Xena: A Conquistadora de Nações

- O Nascimento de Callisto -

Gustavo Samuel

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Philemon e Callisto estão escondidos aguardando o sinal de Pátroclo para atacar. Phil aperta os lábios para evitar que seus pensamentos se transformem em palavras. Estava ali porque amava Callisto e não a deixaria sozinha em um momento tão horrível, mas com certeza não apreciava nada ali.

Callisto sorri para Pátroclo ao ver as armadilhas espalhadas por todo o canto. Pátroclo sorri de volta e com um gesto pede calma para a garota. Philemon a enlaça com um braço e cochicha em seu ouvido.

- Você está tremendo.
- De emoção.

Ele se assusta com o olhar selvagem da garota. Callisto percebe o sentimento do amigo e desvia o olhar.

- Como é que você diz? Guerra... banquete de Ares, momento em que os homens deixam de ser humanos.

Philemon aperta Callisto com força e responde o comentário.

- Você sabe que é uma guerreira. Eu também sei.  Eu te amo por inteira, Call, mesmo que uma parte de você me assuste.

Callisto responde com um terno beijo no rosto de Philemon. Pátroclo faz um sinal de aborrecimento e depois pede atenção dos dois.

O comandante do pequeno exército de Cirra acompanha a aproximação do exército da Princesa Guerreira com os olhos. Arriscara muito mentindo para os soldados das vilas próximas dizendo que vira o exército de Xena, mas tinha absoluta certeza que ela iria atacar e, para o infortúnio de todos, ele estava certo.

Obviamente, as chances de vencerem eram nulas. Aqueles eram os mais sanguinários guerreiros da Grécia e as forças de Cirra eram mínimas. O caminho que escolheu para lutar era o mais condizente com sua situação. Atrairia os guerreiros para o interior da vila. As armadilhas iriam desfalcar as linhas de frente inimigas e o exército espalhado por toda a aldeia lhes dariam duas vantagens: não seriam alvos fáceis para os arqueiros e teriam o elemento surpresa. Mas tudo isso não é suficiente. Pátroclo tinha consciência que a única forma de vencerem era matando a Princesa Guerreira.

 

*******

 

Os três soldados bêbados observam o grupo do exército de Xena que contornara a vila.  Um deles segura uma tocha.  Os três dirigem um olhar desafiador contra o inimigo.  O comandante do destacamento invasor ordena que todos eles parem, quando se aproximam dos três.

- Vejam, senhores. Toda a defesa de Cirra. Três soldados bêbados.

Os guerreiros riem alto do gracejo. O bêbado que segurava a tocha, olha para os lados, para se certificar que os barris cheios de “fogo grego” ainda estavam lá, depois deixa a tocha cair no chão. O fogo queima a palha espalhada no local e chegam rapidamente chegam aos barris. Quando o comandante percebe que caíra na armadilha suicida, já era tarde.

- Por Cirra!

 

*****

 

- O que foi aquilo?

Xena, já dentro da principal rua da vila, ordena que seu exército pare. Com exceção da explosão e gritos de dor, nenhum outro ruído saía do interior da vila. A guerreira, depois de imaginar que os homens que mandara atacar a aldeia por trás tinha sido pegos em uma armadilha, volta sua atenção para a batalha que estava prestes a travar.

- Muito bem. Aristófanes estava realmente certo, Pátroclo. Você é um grande estrategista. Está sempre preparado para tudo. Organizou uma centena de armadilhas em uma noite que causaram diversos danos ao meu exército. Escolheu não me encarar de frente... Achei que aquele traidor iria resolver todos os meus problemas, mas, como eu imaginei, ele era um inútil...

Pátroclo fica sem chão ao ter certeza que realmente fora traído por seu melhor amigo. Xena desmonta e pega um saco que estava amarrado na sela do seu cavalo.

- Eu aposto que agora que você sabe que seu amiguinho te traiu você quer a cabeça dele em uma bandeja...

Ela joga no chão o saco.

- Só precisa da bandeja agora...

Pátroclo saca sua espada e corre cego para a guerreira. Callisto e Philemon tentam inutilmente detê-lo.

- Pátroclo...
- Não faça isso, seu bastardo!

Xena gira sua espada e espera tranquilamente que o comandante do exército de Cirra chegue até ela. Quando ele está próximo o suficiente, ela se ajoelha sobre o joelho esquerdo e o atinge no abdômen.

- Idiota.

Vendo seu comandante cair morto, alguém grita com toda força “atacar” e todos os soldados que esperavam pacientemente as ordens de Pátroclo investem contra os invasores com fúria.

- Venci.

A guerreira aponta com o queixo os soldados inimigos e todos os seus homens avançam e se preparam para matar. Ela se deixa ficar e fixa o olhar nas chamas no interior da Aldeia.

- O que raios aconteceu ali?

 

*****

 

O fogo não se restringiu a entrada da aldeia. E pouco tempo, as chamas ardiam ferozmente em várias cabanas ao seu redor. Sem ninguém para contê-las, as labaredas tomavam aos poucos toda Cirra.

- Isso está ficando quente demais.
- Deveríamos sair daqui!
- Está louca? O exército de Xena nos mataria em segundos.
- Dizem que ela não mata mulheres e crianças.
- Ah, claro. Dizem também que ela distribui comida aos pobres e quer conquistar toda a Grécia só para plantar floridos jardins.

Pankos e Arléia se olham desgostosos. O celeiro parecia o próprio Tártarus. O calor era insuportável. Crianças choravam, algumas mulheres gritavam. Os poucos homens que não foram batalhar, andavam de um lado para o outro e praguejavam contra tudo e todos.

Um dos mais velhos conselheiros da vila vai até Pankos e Arléia e conversa o mais reservadamente possível com eles.

 - Vocês parecem ser os únicos que não enlouqueceram aqui.  Todo esse calor só tem uma explicação. Atearam fogo na vila.
- Pelos deuses...
- Temos que sair daqui antes que antes que todos nós queimemos junto com o celeiro.

Pankos assente com a cabeça e chama alguns homens e mulheres para ajudá-lo a abrir os portões do galpão.

- Sejamos organizados. Dizem que o exército de Xena não mata mulheres, mas não podemos arriscar.

Eles têm alguma dificuldade para abrir os portões. As pessoas que estavam ali eram fisicamente fracas, devido a idade, modo de vida, ferimentos em batalhas antigas e até pela bebida na festa da noite anterior.

Quando Pankos e os outros abrem as portas, o desespero toma conta de todos. Estavam completamente cercados pelo fogo. Demoraram muito discutindo se deveriam arriscar ou não fugir dali.

- O que vamos fazer?

Arléia se abraça a Pankos e responde com a voz engasgada.

- Morrer.
- Eu só espero que nossa filha fique bem.
- Que os deuses olhem por ti, minha filha.

 

******

 

A batalha chegara a seu ápice. A linha entre a vida e a morte se apagava para aqueles homens. Em um determinado momento o indivíduo estava lutando nesse mundo, um segundo depois, estava no mundo dos mortos.

Philemon e Callisto, no meio daquele pandemônio, encontraram Átrius lutando também. Os três se defendiam mutuamente e atacavam de maneira estratégica. Callisto mostrava que era realmente habilidosa com a espada. Seus golpes certeiros privaram muitos homens de Xena de suas gargantas. Átrius era uma surpresa tanto para Callisto, quanto para Philemon. Os dois conheciam seu passado guerreiro, mas não sabiam que o velho taverneiro era uma máquina de destruição quando segurava uma clava.

- Philemon, eu quero que me escute.
- Diga, Átrius.
- Eu quero que vocês tirem os pais de Callisto do celeiro e fujam daqui.
- E você?
- Tenho que vingar Pátroclo.
- Átrius, esquece isso. Pátroclo era o maior guerreiro daqui e foi morto com um golpe.
- Eu sei que não tenho chance, Phil, mas tenho que ao menos tentar isso. Ninguém nunca comentou com os mais jovens da vila, assim vocês não poderiam saber que Pátroclo era meu filho.

Philemon e Callisto nocauteiam dois inimigos e aproveitam o momento mínimo de paz para abraçar Átrius.

- Não tem como mesmo te impedir?
- Quer cobertura?

Átrius sorri com as perguntas tão diferentes dos dois. Tão diferentes, mas feitos um para o outro.

- Não, Phil, não tem. E façam o que eu mandei, Callisto. Philemon é como um filho para mim, o que faz de você minha nora...

Callisto sorri encabulada.

- Não quero que percam suas vidas e almas nisso. Vão.

Ele se desvencilha dos dois. Depois, localiza Xena com o olhar e corre em sua direção. Alguns guerreiros tentam acertá-lo, mas ele acerta todos eles na cabeça sem piedade. A guerreira nem parecia notar sua aproximação. Tudo que fazia era olhar para as chamas. Quando ele parou e levantou a clava para acertá-la, ela se ajoelha e crava a lâmina de sua espada em seu peito.

- Átrius...

Philemon vê o mundo rodar quando vê aquele que foi seu segundo pai caído no chão. Callisto o abraça pelas costas e murmura em seu ouvido.

- Vamos, Phil. Vamos sair daqui. Você estava certo. Não existe nada pior que uma guerra.  Vamos para um lugar longe, pacífico. Papai, mamãe, eu e você vamos construir uma nova vida. Eu não quero mais lutar. Não quero te perder.

Philemon demora um pouco para voltar a realidade. Depois, ele se volta para Callisto e diz melancólico.

- Vamos sair daqui.

Um grito de dor chama a atenção dos dois garotos e da princesa guerreira. Era agudo demais para ser de algum soldado na batalha. Os três correm imediatamente para o celeiro que já ardia em chamas.

- Pátroclo, Átrius e agora isso...

Philemon segura Callisto, que treme e chora convulsivamente ao sentir no rosto o calor do fogo que consumia sua família e reconhecer os gritos de dor de sua mãe.

O barulho de uma espada caindo no chão perto deles chama a atenção dos dois. Philemon e Callisto vêem Xena olhando completamente pasma para o fogo.

- Tinha mulheres e crianças aqui?

Callisto tenta se soltar, mas Philemon a prende com seus braços.

- Assassina! Assassina! Assassina!