É amizade?

Mariah Galveia

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Capítulo 5





Estenderam a toalha quadriculada, típica de piqueniques perto do rio. Puseram o leitão, os pratos, copos e o vinho que Evelyn havia trazido, de forma que ficasse arrumado e pronto para comer.

Evelyn entendia cada vez menos essa mulher. Sentada a sua frente, Lara parecia ainda mais bonita com o sol batendo em seu cabelo dando um toque azulado e dando um brilho dourado a pele da morena. Os olhos azuis dela estavam mais claros do que nunca e um meio sorriso brincava nos lábios carnudos.

O que estava acontecendo? Porque Lara Mc Gregor cismou de ser amiga dela? Começaram a comer em silêncio até que Evelyn não agüentou a curiosidade e resolveu perguntar:

--- Lara, porque você comprou meu leitão?
--- Porque eu quero almoçar com você.
--- Você enfrentou meia cidade, mudou anos de tradição... Sempre consegue tudo o que quer?
--- Geralmente --- disse a morena levando o garfo a boca
--- E o que você quer de mim?
--- Sua amizade --- respondeu sinceramente para sua própria surpresa --- Hum... Isso aqui está uma delícia! Não é que você sabe cozinhar! --- disse lhe piscando um olho
--- Por quê? Porque quer a minha amizade e não a de outra garota qualquer?
--- Por que... --- tentou pensar rápido --- Porque você chegou de outra cidade depois de passar tantos anos. De certo que tem muitas experiências novas pra contar. Gosto de pessoas vividas...
--- Pois a verdade é que não sou vivida... --- disse a loira baixando o olhar, meio triste
--- Como não? Foram dez anos morando na capital!
--- Eu não saia muito... É claro que visitei museus, óperas, teatros. Mas o fato é que eu não... Fiz nada mais do que essas saídas esporádicas e sempre acompanhadas da tia Emily.
--- Quer dizer que nunca mais chegou a beijar ninguém depois do episódio no celeiro? --- a morena a perguntou admirada

Evelyn tomou um gole do vinho em seu copo e respondeu:

--- Em outras palavras... É isso mesmo --- admitiu
--- Então o que diabos ficou fazendo na capital esse tempo todo?
--- Estudando. Preparando-me para ser a professora dessa cidade.
--- E quando começará a trabalhar?
--- Daqui a uma semana as férias acabam e começarei.
--- Então você gosta de lecionar?
--- Creio que sim, na verdade será meu primeiro emprego. Sempre foi meu sonho ensinar as crianças a ler e a escrever. E agora sei que não há melhor lugar para exercer essa profissão maravilhosa do que aqui em Charleston.
--- Eu não agüentaria um bando de crianças berrando por horas nos meus ouvidos! --- disse em tom brincalhão e se pôs a gargalhar ---Hahahaha...
--- Ossos do ofício! --- riu também --- Hahahaha...

Quem as olhasse nesse instante e as visse rindo juntas juraria que eram verdadeiras amigas de infância. Pararam de rir e sem notar perderam-se no olhar uma da outra. Emudeceram como que por encanto.

--- Você não pensa em se casar, Evelyn? Quer ser professora...
--- Quero ser independente financeiramente, além de que não quero virar um bibelô de estante. Se eu me casasse teria que ser com alguém que entendesse essa minha necessidade de me sentir útil.
--- Uau! Isso é o que eu chamo de mulher decidida! Hahahaha...
--- Hum... Devo tomar isso como um elogio?
--- Sim, deve porque é um elogio --- Lara respondeu sorrindo
--- E você, Mc Gregor? Não pensa em se casar?
--- Não.
--- E porque não?

Antes que Lara pudesse responder a pergunta de Evelyn, ouviram gritos apavorados de uma criança vindo do rio. Levantaram-se nervosas a procura do dono da voz.

--- Socorro! Socorro!

Era um garotinho que se encontrava no rio lutando para manter a cabeça acima do nível da água. A correnteza forte o estava levando.

Mais que rapidamente Evelyn viu Lara pular na água com a postura de uma sereia. A morena nadou batendo os braços fortes, mas a essa altura a criança já havia sumido das vistas delas e de toda a multidão que se aglomerava em volta do rio para ver o resgate.

Lara mergulhou e se demorava embaixo da água vários segundos.

A mãe da criança gritava e chorava sem parar, totalmente desesperada:

--- Salve meu filho! Por favor!

Evelyn estava trêmula, nunca tinha visto uma criança nesse nível de perigo antes. Correu para perto da mãe do garoto e tentou consolá-la:

--- Senhora, fique tranquila. Tenho certeza que Lara o trará são e salvo.

Quando Lara retornou do mergulho estava com o garotinho nos braços, visivelmente desmaiado. Nadou contra a correnteza forte até a margem do rio. Uma vez fora da água pôs a criança no chão e começou a fazer boca a boca numa tentativa desesperada de salvar a vida da criança.

--- Meu filho não pode morrer! --- a mãe gritava desesperada
--- Calma, Senhora --- Evelyn tratava de tranquiliza-la --- Dará tudo certo, a Senhora verá.
Pouco tempo depois o garoto acordou, tossiu e expeliu água pela boca. A multidão aplaudia e urrava.

A mãe apertou o filho nos braços com força e o beijava sem parar.

--- Meu filho! Você está bem, meu amor?

A criança dizia que sim balançando a cabeça.

As pessoas em volta da cena não acreditavam no que seus olhos viam. Parecia um milagre. Alguns ainda choravam pelo susto, enquanto outros sorriam felizes e diziam agradecimentos para a mais recente heroína da cidade.

Evelyn emocionada correu para perto da morena, a abraçou sem se importar que seu vestido estivesse molhando com o contato, enquanto sussurrava ao ouvido da morena:

--- Você foi maravilhosa, Lara!

Como resposta sentiu os longos braços da morena em volta do seu corpo, num contato gostoso. A morena alisava suas costas com carinho. A principio foi um abraço terno, gentil. Depois a loira sentiu um tremor no corpo de Lara. Associou a reação da morena pela roupa molhada. A soltou, mas ainda manteve uma mão sobre o braço dela.

--- Precisa trocar essa roupa --- disse para a morena com tom zeloso --- Você está com frio e pode acabar pegando um resfriado. Vá pra casa.
--- Não estou...
--- Lara! --- a interrompeu --- Nem sempre a última palavra tem que ser sua!
--- Sim, a última palavra tem que ser minha --- disse ela sorrindo afetuosa --- Você dá a ordem e eu digo tudo bem.

Sorriram uma pra outra com afeição.

Ao chegar ao seu casarão, Lara sacou a roupa molhada e tratou de preparar um banho morno para lavar a água barrenta do rio.

Sua mente estava um turbilhão de emoções. Quando abraçou Evelyn teve que admitir: Estava perdidamente apaixonada por ela. Foi incrível sentir o contato da pela da loira junto a seu corpo. O cheiro do cabelo loiro dela. O sorriso. Naquele instante o mundo parou, era como se Evelyn tivesse nascido para pertencer a ela e àquele abraço. O desejo que sentiu pela loira foi tão intenso que sentiu um tremor por todo o corpo.

Sabia que não era um simples desejo, como o que sentia pelas mulheres que costumava levar pra cama, era algo mais além, uma vontade de protegê-la, de tê-la por perto, mesmo que fosse apenas para olhá-la.

Sim, o que sentia por Evelyn era tão forte que apenas o simples ato de poder olhá-la a enchia de alegria. Agora tudo fazia sentido, claro como água. É por isso que andava fazendo questão da presença dela em todos os eventos, na festa de confraternização, no piquenique...

Meteu-se dentro da tina e sentiu que o desejo tomava conta dela mais intensamente. Lembrou do andar de Evelyn, e do balanço que as ancas dela faziam a cada passo que dava. Fechou os olhos com força para afastar a imagem de sua cabeça, mas tudo que viu foi a curva dos seios da loira, imaginou como seria tocá-los, beijá-los, sugá-los... Sem pensar pôs a mão direita entre as pernas e começou a se acariciar. Devagar. Gemeu. Pensou na boca dela na sua, fantasiou que se beijavam... Imaginou a barriga dela, o umbigo, as pernas, o traseiro descoberto, as mãos dela a tocando... Mais forte. Mais rápido.

--- Ah... Evelyn... Ah... --- gemia com loucura

Sentia que iria chegar ao clímax e massageou seu sexo mais intensamente enquanto cenas de Evelyn nua numa cama com ela reinavam em sua mente. Por fim relaxou o corpo totalmente. Sua respiração foi se acalmando. Abriu os olhos, apesar de estar dentro da tina estava com muito calor.

--- Oh diabos, Evelyn! Você vai me enlouquecer!

Lara terminou o banho e se vestiu. Era tarde, quase oito da noite. O que faria agora? Justo agora quando por fim pareciam ter se entendido... Não podia seguir bancando a amiga quando seu corpo ansiava pelo dela... Mas também não podia se afastar, não teria forças pra ficar longe de loira. O que fazer?

Foi para a cozinha e preparou algo pra comer. Embora tivesse muitos empregados, fazia questão dela mesma cozinhar suas refeições noturnas, mesmo que fosse péssima cozinheira, não gostava de ninguém perambulado por sua casa depois do anoitecer, gostava da noite e gostava da solidão que ela lhe trazia. O problema era que depois de hoje sabia que suas noites não seriam mais tão apreciadas juntamente com toda a solidão que a tomava a cada pôr do sol. A única coisa que queria agora era a presença de Evelyn junto a ela.

--- Droga! --- praguejou

Resolveu dormir pra ver se acalmava seu espírito. Amanhã seria um longo dia de trabalho. Deitou-se em sua cama enorme e confortável, mas tudo o que fez foi rolar de um lado para o outro. Desejou poder compartilhar a cama com a loira, não só pelo sexo, mas porque deveria ser maravilhosa a sensação de poder dormir com ela em seus braços, aspirando o cheiro daquele cabelo, fazer carinho.

--- O que é isso, Lara? --- perguntou a si mesma irritada --- Você nunca foi dada a romantismos!

Sabendo que não conseguiria dormir, levantou-se, vestiu uma calça jeans surrada, uma blusa de flanela xadrez e saiu rumo ao celeiro.

Abriu a baia onde se encontrava o corcel negro que Evelyn havia desejado e o puxou para fora, levando-o até o cercado. O selou e o montou. Fez movimento indicando o cavalo para ele andar, o animal empinou e relinchou feroz. Lara se segurou nas rédeas para não cair.

--- Calma... Calma garoto!

Deu tapinhas reconfortantes no pescoço do cavalo e o alisou.

--- Bom garoto...

Refez o movimento que indicava o cavalo para andar e dessa vez ele obedeceu.

Começou a correr em círculos, presos dentro do cercado. Depois de muitas voltas, a morena o impulsionou a pular o cercado, ele o fez com maestria própria de um cavalo campeão de saltos.

Galopou pela noite escura, observada apenas pelas estrelas, numa velocidade estrondosa.

--- Yah! Yah!

Incitava o cavalo a correr cada vez mais.

Inconscientemente, Lara galopou até os limites de sua fazenda com a dos Morgan. Saltou com o cavalo por cima da cerca divisória e foi amainando a cavalgada.

Uma vez dentro da propriedade dos Morgan, Lara marchou com seu cavalo silenciosamente para frente da janela de onde sabia ser a do quarto do Evelyn.

Manteve-se ali, em silêncio, ainda sobre o cavalo negro, como se esperasse uma aparição da loira na sacada, ou na janela.

A cortina do quarto de Evelyn estava entreaberta, dava pra ver algo de iluminação dentro do quarto. Será que ela ainda estava acordada? Claro que não! Já é tarde...

--- Diabos! --- praguejou baixinho --- O que eu estou fazendo aqui? --- disse para o cavalo --- Vamos embora, garoto.

Puxou a rédea do cavalo em sentido contrário da janela de Evelyn e se preparou para ir embora. Cavalgou poucos metros, puxou as rédeas para o cavalo parar novamente e olhou pra trás, novamente para a janela de Evelyn.

--- Boa noite, meu amor. --- desejou baixinho

Estava se preparando mentalmente para ir embora quando para sua surpresa a loira apareceu na sacada de seu quarto. Seus olhos se cruzaram e por um instante foi como se o mundo tivesse parado, nada mais importava, nada mais existia, apenas elas duas.

Lara sorriu por puro instinto e recebeu de volta o mais lindo dos sorrisos que já tinha visto nos seus trinta e quatro anos de vida. Os olhos verdes de Evelyn pareciam sorrir junto com seus lábios, sua expressão doce provocava um leve franzimento no narizinho bem feito.

 

 

Capítulo 6

 

Vestida numa camisola branca de tecido fino, quase transparente, que lhe chegava até os pés, Evelyn se sentou em frente à sua penteadeira e se pôs a escovar seus longos cabelos loiros.

Era tarde e já deveria estar dormindo há tempos, mas havia algo dentro dela que parecia crescer a cada instante, embora nem ela mesma soubesse explicar o que exatamente.

Ao tentar analisar o que sentia, ficou satisfeita com a explicação de que estava muito feliz porque descobriu em Lara Mc Gregor uma pessoa maravilhosa, uma pessoa que ela gostaria de ter por perto o resto da vida. Como pôde passar tantos anos odiando a mulher mais corajosa e generosa que já tinha visto? Hoje a tarde durante o incidente no piquenique ninguém se dispôs a pular no rio de correntezas fortes para salvar o garotinho, apenas Lara o fez! Arriscando a própria vida! Era uma verdadeira heroína! Uma mulher admirável!

--- Ah... --- suspirou sem perceber

Evelyn sentiu calor repentinamente. Sabia que não poderia dormir com o que estava sentindo. Queria mesmo era poder conversar com Lara de novo. Desejou que o dia amanhecesse logo para que pudessem se ver.

Quando se olhou no espelho da penteadeira e se deu por satisfeita largou a escova e se levantou, mas ao invés de ir para a cama foi até a sacada tomar um ar. Estava realmente com calor.

Abriu a porta e penetrou no ar da noite. Nem a brisa fresca a estava ajudando matar o calor forte que sentia. Olhou em volta, estava muito escuro, quase não enxergava nada. Ouviu um barulho, olhando mais atentamente pôde divisar a sombra de uma figura conhecida. Sorriu com felicidade. Lá estava Lara Mc Gregor.

Fez um sinal para que ela lhe esperasse. Desceu a escadaria do casarão sorrateiramente para não acordar ninguém. Abriu a porta da sala e foi até onde estava a morena.

--- Além de falar sozinha, você também é sonâmbula, Mc Gregor? --- Evelyn disse em tom de brincadeira

A morena desceu do cavalo e a abraçou.

--- Eu não pude dormir... --- Lara respondeu um pouco envergonhada
--- E porque não?
--- Porque fiquei com saudade de você.

Evelyn sorriu abaixando a cabeça, mas teve valor suficiente para olhá-la nos olhos e dizer:

--- Eu também senti sua falta, Mc Gregor.
--- E por isso está acordada?
--- Sim... É bom você estar aqui. Estava desejando poder conversar com você.
--- Estava?
--- Sim....
--- E por quê? --- a morena perguntou --- Porque sentiu minha falta?
--- Não sei... Eu... Eu só queria poder estar com você de novo... Quero ser sua amiga, Mc Gregor.

Lara a olhava com aquela já tão conhecida intensidade.

--- Então comece me chamando pelo meu primeiro nome --- sugeriu a morena sorrindo
--- Está certo... Lara --- disse a loira também sorrindo
--- Bem melhor!
--- Hei! --- Evelyn disse se aproximando do cavalo para acaricia-lo --- Esse aí não é aquele corcel negro que eu queria comprar?
--- Ele mesmo! --- a morena respondeu sorrindo --- Estou domando-o. Parece que ele gostou de você!
--- Ele é tão bonito! --- disse a loira encantada
--- Sim, é --- fez uma pausa e continuou --- Ele é um ótimo exemplar de quatro patas.
--- Lara --- a loira deixou de acariciar o cavalo e se pôs de frente para a morena --- Podemos nos ver amanhã?

Lara sorriu.

--- Que tal se almoçarmos juntas novamente?
--- Claro! A que horas?
--- Passo aqui pra te buscar meio dia.
--- Não precisa se incomodar, já tenho o meu cavalo, posso ir sozinha.
--- Não quero você andando sozinha por aí, pode ser perigoso.
--- Hahahaha... --- Evelyn riu com gosto --- Desculpe... Mas você sabe que não é perigoso, Lara!
--- Sempre é perigoso deixar uma moça bonita sozinha.

Evelyn corou violentamente.

--- Acha que sou bonita? --- perguntou mais para si mesma do que para a própria Lara
--- Se você é bonita? Você é simplesmente a mulher mais bonita que já vi na vida!

Agora Evelyn estava não só vermelha, mas também trêmula e não soube identificar o porquê, só que estava gostando. Como não soube o que responder se manteve quieta. Lara foi a primeira a quebrar o silêncio:

--- Não precisa ficar tímida... Por acaso não está acostumada a ouvir elogios?
--- Sim, estou. --- admitiu acanhada
--- Então por que todo esse rubor?
--- Porque nunca recebi elogios de uma mulher tão bonita como você. Acho que é por isso.
Lara acariciou com a mão direita o rosto de Evelyn.
--- Pois então se acostume, porque você tem muitas qualidades e estou disposta a elogiar cada uma delas para o resto de nossas vidas.

Evelyn sorriu.

--- Evelyn, agora tenho que ir, está muito tarde.

Montou no cavalo negro e a olhou novamente.

--- Até amanhã, Evelyn.
--- Até amanhã, Lara.

A morena foi embora num galope veloz e Evelyn a ficou olhando até que ela sumisse de sua vista.

--- Lara... Lara...

Saboreava o nome em sua boca. Como era gostoso a chamar de Lara.

Voltou para o casarão, rumo a seu quarto. Agora sim poderia dormir.

Depois de uma noite povoada de sonhos, cuja personagem era uma alta morena dona de um par de olhos incrivelmente azuis, Evelyn acordou ainda mais feliz. Levantou-se, tomou banho e vestiu um lindo vestido branco com detalhes em vermelho. Era cedo, talvez cedo demais para que a loira já estivesse de pé, mas estava ansiosa em demasia para permanecer dormindo. Mesmo sendo cedo não era a única pessoa se movimentando na casa. Sua avó acordava às cinco da manhã diariamente para preparar o desjejum para que Leonor pudesse ir trabalhar.

Evelyn desceu e tratou de arrumar algo para fazer antes que enlouquecesse de ansiedade. Não tinha fome para tomar café da manhã.

--- Porque nunca aprendi a tricotar?! --- se perguntou
--- Nunca aprendeu porque nunca foi dada a afazeres domésticos além de cozinhar --- respondeu a avó dela entrando na sala e sentando-se no sofá em que ela se encontrava --- Mas se quiser ainda posso te ensinar.

O que tinha a perder?

--- Tudo bem.
--- Ótimo, vou pegar minha sacola de lã e agulhas.

Pouco tempo depois a idosa voltou a sentar-se com a neta trazendo com ela apetrechos para a aula que daria a neta.

--- Qual dessas cores você quer?

Ali tinhas várias cores e tons: Vermelho, amarelo, verde e inclusive a cor favorita de Evelyn: Rosa. Mas a loira acabou escolhendo um tom de azul idêntico aos olhos de Lara.

Ficaram combinadas que Dona Hilda ajudaria Evelyn a fazer um suéter. Enquanto trabalhavam conversavam:

--- Parece que as coisas entre você e Lara melhoraram.
--- Sim, nos entendemos. Descobri que Lara é uma pessoa maravilhosa. Ela é doce, gentil, corajosa...
--- Fico feliz que tenham ficado amigas.
--- Ela virá buscar-me hoje para almoçarmos juntas em sua casa.
--- Quem virá te buscar? --- Leonor que havia acabado de chegar ouviu a última frase e perguntou
--- Bom dia, pai. --- disse Evelyn --- Lara virá me buscar.
--- Que maravilha! --- disse ele feliz --- Enfim ficaram amigas?
--- Tinha razão sobre ela, papai... Depois de conversarmos um tempo vi que ser amiga dela é tudo o que eu poderia desejar.
--- E pra onde vão?
--- Vamos almoçar na fazendo dela.
--- Evelyn... --- disse ele abismado olhando para o tricô nas mãos da filha mais velha --- Você está tricotando?
--- Sim, estou. Dessa forma o tempo passa mais rápido. Acabo de descobrir uma terapia --- falou sorrindo
--- Vocês mulheres são estranhas! --- respondeu ele sorrindo também --- Bom, preciso voltar ao trabalho, só vim pegar umas ferramentas.

Realmente o tempo passou mais rápido. Quando viu que já era quase a hora de Lara chegar, a loira voltou ao espelho, alisou o vestido, colocou um par de brincos de ouro e foi para a varanda esperar.

Momentos depois a morena surgiu. Evelyn sentiu que seu coração batia mais forte. Ponderou que era devido a vontade que tinha de conversar com sua nova melhor amiga.

--- Oi Evelyn! --- a morena a cumprimentou descendo se seu cavalo --- Dormiu bem?
--- Depois que te vi dormi como um bebê. E você?
--- Divinamente... --- disse a olhando novamente com aquele olhar --- Vou selar seu cavalo para que possamos ir até minha fazenda almoçar.

Seguiram para o celeiro e Lara selou o cavalo da loira.

--- Queria montar como você, numa sela de homens. Odeio ter que cavalgar de lado.
--- Mas Eve, --- disse a morena rindo --- Não da pra montar de pernas abertas de vestido!
--- Sim, eu sei... Qualquer dia também vou por uma calça e sair por aí cavalgando de pernas abertas, só para ver como é!
--- Um dia... --- respondeu a morena para a loira --- Mas hoje irá de lado mesmo. Vamos, senão o almoço irá esfriar.

Chegaram a Fazenda de Lara, desmontaram e foram para a sala de jantar. Para o delírio de Evelyn, a mesa já estava posta e o prato principal era simplesmente o seu prato predileto.
Sentaram-se à mesa.

--- Lara, que delícia! Frango assado recheado com tomates verdes fritos! Essa é...
--- A comida que você mais gosta! --- a morena disse a cortando --- Eu sei...
--- Sabe?--- perguntou curiosa --- Como assim, sabe?
--- Digamos que um passarinho me contou. Então resolvi que esse seria o prato principal do nosso almoço. Queria te agradar.
--- Você fez isso só pra me agradar? --- perguntou a loira lhe brindando com um daqueles sorrisos encantadores que franziam nariz dela
--- Culpada! --- riu com doçura ---Vamos comer?
--- Por favor! --- riu também

Serviram-se e começaram a comer.

--- Eu não sabia que você além de ser linda, de carregar essa fazenda praticamente nas costas e de ser heroína nas horas vagas também tem dotes culinários...
--- Não tenho...
--- Não tem? Então não foi você quem preparou esse almoço?
--- Bom... De cozinha eu entendo é de comer! --- tentou não rir --- Hahahaha... --- não pôde segurar a gargalhada
--- Hahahaha... --- Evelyn gargalhou junto

Após o almoço Lara a convidou para ir conhecer um pouco mais de sua fazenda.

Caminharam a pé por dois km e chegaram num campo florido muito bonito. Sentaram-se na grama a sombra de uma enorme árvore se recostando no tronco da mesma.

--- Eve... Esse é o lugar que venho quando preciso ficar só. Aqui ninguém me encontra.
--- Esse lugar é muito bonito.
--- Sim, é bonito... Sinto uma paz cada vez que venho aqui.
--- Lara?
--- Hum?
--- Obrigada.
--- Pelo que? --- perguntou sem entender
--- Por confiar em mim me trazendo no seu lugar secreto.
--- Sempre que vinha aqui eu pensava no dia que traria alguém que fosse tão especial a ponto de mostrar esse lugar. Você é a primeira pessoa que trago aqui.
--- Sou? --- riu de novo franzindo o nariz --- É estranho...
--- O que é estranho, Eve?
--- Há poucos dias eu te odiava e agora...
--- E agora o que sente?
--- Eu gosto muito de você.
--- Eu também... --- disse a morena omitindo a amplitude de seus sentimentos pela amiga
--- Lara?
--- Hum?
--- Desculpe-me.
--- Pelo que?
--- Por ter roubado sua carroça na Estação de trem e ter te feito caminhar por muitos km a pé; por ter te deixado sem almoço e sem jantar e ainda ter cozinhado mal de propósito só pra não dar o braço a torcer... Enfim, por ter sido tão infantil todo esse tempo...
--- Não Eve, eu é que tenho que pedir desculpas. Eu não deveria ter me metido no episódio do celeiro. Você já era uma mocinha e tinha o direito de beijar o rapaz que escolhesse e eu atrapalhei tudo...
--- E me deu um tapa no bumbum! --- disse fazendo beicinho
--- Hahahaha... E ainda te dei um tapa no bumbum! Hahahha...
--- Então estamos quites?
--- Totalmente!

Ficaram em silêncio por um momento se olhando, Lara não resitiu e acariciou os cabelos da loira, que se chegou mais perto e deitou a cabeça no colo da amiga.

Lara não queria romper o contato, então do cabelo passou para o rosto. Ficou fazendo círculos pela bochecha de Evelyn, que acabou adormecendo ali, com a cabeça apoiada no colo da morena.

Lara olhava para ela em estado de encantamento, começou a passar os dedos em volta da boca de Evelyn. Aos poucos foi sentindo o sono tomar conta de seu corpo também. Adormeceu.

Duas horas depois Evelyn despertou e a primeira coisa que viu foi o rosto de Lara. Ela estava dormindo. Descobriu que estavam de mãos dadas e gostou. Levantou a cabeça do colo da morena e se sentou ao seu lado a olhando. Como podia ser tão linda? Mesmo que não se vestisse como uma dama, não importava... Nada seria capaz de tirar a beleza de Lara. Sentia um carinho tão grande por ela, uma vontade de ficar o tempo todo perto dela. Não tinha como explicar.

Sem perceber levou a mão até a face da amiga e acariciou levemente, porém foi mais que suficiente para que ela acordasse.

--- Eve... --- a morena proferiu meio sonolenta
--- Oi, Bela adormecida! --- respondeu sorrindo

Ficaram se olhando sem dizer palavra, aliás, isso já havia se tornado uma constante entre as duas. Simplesmente sabiam que há momentos em que as palavras sobram, os olharas dizem por si só.

Enquanto Lara tinha plena consciência da vontade louca que a assaltou de beijá-la, Evelyn por sua vez não fazia a menor idéia de como expressar o que estava sentindo, porque nem ao menos sabia identificar o que estava sentindo. Sua inocência não permitia.

A loira ergueu a mão novamente e acariciou a face de Lara, passando o polegar levemente pelos lábios da morena, que não se deteve e beijou a mão da loira.

Evelyn se aproximou ainda mais e beijou Lara na bochecha.

--- Nem nos meus mais loucos sonhos eu pude sequer supor que um dia estaria aqui sentada com você, apreciando a paisagem...
--- Só a paisagem?
--- Não... A companhia também... Você é tão...
--- Tão?
--- Não sei... Tão... Maravilhosa!
--- Sou é? --- sorriu --- Me lembre de sair com você mais vezes. Adoro elogios! Hahahaha...
--- Hum... Até parece que você não vive sendo elogiada por todos os lugares que passa, Lara! --- Fez uma pausa e correu o olho por todo o corpo da morena --- Vamos, Você é linda! Além de ser essa pessoa maravilhosa, claro.
--- Devo enumerar cada uma de suas qualidades, Eve?
--- Não! Não mesmo! --- riu --- Você sabe... São muitas as minhas qualidades e teríamos que passar o resto do dia aqui! Hahahaha... E agora tenho mesmo que ir embora. Prometi que ajudaria minha irmã com a lista de presentes para o casamento.
--- Mas já? --- perguntou desapontada
--- É... Mas o que acha de nos vermos amanhã? Posso te levar ao meu lugar preferido!
--- Claro! Passo de manhã cedo pra te pegar.
--- Está combinado!
--- Então vamos voltar à sede da Fazenda e de lá te levo em casa.

Levantaram-se e se puseram a caminhar. Evelyn estava em estado de total encantamento com a sua nova amiga. Simplesmente adorava Lara. Ainda estava com ela e já podia sentir a angústia da saudade que teria dela até que a manhã seguinte chegasse. Olhou pra ela, tão alta, tão bonita. Sem pensar pegou a mão de Lara. Continuaram a caminhar de mãos dadas, em silêncio. Evelyn se sentia segura, protegida, querida. Sorria... Era isso o que chamavam de momento feliz? De certo que era.

Após o jantar, Evelyn foi para o quarto de Lila conversar. Estavam sentadas na cama admirando as luvas imaculadamente brancas que Lila usaria em seu casamento.

--- Não são lindas? --- Lila disse erguendo as luvas no ar, numa expressão de felicidade
--- Você será a noiva mais linda das redondezas, minha irmãzinha!
--- Ah, Eve... Como eu queria que você também se casasse!
--- Quem sabe um dia...
--- Sei que tem muitos rapazes interessados em você! Voltou tão diferente da capital, tão crescida e bonita... No dia do leilão muitos quiseram almoçar com você! O filho do prefeito, por exemplo... Ele é muito bonito.
--- Peter? Sim, ele é bonito. --- respondeu sem demonstrar interesse
--- E então? --- perguntou ansiosa
--- E então o que?
--- Permita que ele te corteje!
--- Lila... Agora não estou interessada nisso...
--- Não? E está interessada em que? Em sua nova amizade?
--- É. Minha amizade com Lara é algo que realmente me interessa.
--- Eve, você é minha irmã e amo você. --- disse séria, porém num tom carinhoso --- Mas se você continuar andando com Lara...
--- O que tem eu andar com Lara? Ela é minha amiga.
--- Eu sei que ela é apenas sua amiga, mas as pessoas são maldosas e dizem coisas que não existem por diversão.
--- Mas dizem o que? --- quis saber intrigada
--- No piquenique, quando ela comprou seu leitão... Depois as viram juntas hoje...
--- Para de enrolar e diz logo! --- impacientou-se
--- Está correndo um boato... De que você é a mais nova conquista da impiedosa Mc Gregor.
--- Sou o que? --- perguntou confusa --- Conquista?
--- Então você não sabe? --- perguntou incrédula
--- Saber o que?
--- Que Lara namora mulheres!
--- O que? --- se encontrava mais confusa do que nunca --- Quem disse isso?
--- A cidade inteira! Não é segredo pra ninguém.
--- Tem razão Lila, as pessoas são muito maldosas. Lara não é assim... Ela me contaria se fosse verdade.
--- Eve... É verdade.
--- Não é verdade! --- alterou o tom de voz --- Não fale assim de Lara! Ela é uma pessoa boa, honesta!
--- Não estou contestando os méritos de Lara, apenas estou dizendo que você deve cortar essa amizade para que não fique mal falada como ela.
--- Saia do meu quarto Lila! Saia daqui! --- agora estava gritando --- Você só está com ciúmes porque tenho uma nova amiga e não estou dando tanta atenção pra você como antes! Saia já daqui! --- gritou apontando a porta
--- O pior cego é aquele que não quer ver... --- Lila foi direção a porta e a abriu, porém antes de sair se voltou e disse: --- Pergunta pra sua amiguinha se ela gosta de mulheres.
--- Eu jamais faria uma pergunta dessas pra Lara. É indigno!
--- Você é quem sabe... Mas depois não diga que eu não avisei.
--- Sai daqui! --- gritou jogando uma almofada na direção da irmã, que saiu antes, fazendo com que a almofada batesse na porta e caísse ao chão

Não podia ser! Simplesmente não podia ser! Lara era uma pessoa boa, não cometeria tal pecado tão execrável. Tudo bem que era a pessoa mais diferente que já havia conhecido na vida, mas não acreditava que chegasse a tanto.