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A noite era escura, nuvens encobriam a lua no céu enquanto a névoa se encarregava de encobrir o mar abaixo. Por esse motivo ninguém em terra havia notado o navio parado a pouca distancia da cidade cujas luzes eram notadas do mar. Na proa do navio uma figura alta observava as luzes da cidade com interesse quando ouviu alguém se aproximar por trás.

-Tudo pronto para amanhã?- perguntou a figura alta sem se virar.

-Sim, tudo como você pediu. As velas foram trocadas e a bandeira removida.- respondeu a outra figura.

-Bom. Muito bom. E quanto ao navio que estava nos seguindo?- perguntou a figura alta.

-Desapareceu de vista já faz algum tempo. Acreditamos que tenha desistido.- respondeu a outra figura.

-Ótimo. Amanhã aquela cidade é minha.- falou a figura alta no mesmo instante em que as nuvens abriram um pouco e o luar iluminou um par de olhos de um profundo azul.

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-Hoje é um dia tão especial!- falou uma jovem ruiva animada andando de um lado para o outro dentro do luxuoso quarto.

-Se você está dizendo...- resmungou uma jovem loira se olhando no espelho.

-Oras Anabell como você pode não estar feliz? Você vai se casar hoje! Esse é o dia mais feliz da vida de uma mulher!- falou outra jovem loira que aparentava ser mais velha que Anabell.

-Tá Mia... Talvez seja o dia mais feliz da vida das outras mulheres, mas não da minha ok?- falou Anabell impaciente sem tirar o olho do espelho.

-Anabell você vai casar! O que mais você pode querer da vida?- perguntou a ruiva sorrindo incrédula.

-Ah Leigh... Mas eu não sou como vocês. Quero dizer, eu sempre fui diferente. Vocês sonham com casamento, ter família, eu não.- falou Anabell olhando triste para o vestido branco em cima da cama.

-E com o que você sonha?- perguntou Mia abusada.

-Com liberdade Mia. A vida no mar, viver aventuras, descobrir novos lugares!- respondeu Anabell sonhadora tirando os olhos do espelho.

-E como você pensa em arranjar tudo isso?- perguntou Leigh curiosa.

-Ah... Talvez com um capitão de um navio pirata!- falou Anabell dando ênfase nas duas ultimas palavras - Ele podia aparecer e me levar pra longe, longe dessa casa, desse noivo estúpido, desse casamento arranjado... Longe.

Ao terminar a frase Anabell escutou um barulho vindo da porta que dava para a varanda e ao se virar para ver seus olhos encontraram-se com o par de olhos mais azuis que ela já tinha visto na vida.

Simitry nem sentiu que havia machucado sua perna ao arrombar a porta da varanda ou se deu conta dos gritinhos histéricos que as duas jovens davam no quarto e que poderiam atrair os guardas. O mundo havia parado no exato instante em que seus olhos encontraram-se com o par de olhos mais verdes que ela havia visto na vida. Nada que aconteceu antes em sua vida parecia ter importância, o que importava era o verde daqueles olhos nas quais ela sabia que estava destinada a se perder.

Anabell não sentia os puxões que sua irmã dava em seu braço pra tentar tira-la do quarto, ou ouvia os gritos de Mia e Leigh apavoradas. Ela estava paralisada em um transe profundo desde que seus olhos se encontraram com aqueles olhos azuis. Azuis como o céu, azuis como o mar, tão azuis e lindos que ela queria mergulhar neles para sempre e de alguma forma ela sabia que isso a faria muito feliz.

Quando o mundo voltou a girar para as duas, no momento em que seus olhos se desviaram, tudo parecia muito confuso. Simitry parecia ter esquecido o que estava tentando fazer e Anabell não fazia idéia do que era aquele vestido branco em cima da cama.

-CALADAS!- gritou Simitry voltando a si.

Mia e Leigh pararam de gritar histericamente e olharam para Simitry com medo. Anabell olhava para a cena como se nem estivesse presente.

-Muito bem. Agora quem pode me dizer como sair daqui?- perguntou Simitry olhando para elas.

Mia e Leigh olharam para ela de bocas abertas e olhos esbugalhados.

-Ok... Eu não vou machucar vocês, só me digam como sair daqui e eu saiu sem problemas anda.- falou Simitry olhando para elas.

-Vocês falam a minha língua né? Sei que falam, ouvi vocês fofocando aqui dentro! Agora me contem onde é a saída mais próxima dessa casa!- falou Simitry sacando sua espada ao ouvir barulhos vindo do corredor. Mia e Leigh recomeçaram a gritar histericamente.

-Ela deve estar ai dentro! ARROMBA!- gritou um dos guardas e no momento seguinte a porta caiu no chão e dezenas de guardas adentraram no quarto.

-Agora você é minha!- falou o chefe dos guardas dando um sorriso maldoso para Simitry enquanto os guardas avançavam lentamente em sua direção.

Anabell assistia a tudo sem esboçar reação nenhuma, começou a voltar a si rapidamente, como se um raio a tivesse atingido.

-Parem onde estão!- gritou Anabell.

Todos os guardas se viraram para ela.

-Srta Anabell? O que...?- gaguejou o chefe da guarda olhando confuso para ela e para Mia e Leigh que estavam paralisadas de medo.

-Vocês não podem atacar ela.- falou Anabell com veemência.

Todos no quarto se viraram pra ela confusos.

-Por que?- perguntaram os guardas, Mia e Leigh que pareceram se recuperar momentaneamente da paralisia do medo e Simitry.

-Porque... Ela me tem como refém!- falou Anabell sem pensar se enfiando entre Simitry e a sua espada.

No momento em que aquele corpo encostou no seu, Simitry sentiu como se tivesse tomado um choque. Era uma sensação boa, como ela nunca havia sentido antes. Anabell teve vontade de abraçar aquela estranha de olhos azuis, seu corpo parecia ter sido feito pra encaixar no seu, era algo que ela nunca havia sentido, mas sabia que gostava muito.

-É isso ai!- falou Simitry voltando a si e quebrando o silencio.- Eu a tenho sob minha espada!- ela falou virando a lamina que estava virada para os guardas.

-Maldita!- berrou o chefe da segurança - Devolva a srta Anabell.

-Calminha ai! - falou Simitry - Ou a srta Ana... Ahn...

-Anabell!- sussurrou Anabell.

-Ou a srta Anabell vai se dar mal!- falou Simitry olhando confusa para o topo da cabeça loira que se encostava contra seu corpo.

-Vocês ouviram ela! SAIAM DA FRENTE!- falou Anabell para os guardas confusos.

-Mas srta Anabell... A gente tem que te salvar.- falou um dos guardas confuso.

-Calados todos vocês!- falou Simitry andando para trás com Anabell.

-Solte a srta Anabell!- falou o chefe dos guardas irritado.

-Dá pra você para de irritar a pirata? Assim ela perde a cabeça!- falou Anabell cruzando os braços - Você quer que ela me mate?

Simitry continuou a andar para trás e sentiu a proteção da varanda bater nas suas costas. Estava encurralada.

-Está sem saída. - sorriu o chefe dos guardas ainda dentro do quarto.

-Mas será que vocês não escutaram a moça?- perguntou Simitry impaciente olhando para baixo e se sentando no parapeito da varanda.

Os guardas começaram a avançar lentamente.

-Sente-se no meu colo.- sussurrou Simitry na orelha de Anabell que obedeceu.

-Agora sim você é minha, pirata maldita.- sorriu o chefe dos guardas.

-Sabe, eu cansei desse seu sorriso bigodudo feio!- sorriu Simitry se jogando para trás e levando Anabell junto.

As duas caíram numa carruagem que puxava um "container" cheio de lírios brancos. Ambas ficaram paradas na mesma posição por um tempo, deixando a adrenalina baixar e processando o que acabara de acontecer. Quando a carruagem parou Simitry espiou se havia alguém em volta antes de abrir uma portinha fazendo várias das flores caírem no chão, ela saiu e ajudou Anabell a descer.

-Ainda bem que minhas flores favoritas são lírios e não rosas.- falou Anabell tirando algumas das flores do chapéu de Simitry.

-Verdade.- concordou Simitry que nem havia considerado que tipo de flores estavam sendo carregadas quando bolou o plano de fuga.- Agora ahn... Loirinha, pra que direção é a área portuária?

-Me siga.- falou Anabell começando a andar.

-Não, só me diz pra onde ir.- falou Simitry segurando Anabell pelo ombro.

-Olha, pensa bem, eu posso te dizer onde é e você por ir correndo feito louca, podendo ser atacada pelos guardas - falou Anabell colocando as mãos na cintura.- Ou você pode vir comigo limpando sua barra, na pior das hipóteses como refém.

Simitry olhou para a loirinha tendo certeza absoluta de que ela era louca. Anabell sorriu e começou a andar com Simitry em sua cola.

-Se eu fosse você guardava essa espada também, ela chama muita atenção.- falou Anabell sem olhar para trás.

Simitry olhou feio para Anabell, ela odiava receber ordens, ainda mais de uma dondoca fru-fru como aquela loira maluca. Ela guardou sua espada contrariada e continuou a seguir a loirinha que se movia com graça cumprimentando os criados no caminho enquanto tagarelava sobre quem eram, ou sobre o tempo, ou sobre como ela achava interessante a vida de Simitry e dos piratas em geral. Simitry ouvia as coisas que a loirinha falava com um pouco mais de atenção do que desejava, geralmente ela odiava gente que falava muito, mas aquela loirinha conseguia ser encantadora de um jeito que deixava a pirata perturbada. Seguiram pela rua estreita e quando chegaram até a área portuária onde estava o navio de Simitry, a loirinha já havia contado para a pirata boa parte de sua vida num resumo impressionantemente detalhado para apenas alguns minutos de caminhada, arrancando até alguns sorrisos da pirata que teve que fazer esforço para se manter calada, afinal não podia demonstrar simpatia por aquela estranha por mais que quisesse. Simitry procurou seu navio e o encontrou no final do caís ancorado.

-Aqui nos separamos.- falou Simitry séria para Anabell.

-Como assim nos separamos?- perguntou Anabell confusa.

-Eu vou pra um lado e você pra outro.- falou Simitry olhando para a loirinha - Eu vou pro meu navio e você volta pra casa.

-Mas você não pode...- gaguejou Anabell que estiveram tão distraída com a presença da pirata que nem havia lembrado que sua presença era apenas temporária.

-Anda, você está me fazendo perder tempo, se eu entrar com você ai vai chamar atenção e mesmo assim... Você não tem pra que ir comigo até lá, o caminho está livre. Só tem guarda lá atrás.- falou Simitry começando a andar pelo caís.

-Mas você não pode me deixar aqui sozinha!- falou Anabell observando Simitry se afastar pelo píer.

Simitry se limitou a continuar andando e tentar bloquear a voz daquela loira doida dos seus ouvidos.

-EU SOU SUA REFÉM PIRATA!- gritou Anabell e sua voz ecoou por todo píer e pelas ruas da cidade.

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-Içar velas!-gritava Simitry correndo com Anabell e a guarda real em sua cola.- Anda nós estamos saindo agora!

Simitry esperou a escada de corda se jogada e antes de subir foi verificar se os guardas estavam longe, mas ao se virar ela deu de cara com Anabell.

-O que você ta fazendo aqui?- perguntou Simitry ouvindo os tiros dos guardas - Você ta livre pode ir! Já me causou problemas demais gritando!

-Ir? Voltar pra lá? Não eu...- começou Anabell mas foi interrompida quando Simitry sacou seus revolveres correndo para trás de uns barris e começou a atirar contra os guardas.

Aproveitando a situação Anabell começou a subir para o navio silenciosamente rezando para não ser atingida por uma bala.

-Vamos, vamos, vamos!-berrou Simitry subindo as escadas rapidamente aproveitando que a guarda estava recarregado as armas.

Todos os marujos estavam ocupados correndo para todos os lados num caos organizado para que o navio partisse o mais rápido possível.

-PRA O ALTO MAR LOGO!- berrou Simitry tomando o leme - Se eles entrarem naqueles malditos navios com canhões novos estamos em sérios problemas!

Anabell não podia acreditar na sua sorte, estava ali no meio do deck de um navio pirata observando a fuga deles do porto de sua cidade e o que era melhor, ninguém havia notado sua presença. Todos estavam muito preocupados em colocar o navio no alto mar o mais rápido possível, pelo que ela entendeu, porque os canhões dos navios da Guarda Marítima eram muito potentes e fariam grandes estragos no navio pirata, mas isso tinha um custo. Apesar de muito potentes os canhões pesavam muito, o que fazia com que os navios ficassem mais lentos do que o dos piratas, sendo assim eles teriam mesmo que ir para o alto mar rapidamente ou corriam riscos de afundarem. Como num balé muito bem treinado e belo todos os piratas corriam de um lado para o outro colocando o navio rapidamente fora do alcance dos guardas e de qualquer tentativa deles o perseguirem com seus potentes canhões. Finalmente em alto mar, Anabell pôde ver sua cidade ficar cada vez mais longe e pequena até desaparecer no horizonte enquanto todos os piratas concentrados em verificar se estavam longe o bastante, se as cordas estavam presas.

-Isso foi FANTÁSTICO!- exclamou Anabell no meio do deck fazendo todos sacarem espadas e revolveres.

-O que você ta fazendo aqui?- perguntou Simitry tanto surpresa como levemente irritada.

-Bom eu...-gaguejou Anabell.

-É uma mulher.- cochichavam varias vozes pelo deck.

-Broctus! Kay!- chamou Simitry olhando para Anabell.

-Sim capitã!- responderam duas vozes no meio do deck.

-Na minha cabine, agora!- falou Simitry se virando para ir para sua cabine - E tragam a loira.

Anabell sentiu duas mãos lhe segurando pelos braços. Uma delas pertencia a um homem de boa aparência, cabelo loiro escuro, olhos castanhos claros, nem parecia ser pirata. Já a outra era gigantesca e pertencia ao maior homem que ela já havia visto, negro, muito alto e largo. Ela teve a impressão de que ele poderia arrancar seu braço sem o menor esforço. Ao chegar na cabine Anabell não se conteve em olhar em volta curiosa, ela nunca havia estado num navio pirata antes, mas era tudo que ela esperava de uma cabine do capitão. Havia uma escrivaninha com vários mapas em cima, uma mesa com duas cadeiras, uma enorme pintura pendurada na parede que ia do chão até o teto, uma enorme cama e um...

"Baú de tesouro pirata!" - pensou Anabell se esquecendo da situação em que se encontrava.

-Quem é ela?- perguntou o homem loiro.

-É uma das moradoras daquela casa. Eu a usei como refém pra sair de lá.- respondeu Simitry olhando para o homem - E por sinal eu a libertei pra voltar pra casa eu não entendo o que ela ainda faz aqui.

-Menina o que você faz aqui?- perguntou o homem loiro a Anabell.

-É que eu...- gaguejou Anabell.

-O que nós vamos fazer com ela?- perguntou o homem loiro sem esperar a resposta de Anabell.

-Eu não sei Kay. O que você sugere?- perguntou Simitry impaciente.

-A gente podia...- começou Kay.

-Vocês podia me deixar ficar!- falou Anabell.

Todos se viraram para ela.

-Bom eu não tenho muita experiência com velas, ou navios, ou espadas... Ou com a vida no mar em geral, mas eu aprendo rápido e eu sei costurar eu posso emendar velas, roupas e... – Anabell falava olhando em volta desesperada para tentar convencer os piratas a lhe deixarem ficar, mas todos pareciam olhar para ela com olhares irônicos - E eu sei cozinhar.

Todos os piratas deixaram escapar breves sorrisos.

"Jackpot" - pensou Anabell.

-Ok... Ahn...- gaguejou Simitry.

-Anabell.- sorriu Anabell.

-Isso. Já estamos em alto mar, e sem a menor vontade de voltar tão cedo pra sua hospitaleira terra. Você não fez nada pra merecer andar na prancha. Sendo assim você está presa conosco e nós com você.- começou Simitry contendo seu sorriso - Mas aqui todo mundo trabalha, e como você não é exatamente uma prisioneira, vai trabalhar assim como todos os outros.

Anabell ouvia cada palavra atentamente.

-Mas como você não tem experiência com navio em si, e como comentou antes é...- falou Simitry.

-É verdade que você sabe cozinhar?- perguntaram os três piratas juntos.

Anabell olhou para eles surpresa e teve que conter o riso ao olhar para suas caras.

-É sim. Muito bem por sinal. –respondeu Anabell.

-Ótimo você pode ir trabalhar na cozinha, Deus sabe o como precisamos de ajuda por lá.- falou Simitry.

-Mas nós ainda vamos para...?- perguntou o homem gigante.

-Sim Broc, ainda vamos para Pirate’s Booty comemorar, se bem que se até lá a gente se livrar da comida do Plumbs já é boa comemoração.- falou Simitry e os outros riram.-Bom agora se vocês me deixarem a sós com a mais nova... Membro da nossa tripulação.

Kay e Broc saíram ainda sorrindo para fora fechando a porta da cabine lentamente enquanto os piratas que estavam de fora tentavam espiar as duas mulheres lá dentro. Anabell olhava ansiosa para Simitry, se alguma forma aquela mulher a atraia de um modo que ninguém nunca conseguira antes, ela sentia uma admiração por ela, uma atração que nem ela sabia explicar. Simitry por sua vez evitava pensar muito sobre o que acontecera, aquele calor que a tomou quando encostou na loirinha havia sido algo espetacular e novo, e por isso a pirata evitaria pensar sobre até que pudesse entender o que se passara.

-Bom, eu acho que você vai ficar na cabine próxima da minha.- falou Simitry sem nem olhar para Anabell.

-Ah não precisa me dar regalias só porque eu sou mulher.- falou Anabell quase indignada colocando as mãos na cintura.

Simitry abriu a boca para falar, mas Anabell a interrompeu.

-Sério, só porque eu sou uma mulher não quer dizer que eu sou menos capaz do que qualquer um nesse navio, nem preciso de regalias, eu posso ser bem durona se precisar. Não precisa pegar tão leve comigo ou me dar meu próprio quarto ok? Eu sei me cuidar sozinha e posso muito bem dormir com os outros.- falou Anabell com veemência.

Simitry franziu a testa e parecia prestes a gritar com Anabell e mostrar praquela loirinha atrevida quem mandava naquele navio. Quem ela pensava que era pra interrompe-la daquele jeito? Sua vontade era de gritar tudo aquilo na cara da loira, mas ela teve uma idéia melhor.

-Muito bem então. Vamos lá na outra cabine só pra você me ajudar com uma duvida.- sorriu Simitry abrindo a porta de sua cabine e pegando três piratas de surpresa que estavam tentando escutar por trás da porta e caíram nos pés da capitã que os olhou com desprezo.

Quando as duas saíram de dentro da cabine todos os olhares do deck se viraram para elas, em especial para Anabell. A maioria dos marinheiros tinha um olhar de pura luxuria para a loirinha, pareciam lobos famintos observando um cordeiro loirinho indefeso. Vários deles cochichavam coisas que Anabell fez questão de nem tentar ouvir. Simitry abriu a porta da cabine e mandou Anabell entrar para depois entrar logo em seguida fechando a porta atrás de si fazendo vários piratas gemeram frustrados.

-E como você se sentiu no meio da tripulação?- perguntou Simitry com um sorriso nos lábios.

-Nesses meros segundos em que estivemos no deck andando até aqui eu... Me senti mais nunca do que nunca em toda minha vida.- falou Anabell se arrependendo de sua decisão de dormir com os demais piratas no porão escuro do navio.

-E então?-perguntou Simitry sorrindo.

-Hum?- perguntou Anabell distraída lembrando os olharem que a seguiram - Ah sim sua duvida né?

-É minha duvida. Me diga, você acorda só ou vou ter que mandar água em você?- perguntou Simitry séria.

Anabell olhou para ela e sorriu vencida, ficaria afinal na cabine. Simitry sorriu, por algum motivo aquela vitória boba sobre a loira deixaram seu ego bem feliz, tão feliz que quase saiu pela porta errada.

-Eu espero que você esteja bem cedo na cozinha amanhã pro café, procure por Plumbs ele que é nosso cozinheiro, ou pelo menos se diz ser. E se alguém se meter com você eu quero ficar sabendo no mesmo instante entendeu?- falou Simitry ao lado da porta da cabine.

-Entendi.- respondeu Anabell olhando para ela.

-Bom... É...- Simitry olhou para a loirinha e de repente nem sabia mais o que falar ou fazer, se sentiu perdida no momento em que a olhou nos olhos verdes.-É... Tem... Eu...

Anabell queria falar alguma coisa, perguntar alguma coisa, várias coisas, mas nada saia da sua boca desde que a pirata a olhou nos olhos. Simitry sentiu as pernas tremerem e se apoiou na primeira coisa que encontrou, a maçaneta da cabine. A porta se abriu e ela não caiu por pouco, mas foi o bastante para seus olhos se desviarem dos de Anabell.

-Boa noite.- falou Anabell que estava vermelha.

-Boa...- respondeu Simitry se ajeitando o melhor que podia pra sair da cabine e fechando a porta.

Ela parou do lado de fora amaldiçoando tudo que podia pelo que acabara de acontecer.

-O QUE FOI?- ela perguntou rispidamente para os piratas que a observavam curiosos - Se alguém se meter com a loira anda na prancha. Estamos entendidos?

Ela foi até sua cabine com passos pesados, arrastando suas botas e desistindo de tentar entender o que havia acontecido. Quando ela finalmente se viu só em sua cabine começou a tirar lentamente sua roupa para dormir e deitou-se de barriga para cima em sua cama apenas com o lençol cobrindo seu corpo. Seus pensamentos voavam a mil por hora repetindo o dia que acabara de ter, como havia entrado na cidade, na casa dos Haggenbauer, como derrubou a armadura que fez o barulho e atraiu os guardas, como eles a perseguiram pela casa, ela entrando naquele quarto com as mulheres histéricas e... A loira... Anabell com aqueles olhos verdes. Que olhos verdes eram aqueles?

-Maldição!- falou Simitry irritada com seus próprios pensamentos.

Ela ainda rolou na cama inquieta por horas até finalmente dormir. Enquanto isso, na cabine ao lado, Anabell também encontrava dificuldade pra dormir. Usando apenas sua calça de baixo ela estava deitada de bruços com o queixo apoiado no travesseiro. Sua cabeça estava a mil com tantos pensamentos sobre o que havia acontecido e tudo levava para os olhos azuis... Ah que belo par de olhos azuis! Anabell não entendia bem o que se passava quando aqueles olhos encontravam com os seus, mas ela sabia que era bom e por agora isso bastava. Ela tentou imaginar o que Simitry estaria fazendo na cabine ao lado e quantas aventuras ela ainda viveria ao seu lado como uma aprendiz de pirata e finalmente dormiu.