É amizade?

Mariah Galveia

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Capítulo 3

 

Sentada numa cadeira com os pés confortavelmente instalados cruzados em cima da mesa, Lara ria por dentro enquanto observava a movimentação de Evelyn para lhe preparar o jantar. A loira estava de costas pra ela fritando ovos. Que belo traseiro! Continuou a contemplá-la quando ela se virou e foi até o armário pegar pão para fazer torradas. Que seios! Lindos! Que cinturinha mais bem feita! E que quadril mais perfeitinho, arredondado! E esses olhos tão verdes... Seria possível que estivessem ainda mais verdes e mais brilhantes? Não... O certo é que nunca havia reparado antes, nunca havia se perdido no verde mar desse olhar.

Realmente, Evelyn não era mais a mesma... Dez anos foram mais do que suficientes para fazer aquela menininha magrela e sem graça se transformar nessa mulher estupenda. Simplesmente deliciosa.

Mas infelizmente essa deliciosa e maravilhosa mulher se tratava de Evelyn Morgan, e se por fora era essa metamorfose, por dentro ainda conservava a alma pueril daquela menininha que havia conhecido desde que esta nasceu há vinte e três anos.

E ainda por cima era filha de seu grande amigo, Leonor, e tinha um trato com ele: Tentaria ficar amiga de Evelyn, ser amante estava fora de cogitação. Pena que a dona desse corpo tenha que ser Evelyn... Será complicado conseguir se manter relaxada perto de uma beleza dessas.

--- Está pronto --- disse Evelyn arrumando os pratos na mesa --- Aqui estão seus ovos fritos, seu bacon, suas torradas e seu café.

Lara estava petrificada olhando tudo aquilo. Não era possível! Ou Evelyn cozinhava muito mal ou havia aprontado mais uma das suas!

Os ovos estavam nadando em gordura, os pedacinhos de bacon estavam crus, as torradas todas queimadas.

A expressão de Lara era indecifrável. Sentia o olhar de Evelyn sobre ela, sabia que a loira estava esperando sua reação.

Saindo do transe em que estava, a morena pegou seu prato e se serviu de cada uma das coisas que a loira a tinha preparado. Também despejou um pouco do líquido fumegante negro em sua caneca. Tomou cuidadosamente o café. Estava amargo, extremamente forte.

Engoliu com calma e depois comeu os ovos, as torradas, o bacon, enfim, limpou o prato.

--- Você cozinha muito bem Evelyn! --- disse a morena com falso entusiasmo
--- Co-Cozinho? --- a loira perguntou gaguejando, com evidente assombro
--- Tudo estava delicioso --- disse se levantando --- Me convida pra jantar outro dia. Fico com água na boca só de pensar em provar... --- a morena a olhou de cima a baixo e de baixo a cima --- Sua comida outra vez.

Encaminharam-se para a porta da frente.

--- Até amanhã, Evelyn --- despediu-se a tocando no braço

Evelyn se esquivou do contato da mão de Lara com uma fúria contida.

--- Espero não te ver amanhã e nem nunca mais Mc Gregor!
--- Pois eu espero vê-la amanhã e todos os próximos dias de minha vida --- piscou um olho pra ela e saiu pela porta e se perdeu na escuridão

Lara pegou sua carroça e rumava para sua fazenda enquanto não conseguia ordenar os pensamentos.

No dia seguinte pela manhã, Evelyn estava a caminho da fazenda de Lara Mc Gregor de carroça com seu pai. Estavam indo comprar um cavalo para ela, afinal não podia andar por aí a pé, tudo era muito longe da fazenda em que morava.

--- Pai, tem certeza de que temos mesmo que comprar o cavalo na fazenda de Mc Gregor?
--- Claro que sim, Eve! --- respondeu o pai --- Lara tem os melhores cavalos da região, puro sangue, tem exemplares belíssimos. Quero o melhor para a minha filha!
--- Pois o melhor pra mim seria não ter que olhar pra cara de Mc Gregor nunca mais!
--- Um dia, quem sabe, você muda de idéia...

Essa frase soou aos ouvidos de Evelyn como uma afirmação ao invés de uma pergunta. Não sabia explicar o porquê, mas não gostava do tom do pai quando se referia a ela e a Lara e a possibilidade mais do que remota de se tornarem amigas. Os deuses sabiam que isso é impossível. Como água e azeite, não dão pra misturar.

Estavam entrando pela porteira das terras de Mc Gregor, Evelyn reparou que tinha uma grande placa de madeira trabalhada onde se lia: “Fazenda Arco íris”.

Eram terras vizinhas as suas, sabia que era muito maiores que as suas e que Mc Gregor possuía um grande haras, além de aproveitar os lucros de toda a colheita de sua terra, que sabia ser muito, ou seja, ela era uma pessoa rica.

--- Pai? Mc Gregor tem muito dinheiro...
--- Sim, ela tem. Muito mais que nós.
--- Então porque ela sempre se veste dessa forma? As damas usam vestidos! Lembro dela assim desde... Desde sempre! Por quê?
--- Sabe, minha filha... Lara é uma pessoa diferente, ela gosta de ser ela mesma, não finge pra agradar ninguém. No começo eu achava estranho, mas agora já acostumei que ela use calças. É uma mulher tão bonita... Se quisesse poderia se casar com o melhor partido de todo esse país.

Sim... Era verdade... Lara era... Linda! Como não tinha notado antes? Claro que já havia notado, mas agora parecia... Diferente. Como se estivesse acordando de um sonho e enxergando pela primeira vez a realidade: Lara era uma mulher mais que bonita, era estupenda, fenomenal... Toda essa ira contra ela esse tempo todo a cegou para as qualidades físicas da morena. Sim, qualidades físicas, porque não tinha mais nenhuma! Disso estava certa!

Evelyn avistou Lara ao longe, cavalgando em círculos dentro de um cercado, num lindo corcel negro.

Ao chegarem mais perto a morena notou a presença deles, desmontou e se direcionou para receber os visitantes.

--- Bom dia Leonor! --- cumprimentou o amigo e virou-se para a loira --- Evelyn, não me diga que veio convidar-me para o almoço! E que você vai cozinhar?!

Como resposta a loira abaixou a cabeça inquieta, o que não passou despercebido a Leonor.

--- Viemos comprar um cavalo para Evelyn --- disse ele a morena
--- Tudo bem, Evelyn, sinta-se a vontade para escolher qualquer um que queira --- disse indicando com o mão direita onde estavam os cavalo disponíveis
--- Gostei daquele lá --- disse apontando para o cavalo negro que Lara estava montando há pouco
--- Esse cavalo não está pronto Evelyn --- respondeu com tom profissional --- Está ainda sendo domado.
--- Mas eu quero este! E você o estava montando agora mesmo!
--- Exatamente, estou tentando domá-lo! Escolha qualquer um outro.

Muito a contra gosto, a loira escolheu um cavalo branco, também muito bonito.

--- Evelyn, hoje terá uma festa de confraternização entre meus peões e suas famílias --- Lara disse tentando fazer uma média com a loira --- Gostaria de vir a festa? É claro que todos de sua família estão convidados.
--- A que horas será a festa? --- Evelyn perguntou
--- Será às sete horas da noite.
--- Ah... Desculpe Mc Gregor ---respondeu com ironia --- As sete da noite eu costumo... Dormir.
--- Você não dorme tão cedo assim, Evelyn! --- o pai repreendeu --- Será bom para uma moça jovem e solteira vir a uma festa.
--- Pois realmente preciso dormir cedo, dizem que faz bem pra pele e evita rugas...
--- Evelyn, eu não poderei vir a festa --- falou Leonor --- Tenho compromissos na cidade vizinha, negócios. Desta forma você terá de acompanhar sua irmã e o noivo dela. Você sabe que os dois não podem andar sozinhos por aí antes do casamento.
--- Ótimo! --- Lara respondeu --- Estarei a sua espera, Evelyn. E também de sua irmã e de Rodolfo.
--- Está bem --- Evelyn respondeu a contra gosto --- Batalha perdida.

Um dos peões chegou chamando Leonor para conversar, ambos se afastaram um pouco deixando as duas sozinhas.

--- A batalha pode estar perdida --- disse a loira para a morena --- Mas a guerra só está começando.
--- Te espero as sete em ponto --- disse Lara ignorando a ameaça da mulher mais baixa a sua frente

Evelyn se virou com intenção de ir para perto do pai, mas Lara a segurou pelo braço e disse:

--- Evelyn... --- o tom era divertido --- Você não tem rugas... --- ergueu a mão e acariciou o rosto da loira --- E sua pele é perfeita.

Evelyn sentiu aquele olhar sobre ela de novo quando a ouviu proferir essas palavras. E de novo não pode identificar o que era. O que era esse olhar? Ficaram perdidas se olhando e só pararam porque Leonor chamou Evelyn para voltar ao casarão.

Um pouco sem graça, Lara percebeu que ainda mantinha o braço de Evelyn preso pela sua mão e a soltou de imediato.

Viu a loira girar o corpo novamente para ir embora e dessa vez não a impediu. Porque será que estava fazendo questão da presença de Evelyn na festa? Seria pelo trato com Leonor ou porque estava se apaixonando por ela? Claro que não! Que idéia mais estúpida! Se Evelyn tinha se transformado na mulher mais linda que já tinha visto, também conseguiu o mesmo mérito no quesito teimosia e infantilidade.

--- Porque diabos essa loira não esquece de uma vez por todas o que aconteceu há dez anos? --- se perguntou em voz alta

Pediu que um dos seus empregados preparasse o cavalo escolhido por Evelyn para que ela pudesse levá-lo de uma vez. Durante esses poucos minutos fez questão de se manter afastada da loira fingindo estar ocupada com assuntos da fazenda, precisava se concentrar ou estragaria todo o plano que Leonor traçara e a proximidade de Evelyn a deixava com raciocínio lento, dizia e fazia coisas não programadas para alguém que deseja conquistar a amizade de alguém. Porque ela a afetava tanto? Diabos!

Agora a vendo se afastar montada em seu cavalo novo, numa cela para mulheres, que era para se sentar de lado por causa do vestido, sentia uma coisa estranha no peito.

Desde que começara a se aventurar no mundo das paixões, Lara sabia que só tinha um jeito de esquecer uma mulher: Levando-a para a cama. Mas isso estava fora de questão. Evelyn era filha de seu grande amigo e iria fazer o possível para respeitá-la, em nome da amizade.

Tratou de tentar manter a cabeça longe da loira ao menos até a noite, até lá muitas coisas precisavam ser feitas. Ainda tinha um longo dia de trabalho pela frente.

Era quase sete horas da noite quando Rodolfo, o noivo de sua irmã passou para pegá-las em sua carroça. Evelyn estava usando um vestido amarelo claro que era apertado na cintura e possuía um decote generoso. Coisas da tia Emily, que sempre fazia questão de dizer-lhe que devia realçar o que Deus havia lhe dado. Seria o caminho mais fácil para o casamento. Por não querer discutir com a tia, Evelyn aceitava todos os seus presentes, não queria fazer desfeita, além do que realmente se sentia bonita quando bem arrumada, como estava agora. Seus cabelos estavam soltos e lhe caía pelas costas a dando um ar ainda mais jovial e atraente.

Ao chegar à festa, desceu da carroça em companhia do casal de noivos e seguiram para uma mesa de madeira que estava próxima a fogueira.

O local estava cheio de gente, homens, mulheres e crianças, estavam numa animação só e não parava de chegar mais gente ainda.

Havia alguns peões tocando uma canção dançante muito agradável e sem perceber Evelyn começou a mexer o corpo e a sorrir.

--- Quer dançar comigo, Evelyn Morgan?

A loira olhou pra cima e se deparou com nada mais e nada menos do que Richard! Como estava mudado! Não era mais um menininho, era um homem feito! E muito bonito, por sinal.

Levantou-se de imediato e o cumprimentou com um aperto de mãos.

--- Richard! Como está crescido!
--- O mesmo te digo, Evelyn... Está ainda mais bonita do que era...
--- Hahahaha... --- divertiu-se ela --- Como você é galante, Rich! Nós dois sabemos que beleza era uma qualidade que eu não tinha aos treze anos de idade! Hahahaha...
--- Não diga isso Evelyn! Você mais parecia um anjo! E agora... Está... Está...
--- Estou?
--- Simplesmente fenomenal!

Evelyn corou levemente e sorriu um pouco sem graça.

--- Você sempre conseguindo me deixar vermelha...
--- E você sempre conseguindo fazer meu coração bater forte...

Sentada sozinha num canto afastado, Lara não perdia nenhum detalhe da festa. Não era correto afirmar que a morena fosse anti-social, pois ela era muito extrovertida e tinha um certo tino para comandar pessoas, para ser líder, simplesmente não gostava de estar onde tivesse muita gente junta. O fato era que nessas ocasiões sempre acabava se irritando. Os homens que trabalhavam para ela a respeitavam, mas isso não queria dizer que não tentavam cortejá-la, mesmo os compromissados. Mas Lara era totalmente avessa à idéia de casamento, gostava mesmo era de mulheres e isso fazia com que não tivesse assuntos em comum com as damas da sociedade, muito menos com as esposas de seus empregados. Gostava mesmo era de conversar com Leonor e com Ramon, seus dois grandes amigos. Com eles sentia-se à vontade para jogar conversa fora e ser ela mesma, sem truques. O caso é que nenhum dos dois compareceu ao evento.

Dali de onde estava pôde ver com riqueza de detalhes o momento em que Evelyn chegou à festa acompanhada da irmã e do futuro cunhado. A viu se sentar numa mesa perto do fogo e agora observava Richard Jackson, que agora era um dos peões de sua fazenda, se aproximar dela. Por um motivo que não queria admitir, não estava gostando nada do que estava vendo. Viu que ela havia se levantado para cumprimentá-lo e agora estavam conversando.

Um filme passou em sua mente, dez anos atrás, a cena que pegou atrás do celeiro, Evelyn beijando esse rapaz.

Num ímpeto a morena se levantou decidida.

 

 

Capítulo 4

 

--- O que disse? --- Evelyn perguntou ao rapaz, um pouco assustada
--- Eu disse que você sempre consegue fazer meu coração bater forte --- disse ele olhando-a intensamente nos olhos --- Quer dançar comigo?

Meu Deus! Esse era o tipo de olhar que Lara lhe dava! Só que muito mais intenso... O que era isso? Em Richard caia como... Desejo! Será que Lara também a olhava com desejo? Não, claro que não! Que besteira!

Todo esse pensamento durou cerca de um segundo. Evelyn se obrigou a responder a pergunta que seu velho... Amigo a tinha feito. O que tinha a perder?

--- Sim Rich, quero dançar com você.

Evelyn se preparou para sair com ele rumo à pista de dança quando se sentiu puxada por uma mão forte.

--- Não! Você não irá dançar com ele! --- disse Lara num tom sério
--- Mc Gregor, caso não tenha reparado, não tenho mais treze anos! --- disse a loira num misto de surpresa e irritação
--- Eu sei que você não tem mais treze anos, Evelyn! --- respondeu ainda a segurando --- É impossível não reparar...

De novo aquele olhar tão intenso sobre ela. Aqueles olhos azuis jogando com os olhos verdes da loira a estavam atormentando...

--- Então porque não me solta para que eu possa ir dançar com Rich?
--- Porque seu querido amiguinho é o homem mais cafajeste que existe por essas bandas! A única coisa que ele quer é beijar você!
--- E quem disse que talvez eu não o queira beijar também?
--- Você quer me beijar? --- perguntou ele com os olhos brilhando se acercando dela
--- Espera ai, Richard, eu disse talvez --- respondeu a loira o empurrando levemente para o lado
--- Você não pode estar falando sério! --- Lara disse incrédula
--- E porque não? Ele é bonito, ele é...
--- Pois então vá dançar com ele, depois vá fazer um passeio atrás do celeiro e quem sabe depois ele não te apresenta a esposa e os quatro filhos!
--- Esposa? Filhos? --- perguntou a loira embasbacada
--- Anda, Richard, seja homem! Diz pra ela!
--- Evelyn... Eu...
--- Olha, não precisa dizer nada --- disse a loira para ele --- Foi tudo um... Mal entendido, não é verdade Richard?
--- Sim... É...
--- Então saia logo daqui e nos deixe a sós! --- Lara disse, era uma ordem e não um pedido

Ele saiu com a cabeça baixa de vergonha, não teve coragem de olhar nos olhos de nenhuma das duas mulheres.

Mas nenhuma das duas o viu se afastar, ficaram se olhando nos olhos, cada uma com um sentimento diferente.

--- Porque você fez isso, Mc Gregor?!
--- Pra te proteger.
--- Não preciso da sua proteção! Você não é a minha mãe!
--- Não, não sou sua mãe --- assentiu a morena --- Mas eu posso ser sua amiga.
--- Hahahaha --- deliciou-se a loira --- Não me faça rir! Você? Minha amiga? Hahahaha...
--- E porque não? Seria uma troca interessante... Garanto que tem muitas coisas que podemos aprender uma com a outra.
--- Amizade não nasce do nada, Mc Gregor!
--- Tem razão, Evelyn. Eu vou conquistar sua confiança e a sua amizade.
--- E porque o interesse?
--- Sou uma pessoa sozinha...
--- Não me admiro.
--- Evelyn... Dê-me uma chance de provar pra você que posso ser sua amiga.
--- Claro que te darei uma chance --- disse ela irônica --- Na minha próxima vida você me procura.

Sem mais e sem menos a loira se afastou rapidamente sem deixar espaço para respostas de Lara. Foi até a mesa onde estavam sentados a irmã e seu noivo.

--- Lila, estou um pouco indisposta, apreciaria muito se fôssemos embora agora.
--- Sim, vamos.

Rodolfo as levou para casa e em pouco tempo Evelyn já se encontrava deitada em sua cama pronta para dormir, mas de novo não conseguia pregar o olho. Que história mais sem pé nem cabeça era essa de Lara querer ser sua amiga? Seria verdade que se sentia sozinha? Pois que fosse curar a solidão com outra pessoa! Preferia fazer amizade com um dos cactos do quintal do que com Lara Mc Gregor!

O dia seguinte era um sábado ensolarado, era véspera do aniversário da cidadezinha e no dia seguinte haveria um piquenique num gramado maravilhoso ao redor de um lago bem no centro da cidade e todos os habitantes compareceriam para as festividades. Haveria jogos, sorteios e até mesmo um leilão de iguarias beneficente, onde as mulheres da cidade deveriam cozinhar uma comida especial e os homens que comprassem teriam o privilégio de almoçar com a moça que havia preparado a comida em questão.

Como os fundos do leilão iriam para um orfanato, Evelyn fez questão de participar. Iria cozinhar um enorme leitão assado com recheio de batatas e legumes e quem o comprasse ainda levava de brinde um bom vinho para acompanhar que ela mesma havia feito questão de escolher. Deu os últimos retoques no leitão e o pôs ao fogo para assar.

Lila também estava empolgada cozinhando um pato defumado.

--- Ah... Será que Rodolfo irá gostar do pato que estou fazendo? --- perguntou Lila para sua irmã
--- Isso se for Rodolfo que comprar seu pato --- respondeu em tom de brincadeira sabendo que a irritaria
--- Claro que será ele! Quem mais?
--- Nunca se sabe... De repente há outros rapazes interessados em você, Lila...
--- Se há outros rapazes interessados em mim, tenho certeza que eles sabem que sou comprometida e não se atreveram a dar lances no meu pato!
--- Calma, Lila! Eu só estava brincando... Tenho certeza de que Rodolfo pagaria todo seu salário anual no seu pato só para almoçar com a cozinheira. Hahahaha --- e riu divertida --- Ele é muito apaixonado por você!
--- Pois é, Eve... Eu já tenho noivo e tenho certeza que amanhã você arranjará pretendentes dispostos a firmar compromisso! Quem sabe nos casaremos no mesmo dia?! Já pensou um casamento duplo?! Seria lindo...
--- Não diga besteira, Lila... É só um leilão beneficente, é caridade para os órfãos. Não é um concurso para arrumar marido!
--- Leilão, concurso, seja o que for... O homem que comprar seu leitão estará manifestando diante da cidade inteira interesse pela sua pessoa.
--- Vamos mudar de assunto?

A contra gosto Lila não tocou mais no tema em questão. O silêncio que pairava a cozinha foi cortado pela avó das meninas que chegou chamando Evelyn.

--- Evelyn, tem visita pra você.
--- Visita pra mim? Quem é vovozinha?
--- É Lara. Ela está na sala te esperando.
--- Pois diga a essa mulher que estou ocupada.
--- Não está não! --- a voz de Lila se fez ouvir --- Você já terminou de preparar seu leitão.
--- Boca grande! --- disse a loira para a irmã, sacando a língua
--- Se está livre do leitão não há motivo para não receber Lara, que é uma grande amiga de seu pai. --- disse a velha senhora

Sabendo que não adiantava protestar mais, Evelyn lavou as mãos, enxugou no avental que usava e se encaminhou para a sala para ver logo o que a morena queria com ela.

Ao ficarem frente a frente, Lara lhe sorriu. Não era qualquer sorriso, era praticamente uma onda que a arrastava para o mar azul do olhar dela, que a deixava meio fora de rota, meio tonta, meio boba.

--- Oi Evelyn!
--- Oi... --- a loira respondeu se recuperando do efeito devastador do sorriso da morena --- O que você quer?
--- Você é assim sempre tão acolhedora com suas visitas?
--- Não, só com as indesejadas.
--- Eu vim em paz, Evelyn...
--- Enquanto você e eu estivermos habitando o mesmo planeta paz será apenas uma utopia e nada mais.
--- Hahahaha... --- divertiu-se a morena --- Sempre tão espirituosa...
--- E você sempre com esse espírito de porco...
--- Porco? É... Estou sentindo cheiro de leitão... Sua irmã o está cozinhando para o leilão beneficente de amanhã?
--- Não, eu o estou cozinhando.
--- Você?! --- não podendo mais se conter soltou uma sonora gargalhada --- Hahahahaha... Mas você... Quer dizer... Você cozinha estupendamente... Se quiser concorrer a pior cozinheira do século o titulo já é seu! Hahahaha...
--- Muito graciosa você... --- a loira respondeu irritada --- Pois fique sabendo que o meu leitão será disputadíssimo!
--- Claro que será disputado --- a morena respondeu --- Há muitos suicidas na cidade...
--- Se veio aqui me ofender pode voltar pelo mesmo caminho --- Evelyn disse irritada
--- Não! Evelyn, desculpe-me. --- disse a morena aparentando estar realmente arrependida -- Eu vim aqui como sua amiga. Podemos conversar sobre qualquer coisa que queira --- o olhar desconfiado da loira não a intimidou --- Sei que você é uma exímia contadora de histórias, poderia me contar uma!
--- Pois saiba que prefiro contar histórias para as galinhas! Elas são um público mais agradável.
--- Evelyn... --- a morena se aproximou da loira e parou bem próxima a ela, quase encostando --- Do que você tem medo?
--- Não seja ridícula! Não tenho medo de nada!
--- Pois então se sente aqui e converse comigo --- disse num tom desafiador indicando o sofá

Mas a loira não estava disposta a ceder.

--- Não tente me manipular, Mc Gregor --- sua voz demonstrava segurança --- Não me confunda com um de seus peões que obedecem cegamente cada ordem sua por medo de perder o pescoço.
--- Não estou te dando uma ordem, Evelyn. Estou apenas pedindo educadamente que se sente aqui comigo para trocarmos algumas palavras.
--- Já trocamos palavras suficientes para toda uma existência. Agora me dê licença, vou tirar o leite da vaca.
--- Sugiro que arrume outra desculpa, já esta quase anoitecendo e as vacas estão dormindo.
--- Então eu as acordarei --- disse Evelyn levantando o nariz para falar --- Qualquer coisa é melhor do que ficar aqui com você.
--- Bom, isso realmente é uma pena. Eu queria mesmo poder desfrutar de sua companhia.
--- Pois perde o seu tempo.
--- Eu nunca perco nada --- a morena disse segura --- E não será agora que começarei.
--- A última palavra sempre tem que ser sua, não é Mc Gregor?
--- Depende da ocasião. É claro que agora estamos em um duelo verbal onde tudo pode acontecer...
--- Pois então te direi quem ganha este duelo: Sou eu, a última palavra é minha e será: Adeus.
--- Até amanhã, Evelyn.
--- Aff! --- bufou

Irritada, Evelyn saiu da sala, deixando Lara sozinha. Foi para o seu quarto e se trancou, não queria olhar para a cara dela nunca mais. A odiava desde os treze anos de idade. Era um sentimento que fazia parte do seu ser, tão vivo e preso a ela como um rim, ou um pulmão. Nada no mundo poderia mudar isso.

No dia seguinte, no grande piquenique de aniversário da cidade, Lara não se dava por vencida. Leonor estava certo, adorava um desafio, principalmente um tão delicioso quanto lutar pela atenção de Evelyn. Como essa loira é bonita! Embora tivesse temperamento de um cavalo selvagem. Não tinha jeito, precisava domá-la como havia feito com inúmeros cavalos de seu haras. É claro que domar Evelyn seria muito mais agradável e sobre tudo gratificante, agora não só pelas terras que conseguiria emprestada, mas pela própria Evelyn.

Sentada numa pedra a beira do riacho, com os longos cabelos negros soltos bailando ao vento, trajando calça jeans, chapéu de cawboy e uma camisa fina branca de botões na frente, olhava ao redor a procura da loira, nem sinal dela. As pessoas em volta pareciam transpirar felicidade, as crianças corriam para um lado e para o outro brincando de pique e os adultos se encontravam espalhados, alguns sentados na grama sobre toalhas de piquenique e outros dançando próximo ao palanque construído especialmente para a data, onde havia uma banda tocando.

Momentos depois seus olhos azuis se encontraram com um belo par de olhos verdes. Seu corpo estremeceu. Evelyn estava ainda mais bonita num vestido de azul com fitas num tom de azul escuro e bordado branco, seus cabelos estavam presos numa trança.

Não teve a chance de se aproximar, pois a loira se encaminhou com Lila para o palanque onde fariam companhia as outras moças que cozinharam as iguarias para o leilão. Sinal de que este já iria começar.

Dito e feito. O leilão começou e o primeiro prato a ser leiloado foi o de Lila.

--- Senhoras e Senhores --- disse a primeira dama da cidade --- Lila Morgan preparou para o leilão beneficente um delicioso pato defumado --- disse ela segurando o embrulho do pato na mão --- Quem será o gentil cavalheiro sortudo que irá almoçar com a bela Lila hoje? Podemos dar inicio ao leilão.
--- Eu pago 10 tostões pelo pato! --- gritou um rapaz desconhecido
--- Eu dou 20! --- gritou Rodolfo
--- 25! --- gritou um terceiro rapaz
--- 30 tostões! --- era a voz de Rodolfo

Silêncio.

--- Alguém da mais de 30 tostões pelo pato? --- a primeira dama perguntava olhando em volta --- Ninguém?

Mais silêncio.

--- Vendido para o Sr. Rodolfo Bragan! --- a primeira dama deu o veredicto

Lara viu quando Lila desceu do palanque sorrindo satisfeita por poder almoçar com o noivo.

O segundo prato a ser leiloado foi o de uma moça ruiva muito jovenzinha.

--- Senhoras e Senhores --- recomeçou a primeira dama --- Ruth San Claire preparou um belo assado de bode. Podemos começar o leilão.
--- 7 tostões --- gritou um rapaz
--- 10 tostões! --- gritou outro rapaz
--- Eu pago 20 tostões para almoçar com a Senhorita Ruth! --- gritou o primeiro rapaz
--- 26 tostões! --- o segundo

Novamente fez-se silêncio e a primeira dama deu a partida por encerrada.

Agora quem se dirigia para o centro do palanque para ficar ao lado da primeira dama era Evelyn.

Lara sentiu seu estômago se contrair.

--- Senhoras e Senhores --- disse a primeira dama pronta pra outro leilão --- Evelyn Morgan preparou Leitão assado. Vamos dar inicio ao leilão.
--- 10 tostões! --- gritou um rapaz loiro
--- 15 tostões! --- Peter, o filho do prefeito gritou
--- Eu pago 25 pelo leitão! --- gritou um terceiro rapaz
--- 30! --- gritou um quarto rapaz, mais um de seus peões

Lara se perguntou onde ele iria arrumar 30 tostões pra gastar com um almoço. O filho da mãe deveria mesmo estar apaixonado por Evelyn, concluiu.

--- 35 tostões! --- gritou um quinto rapaz
--- 37 tostões! --- Peter gritou novamente não querendo sair da disputa

Silêncio total.

--- Alguém da mais pelo Leitão? --- a primeira dama perguntou
--- 50 tostões! --- Lara se ouviu gritar

Silêncio. Murmurinho. Muito barulho.

--- Lara Mc Gregor! Você não pode dar o lance! --- gritou um homem
--- Não posso? Mas parece que já dei! --- respondeu com cara de poucos amigos
--- Mas você é mulher! --- dizia outro homem --- E mulheres não podem dar lance no leilão!
--- E porque não? --- ela perguntou com cinismo --- Não é um leilão beneficente? Pois então, também quero ajudar aos órfãos!

Evelyn que assistiu a tudo do palanque também resolveu entrar na discussão:

--- Há outras maneiras de ajudar aos órfãos! --- a loira gritou irritada --- Gaste seu dinheiro na barraca de pescaria, ou na barraca de doces, ou...
--- Já chega! --- gritou a morena impaciente cortando a frase de Evelyn --- Se vou pagar com dinheiro é justo que eu o gaste onde e como eu quiser. --- virou-se para o povo --- E eu quero comer o Leitão assado que Evelyn Morgan cozinhou! Eu o comprei e vou comê-lo!

O prefeito da cidade quando viu a confusão se sentiu na obrigação de resolver o problema:

--- Cidadãos de Charleston! --- dizia ele em tom de discurso --- A tradição manda que somente os homens possam entrar no leilão de iguarias para comprar os deliciosos pratos que nossas mulheres cozinharam com tanto gosto para ajudar as nossas pobres criancinhas órfãs... --- fez uma pausa, enxugou com um lenço o suor da testa e continuou --- Contudo, nossa ilustre cidadã Lara Mc Gregor oferece sua caridosa contribuição.
--- Ah! Para de enrolar e diz logo! --- gritou Lara
--- Não vejo outra opção a não ser perguntar ao pai da moça, aqui presente, a opinião dele a respeito de tudo isso. Peço a palavra ao Senhor Leonor Morgan.

Leonor, que estava sentado numa toalha quadriculada na grama gritou dali mesmo, sem se abalar:

--- Dinheiro é dinheiro! Dê logo o leitão para ela!

A morena sorriu e foi para perto do palanque ao encontro de Evelyn e o leitão.

--- Não acredito que fez isso! --- a loira disse descendo do palanque parando frente a mulher mais alta, tão próxima que teve que virar o pescoço pra trás, devido a diferença de altura entre elas
--- Você tinha razão. --- a morena disse um pouco irritada --- Seu leitão assado foi disputadíssimo.
--- Eu não sabia que você tinha tendências suicidas.
--- Só quando sinto uma necessidade grande de conversar com loiras baixinhas e irritantes.
--- Eu, baixinha? Você que é alta demais! Mais parece um coqueiro vestido!
--- Hei, Evelyn... Vamos parar com isso... Comprei o leitão para compartilharmos um almoço em paz.
--- Só tenho uma palavra pra você, Mc Gregor.
--- E qual é? --- a morena perguntou curiosa
--- Utopia --- disse com um sorriso triunfante
--- Pois eu tenho duas palavras pra você Evelyn.
--- Diga.
--- Tenho fome.