A vinha e o girassol

Niña

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Introdução:

 

Iara, ainda criança, foi deixada à própria sorte em um orfanato.  Foi naquele lugar triste que criou os valores afetivos e morais que carregou para a vida adulta.  Aprendeu a usar de seus dotes físicos para atrair pessoas, dinheiro e o mundo que imaginava ser o ideal de felicidade.  Até que o destino a leva para o interior da Itália onde encontra alguém que irá fazer tudo o que acreditava ser importante na vida, se diluir como chuva entre as vinhas e os campos de girassóis da Toscana.

 

***

 

Capítulo I

IARA

 

- Mas eu não entendo por que!  Você não gostou?! Eu fiz tudo pra te agradar!

Falava a bela moça loira, desolada...

- Aí é que está o problema, meu bem! Deixa eu te falar uma coisa... você não tinha que me agradar, mas agradar ao "Paizinho"! Eu avisei que você estava muito focada em mim.  Nas duas últimas vezes então, você praticamente deixou o homem de lado e ficou toda só em mim!  Aí não dá né?! É muita bandeira! Claro que ele não gostou!  E como não gosta de fazer a parte chata do negócio, sobra pra mim ter que te dispensar! Um saco isso!

A morena dizia tudo numa entonação cadenciada e tinha uma expressão de enfado, típica de quando tratamos de assuntos menores e sem importância.  A loira tentava ainda argumentar...

- Eu não deixei ele de lado! Só que quando via o seu jeito provocante, o modo como tirava a roupa, suas caras de prazer, seus beijos, seu jeito de gozar... Ah, eu fiquei louca mesmo! Você tira qualquer um do sério! Como eu poderia desviar minha atenção de uma Deusa como você e ficar fazendo charminho pra aquele velho babão?!  Você fazendo amor é a coisa mais deliciosa que...

Antes que a moça loira terminasse seu discurso, foi interrompida pela morena, que já se preparava para ir embora, demonstrando claramente que a conversa já tinha chegado ao seu final, a voz já continha certa impaciência...

- Peraí, menina! Você confundiu tudo mesmo!  Aquilo ali é trabalho! Eu nunca fiz amor com "Micheteira"! Eu sou como uma atriz que interpreta o papel que o "Paizinho" quiser e sou bem recompensada por isso!  Você não é nenhuma ingênua, também já está nessa há algum tempo, deveria saber como essas coisas funcionam! Agora não tenho mais o que fazer por você.  Trabalhou mal, foi dispensada! Não me culpe porque não sou eu quem paga seu cachê!  Só tô fazendo o que ele me pediu, então, por favor, me poupe das suas historinhas, cansei!

E levantando-se da mesa em que estavam, no bar de um famoso hotel da orla do Rio de Janeiro, colocou um envelope na frente da loira e completou...

- Eu até que gostei das nossas brincadeirinhas... você é muito gostosa! Mas como disse antes, não é do meu bolso que sai a sua recompensa.  Ele me mandou te dar esse "agradinho" pra te dizer que foi bom enquanto durou, nos divertimos muito!  Ah, e não se preocupe, a conta já está paga! Até mais...
- Mas Iara...

A morena já não ouvia mais nada.  Saiu do bar, acenando de costas, sem dar chances da moça loira argumentar ou tentar segui-la.

Iara... esse é o nome da heroína da nossa estória... aliás, anti-heroína!

A começar pelo seu nascimento, Iara não tem os encantos e qualidades próprias das mocinhas que protagonizam aventuras da ficção.  Ela foi produto de uma "suruba"!  Quer coisa mais patética que ser fruto de uma "surubada" entre hippies do final dos anos 70?!  Daí deduz-se que ela jamais soube quem de fato era seu pai! Entre os oito participantes do sexo masculino da tal "festinha", a mãe de Iara só descartava um, por ser japonês!

Seguindo a máxima da cultura hippie, Soninha era praticante do Amor Livre, e dessa maneira ela concebeu sua única filha!  Quando sentiu que o parto estava próximo, foi abrigar-se numa casa comunitária lá em Lumiar (RJ), onde vários parceiros de filosofia de vida curtiam seus momentos de "Paz, Amor e Rock n' Roll"!  Queria que o nome dela fosse algo relacionado à natureza.  Pensou em Amora, Flora, Aurora Boreal, mas aí, uma colega que a ajudou no parto de cócoras, perguntou:

- Porque não coloca um nome indígena? Quer coisa mais ligada à natureza que índio?!

E então, ela lembrou-se de um dia ter ouvido da mãe uma lenda indígena, na qual uma Sereia-Índia, de nome Iara, seduzia e levava para o fundo das águas os guerreiros mais belos da tribo!  Sempre achou esquisito aquele negócio de Sereia-Índia, mas quando pegou no colo aquela linda moreninha de cabelos escuros e enormes olhos negros, não teve dúvidas... Iara seria seu nome!

O pai do qual nossa protagonista se lembra, era outro hippie, de cabelo armado e barba rala, que anos mais tarde se juntou à sua mãe para viajar pelos interiores do Brasil, vendendo artesanato e queimando uma "graminha" nos "pipes" que faziam de durepoxi.

Até os oito anos, foi essa vida nômade que nossa menina conheceu! Nunca teve uma casa, um quarto ou uma cama comum, na qual pudesse descansar seu pequeno corpo. Dormiam acampados em barracas ou até mesmo dentro do fusca 69 que sua mãe conseguiu comprar, após ter vendido, além do artesanato, umas ervinhas secas, durante uma grande feira agropecuária no interior de Minas.

No meado dos anos 80, aquela estranha doença, conhecida como a peste do século, pega de jeito a doce Soninha, amante do amor livre. Ela adoece e em menos de um ano uma pneumonia a leva, deixando a pequena Iara aos cuidados da avó pouco paciente.  A vida era difícil pra pobre senhora, que resmungava ter que dividir seu pouco com aquele inconveniente estorvo que sua filha tinha lhe deixado como legado.  Mas o destino parecia querer que Iara fosse só e menos de dois anos depois, levou a avó que tanto reclamava sua sorte, abalroada por uma Kombi de feira com os freios mal conservados.

Nossa pequena é, então, encaminhada a uma instituição para menores órfãos, onde tem contato, pela primeira vez, com as letras que não conseguia decifrar.  Somente aos 10 anos Iara começa a aprender a ler!

O mundo então começa a se desvendar diante dos enormes e curiosos olhos negros de Iara, primeiro através dos livros infantis que conseguia na biblioteca do abrigo, depois pelos livros que a transportavam a mundos inimagináveis até então, e que um dia sonhava conhecer!  Nossa pequena órfã não consegue adoção, estava numa idade que não interessava aos casais, eles sempre preferem os menores de um ano de idade. Mas, por incrível que pareça, não era com uma família que Iara sonhava! Não fazia parte de seus devaneios a estrutura que jamais conhecera, queria sim, era conquistar o mundo!  Ser capaz de ter os bens materiais com os quais sonhava, visitar todos os recantos do mundo que tivesse vontade e poder conquistar qualquer pessoa que lhe chamasse a atenção de algum modo!

O sonho de Iara era TER, era POSSUIR, era CONQUISTAR tudo e a todos que tivesse vontade, não importando o que teria que fazer pra alcançar suas aspirações!

Bem jovenzinha ainda, Iara pôde perceber que uma grande aliada aos seus objetivos de conquistar o mundo era sua rara beleza.  Aos 13 anos já se destacava dentre as demais meninas pelo seu porte esguio e altivo. Era mais alta que a média das outras meninas, tinha os cabelos lisos, volumosos e longos, extremamente negros.  A pele era morena num tom caramelo claro e tão suave ao toque, que dava medo machucá-la num aperto menos delicado.  O nariz afilado e reto era um pouco maior do que ela gostaria que fosse, mas dava uma harmonia perfeita àquele rosto de lábios cheios com cor de carne crua.  O que mais chamava atenção em Iara era sem dúvida o seu olhar! Olhos grandes, como dois ônix brilhantes, moldurados por cílios espessos e longos e sobrancelhas levemente arqueadas e desenhadas para desafiar!  Era o olhar da provocação constante, da altivez, da falta de humildade congênita, algo tão raro de se encontrar entre pessoas que viviam nas condições daquela menina.

Nem era preciso dizer que, com isso, nossa protagonista tinha atrás de si, um séquito de pequenas fãs ansiosas por ser como ela, por copiar seu estilo, seu jeito arrogante, sua segurança nata!  Para algumas, Iara dava a graça de sua atenção vez ou outra, para outras apenas o ar de superioridade de quem realmente se achava melhor, e ainda havia aquelas que eram simplesmente ignoradas por Iara nem ao menos notar a existência! Porém, não eram apenas as pequenas fãs que a seguiam e admiravam.

Quando a puberdade chegou, Iara começou a notar olhares nada inocentes de algumas meninas da instituição, especialmente as mais velhas e de algumas monitoras também.  Aos poucos, foi aprendendo a usar de seus dotes naturais para conseguir as coisas que tinha vontade... fosse um livro, uma roupa nova, uma maquiagem, um perfume, uma comida especial.  O contato com as meninas mais velhas e mais experientes lhe deu ainda a malícia necessária pra aprender a "jogar"!  O famoso "jogo" da sedução e da conquista!

Mas Iara era extremamente seletiva, sabia a quem provocar e por quem se deixar conquistar.  Foram poucas e muito bem selecionadas as suas "eleitas".  Aos 13 anos, a primeira mulher a lhe ensinar os prazeres do sexo, uma bela mulata de 16 anos que caiu de amores por Iara... Alice!  A jovem havia ido pro orfanato naquele mesmo ano, após ter toda a família exterminada por um grupo de traficantes na comunidade onde morava.  O juiz de menores havia dito que ela podia estudar na instituição e conseguir um emprego depois que saísse de lá aos 18 anos.  Alice achou que seria melhor que morar de favor com algum vizinho, e foi pro abrigo.

No dia em que chegou e pôs os olhos em Iara, nada mais existia no mundo pra ela.  Já havia tido sexo com vários meninos, desde os 12 anos, mas nada se comparava a ter aquele corpo, os olhos de poço sem fim, a boca doce que ansiava em aprender.  Começaram com uma amizade, onde a curiosa Iara sempre perguntava sobre como era transar e, um dia, o inevitável acontece, Alice resolve mostrar como as coisas eram na real!  Só não contava com o fato de ser Iara alguém tão volúvel.  Pensou que aquela pequena diaba morena gostasse dela de verdade, mas que nada!  Iara era pura curiosidade e aprendizado!  Queria descobrir como conquistar sempre, sem se importar com sentimentos que a desviassem do seu objetivo.  Partiu o coração de Alice no dia em que começou a flertar com uma monitora, que lhe daria muito mais experiência e regalias!

E assim foram os anos para Iara naquele abrigo para menores sem família.  Mudava de amante sempre que vislumbrava uma possibilidade melhor adiante. Sentimentos de paixão juvenil não conhecia, sabia sim do que desejava.  Fosse tesão por um corpo ou um bem material, sempre conseguia o que e quem cobiçava, e isso lhe dava a confiança e a certeza de que assim seria sempre.

Iara possuía três coisas que aliadas lhe davam uma vantagem anormal sobre os demais: Beleza, Malícia e a Inteligência necessária para saber usar as duas primeiras ao seu favor e benefício exclusivos!

Uma coisa incomodava muito nossa ambiciosa Iara, seu atraso nos estudos!  Percebeu logo que se não tivesse muito estudo, não conseguiria passar da mediocridade e não poderia ir muito além nos seus planos. Queria aprender a falar outros idiomas, entender sobre vários assuntos diferentes pra sempre se sair bem nas conversas interessantes, poder ser admirada não apenas por ser bela, mas por ter conhecimento, saber o que dizer na hora certa.  Isso sim daria a ela o poder para ter qualquer coisa que quisesse no mundo: a beleza e o saber juntos!

Mas a instituição só oferecia o estudo básico fundamental e um curso profissionalizante em áreas que pouco a interessavam.  Iara só terminaria o ensino fundamental aos 18 anos, quando então deveria sair do abrigo e não via a menor possibilidade de arrumar um trabalho com esses parcos conhecimentos.   Sabia que a chance de começar a realizar seus sonhos viria através de seus outros dotes que não a Educação e, com isso em mente, partiu para sua primeira grande conquista: alguém que a ajudasse a concretizar seus planos futuros!

A grande chance surgiu quando, três meses antes de completar 18 anos e ter que sair do Orfanato, Iara se vê diante daquele que a faria dar o primeiro passo em direção a sua escalada para o topo.

A Instituição havia conseguido um novo Benemérito que patrocinava parte das despesas do abrigo, juntamente com o Governo Estadual.  Era um grande empresário que passou também a dedicar parte de seu tempo livre na coordenação dos trabalhos do Orfanato.  Antonio Carlos Assis era um empresário bem sucedido na área da construção civil.  Fez fortuna nos 30 anos em que se dedicou ao seu trabalho e a sua família, mas infelizmente um acidente havia levado um de seus filhos, o caçula, e decidiu então a se dedicar aos menos afortunados. Sua tragédia pessoal o deixou com um enorme sentimento de culpa por ter muito dinheiro, incrementando o pensamento médio-cristão de que rico é sempre castigado. Isso o fez virar um filantropo da noite para o dia e contribuir pra alguma instituição de amparo a menores, onde ainda pudesse doar um pouco do seu tempo livre.  Tinha ainda mais três filhos já adultos e uma mulher dedicada e boa com quem estava casado há 28 anos. No entanto, achou que aquele trabalho o faria redimir-se um pouco diante do mundo e de Deus por ter dinheiro.

O orfanato era um enorme casarão em estilo vitoriano, cedido pelo governo do Estado do Rio de Janeiro que, no entanto, não disponibilizava recursos financeiros para a manutenção do mesmo.  Essa parte ficava ao encargo dos Patronos e dos voluntários que ajudavam a Instituição na arrecadação de recursos e no trabalho diário.  Abrigava mais de duzentos menores, sendo praticamente meio a meio o número de meninos e meninas. Eles ficavam em partes completamente separadas e só tinham contato nas salas de aula, que eram mistas, e nas diversas festas ao longo do ano que a coordenação promovia para os internos, funcionários e voluntários.  No resto do dia e nas atividades de fim de semana, a direção achava por bem manter meninos e meninas separados, principalmente os adolescentes, pra evitar contato íntimo, que acabaria por ser inevitável. Mas óbvio que essas medidas nunca foram impedimento para que alguns namoros surgissem entre os internos.

Porém Iara nunca havia se interessado por nenhum dos meninos que dirigiam olhares compridos em sua direção. Com quase 18 anos completos, Iara já se considerava experiente sexualmente, mas somente com mulheres!  Tinha que começar a mudar essa situação e diversificar suas habilidades no campo da sedução. Apesar de saber que eram as meninas que faziam seu corpo esquentar e molhar, sabia também que teria que aprender como seduzir e usar das mesmas armas com os homens, pois tinha a certeza que seriam eles o seu passaporte para o mundo!

O novo grande Benemérito do Orfanato, Sr. Antonio Carlos Assis, seria apresentado aos internos numa festa no dia 12 de outubro, quando seria comemorado também o dia de Nossa Senhora Aparecida, santa padroeira e que dava nome àquela Instituição. Iara havia conseguido ganhar de presente, de uma monitora amante sua, um belo vestido na cor cereja que se moldava com perfeição àquelas curvas desenhadas para embriagar.  Ajustado como um corpete em cima, tinha uma saia solta e leve pouco acima dos joelhos, que parecia dançar a cada passo que dava, o decote abusado fazia quase saltar os seios fartos que levavam os meninos ao delírio!

Quando chegou ao pátio central onde a festa já tinha se iniciado, não houve um só olhar que deixou de mover-se em sua direção e naquela figura estagnar por pelo menos meio minuto!  Alguns demoraram bem mais, outros não conseguiram mais visualizar nada naquele dia, além de Iara!  E um deles foi o novo Benemérito!

Iara percebeu o modo como o Sr. Antonio Carlos a fitava insistentemente, mas desviava o olhar quando era flagrado nesse deslize.  Ela notou que o desconcertava cada vez que retribuía seus olhares juntamente com um sorriso malicioso.  O nobre Senhor estava realmente encantado pela nossa personagem, mas tinha vergonha de estar sentindo aquilo!  Era bem casado, sua esposa estava ao seu lado e passaria a dedicar alguns dias da sua semana àquele lugar!  Não podia ficar flertando com uma interna da instituição que iria coordenar!  Além disso, era uma criança!

Iara estava concentrada enredando sua teia, quando foi abalroada por um ser saltitante e afogueado que se pendurou em seu braço e começou a falar de modo afetado:

- Bibaaaa, tu não perde tempo, hein?! Já tá dando mole pro coroa que vai patrocinar nossos lanchinhos!  Resolveu mudar de ramo agora é?! Nunca te vi dando mole pra homem, ainda mais dessa idade! Cruzes, ele pode ser seu avô sabia?!
- Sai pra lá, bicha! Tá querendo queimar meu filme se pendurando que nem um mico aí no meu braço?! Tô dando mole pro coroa sim e "ai" de você se me atrapalhar!  Ele pode ser a chave para minha próxima casa, só que dessa vez não vou precisar dividir meu quarto com mais nove meninas... um lugar só meu! Agora desinfeta daqui antes que ele ache que alguém com a minha classe tem amizade com uma bichinha feia que nem tu... sai fora!

E foi empurrando o amigo pra longe, caminhando em direção à mesa de comidas para se servir, não sem antes dirigir outro olhar cheio de sedução para o Sr. Antonio Carlos.

O rapaz olhou para a cena e balançou a cabeça com pena do pobre Senhor.  Ele não teria a menor chance de resistir a Iara!

O rapaz em questão conhecia melhor que qualquer outra pessoa a protagonista da nossa história, era seu melhor amigo! Olhando de longe para a amiga, lembrou-se perfeitamente do dia em que chegou àquele abrigo, vindo de outro orfanato que havia sido fechado por falta de recursos.  Tinha apenas 11 anos, era negro num tom de pele chocolate, tão magro que mais parecia um fiapo, ou melhor, um palito de fósforo, pois foi esse apelido que ganhou dos outros meninos, no primeiro dia que chegou!  E eles tinham razão, com a cabeça sempre raspada por máquina zero e pernas tão finas que pareciam que iriam se partir a qualquer momento era mesmo o próprio fósforo... e na boca da molecada passou a ser tratado como "fósfro".

Era muito tímido e triste e já com aquela idade, tinha trejeitos difíceis de camuflar, por mais que tentasse... e como ele tentava! Pra piorar, tinha um nome bem peculiar e isso o tornou o alvo principal dos garotos do abrigo. Adoravam implicar com ele e chamá-lo por adjetivos nada elogiosos, os mais simpáticos eram "bichinha", "franga" e "vela de macumba".  Era da mesma sala que Iara, e apesar de estar atrasado nos estudos, ela ainda estava mais que ele, pois era dois anos mais velha!

Durante os primeiros meses, ela nem sequer olhava na direção dele.  Chegou a pensar que Iara nunca o tivesse notado, quando então, num dia qualquer, estava no pátio na hora do intervalo das aulas e vários meninos caçoavam dele.  Fizeram um circulo e começaram a empurrá-lo de um para o outro como se ele fosse um boneco "João bobo".  Num dado momento, perdeu o equilíbrio e caiu no chão ralando os joelhos.  Foi quando sentiu, pela primeira vez na vida, dois braços a envolvê-lo num abraço protetor, enlaçando-o e ao mesmo tempo fazendo com que se levantasse.  Estava ainda de cabeça baixa, chorando, quando ouviu a voz de Iara gritando com os meninos:

- Seus idiotas! Porque não vão fazer de bola o Jorjão que tem o tamanho de um gorila?!  Pois escutem bem, se vocês implicarem com esse menino outra vez, vai ser com o Jorjão que vocês vão ter que prestar contas!  Vou pedir que ele proteja meu amigo aqui, ouviram bem?! Experimentem só!

E levou o pequeno menino com os joelhos sangrando para a enfermaria do orfanato. Ele nem acreditava que a menina mais bonita do orfanato, que todo mundo respeitava e queria ser amigo, estava ali do lado dele, segurando sua mão, enquanto a enfermeira fazia os curativos.  Quando terminou, Iara passou um dos braços por sobre os ombros do menino e falou:

- Eu não acredito que vá acontecer de novo, mas se por acaso algum daqueles imbecis implicar com você outra vez, é só me avisar... eu chamo o Jorjão na hora e não tem nada que ele me negue.

O menino a olhava agradecido e ainda sem acreditar direito que ela se preocupava com ele.  Ela sorriu pra ele e continuou:

- Jordi... vai ser assim que vão te chamar à partir de agora! Afinal Jordielson não é nome, meu filho... é um xingamento! Jordi soa como um nome Francês... chique né?!  Mas quem foi que botou essa desgraça de nome em você, Jordi?
- Não sei!  Fui pro orfanato com menos de um ano... dizem que foi meu pai que me levou... as freiras do outro orfanato disseram que minha mãe morreu e meu pai não tinha como cuidar de mim... nunca mais apareceu!

Iara olhou para aquele menino que mais parecia um palitinho mesmo de tão frágil e naquele momento se identificou com ele nos mesmos sentimentos de solidão e desamparo que de vez em quando sentia, mas que jamais confessaria a ninguém!  E a partir dessa data, nunca mais se desgrudaram! Jordi era o único que entendia o modo muitas vezes áspero e debochado de Iara. Ela o xingava, fingia maltratar, mas devotava a ele um carinho e uma proteção que beirava ao maternal!  Ele por sua vez, era como um cão fiel, tinha um amor incondicional pela amiga e adorava quando fingiam brigar para logo depois caírem na risada, se insultando mutuamente.

Jordi não sabia o que seria de sua vida, dali a três meses, quando Iara tivesse que sair da instituição. Ela era tudo o mais próximo que havia conhecido sobre família, amizade e amor!  Essas palavras não tinham significado pra ele sem Iara e sentia que também era importante na vida da amiga, mas tinha medo que a ambição desenfreada dela os afastasse.  Seu medo era que ela fosse capaz de sacrificar qualquer coisa, inclusive a amizade deles, em favor de seu sonho de se tornar alguém importante, ou melhor, rica!

Continuou de longe a observar como a amiga se aproximou do novo Benemérito e da esposa dele, cumprimentou a ambos e parecia estar falando como as coisas funcionavam por ali, provavelmente agradecendo também a generosidade do casal. Iara era expert em envolver e fazer as pessoas se encantarem por ela. Não era uma adulação explícita própria dos "puxa-sacos", era algo mais sutil, que enredava o seu interlocutor numa sedução só perceptível quando já não tinha como dela escapar!  E num suspiro, pensou alto:

- Jeito de Iara!  Coitados!

Jordi durante muito tempo lutou contra seu jeito naturalmente efeminado.  Não queria mesmo falar, andar e agir daquele modo meio afetado, mas sentia como se já tivesse nascido daquela maneira, e tentar mudar pra parecer mais homem, só o fez sofrer! Realmente não conseguia mudar seu modo de andar, de olhar, sua voz, seu gestual. Tentava ser comedido, menos espalhafatoso, mas muitas vezes "escorregava no quiabo", como Iara falava!  Foi ela mesma que o convenceu a não se preocupar mais tanto com aquilo, que ele fosse do jeito que era.

- Eu gosto de você de qualquer jeito, bicha! Sendo machão ou "franguinha" eu vou te adorar sempre! Então deixe esse povo falar, vão falar de qualquer modo mesmo, você bancando o macho ou "escorregando no quiabo" como faz.  O fato é que será gay a vida toda e não tem como fugir disso! Você tem é que aprender a se fazer respeitar e não permitir ser objeto de chacota!
- Mas tem carinha que não quer ficar comigo só porque eu tenho esse jeito! Poxa, acabo perdendo um monte de oportunidade de ficar com alguém por causa disso!  Eles têm vergonha de serem vistos perto de mim, de ficar comigo!  Queria ser menos pintosa!
- Bem, então tente mudar se acha que vai se sentir mais feliz assim!  Mas sinceramente, acho que vai perder tempo, Jordi!  Você parado, de boca fechada, todo mundo vê que é viado!  Acho que você vai ficar dando murro em ponta de faca! O melhor é se aceitar do jeito que você é e ficar com os que não se importam que seja assim!
- Quando fico empolgado com alguma coisa então, aí que desmunheco mesmo! Não sei controlar!  Queria que existisse um remédio que me fizesse andar e falar grosso que nem os outros meninos! Mas você tem razão, eu sou assim, fazer o que?!  Quem gostar mesmo de mim vai me aceitar desse jeito, que nem tu né sua bruxa?!
- Isso mesmo, bi!  Manda essa cambada de hipócritas se danar!  Quando estão lá atrás da capela, no bem-bom contigo não sentem vergonha né?! Vão se ferrar!
- Aiiii... adoro quando você banca a minha mamãezinha!
- Sai pra lá! Vê só se eu ia ter um filho feio que nem tu e ainda por cima preto! Se bem que eu posso me casar com um Negão, aí meus filhos serão que nem você! Meu bebêêêê!!!

E apertou a bochecha magra do amigo, fazendo um biquinho.

Jordi acompanhava os passos de Iara de longe e admirava como um fã que via seu ídolo atuar. Já conhecia o "modus operandi" da amiga. Percebia de longe seus estratagemas e a forma que se aproximava de suas vítimas como se não estivesse nem aí pra elas. Aos poucos ia se acercando do seu objeto de cobiça, enredava com aquele olhar que era puro feitiço, convencia com sua oratória privilegiada, e arrematava tudo com um sorriso de holofote, daqueles que iluminam uma avenida inteira!  Pronto! Mais uma conquista para o rol de nossa heroína!

Quando a festa já estava chegando ao seu final, o Sr. Antonio Carlos resolveu fazer um discurso de apresentação e também dizer a todos como pretendia conduzir os trabalhos na instituição dali por diante. Iara aproximou-se de Jordi e enquanto o homem falava lá na frente, ela cochichou no ouvido do amigo:

- Já tá no papo, filho!  Na segunda-feira começo a trabalhar com nosso novo benemérito, como sua assistente! Levei menos de duas horas pra convencê-lo, com o aval da esposa é claro!  Vou auxiliá-lo com os papéis e as contas do orfanato! Sabe como sou ótima em português e matemática!  Agora é só questão de tempo!

O amigo virou pra ela impressionado:

- Não acredito! Nossa, acho que esse foi seu recorde viu?  E ainda por cima conseguiu que a mulher dele gostasse de você também! Ah, Iara você é uma peste! Só me diga uma coisa, tá mesmo disposta a ir pra cama com ele? Você nunca transou com um homem! Já imaginou que pode detestar e não conseguir?

Iara olhou pro amigo com as sobrancelhas arqueadas e sorrindo como se ele fosse um tonto a falar uma grande bobagem...

- Já ouviu falar na palavra "abstrair", meu bem?!  Se não gostar, eu vou fazer como sempre fiz até hoje com as mulheres com quem fui pra cama e não sentia tesão... vou ABSTRAIR!  Ou você pensa que eu gostava de todas aquelas bruacas com quem transei?!
- Nossa!  Às vezes você me assusta! Nunca gostou de nenhuma monitora ou menina com quem transou?
- Você quer dizer me apaixonar?  Tá louco!  Eu não sou burra, filho! Apaixonar é para os tolos!  Eu quero me apaixonar é pelo meu saldo bancário no dia que me divorciar do meu primeiro marido milionário... hahahahhaha!!!
- Ai meu Deus! Me explica, como é que eu posso amar uma bruxa como essa?!
- Porque sabe que essa bruxa também te ama, tolinho!

E como esperado, Iara conseguiu mais uma vez acertar no centro de seu alvo!  O nobre Sr. Antonio Carlos até tentou resistir por alguns dias aos olhares cheios de promessas daquela menina.  Afinal ela era ainda menor de idade, era quase 40 anos mais velho que ela, mas como resistir àquela beleza fresca que se insinuava e o arrastava para uma teia de sedução?  Pensou na mulher que era tão boa e o amava, nos filhos todos bem mais velhos que Iara, em sua vida relativamente equilibrada e na dor que a morte do filho caçula o fazia sentir dia e noite! E talvez aí tenha residido sua fraqueza!  A dor de uma perda irreparável que precisava ser amenizada pelo menos algumas horas do dia!  Parecia que naquele momento, só Iara o fazia se sentir um pouco melhor, sentia-se forte, jovem outra vez, viril!  Era como se um sopro de vida tivesse entrado por sua alma!  E menos de um mês depois que havia assumido a coordenação do Abrigo, lá estava ele enroscado com sua assistente, uma interna daquela instituição, uma órfã desprotegida e... virgem!!!

- O quê??? Você é virgem!!!
- Era!  Agora o senhor já me fez deixar de ser nesse exato momento!

Murmurou Iara enquanto ainda tinha o Sr. Antonio no meio de suas pernas, sobre a mesa do escritório do orfanato.  Claro que ela não era mais virgem há muito tempo!  Seu hímen há muito se fora numa de suas primeiras transas, mas tecnicamente falando, com um homem, era realmente virgem!

O homem ficou apavorado!  Passou um monte de coisas pela sua cabeça em poucos segundos, inclusive o fato de se sentir um ser abominável por estar se aproveitando e tirado a virgindade de uma órfã desamparada! Sentia-se um crápula!

- Minha nossa!  Eu devia ter adivinhado que você ainda era pura! Eu não podia ter feito isso!

Iara não pôde deixar de pensar com ironia - "Pura, eu?! Acho que só quando eu nasci!" - Mas quando falou, fez uma voz bem dengosa:

- Não se sinta culpado, eu quis também esqueceu?! Além do mais, eu sei que você é um homem bom e correto, jamais vai me desamparar, não é mesmo?!
- Claro que não! Sou um homem de princípios, jamais me aproveitaria de você e a deixaria desamparada!  Vou cuidar de você, pode ficar tranquila! Mas me prometa uma coisa... não diga a ninguém que estamos fazendo isso... minha esposa não pode sequer desconfiar do que se passou aqui!
- Fique tranquilo, Sr. Antonio! Não é minha intenção acabar com seu casamento, mesmo porque gosto da sua esposa!  Eu só peço ao Senhor que cuide de mim, não tenho mais ninguém nesse mundo!

Iara dizendo isso com o jeito mais doce do mundo fez cair novamente as barreiras que o Sr. Antonio tentava erguer.

- Mas eu deveria vê-la como uma filha... você é tão menina ainda... como pude me deixar levar pelo desejo assim... eu...

Então, ajoelhou-se na frente do coordenador, levantou aqueles enormes olhos negros de pura sedução e arrematou...

- Mas você pode ser meu "paizinho" e cuidar de mim... eu vou retribuir de um jeito bem doce... assim ó...

E pela primeira vez ocupou a boca com algo diferente do gosto agridoce ao qual estava acostumada. E ali, ajoelhada diante daquele homem, compreendeu que quanto mais parecesse frágil e dominada, mais poder teria sobre quem quer que fosse!  Era de joelhos que ela arrancaria o que quisesse dos homens! Aquela felação e outras tantas que viriam depois seriam o símbolo condutor de sua caminhada em direção ao que imaginava ser o sucesso na vida: ter muito dinheiro e poder sobre os outros!