
Contato: cecilialpes@gmail.com.br
Capítulo XX
* Seus lábios ao tocarem minha pele
são como o orvalho da noite
descendo sobre a Mãe-Terra,
brindando-me com seu frescor.
Sua língua, úmida,
revela a debilidade do meu ser sob o seu
e enquanto satisfaz sua sede do meu corpo,
tranqüiliza meu desejo ardente.
Minha voracidade,
capaz de destruir,
de consumir o mundo a minha volta
é completamente extinta
quando vejo a intensidade desse amor em seus olhos.Sinto por você esse mesmo amor incontrolável!”
* (trechos de Ode à minha musa, de Cecília Lopes © 2008 Biblioteca Nacional)
“Com certeza é porque estou fraco... Não há outra explicação... Talvez o vinho tenha ajudado. Ancestrais! Não sei mais quem sou quando estou com ela... Só penso em o quanto é doce, encantadora... E só quero lhe falar de ternura e romance... Talvez ela tenha o poder de trazer de volta aquela com quem dividiu seu mundo, sua vida. A menina que pensei ter esquecido completamente.” – sorri. – “Ninguém me deixou nesse estado antes; nem mesmo Sarah, com toda sua experiência e ousadia! Imagina! O terrível Tianlong, um poeta!”
Yul e Chang conversam no escritório.
- Mande um mensageiro até a fazenda. Que entregue essa carta a T’ai.
Chang Xi abre e lê.
- Entregar à Choidog dois dos melhores potros, filhos de Campeão, quinze éguas de cinco anos e também trinta ovelhas e vinte camelos? É um quarto de todo seu rebanho!
- Sim.
Chang termina de ler.
- Vai lhe devolver Gantuul? Ouh! Ouh! Prevejo fortes tempestades no deserto.
- Quero que se prepare para levá-la ainda que à força.
- Só pode estar brincando!
- Não. Darei duas semanas para organizar suas coisas e voltar ao clã. Quero um pelotão pronto para acompanhá-la e um caminhão para levar seus pertences. Devem entregá-la pessoalmente a seu pai. Farei com que entenda que se não for de um jeito será de outro. – respira fundo.
- Só me diga: porque essa mudança repentina?
- Lembra quando certa vez lhe falei sobre meu desejo de voltar pra casa e ter alguém pra quem eu nunca tenha de mentir?
- Emily?
- Sim.
- Se Gantuul descobrir que foi trocada não o perdoará. Será realmente muito perigoso mantê-la aqui.
- Sabe que nunca a incluí em meus planos.
- Todos sabem, mas ela sempre nutriu esperanças... Ainda que vãs. O pior pra ela será perder o poder que detinha dentro da comunidade Mongol por ser sua amante.
- Voltará com um bom dote.
- É muito bom, sem sombra de dúvida, mas não é você.
***********
Na ger de Gantuul:
- VOCÊ NÃO PODE ME TRATAR ASSIM. NÃO PODE ME EXPULSAR DA SUA VIDA, COMO SE FOSSE UM OBJETO QUE USA E JOGA FORA QUANDO NÃO QUER MAIS. DIGA-ME O NOME DA VAGABUNDA E EU MOSTRO A ELA O QUE ACONTECE QUANDO ALGUÉM TENTA TIRAR O MEU HOMEM.
- Se continuar a quebrar os móveis não terá o que levar.
Gantuul abaixa o tom.
- Quem é Yul, diga?! Eu mereço saber.
- Não há ninguém, Gantuul. Você sabe que uma hora isso iria acontecer.
- NÃO É VERDADE! EU SEI QUE NÃO É! – respira fundo. – Eu sempre soube que você continuaria indefinidamente até que aparecesse alguém... É ela, não é? Eu sinto em meus ossos. Desde que chegou você não é mais o mesmo, mas, se um dia eu descobrir, pode ter certeza, que esteja onde for, eu a matarei.Yul a agarra pelos cabelos e fala em seu ouvido:
- Não... Me... Ameace.
- Acha que me importo?Yul a solta.
- ACHA QUE ME IMPORTA? NÃO PERCEBE QUE A PARTIR DESSE MOMENTO MINHA VIDA DEIXOU DE FAZER SENTIDO?
- Por que tem de ser assim, Gantuul? Tivemos tantos momentos felizes! Você é importante pra mim e não lhe desejo mal. Quero que seja feliz.
- Só há uma maneira de eu ser feliz e é a seu lado. Se não posso, então nunca serei feliz.
- Estou cansado. Preciso ir. Você tem duas semanas.Gantuul começa a chorar.
- Por favor, por favor! Não faça isso comigo! Eu não posso viver sem você!
Tenta uma aproximação, mas as seguranças impedem.
- ME DEIXEM PASSAR! – ajoelha. - Por favor Yul, eu lhe imploro!!!! Não me tire de sua vida. Eu aceito a outra, aceito continuar a ser sua amante... Nos encontraremos às escondidas... – chora copiosamente. – Eu faço o que quiser, mas não me afaste de você.
Yul sempre admirou a valentia de Gantuul e suporta tudo, menos vê-la se humilhar, implorando por migalhas.
- Levante Gantuul.
A jovem ao ouvir o tom amoroso de sua voz, levanta, esperançosa.
- Eu a amo, mas não da maneira que você quer e merece. Corta-me o coração saber que sou o responsável por sua dor.
O rosto da Mongol se transforma em pura ira. Humilhou-se para nada.
- MORRA YUL, VOCÊ E SUA VADIA! APODREÇAM NO DESERTO E QUE SIRVAM DE ALIMENTO AOS ABUTRES!
Yul sorri. Essa é a Gantuul que ele conhece. Com essa ele sabe lidar. Em outros tempos a dominaria, colocaria de joelhos e lhe mostraria como respeitar um Imperador, mas, agora, ambos têm de se acostumar com a distância. Também não será fácil pra ele.
- Se precisar de alguma coisa fale com Chang.
Gantuul lhe dá as costas.
“Se tivesse noção de quanta afeição sinto por você!” – pensa o Imperador.
Entra em casa; lívido, suando frio.
- Precisa de ajuda Imperador?
- Não... Podem ir. Obrigado. – respira fundo. Caminha rapidamente até seu quarto e se joga na cama.Emily entra.
- Oi.
- ...
- Está se sentindo bem? Está suando frio. Tremendo. Vou chamar Re-Di.Um pouco depois volta com o médico.
- Está febril. Fique com ele. Vou à cozinha e já volto.
Emily abre alguns botões de sua camisa, facilitando sua respiração.
- Onde esteve?
- ...
- Terei que perguntar à Chang Xi?
- ...
- Espertinha. Sabe que pode confiar nele, não é mesmo?
- Fui caminhar um pouco.Algumas jovens entram e preparam seu banho. Logo Re-Di lhe traz um chá e o faz beber.
- Por que seus chás têm de ser tão amargos?
- Não reclame. Sabe que da próxima vez posso lhe dar um pior.Faz que vomita.
- Bleerrrr!- Emily, ele só precisa de um banho rápido e repouso. Absoluto, entende?
- Sim, doutor. Dessa vez, repouso absoluto.
- Exato. Deixo-os então.
- ...
- Deixe-me ajudá-la com a roupa. Isso. Não preciso nem perguntar qual vai usar pra descansar, não é?
- Não.Termina de desabotoar a camisa e quando começa a desabotoar a calça, Yul segura suas mãos.
- Deixa, deixa que eu tiro.
- Por quê? Sabe que não me importo.
- Já disse que não precisa. Vou tirar no quarto de banho.
- Então ta. Posso ao menos ajudá-la com esse colete?
- Sim.
- Nossa! Como é apertado. Tenho pena de seus seios.
- Já acostumaram.
- Pronto.Yul levanta e Emily o acompanha.
- Se importa em me deixar só?
- Que foi que eu fiz? Está zangada comigo?
- Não, não. Eu só preciso pensar um pouco.
- Ta... Quando quiser mande me chamar. – sai.
- Emily...Esta sequer retorna um olhar.
- Definitivamente não deveria ter levantado da cama.Desabotoa a calça, deixa-a cair aos pés e desata a correia que prende o dildo. Guarda o conjunto junto a outros em uma caixa dentro do guarda-roupa.
Assim que a vê entrar no banho Emily sai de seu esconderijo, vai até o guarda-roupa e se apossa da caixa. Abre-a e de tão surpresa, senta na cama. Dentro, uma quantidade de – “Pênis artificiais? Qual será o nome disso?” - que ela não consegue precisar com exatidão; pequenos, mais grossos, mais finos, alguns gigantescos, outros nem tanto, vermelhos, pretos, marrons, rosados, roxos, de couro curtido, cru, alguns materiais que ela desconhece, enfim. Entre eles as cintas de couro, correias de metal, argolas. Maravilhada, retira um, em couro maleável, resistente, quase marrom, de uns dezesseis centímetros de comprimento por quatro de diâmetro. Faz um exame minucioso, toca-o da ponta ao cabo, um clone perfeito de um pênis com um grande círculo na base no lugar dos testículos. Coloca-o de novo dentro da caixa e a devolve a seu lugar.
“Por que ela não quer que eu a veja com isso? Pra Gantuul ela se mostra por inteiro! Por que quando se refere a mim tudo tem de ser mais complicado?” – suspira.
******
Yul convida Emily e Sophie para jantarem em seu quarto.
- Está sem fome?
- Só um pouco.
- Sabe que agora tenho segurança pessoal?
- Como assim?
- Fui dar uma volta com Sophie à tarde, como sempre faço, e duas seguranças nos acompanharam todo o tempo.
- Deve ser coisa de Chang.
- E ele faz algo sem que você saiba?
- Se admiraria se soubesse.
Do outro lado do acampamento Gantuul se encontra com um soldado.
- Preciso de um favor.
- Sabemos que ele a mandou embora. Não tem mais poder por aqui.
- Ora, não jogue duro comigo! Acha que nunca percebi seu interesse por mim? E se, digamos, eu tenha resolvido realizar alguns de seus desejos? Podemos conversar sobre uma troca de favores.
- Hummm. Aí tudo muda. – se aproxima, mas ela coloca a mão em seu peito, impedindo-o de continuar.
- O preço é alto, meu amigo e terá de se esforçar muito, afinal, comerá no mesmo prato que o Imperador.
- Peça e terá.Gantuul olha para os lados.
- Bem, pra começar...
***********
Duas semanas. Gantuul se foi dentro do prazo estabelecido. Esperou por Yul até o último minuto. Não teve adeus.
Yul está com os nervos à flor da pele, pois Re-Di lhes impôs um regime sexual rígido, e, desde àquela primeira noite não tiveram momentos mais íntimos.
- Isso não faz sentido, Re-Di.
- Ordens superiores.
- Ah, sabia! Isso é coisa daquele velho maluco! Desde quando começou a achar que sexo faz mal?
- A sua situação é especial. Vossa Majestade precisa de motivação para seguir obedientemente o tratamento. Sabemos que se recusa, mas Emily está realmente empenhada em sua recuperação e, como é mais aplicada, matamos dois coelhos com uma só pancada.
- É cajadada, Re-Di.
- Que seja.
- Olhe de novo meus olhos.
- Já olhei mil vezes essa semana, trezentas só hoje. Conheço um por um todos os diversos pigmentos de sua íris. Não há nada mais pra ver. A anemia ainda está aí.
- Não pode aumentar a quantidade de chás ou o número de folhas? O que mais tenho de comer?
- Infelizmente submeteu seu corpo a uma dura provação e agora devemos esperar que o tempo e seu poder interior se manifestem favoravelmente.
- Eu vou enlouquecer Re-Di!!!!!
- Não vai não. Tome um banho frio que passa.
No quarto de banho de Emily.
“Deixe-me ver... Sim. Essa posição é excelente! Ela pode estar em baixo, com aquilo, ou em cima, com aquilo. Preciso dar um nome praquilo... Pênis? Muito óbvio e sem criatividade. Bob? Hahaha! Bob! Venha, venha provar o meu Bob. Hahahaha! E se chamar, eu vou, com certeza. Bem, agora eu faço uma flexão, para cima, para baixo, para cima... Será que tem de ser mais rápido? Deixa ver... Ufa! Cansativo. Com Harold era mais fácil... Ficava deitada, à sua espera e o resto era com ele... Mas deve ser uma questão de hábito. Se fizer isso todo dia, melhora. Gantuul com certeza é uma acrobata. Como conseguiu ficar naquela posição? Será que ela deixaria eu usar? Hmmmm! Deve ser ótimo usar o... Bob? É! O Bob! Vamos ver... Agora de costas...”
Yul entra para lhe falar e a pega numa posição no mínimo curiosa dentro da banheira. Os braços esticados, erguendo o corpo, e o quadril, num movimento que ele conhece como ninguém, entrando e saindo da água.
“Que bundinha mais lindinha! Mas o quê está fazendo?”
Emily ao se virar pra mudar de posição vê Yul dentro do quarto de banho, a cabeça virada pra um lado, como se quisesse entender o que faz. Perde o equilíbrio e mergulha na água, quase se afogando. Após se debater consegue agarrar a borda e puxar o corpo pra fora. Tosse. Yul espera se recuperar, sorrindo.
“Pelo visto não sou só eu que não está se agüentando!”
- Ui! – tosse. Ajeita o cabelo pra trás. – Está aí há muito tempo?
- Sim.
- Er... Estava fazendo flexões.
- Eu vi.
- Er... São ótimas para os glúteos.
- Verdade? – “E que glúteos!!!” – senta numa cadeira próxima. Está se divertindo.
- Sim. Para as coxas e barriga também.
- Sei.
- ...
- Continue. Não precisa parar por minha causa.
- Er... – sorri. – Já tinha acabado.
- Oh, que pena!Emily percebe que sabe exatamente o que estava fazendo e está se divertindo às suas custas.
- Pode me passar a toalha?
- Não.
- Por que não?
- Porque estou com saudade. Há muito tempo você não aparece em meu quarto, assim, à vontade.
- Pára com isso. Sabe que enquanto não se recuperar...Yul passa as mãos no rosto, exasperado.
- Não agüento mais ouvir falarem nisso.
- E porque não faz alguma coisa?
- Mas eu to fazendo tudo que Re-Di manda e mais ainda. Tomo todos os chás, banhos, estou comendo frutas, carnes e verduras duas vezes pela manhã, três à tarde, duas à noite, bebo litros de sopa tônica, de leite... Não sei pra onde vai tanta comida!Emily sai da banheira e se enrola na toalha. Yul segue cada um de seus passos, absorvendo o máximo que pode. A boca se enche da água que escorre por seu corpo. Engole ruidosamente.
Emily sorri.
- Sim, já dá pra ver aonde está indo tanta comida. Seu corpo já... Já está em forma novamente.
- Mesmo? – levanta.Emily dá um passo atrás. Pega outra toalha e seca o cabelo.
- Sim, já está em forma.
- Então, se acha que estou bem, podemos... Não é?
- O quê?
- Você sabe. – chega mais perto.
- Não, não se aproxime mais.Yul resolve não ouvir seu pedido dessa vez e se aproxima, decidido; olha bem dentro de seus olhos e retira gentilmente a toalha de sua mão. Deixa-a sem ação, presa em seu olhar. Inspira próximo à sua orelha. Ela fecha os olhos. Dá a volta e passa a toalha suavemente por sua nuca e ombros. A cada pedaço de pele seca, aproxima o rosto para sentir o odor. Não a toca. Apenas aproxima os lábios e o nariz, tão leve que faz seus pêlos se arrepiarem. Tira a toalha que a envolve. Seca suas costas. Ajoelha e seca o quadril e as pernas. Sobe por seu corpo, passando a toalha novamente, dessa vez, apertando suavemente em alguns pontos, como nádegas e cintura. Aproxima os lábios da pele em suas costas e sobe em direção à nuca, vendo os músculos se retraírem, seu corpo se contorcer. Fica de frente. Olha-a nos olhos e aproxima seus lábios dos seus. Não a beija. A boca entreaberta. Fecha os olhos e sente a penugem em seu rosto. Respira atrás de sua orelha deixando-a mais arrepiada. Seca seus ombros e braços. Volta e seca o colo, circunda os seios e depois de secos aproxima os lábios dos mamilos endurecidos, mordiscando-os quase sem tocar. O coração de Emily bate descompassado. Está ofegante. Yul seca seu ventre. Ajoelha e seca suas pernas. Levanta seu pé e o seca. O outro. Aproveita para olhar disfarçadamente entre as pernas e vê o brilho da umidade se manifestando. Sobe, ainda com a toalha nas mãos. Encosta o nariz nos cachos entre as pernas e inspira profundamente. Emily treme. Os olhos fechados. Sente sua respiração ali, onde há tanto tempo o deseja. Sente seus lábios entreabertos encostando em seu clitóris. Engole em seco. Afasta ligeiramente as coxas num pedido silencioso, oferecendo-se... Abre os olhos. Ele está em pé, tão perto que pode sentir o hálito quente. Agarra-o pela nuca e o beijo é sensual, lascivo, voraz. Yul a abraça e enrola a toalha em seu corpo. Olha dentro de seus olhos, o azul quase verde se misturando ao seu verde quase azul... Um meio sorriso. Vai embora.
Emily não acredita. Fica um tempo olhando por onde ele saiu. Está literalmente com as pernas bambas. Seu corpo se derretendo de desejo. Senta.
“Ok. Eu mereço.”
**********
Maio de 1943.
Chegam notícias de que cem mil alemães, sobreviventes do famoso Sexto exército do General Paulus, esfomeados e quase mortos de frio, parecendo uma horda de mendigos, rendera-se ao general Zhúkov em meio às ruínas da cidade de Stalingrado.
Yul sabe e o mundo inteiro sente nesse momento que o destino da guerra na Europa dera um giro de 180°. Dificilmente a Alemanha nazista se recuperará das perdas que sofreu nas estepes vizinhas do rio Volga. Fora como se um grande e mortífero aspirador sugasse meio milhão de homens, alemães e seus aliados, e todo o seu equipamento bélico, transformando tudo em trapos e destroços.Ouvem comentários de que o atual presidente americano enviara seu secretário de estado à Moscou, numa tentativa de organizar uma conferência entre os senhores do universo: ele próprio, Franklin Delano Roosevelt; o primeiro-ministro Winston Churchill e o generalíssimo Joseph Stalin, ditador da URSS.
Os chineses e todos os países ocupados pelas forças inimigas do Eixo esperam ansiosamente que essa reunião se concretize, mas Stalin protela. Tem um acordo de não-agressão mútua com os japoneses e participar dessa conferência pode parecer um ato hostil ao Império do Sol Nascente e o que os russos decididamente não desejam é abrir um novo front de guerra no Oriente, mais precisamente na Sibéria.
**********
Enquanto isso, na Mongólia, batedores trazem notícias de que uma pequena tropa nipônica está cerca de cinqüenta quilômetros a leste e se aproximando.
Contam com uma brigada suficiente para a defesa do acampamento, mas Yul não quer arriscar a vida de civis e ordena a Chang que leve o que têm para expulsá-los da área. Estão bem armados, possuem canhões de longo alcance, dez tanques e alguns blindados, além de excelentes metralhadoras recém fornecidas por Altan juntamente com alguns veículos Bantan BRC 40, leves, com tração nas quatro rodas, capacidade de superar terrenos difíceis e transportar alguns homens e armamentos.
Coloca o acampamento em situação de prontidão para uma evasão rápida, se necessária.
Anoitece. Yul se prepara para o jantar quando um ruído chama sua atenção. Desconfiado pega silenciosamente suas duas pistolas e por uma fresta verifica o jardim. Num primeiro momento tudo tranqüilo; de repente dois homens surgem da sala de reunião carregando Emily amordaçada e com as mãos amarradas. Yul sabe que pode haver mais escondidos, entretanto não pode deixar que a levem; não pensa duas vezes. Sai de onde está e os ameaça.
- Parem aí mesmo.
Os homens param. Emily se contorce tentando se desvencilhar.
- Desamarrem-na.
Outro grupo entra por trás.
- Não Yul, meu querido. Você é quem deve largar suas armas agora, se não quiser que matemos sua queridinha aqui mesmo.
Yul reconhece a voz de Yoshiko.
- Vire devagar.
Yul se vira calmamente com os braços erguidos.
- Muito bem. Agora se comporte. – diz Yoshiko. – Tirem suas armas.
Dois soldados japoneses tiram as armas de suas mãos e o revistam.
- Como escapou?
- Digamos que contei com uma ajuda preciosa.Trazem Gantuul com os braços amarrados atrás.
- Essa tola achou que faço acordo com bárbaros. Hahahahaha.
Gantuul abaixa os olhos vermelhos. Tem no rosto um corte e alguns hematomas nos braços.
- Como pôde? – lhe pergunta Yul.
- Ah, não, não pense que ela o traiu, não, queria apenas se livrar da loirinha. – passa a mão no rosto de Yul. – Você está rodeado de imbecis, meu querido. - Faz um sinal para um dos soldados que conduzem Gantuul e ele lhe dá uma coronhada na cabeça deixando-a desacordada.
- Venha “grande Imperador chinês”. Vou levá-lo a um passeio bastante agradável. Pena que só consegui a sua passagem de ida... Para o inferno. Hahahahaha.
Dois carros os aguardam.- Já me tem. Deixe-a ir.
- Claro que... Não? Hahahaha. Estou me divertindo como há muito tempo. Ela é a garantia de que você vai se comportar como o bom menino que é.Amarram-no no teto do caminhão e obrigam Emily a sentar em um dos bancos.
- Muito bem, rapazes, amoleçam um pouco a vontade do “Imperador”. – ordena Yoshiko.Quatro japoneses se aproximam e usam seu corpo como um saco para seus socos e pontapés.
Emily, mesmo amordaçada, grita, em vão.
- Essa daí é meu presentinho para o general. Ninguém toca nela. – ordena. Desce e entra em um carro menor. Fogem em direção à Manchukuo.
Desesperada, Emily se joga sobre os homens. Seguram-na pelos cabelos e a arremessam de volta. Ao cair, desequilibrada, bate a cabeça e perde a consciência. Yul atinge o rosto do soldado com um pontapé. Os outros o seguram e o agridem com porretes.
Outro soldado retira a mordaça de Emily e a coloca de novo no banco.
Após uns vinte minutos Emily acorda. Há uma inchação endurecida e protuberante num lado da cabeça, provocando-lhe náuseas. Levanta o corpo e vê, horrorizada, a violência com que continuam a agredir sua amada indefesa. Tenta um movimento, mas o soldado que a vigia a empurra de volta ao banco com o cano duro do rifle. Impotente, cobre o rosto com as mãos.
Na estepe Chang é informado que inexplicavelmente o pelotão japonês retorna à fronteira com Manchukuo.
“Mas, o que é isso? Pense Chang. O que há por trás disso tudo? Claro! O acampamento! Queriam apenas nos afastar para resgatarem Yoshiko! O Imperador está em perigo!”
Grita a seus homens:
- Usaram de um ardil para nos afastarem do acampamento. Temos de voltar imediatamente. O Imperador está em perigo!“Como descobriram nossa posição?”
O pelotão volta o mais rápido que consegue. Cavalaria e jeeps competem em velocidade. Os veículos mais pesados vão ficando pra trás em meio à poeira.
Já se passou uma hora desde que foram capturados. Os agressores, cansados, fazem uma pausa.
O corpo longilíneo ainda pendurado balança conforme o movimento do veículo. Parece desacordado. Há cortes em sua cabeça e o sangue ainda escorre por seu rosto e cabelos. Sua roupa está rasgada em muitos pontos e dá pra ver o colete que usa, os cortes e as manchas vermelhas na pele.
Mais duas horas e o movimento monótono do carro faz os soldados menearem a cabeça involuntariamente, deixando-a pender; alguns realmente dormem.
Ao olhar novamente para Yul, Emily vê que ele a observa.
“Está viva! Está viva!” – pensa, feliz.
Ele lhe faz um sinal para que permaneça em silêncio e, apesar das caretas de dor, como um exímio contorcionista ergue suas pernas para o alto e enrola seus pés na corda que o prende. Com os dentes se desamarra e silenciosamente fica em pé, equilibrando-se com a ajuda da corda. Quando se sente mais forte para se equilibrar sem ajuda, dá um sinal e Emily levanta. Ele a alcança e juntos pulam do caminhão.
- Ai!
- Você está sangrando!
- Não há tempo pra ver isso agora. – desamarra-a. - Apenas corra, independente do que acontecer, corra, ouviu? O mais rápido que puder.Os soldados no caminhão gritam e atiram. O motorista do outro carro ao ouvir os tiros dá meia-volta e começa a perseguição.
Emily cai e Yul lhe dá a mão. Correm em ziguezague, tentando desesperadamente escapar dos disparos. Não há lua, apenas a claridade dos faróis dos veículos que estão cada vez mais próximos. Não há rocha ou uma elevação qualquer para escondê-los, não há nenhuma facilidade. Logo os alcançarão.
A distância entre eles e seus algozes já é suficientemente curta para o alcance dos tiros. Os veículos param e alguns soldados descem e enfileirados preparam-se para atirar. O Imperador apura seus sentidos e como em câmara lenta ouve os rifles sendo armados. Ouve também, ainda distante, o tropel de cavalos vindo em direção contrária. Será a salvação? Chegarão a tempo?
Em questão de segundos o primeiro cavalo passa por eles, veloz como o vento. Yul reconhece o garanhão malhado de Gantuul. Olha para trás e a vê, sob a luz dos faróis, atirando com seu rifle. Coloca-se na frente da linha de tiro, entre eles e os japoneses e lança o seu grito de guerra.
Yul grita.
- Gantuuuuul!!!!!!!Olha para Emily.
- Não posso deixá-la.Corre na direção do inimigo.
Emily grita.
- NÃÃÃÃÃO!!!!!!
Balbucia:
- Não me deixe!!!!
Foram muitos os tiros. Enquanto corre, desesperado, Yul vê Gantuul ser atingida, o sangue irrompendo pelas costas. O cavalo cai, ela é lançada à frente. Levanta, continua a avançar, atirando. Dezenas de disparos a atingem sacudindo seu corpo. Abaixa o braço. O rifle cai e aos poucos seu corpo desaba, encharcando a terra com seu sangue. Yul, finalmente a alcança, mas é atingido e cai sobre ela. Várias amazonas aparecem, saídas da escuridão e avançam sobre os japoneses. Alguns conseguem voltar aos carros e escapam.
No meio da confusão, da poeira e da fumaça provocada pelos tiros, Emily se aproxima lentamente. Um carro estaciona perto e ilumina a cena. Re-Di desce. Não acredita no que seus olhos vêem. Emily desmaia.
Chang finalmente chega ao acampamento e é informado que Yoshiko fugira e levara o Imperador e Emily como reféns. Não sabem explicar a presença de Gantuul, mas, o que importa é que tentou salvar o Imperador e foi ferida. Recuperada, acompanhou o pelotão das guardas do Imperador na operação de resgate e estão agora na estepe perseguindo o inimigo. Dão-lhe a direção e a tropa se dirige pra lá. No meio do caminho encontram-nos já voltando. Trazem o corpo do Imperador e de Gantuul. Emily tem os olhos perdidos no vazio.
Um dos líderes da Associação, ao vê-lo, o chama em separado e conversam por um longo tempo.
Ao voltarem ao acampamento, Chang Xi descobre que as seguranças que estavam de serviço foram surpreendidas na troca da guarda e tiveram suas gargantas cortadas. Ordena uma investigação rigorosa. Há muito que fazer e não pode simplesmente parar. Entrega a vida de seu melhor amigo e mentor nas mãos dos deuses e dos ancestrais.
Bill e sua família aguardam na ger do Imperador, mas são impedidos de entrar em seu quarto. Ali, apenas Re-Di e os líderes da Associação. Chang chama Bill para uma conversa particular. François e Xinram vão ao quarto de Emily, que já recebe os primeiros cuidados da Senhora Yan Guifeie e algumas jovens. Limparam o corte em sua cabeça e aplicam um emplastro para diminuir o inchaço.
Sophie chora no colo de Gu Xiulian.
- Pelos ancestrais! Como isso aconteceu? – pergunta Xinram.Emily chora incessantemente.
- Eles bateram tanto, tanto... Pensei que ela... - soluça - Mas, num descuido conseguiu se desamarrar e fugimos.
Soluça.
- Quando tudo parecia perdido, Gantuul aparece... – geme e soluça. – Ann voltou pra ajudar e... E... Oh Xinram... EU NÃO VOU AGÜENTAR VIVER SEM ELA! NÃO VOU! – se desespera. Levanta para sair do quarto, mas Xinram e a Senhora Yan Guifeie a seguram e tentam acalmá-la.
- AHHHHH! EU A QUERO AQUI, AGORA!!!!Luta pra se desvencilhar, mas, o desespero e a sensação de impotência são tamanhas que a levam a uma crise convulsiva e perde a consciência em seus braços.
Sophie grita e tenta escapar dos braços de Gu Xiulian.
- Mamãe! Mamãe!François, os olhos vermelhos, a pega no colo.
- Está tudo bem irmãzinha. Sua mamãe vai ficar bem. Nós estamos aqui pra ajudar.Sophie chora e tenta se soltar.
- Eu quero minha mãe!
- Calma! Calma! Você vai ficar com ela.
- Traga-a aqui François. – pede Xinram.François a coloca ao lado da cama e Sophie imediatamente sobe e a abraça. Não sabe como puderam machucar sua mamãe, mas ela está sofrendo muito e vê-la assim faz com que sofra também.
- Cadê a titia?
- Ela... – Xinram não consegue completar a frase.
- Ela foi pegar quem fez isso com sua mamãe. – diz Gu Xiulian.
- Tomara que bata bastante neles!Chora até dormir. Todos choram. Gu Xiulian fica no quarto para quando Sophie acordar. Ninguém sabe muito bem o que fazer. As jovens e as demais funcionárias da casa estão reunidas em frente ao altar dos ancestrais. Ninguém esconde o medo. Pelo que foram informadas são graves os ferimentos do Imperador. A Senhora Yan Guifeie espera que alguém as chame para providenciar alguma coisa quando se lembra que têm de preparar algo para servir, ao menos um chá para os anciões reunidos com Chang e Bill no escritório. Chama a cozinheira e suas ajudantes e saem para cumprir com suas obrigações. Talvez esta seja a última vez.
Ainda essa noite todo o pelotão da guarda pessoal do Imperador desaparece. Chang as enviou na captura de Yoshiko. Ninguém melhor que elas para vingar Tianlong.
*************
Amanhece. Ninguém dormiu. Nos fundos da ger, que se abre para a estepe, cerca de cinco mil pessoas passam a madrugada acordadas, orando, à espera de algum milagre que salve a vida do grande Tianlong.
O milagre não vem. Chang encontra Mizuki na sala de reunião e, abraçadas, choram a perda daquela que com elas dividiu tudo.
- Ainda tenho muito que fazer.
- Hum, hum.
- Vai ficar bem?
Suspira.
- Vou tentar.Chang a abraça com carinho e beija levemente seus lábios.
- Já volto.
- Hum, hum.Por toda a casa se ouve um choro silencioso.
Lá fora, Chang sobe num pequeno tablado e fala à multidão.
- Sofremos uma perda irreparável. Graças a um traidor a vida de Tianlong escapou de nossas mãos.
Alguns na multidão gritam, outros choram, manifestando surpresa e comoção.
- Já descobrimos o culpado e responderá por seu ato vil.
O soldado é levado diante deles. Seus pais, surpresos, jogam-se aos pés dos anciões e pedem perdão à Associação e à comunidade por não terem sabido criar um homem honrado.
Chang se dirige ao soldado que se mantém cabisbaixo todo o tempo.
- Você foi julgado por alta traição e condenado à morte. Será executado antes do pôr-do-sol.
Ordena aos soldados.
- Tirem-no da minha frente.Volta-se para a multidão.
- Ontem, seis mulheres, cinco guerreiras Manchus e uma guerreira Mongol deram sua vida na tentativa de salvar o Imperador e receberão todas as homenagens que pudermos lhes prestar. Infelizmente, não sabemos quanto tempo temos antes de sermos atacados, pois descobriram nossa posição. Teremos de avançar até à Terceira Morada, onde, espero, possamos ficar até que nosso exército retorne com a vitória. Assim sendo, e até por uma questão de segurança, pois não queremos que seu túmulo seja encontrado e profanado, foi decidido pelo Conselho dos Anciões que nosso amado Tianlong será cremado amanhã, ao nascer do sol e suas cinzas jogadas ao vento e espalhadas pela estepe onde era seu desejo viver e morrer. Aquelas que morreram para defendê-lo o acompanharão em sua última jornada. Quanto a Gantuul, a jovem heroína Mongol terá seu corpo embalsamado e devolvido aos seus familiares para que a pranteiem e lhe dêem o devido e honrado sepultamento. – faz uma pausa. - Estejam prontos para iniciarem a longa viagem daqui a dois dias.
Folclore chinês - O cedro e o bambu
Uma grande dúvida se abate sobre todos no acampamento. Quem os liderará daqui pra frente? O futuro da etnia Manchu está ameaçado. Esperavam ver o Império Qing retornar com toda sua glória. Agora terão de se sujeitar ao vencedor e, seja ele comunista ou não, será com certeza um membro da etnia Han, a maior no país.
Chang vai ao quarto de Emily. Ali encontra Bill, Mizuki, Xinram e Re-Di.
- Como está?
- Terrivelmente abalada. Desespera-se cada vez que acorda, então, resolvi dar-lhe essas infusões para que permaneça dormindo por mais horas.
- É melhor que descanse bem. Deve estar presente à cerimônia de cremação amanhã pela manhã,
- É realmente necessário? – pergunta Xinram.
- Não é minha vontade aumentar seu sofrimento, mas, como explicar sua ausência ao povo? Eles querem ver e compartilhar sua dor. Sabem que é assim. É o ônus de pertencer à família imperial. Lamento.
- Nós estaremos lá. Seu irmão, seu pai...
- Sinto, mas ela terá de ir, mesmo que carregada. (...) Já começaram a embalsamar Gantuul? – pergunta a Re-Di.
- Sim. Precisaríamos de mais tempo para fazer um trabalho perfeito, entretanto, sob essas circunstâncias, creio que dois dias de preparação serão suficientes ao menos para a viagem até o acampamento de Choidog.
- Ótimo. – sai.Antes do pôr-do-sol, Chang conduz pessoalmente a execução do traidor. A multidão que assiste lhe dá as costas e Chang dá a ordem, erguendo a espada:
- Fogo!
Apenas um tiro. Na fronte. Seu corpo é deixado no campo, a uns quinze quilômetros do acampamento, para ser devorado pelas feras e abutres.
Durante toda a noite, a multidão reunida em volta da ger pranteia a morte do Imperador. Há muitos grupos, budistas e xamânicos orando e cantando suas músicas místicas e misteriosas. Velas e incensos são acesos, dentro e fora da casa.
Nas primeiras horas do dia, o corpo de Tianlong e das cinco soldadas, enrolados em faixas de tecido e vestidos em seus melhores uniformes - o Imperador em seu traje de general supremo do exército - são levados ao campo para a cremação. Enquanto passa, solenemente carregado por Chang, Bill e alguns oficiais, as pessoas jogam flores no chão e sobre seu corpo. A procissão é longa e Emily, amparada por Bill e Xinram, excessivamente dopada, caminha trôpega e infeliz, ora chorando, ora apenas gemendo e suspirando, ora gritando ao mundo sua dor. Todos entendem seu sofrimento e também choram, solidários.
Colocam os corpos nas grandes piras e os embebem em líquido inflamável. Antes de acendê-las alguns discursam. Poetas, pintores, escritores, músicos, comerciantes e um dos conselheiros da Associação.
Chang é o último.
- Hoje é o dia mais triste de minha vida. Perdi um amigo, o meu melhor amigo; alguém com quem tive a felicidade de lutar lado a lado contra a tirania e violência de invasores inescrupulosos. Um homem simples, cujo maior desejo era cavalgar livremente pelos campos e pradarias de seu país. Um guerreiro como poucos; sábio, justo e viril. Aquele a quem eu e muitos podemos chamar de irmão. Aquele que liderou homens com uma vontade de ferro e serviu de inspiração e exemplo para cada um. – aperta os olhos com a mão na tentativa de impedir as lágrimas. - Tive a felicidade de conhecer e servir ao verdadeiro e último Imperador da dinastia Manchu: Yul Aisin-Gioro. A China jamais conhecerá outro Imperador como Tianlong, o último de sua espécie, um guerreiro que acima de tudo viveu e morreu com honra e coragem.
Seca as lágrimas que teimam em escorrer por seu rosto.
Não se ouve um suspiro. De repente a multidão grita:
- TIANLONG! TIANLONG! TIANLONG! TIANLONG! TIANLONG! TIANLONG!
As piras são acesas. Uma salva de tiros de dez canhões assusta os animais no pasto. Emily desfalece e é levada de volta à ger.
Sophie está brincando na casa de Bill com François e Gu Xiulian. Resolveram não lhe contar nada, por enquanto. Esperam pela recuperação de sua mãe.