu perdão, mas meu orgulho não me deixava expressar os pensamentos. Meu corpo tremeu, não sabia se de frio, por estar seminua, ou pela vergonha que estava sentindo. Abracei-me, querendo esconder não minha nudez física, mas a moral. Eu teria corrompido meu amor próprio por um desejo físico momentâneo?
- Não é ela quem eu quero. – Balbuciei de cabeça baixa.
- É ela que você terá. – Ouvi um suspiro sentido - Faça bom proveito!
Ela virou a maçaneta e quando ia abrir a porta parou abruptamente e se virou pra mim me olhando longamente dos pés a cabeça. Parecia querer deixar meu corpo e minhas expressões impressas em sua mente.
- Foi maravilhoso... Nós. Eu te amei com todo meu ser.
- Não faz isso...
- Não quero que me procure, entendeu!? Esqueça que eu existo porque eu vou fazer isso com você. – Apontou-me o dedo.
Não havia nada mais pra ser dito, apenas me resignei e me calei. Ela abriu a porta e saiu como se nunca tivesse estado ali. Sim! Agora sim, tudo parecia completamente surreal. Aquela noite. Brenda, na minha cama. Eu tê-la deixado ir, talvez pra sempre.
Não me mexi por alguns minutos. Fiquei olhando um ponto qualquer na parede ao lado da porta enquanto tentava recompor meus pensamentos em desordem. Escutei um barulho atrás de mim, mas não me virei. A voz suave de Brenda perguntou se eu estava bem. Fiz sinal que sim com a cabeça.
- Eu não sabia se podia descer, mas eu não escutei mais gritos, então...
Virei-me e olhei profundamente em seus olhos, com os meus mortificados pela angústia. Ela notou.
- Não devíamos... – Comecei.
- Eu sei, mas foi maravilhoso pra mim e apesar de tudo que aconteceu...
Fiz sinal para que ela se calasse e tentasse entender a minha dor.
- Se dissesse que foi ruim estaria sendo hipócrita, mas não é a hora pra falar sobre isso.
- Ok! Eu... Bem, se você quiser eu saio.
Parecia que naquele segundo ela tinha recobrado totalmente sua consciência e visto o que nosso ato inconsequente nos causou. Eu sentei no sofá e chorei simplesmente com as mãos na cabeça, desesperada. Era isso que eu sentia, desespero. Eu sabia perfeitamente que Eduarda nunca poderia me perdoar pelo ocorrido. E mesmo que pra mim não tivesse passado de uma tola entrega dos sentidos, pra ela, obviamente era uma traição ao seu amor. O problema era simplesmente a fidelidade? Se era, será que ela havia sido fiel a mim também todo esse tempo? Eu tremia só de pensar em outras mãos possessivas tocando aquele corpo delicado que considerava meu. Não sei em que momento Brenda saiu de perto de mim, só notei que ela tinha se ausentado quando voltou e me ofereceu um roupão pra vestir.
- Toma. Vista! Desse jeito você vai se resfriar.
- Não se preocupe comigo. Eu estou bem.
- Eu sinto muito se causei sua infelicidade... - Disse, sentando-se ao meu lado já vestida e levemente maquiada.
- Águas passadas não movem moinhos. – Falei fria, olhando fixamente o tapete. – Já passou. É tudo.
Levantei e vesti o roupão sentando-me de novo e jogando minha cabeça pra trás no encosto do sofá. Fechei os olhos e dei um longo suspiro. Senti suas mãos pequenas e suadas entrarem por dentro do meu roupão e alcançar o meu seio. Olhei-a surpresa e mais surpresa ainda quando vi que sua intenção não era me estimular. Ela agora tentava acariciar meu coração.
- É uma pena que ele não é meu... Eu teria te feito feliz, Fernanda. – Falou meu nome com a voz quase sumida.
Beijou-me os lábios suavemente, levantou e se encaminhou pra porta com passos incertos.
- Aonde vai?
- Não sou uma boa companhia para os teus pensamentos. Quisera ser tudo que você precisa nesse momento, mas nada seu me pertence e eu sinto que estaria tentando me impor a você se continuasse mais um minuto aqui.
Fiquei em silêncio.
- Devo ir. Se precisar de mim sabe onde me achar...
Fez-se um silêncio constrangido entre nós e eu sabia que ela entendia que eu não o faria.
- Me perdoe por te amar tanto...
Saiu. Agora que eu estava sozinha pude colocar meus pensamentos em ordem. Peguei o maço de cigarros ao lado na mesinha e acendi um. Novamente o mau costume. Pensei em minha vida, em Brenda e Eduarda. Abracei-me e senti um dos meus seios bastante doloridos. Afastei o roupão e fui investigar a causa. Havia manchas roxas em toda a extensão do meu seio esquerdo. Esmaguei o cigarro no cinzeiro fui até o quarto e despi-me na frente do espelho. Estavam ali, visíveis pra quem quisesse ver. Meu corpo tinha marcas de paixão por toda sua extensão.
“Meu Deus! Ela viu isso tudo em mim. Por isso a raiva ressentida que vi em seus olhos.”
Foi o pior final de noite da minha vida. Passei em claro lutando contra o sono e o cansaço mental e físico que se apoderavam de mim. Parecia que eu estava querendo me punir revivendo cada cena do que acontecera inclusive tudo o que aconteceu antes entre Brenda e mim.
Aquela noite toda havia sido uma loucura. Inclusive as duas garrafas de vinho que tínhamos esvaziado. Não culpei em absoluto a bebida. Tudo que eu havia feito foi porque quis.
Estávamos sentadas no tapete da sala, encostadas no sofá. Ríamos de uma bobeira qualquer que faláramos quando senti seus lábios macios em cima dos meus. De repente suas mãos estavam sobre todo meu corpo, que correspondia sem pensar, assaltado pelo desejo, assim como minha boca correspondia aos seus beijos famintos. Sentindo que eu correspondia ela montou em meu colo e foi arrancando minhas roupas fora. Eu havia colocado um camisão de dormir com a estampa da Minnie. Era um dos que Eduarda gostava de vestir, além de ser um mais adequado pra situação. Quando percebi, ele já estava partido em dois pelas mãos ágeis de Brenda, assim como meu shortinho de algodão. Em um segundo já estava nua embaixo dela. A vi arrancando seu próprio sutiã e levando minhas mãos até eles, me incentivando a uma carícia ousada. Senti sua boca em todos os lugares e de todas as formas, me arrancando suspiros, agora voluntários, de prazer. Me fez lembrar o primeiro dia que possui Eduarda naquele quarto de hotel barato.
Permiti que Brenda fizesse tudo que tivesse vontade comigo. Ela tinha vindo propositalmente passar sua despedida de solteiro comigo e assim seria. Eu dei o que ela quis. Ela tinha toques suaves e apaixonados. Ora selvagens, ora ternos. Dizia palavras distorcidas e tentava mostrar-me tudo o quanto sentia por mim de todas as formas possíveis. Transamos ali, no chão da sala. Inúmeras vezes eu ouvi a frase: “Eu te amo” sair de sua boca. Não poderia compartilhar os seus sentimentos, mas talvez por desencarno de consciência e prazer culpado eu cedi todo meu ser físico a ela. Resolvemos subir pro quarto e só paramos quando estávamos exaustas. Ela teve o que quis e eu, o que pensava que precisava aquela noite. Reparei seus seios subindo e descendo no seu tórax devido à respiração descompassada do gozo e lembrei-me de uma noite assim com Eduarda.
“Eduarda...”
Fechei os olhos firmemente pra me esquecer da cena humilhante em que fui pega. Arrepender-me? Já era tarde pra isso.
“Foi bom. Brenda é uma mulher maravilhosa. Porque devo me sentir culpada, se Eduarda me abandonou e depois voltou como se tivesse me deixado ontem!?”
Naquele ano, diferentemente dos outros, não passei em Petrópolis e nem em companhia de Eduarda. Depois de dois meses tentando conseguir seu perdão, finalmente eu havia desistido. Ela me evitava e me rechaçava toda vez que eu a procurava nos portões da UERJ. Era o único lugar que eu conseguia achá-la, quando ela não percebia minha presença e dava um jeito de passar despercebida por mim, ajudada por algum amigo.
Brenda se casou finalmente e foi passar a lua de mel em Paris. Não sem antes me pedir um beijo de despedida. Suas palavras tinha sido de nunca mais. Dei-lhe. Foi um casamento simples apesar de o noivo ser abastado, mas ela nunca foi de ostentação, mesmo quando tinha todo direito a isso. Apesar de todos os nossos tropeços eu adorava Brenda e desejava vê-la feliz, de verdade, como eu nunca pude fazê-la.
Meu primeiro natal sem Eduarda depois que nos assumirmos decidi passar na casa dos meus pais, pra tentar não ficar deprimida. Nicole foi motivo de plena felicidade pros avós, já que nunca tinham tido tanto tempo pra passar com ela. Eu estava tentando fingir que estava feliz. Dona Virgínia notou minha tristeza na ceia de natal e me chamou a um canto.
- Filha... O que está acontecendo com você?
- Como assim mãe? – Tentei aparentar casualidade enquanto pegava uma garrafa de vinho da pequena adega na cozinha.
- Há algo de errado com você. Eu sinto!
- Impressão sua.
- Não tente me fazer de boba, Fernanda Villar Schmidt! Você não me engana!
Fiquei séria.
- Já disse: é impressão sua. – Redargui tentando abrir a garrafa.
- Onde está Eduarda que não veio com você? E se não pôde vir, porque a deixou sozinha no natal?
- Estudando muito.
- Você é péssima pra mentir.
- Mãe!!?
- Fernanda!!
- Não aconteceu nada, tá!? Tá tudo bem.
- Não quero pensar que você é uma covarde. Vamos, fale logo!
Dei um suspiro longo e resumi a estória em pormenores mais importantes.
- Você acha certo o que fez?
- Por favor, dona Virgínia! Já tem muita gente me apontando o dedo acusador. A senhora também não!
- Eu não sou todo mundo. Sou sua mãe e tenho todo direito de falar o que penso sim! Se você fosse homem eu até entenderia suas aventuras, por pensar com a cabeça de baixo. Mas você Fernanda... Logo você que é uma mulher tão inteligente e culta!?
- Não foi apenas culpa minha. Aconteceu!
- A mesma desculpa que um covarde dá quando sabe que cometeu um pecado mortal.
- A senhora está me ofendendo!
- Não! Estou defendendo a moral de minha filha, já que ela própria não faz isso. Você veio aqui, nos apresentou essa moça como sua namorada e depois noivou com ela. Não é assim que vocês dizem? Seu pai passou por cima de todo o passado dessa moça e do próprio preconceito dele perante a situação e agora você vem aqui e me diz, como se não fosse nada demais, que já não estão mais juntas por um motivo completamente besta!?
- Mãe!
- Eu não vejo onde essa moça pode ter culpa nisso, se você é quem não sabe domar seus instintos. Temos que medir as consequências dos nossos atos pra não pagarmos um preço muito elevado pelos nossos erros.
- A senhora não entende, não é mesmo!? Ninguém pode entender...
Larguei a garrafa de vinho aberta em cima da pia e saí pra varanda, pra fumar. Ultimamente andava com a uma carteira de cigarros na bolsa. Não queria discutir com minha mãe coisas que nem eu mesma conseguia entender de mim. Confusa, eu? Quem não é!? O fato é que tive de dar o braço a torcer. Ela estava certa no final das contas. Como que lendo meus pensamentos senti os braços mornos da velha D. Virgínia a me envolver ternamente.
- Me desculpe, eu não devia... Fui ríspida e...
- Mãe. Tá tudo bem. A senhora tem razão. Sempre tem razão. – Abracei-a. – Só que sua filha está perdida e não sabe mais como agir nessa situação.
- Pois vá e fale com ela, filha.
- Ela não quer me ver.
- Tente de novo e de novo e de novo se for necessário.
Ela acariciou meu rosto.
- Você sabe que tudo que você conseguiu na sua vida foi com muito esforço. Isso não seria diferente, não concorda!?
- Eu não sei como agir. Já fiz o possível e o impossível pra ela me ouvir...
- Ainda não fez tudo. Escute o seu coração. Ele comandará os seus atos e independente do quanto você possa ter errado, se a pessoa que você ama perceber sinceridade em você, mais cedo ou mais tarde ela a perdoará.
- Você acha?
- Claro que sim! Volte pro Rio e reconquiste-a. – Ensaiou um soquinho em meu queixo. – Traga minha nora de volta.
- Fico feliz que a senhora aceite numa boa a nossa relação.
- O que eu e seu pai poderíamos fazer, hein? Não é certo que os pais pensem na felicidade dos seus filhos, esteja onde estiver!?
- É... Acho que sim.
- Nunca mais quero ver aqueles olhos de sofrimento da primeira vez que você chorou por essa moça e não admito que você chore de novo pelo mesmo motivo. Está me entendendo? – Fingiu estar zangada.
Fiz que sim com a cabeça, enquanto meus olhos ensaiavam lágrimas de emoção.
- Um Schmidt nunca desiste do que quer. Ela é sua! Vá buscá-la.
- Obrigada, mãe!
O resto do natal foi o esperado. Apesar de sermos somente nós quatro, trocamos presentes e fizemos o que toda família feliz faz. Papai me olhava analítico, mas bastante discreto não fazia comentário nenhum a respeito de meu olhar muitas vezes distante e triste. Sua saúde também andava um pouco abalada e por conta disso passei o réveillon e mais 15 dias de janeiro com eles. Papai ficava longas horas falando sobre seu trabalho. Sentava Nicole em seu colo e tentava explicar algo sobre leis pra ela, o que pra minha surpresa, ela ouvia atentamente.
- Essa minha neta será advogada quando crescer. Eu vejo isso!
- Pai. Não exagera.
- Ela tem o sangue dos Schmidt nas veias, esqueceu!? Terá a astúcia da mãe para os negócios e a inteligência do avô para as leis. – Disse em tom sonhador.
- Isso foi um elogio meu pai?
- Você sabe que eu sempre te admirei, minha filha. Não foi a toa que emprestei o dinheiro para que você começasse seu negócio. Eu acreditei em você do mesmo jeito que você tinha confiança em si mesma. Tudo que você toca vira ouro. Você é boa no que faz e uma profissional muito competente. Sente cheiro de dinheiro ao longe. – Fez sinal de rastro. - Ótimo faro pra bons negócios. Não poderia ser diferente do que é.
- Eu não teria conseguido sem a ajuda da Brenda e agora, do João Carlos.
- E eles não teriam conseguido sem o seu arrojo, a sua ousadia pra começar do zero.
- Hi, mamãe tá podendo.
- É, minha neta. Sua mãe vale ouro!
- Obrigada.
Meu pai nunca havia me elogiado daquela forma. Eu sempre pensei que tudo que eu fazia lhe desagradava. Que minha independência completa da família, tanto financeiramente quanto emocionalmente, representasse um desaforo pra ele. Quando eu não quis fazer direito e optei por administração, eu tive essa certeza. Mas agora, tudo havia mudado. Ambos havíamos amadurecido e aprendido a respeitar os espaços um do outro.
Voltei ao Rio e como prometido a D. Virgínia, procurei Eduarda na primeira oportunidade que tive. Pra minha surpresa, encontrei-a no apartamento do Estácio e dessa vez ela me recebeu com ar sério.
- Atrapalho? – Perguntei meio receosa.
- Não. Tava terminando de fazer uns exercícios. Entre.
Reparei que ela estava com um shortinho curto de ginástica e um pequeno bustiê que deixava ter ampla visão da divisão dos seus seios. Involuntariamente senti meu sexo pulsar.
“Não! Não é hora pra isso! Que papelão dona Fernanda!”
Ela tomou um longo gole de água da sua garrafinha e abaixou-se pra recolher os apetrechos de ginástica que utilizava.
- Pelo visto você montou uma academia em casa. – Falei pra quebrar o gelo.
- É. Meu tempo é curto e eu não posso frequentar uma academia. É apenas o básico: uma ergométrica, um aparelho abdominal, uns pesinhos e uma corda de pular.
- Vejo.
- “Mens sana in corpore sano.”
Sorri sem graça, não sabendo como começar a conversa. Ela começou por mim.
- Não veio aqui apenas pra me ver malhar, não é?
- Não. Temos uma conversa pendente.
- Temos?
- Maria Eduarda...
Seu ar de deboche sumiu do seu rosto. Era a primeira vez que eu a chamava assim.
- Vim te pedir perdão.
- Por quê?
- Porque eu a feri. Porque eu não a respeitei. Porque eu não soube expressar de forma correta e clara todo amor que eu sentia por você. Fiz tudo de forma confusa e errada.
- Sentia?
- O que? – Me confundi.
- Você disse que sentia. Não sente mais?
- Você sabe que sim... – Olhei-a com ternura.
- Eu não sei mais nada de você, de nós.
- O que quer dizer?
- Olha, eu acho que a nossa conversa vai ser um pouco longa e eu gostaria de tomar um banho antes. Você pode me dar licença?
“Excesso de formalidade.”
- Claro.
“Se bem que a prefiro assim, quase sem roupa. Ah! Eduarda! Como sinto falta de tocá-la.”
Ela percebeu meu olhar em seu corpo e um constrangimento pairou no ar.
- Já volto.
Dez minutos depois ela voltava com os cabelos molhados, um camisetão e um short largo. Mesmo querendo esconder, sua sensualidade ainda transparecia. Era dela. Estava no seu ser. O cheiro de sabonete recente invadiu a sala no momento que ela entrou e me inebriou os sentidos. Sem notar inspirei alto. Ela me olhou, arqueando a sobrancelha em atitude de enfado e sentou-se no pequeno sofá me indicando a cadeira a sua frente.
- Não tenho muito tempo. Tenho que almoçar pra ir pra faculdade. Tenho laboratório daqui a 1 hora.
- Tudo bem.
- Então?
- Estava pedindo seu perdão e queria saber se posso ser perdoada.
- Pode. Te perdoo. – Falou rápida e rasteira.
Inclinei minha cabeça de lado analisando seu rosto, surpresa, e tentando entender se escutei mesmo o que tinha ouvido.
- Então, você me perdoa? É isso mesmo?
- É isso mesmo. –Repetiu.
Sem pensar joguei-me aos seus pés e agarrei suas mãos, beijando-as. Abracei-a e quando segurei seu rosto com as duas mãos e tentei beijá-la ela me repeliu veementemente. Caí pra trás com o empurrão que recebi e fiquei ali no chão sem saber o que pensar e nem o que fazer.
- Te perdoo sim, a partir do momento que não temos mais nada íntimo, uma com a outra. Você não representa mais nada pra mim Fernanda.
- Não. Você só pode estar brincando comigo, não é?
Ela ficou em silêncio.
- Não é???
- Não te amo mais.
- Mentira!!!!
Levantei-me exaltada e agarrei-a pelos braços.
- Acabou Fernanda! – Soltou-se com um puxão. – Você matou todo amor que sentia por você naquele dia, naquela cama que antes eu e você tínhamos feito amor várias e várias vezes. Você não me respeitou e sempre me tratou como se eu fosse sua vagabunda. Como se eu fosse um corpo descartável, que quando você enjoa procura outro pra se satisfazer.
- Não é verdade!!! Você tá falando bobagens.
- Aquilo que vi não foi uma bobagem pra mim.
- Mas foi uma bobagem pra mim. Um ato inconsequente de desespero.
- Pior ainda. Você só prova que não respeita ninguém. Me usou tanto quanto a usou pra satisfazer os seus caprichos. Depois, descarta como lixo imprestável. Como um estorvo.
- Eu não precisei forçar ninguém a ficar comigo, até hoje. Ela foi me procurar.
- É outra coitada que te ama e faz de tudo pra você nota-la. Eu, sinceramente, não tenho raiva dela. Ela me dá pena. Porque, como eu, caiu em sua lábia, em seus encantos e se deu mal.
- Você não é nenhuma inocente.
- Não sou mesmo! Mas acreditei piamente que você me amava de verdade. E que seu coração era só meu como o meu era seu.
- Até parece que você me foi fiel esse tempo todo. Pensa que eu não sei o que você andou aprontando logo que saiu da cadeia? Pensa que eu não sei que você voltou a se vender e a usar drogas?
Ela calou-se.
- Como vê, não há nenhuma santa aqui, minha querida. Não há também nenhuma heroína. Ambas somos farinha do mesmo saco, não é!? Podres! Ambas usamos e fomos usadas. – Eu salivava enquanto quase gritava as palavras pra ela. - Você fica arrotando sua empáfia de boa moça agora, mas como você mesma me disse uma vez, você não é melhor do que eu.
Fez-se um silêncio incômodo como se estivéssemos digerindo cada palavra que havíamos falado uma pra outra. Só o som das nossas respirações ofegantes pairava no ar acima do peso daquele momento.
- Terminou? – Ela perguntou, querendo talvez que acabasse logo a tortura.
- Não temos mais nada a dizer, não é?
- Não. – Ela baixou a cabeça.
- Isso é tudo?
Ela não respondeu com palavras. Apenas fez um sinal de positivo com a cabeça. Talvez não tivesse falado porque sua voz deveria estar tão embargada quanto a minha.
- Ok! Eu já entendi.
Peguei minha bolsa de cima do sofá e passei por ela, parando um segundo pra olhá-la de perto.
- Não precisava ter terminado desse jeito. Obrigada pelo seu tempo e boa sorte!
Bati a porta e já na calçada destravei o carro e me joguei em seu banco como um sedento no deserto. Eu queria fugir de tudo. Fugir de mim, de Eduarda, da minha porcaria de vida confusa. Encostei a cabeça no volante tentando pensar no que fazer e me assustei com o barulho do telefone. Era uma ligação do João Carlos. Desliguei o celular. Não queria ser incomodada por ninguém. Liguei o carro e rodei por vários bairros, a esmo. Parei num quiosque no Leblon e sentei na areia pra tomar água de coco. O mar me acalmou. Chorei. Minha vida ultimamente era um dramalhão mexicano. Isso tinha que mudar. Levantei e limpei a areia da calça. Eu tinha prometido a mim mesma que iria deixar tudo que me fez sofrer pra trás. Iria recomeçar novamente. Sem sentimentalismos. Eu era uma Schmidt afinal.
Continua...