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Capítulo 3

 

 

 

 

Sentada numa cadeira com os pés confortavelmente instalados cruzados em cima da mesa, Lara ria por dentro enquanto observava a movimentação de Evelyn para lhe preparar o jantar. A loira estava de costas pra ela fritando ovos. Que belo traseiro! Continuou a contemplá-la quando ela se virou e foi até o armário pegar pão para fazer torradas. Que seios! Lindos! Que cinturinha mais bem feita! E que quadril mais perfeitinho, arredondado! E esses olhos tão verdes... Seria possível que estivessem ainda mais verdes e mais brilhantes? Não... O certo é que nunca havia reparado antes, nunca havia se perdido no verde mar desse olhar.

Realmente, Evelyn não era mais a mesma... Dez anos foram mais do que suficientes para fazer aquela menininha magrela e sem graça se transformar nessa mulher estupenda. Simplesmente deliciosa.

Mas infelizmente essa deliciosa e maravilhosa mulher se tratava de Evelyn Morgan, e se por fora era essa metamorfose, por dentro ainda conservava a alma pueril daquela menininha que havia conhecido desde que esta nasceu há vinte e três anos.

E ainda por cima era filha de seu grande amigo, Leonor, e tinha um trato com ele: Tentaria ficar amiga de Evelyn, ser amante estava fora de cogitação. Pena que a dona desse corpo tenha que ser Evelyn... Será complicado conseguir se manter relaxada perto de uma beleza dessas.

--- Está pronto --- disse Evelyn arrumando os pratos na mesa --- Aqui estão seus ovos fritos, seu bacon, suas torradas e seu café.

Lara estava petrificada olhando tudo aquilo. Não era possível! Ou Evelyn cozinhava muito mal ou havia aprontado mais uma das suas!

Os ovos estavam nadando em gordura, os pedacinhos de bacon estavam crus, as torradas todas queimadas.

A expressão de Lara era indecifrável. Sentia o olhar de Evelyn sobre ela, sabia que a loira estava esperando sua reação.

Saindo do transe em que estava, a morena pegou seu prato e se serviu de cada uma das coisas que a loira a tinha preparado. Também despejou um pouco do líquido fumegante negro em sua caneca. Tomou cuidadosamente o café. Estava amargo, extremamente forte. Engoliu com calma e depois comeu os ovos, as torradas, o bacon, enfim, limpou o prato.

--- Você cozinha muito bem Evelyn! --- disse a morena com falso entusiasmo

--- Co-Cozinho? --- a loira perguntou gaguejando, com evidente assombro

--- Tudo estava delicioso --- disse se levantando --- Me convida pra jantar outro dia. Fico com água na boca só de pensar em provar... --- a morena a olhou de cima a baixo e de baixo a cima --- Sua comida outra vez.

Encaminharam-se para a porta da frente.

--- Até amanhã, Evelyn --- despediu-se a tocando no braço

Evelyn se esquivou do contato da mão de Lara com uma fúria contida.

--- Espero não te ver amanhã e nem nunca mais Mc Gregor!

--- Pois eu espero vê-la amanhã e todos os próximos dias de minha vida --- piscou um olho pra ela e saiu pela porta e se perdeu na escuridão

Lara pegou sua carroça e rumava para sua fazenda enquanto não conseguia ordenar os pensamentos.

 

No dia seguinte pela manhã, Evelyn estava a caminho da fazenda de Lara Mc Gregor de carroça com seu pai. Estavam indo comprar um cavalo para ela, afinal não podia andar por aí a pé, tudo era muito longe da fazenda em que morava.

--- Pai, tem certeza de que temos mesmo que comprar o cavalo na fazenda de Mc Gregor?

--- Claro que sim, Eve! --- respondeu o pai --- Lara tem os melhores cavalos da região, puro sangue, tem exemplares belíssimos. Quero o melhor para a minha filha!

--- Pois o melhor pra mim seria não ter que olhar pra cara de Mc Gregor nunca mais!

--- Um dia, quem sabe, você muda de idéia...

Essa frase soou aos ouvidos de Evelyn como uma afirmação ao invés de uma pergunta. Não sabia explicar o porquê, mas não gostava do tom do pai quando se referia a ela e a Lara e a possibilidade mais do que remota de se tornarem amigas. Os deuses sabiam que isso é impossível. Como água e azeite, não dão pra misturar.

Estavam entrando pela porteira das terras de Mc Gregor, Evelyn reparou que tinha uma grande placa de madeira trabalhada onde se lia: "Fazenda Arco íris".

Eram terras vizinhas as suas, sabia que era muito maiores que as suas e que Mc Gregor possuía um grande haras, além de aproveitar os lucros de toda a colheita de sua terra, que sabia ser muito, ou seja, ela era uma pessoa rica.

--- Pai? Mc Gregor tem muito dinheiro...

--- Sim, ela tem. Muito mais que nós.

--- Então porque ela sempre se veste dessa forma? As damas usam vestidos! Lembro dela assim desde... Desde sempre! Por quê?

--- Sabe, minha filha... Lara é uma pessoa diferente, ela gosta de ser ela mesma, não finge pra agradar ninguém. No começo eu achava estranho, mas agora já acostumei que ela use calças. É uma mulher tão bonita... Se quisesse poderia se casar com o melhor partido de todo esse país.

Sim... Era verdade... Lara era... Linda! Como não tinha notado antes? Claro que já havia notado, mas agora parecia... Diferente. Como se estivesse acordando de um sonho e enxergando pela primeira vez a realidade: Lara era uma mulher mais que bonita, era estupenda, fenomenal... Toda essa ira contra ela esse tempo todo a cegou para as qualidades físicas da morena. Sim, qualidades físicas, porque não tinha mais nenhuma! Disso estava certa!

Evelyn avistou Lara ao longe, cavalgando em círculos dentro de um cercado, num lindo corcel negro.

Ao chegarem mais perto a morena notou a presença deles, desmontou e se direcionou para receber os visitantes.

--- Bom dia Leonor! --- cumprimentou o amigo e virou-se para a loira --- Evelyn, não me diga que veio convidar-me para o almoço! E que você vai cozinhar?!

Como resposta a loira abaixou a cabeça inquieta, o que não passou despercebido a Leonor.

--- Viemos comprar um cavalo para Evelyn --- disse ele a morena

--- Tudo bem, Evelyn, sinta-se a vontade para escolher qualquer um que queira --- disse indicando com o mão direita onde estavam os cavalo disponíveis

--- Gostei daquele lá --- disse apontando para o cavalo negro que Lara estava montando há pouco

--- Esse cavalo não está pronto Evelyn --- respondeu com tom profissional --- Está ainda sendo domado.

--- Mas eu quero este! E você o estava montando agora mesmo!

--- Exatamente, estou tentando domá-lo! Escolha qualquer um outro.

Muito a contra gosto, a loira escolheu um cavalo branco, também muito bonito.

--- Evelyn, hoje terá uma festa de confraternização entre meus peões e suas famílias --- Lara disse tentando fazer uma média com a loira --- Gostaria de vir a festa? É claro que todos de sua família estão convidados.

--- A que horas será a festa? --- Evelyn perguntou

--- Será às sete horas da noite.

--- Ah... Desculpe Mc Gregor ---respondeu com ironia --- As sete da noite eu costumo... Dormir.

--- Você não dorme tão cedo assim, Evelyn! --- o pai repreendeu --- Será bom para uma moça jovem e solteira vir a uma festa.

--- Pois realmente preciso dormir cedo, dizem que faz bem pra pele e evita rugas...

--- Evelyn, eu não poderei vir a festa --- falou Leonor --- Tenho compromissos na cidade vizinha, negócios. Desta forma você terá de acompanhar sua irmã e o noivo dela. Você sabe que os dois não podem andar sozinhos por aí antes do casamento.

--- Ótimo! --- Lara respondeu --- Estarei a sua espera, Evelyn. E também de sua irmã e de Rodolfo.

--- Está bem --- Evelyn respondeu a contra gosto --- Batalha perdida.

Um dos peões chegou chamando Leonor para conversar, ambos se afastaram um pouco deixando as duas sozinhas.

--- A batalha pode estar perdida --- disse a loira para a morena --- Mas a guerra só está começando.

--- Te espero as sete em ponto --- disse Lara ignorando a ameaça da mulher mais baixa a sua frente

Evelyn se virou com intenção de ir para perto do pai, mas Lara a segurou pelo braço e disse:

--- Evelyn... --- o tom era divertido --- Você não tem rugas... --- ergueu a mão e acariciou o rosto da loira --- E sua pele é perfeita.

Evelyn sentiu aquele olhar sobre ela de novo quando a ouviu proferir essas palavras. E de novo não pode identificar o que era. O que era esse olhar? Ficaram perdidas se olhando e só pararam porque Leonor chamou Evelyn para voltar ao casarão.

Um pouco sem graça, Lara percebeu que ainda mantinha o braço de Evelyn preso pela sua mão e a soltou de imediato.

Viu a loira girar o corpo novamente para ir embora e dessa vez não a impediu. Porque será que estava fazendo questão da presença de Evelyn na festa? Seria pelo trato com Leonor ou porque estava se apaixonando por ela? Claro que não! Que idéia mais estúpida! Se Evelyn tinha se transformado na mulher mais linda que já tinha visto, também conseguiu o mesmo mérito no quesito teimosia e infantilidade.

--- Porque diabos essa loira não esquece de uma vez por todas o que aconteceu há dez anos? --- se perguntou em voz alta

Pediu que um dos seus empregados preparasse o cavalo escolhido por Evelyn para que ela pudesse levá-lo de uma vez. Durante esses poucos minutos fez questão de se manter afastada da loira fingindo estar ocupada com assuntos da fazenda, precisava se concentrar ou estragaria todo o plano que Leonor traçara e a proximidade de Evelyn a deixava com raciocínio lento, dizia e fazia coisas não programadas para alguém que deseja conquistar a amizade de alguém. Porque ela a afetava tanto? Diabos!

Agora a vendo se afastar montada em seu cavalo novo, numa cela para mulheres, que era para se sentar de lado por causa do vestido, sentia uma coisa estranha no peito.

Desde que começara a se aventurar no mundo das paixões, Lara sabia que só tinha um jeito de esquecer uma mulher: Levando-a para a cama. Mas isso estava fora de questão. Evelyn era filha de seu grande amigo e iria fazer o possível para respeitá-la, em nome da amizade.

Tratou de tentar manter a cabeça longe da loira ao menos até a noite, até lá muitas coisas precisavam ser feitas. Ainda tinha um longo dia de trabalho pela frente.

 

Era quase sete horas da noite quando Rodolfo, o noivo de sua irmã passou para pegá-las em sua carroça. Evelyn estava usando um vestido amarelo claro que era apertado na cintura e possuía um decote generoso. Coisas da tia Emily, que sempre fazia questão de dizer-lhe que devia realçar o que Deus havia lhe dado. Seria o caminho mais fácil para o casamento. Por não querer discutir com a tia, Evelyn aceitava todos os seus presentes, não queria fazer desfeita, além do que realmente se sentia bonita quando bem arrumada, como estava agora. Seus cabelos estavam soltos e lhe caía pelas costas a dando um ar ainda mais jovial e atraente.

Ao chegar à festa, desceu da carroça em companhia do casal de noivos e seguiram para uma mesa de madeira que estava próxima a fogueira.

O local estava cheio de gente, homens, mulheres e crianças, estavam numa animação só e não parava de chegar mais gente ainda.

Havia alguns peões tocando uma canção dançante muito agradável e sem perceber Evelyn começou a mexer o corpo e a sorrir.

--- Quer dançar comigo, Evelyn Morgan?

A loira olhou pra cima e se deparou com nada mais e nada menos do que Richard! Como estava mudado! Não era mais um menininho, era um homem feito! E muito bonito, por sinal.

Levantou-se de imediato e o cumprimentou com um aperto de mãos.

--- Richard! Como está crescido!

--- O mesmo te digo, Evelyn... Está ainda mais bonita do que era...

--- Hahahaha... --- divertiu-se ela --- Como você é galante, Rich! Nós dois sabemos que beleza era uma qualidade que eu não tinha aos treze anos de idade! Hahahaha...

--- Não diga isso Evelyn! Você mais parecia um anjo! E agora... Está... Está...

--- Estou?

--- Simplesmente fenomenal!

Evelyn corou levemente e sorriu um pouco sem graça.

--- Você sempre conseguindo me deixar vermelha...

--- E você sempre conseguindo fazer meu coração bater forte...

 

Sentada sozinha num canto afastado, Lara não perdia nenhum detalhe da festa. Não era correto afirmar que a morena fosse anti-social, pois ela era muito extrovertida e tinha um certo tino para comandar pessoas, para ser líder, simplesmente não gostava de estar onde tivesse muita gente junta. O fato era que nessas ocasiões sempre acabava se irritando. Os homens que trabalhavam para ela a respeitavam, mas isso não queria dizer que não tentavam cortejá-la, mesmo os compromissados. Mas Lara era totalmente avessa à idéia de casamento, gostava mesmo era de mulheres e isso fazia com que não tivesse assuntos em comum com as damas da sociedade, muito menos com as esposas de seus empregados. Gostava mesmo era de conversar com Leonor e com Ramon, seus dois grandes amigos. Com eles sentia-se à vontade para jogar conversa fora e ser ela mesma, sem truques. O caso é que nenhum dos dois compareceu ao evento.

Dali de onde estava pôde ver com riqueza de detalhes o momento em que Evelyn chegou à festa acompanhada da irmã e do futuro cunhado. A viu se sentar numa mesa perto do fogo e agora observava Richard Jackson, que agora era um dos peões de sua fazenda, se aproximar dela. Por um motivo que não queria admitir, não estava gostando nada do que estava vendo. Viu que ela havia se levantado para cumprimentá-lo e agora estavam conversando.

Um filme passou em sua mente, dez anos atrás, a cena que pegou atrás do celeiro, Evelyn beijando esse rapaz.

Num ímpeto a morena se levantou decidida.