Xena: A Conquistadora de Nações
- O Nascimento de Callisto -
Gustavo Samuel
Contato: gustavosamueldasilva@hotmail.com
Desculpem a demora, a faculdade estava arrancando meu couro. Vocês já sabem, qualquer reclamação, procurem o PROCOM mais próximo ou enviem um email para gustavosamueldasilva@hotmail.com
- 10, 15, 20, 25... Só 25? Onde estão os outros?
- Estão na Taverna de Átrius, senhor. Comemorando ainda.
- Não lhes comunicaram a convocação? Que tipo de exército é esse que desobedece as ordens de seu capitão?
- Comunicamos, senhor.. É que...
O soldado não tem coragem de dizer que eles simplesmente não acreditavam nas palavras de Pátroclo. Callisto observa o amigo com dor no coração.
A euforia tomou conta de todos na cidade, não queriam escutar os argumentos, por mais lógico que fossem. Os que estavam ali eram os amigos mais próximos do jovem capitão, exceto Aristófanes, que desaparecera misteriosamente, Átrius e Philemon, que trabalhavam sem parar na Taverna.
- Alguém viu Aristófanes?
Todos balançam a cabeça negativamente. Pátroclo aperta as mãos nervosamente.
- Quero que dois de vocês fiquem de sentinela, pode parecer precaução exagerada, mas com a Princesa Guerreira não se brinca. Estão dispensados.
Dois dos soldados, sem esperar mais ordens, levantam as mãos e declaram que estão indo para a guarita. Os outros cumprimentam Callisto e Pátroclo e vão para suas casas.
- Aristófanes não faria isso, faria?
A menina olha inquisitiva para o guerreiro.
- Faria o que?
- Nos trair.
- Que isso, Pátroclo? Ele nasceu aqui, era seu melhor amigo! Na certa, encontrou alguém e foi...
O rosto dela fica vermelho. A vergonha da garota faz o capitão descontrair um pouco.
- Tomara que esteja certa.
- E se não estiver?
Ele não responde.
- Cal, você e Philemon não...
Callisto enrubesce novamente .
- Não!
Pátroclo solta uma sonora gargalhada.
- Desculpe. É uma pergunta muito pessoal. É que fico preocupado com vocês dois, são muito novinhos...
- Pátroclo...
-... Tem que entender o que fazem...
- Pátroclo!
- Falei demais, né?
Callisto assente.
- Você não me respondeu.
- Sabe aquele celeiro enorme, onde os fazendeiros e comerciantes deixam a produção que tem de sobra.
- Sei.
- Diga a Átrius que pedi que liberasse Philemon e organizem aquilo para que mulheres e crianças fiquem lá durante a batalha.
- É tão urgente assim? Já está tarde.
Callisto teve medo que seu comentário deixasse Pátroclo zangado, mas este não parecia incomodado.
- Xena não é a única estrategista por aqui. Pense bem, se eu estiver certo, tomara que não, ela não foi embora e tudo isso é um engodo para destruir nossas defesas. Agora que nossos principais aliados foram embora e toda a vila está bebendo vinho sem parar, estamos totalmente à mercê de seus ataques.
- Certo. Então, o melhor momento para atacar é agora, pois se esperar mais, poderá ser descoberta e nos dará chance para nos fortalecer novamente.
- É isso mesmo, Cal! Tá ficando cada vez mais esperta, garota.
Callisto sorri orgulhosa.
- Até mais, então. Avise minha mãe, tá?
- Tá certo.
A garota sai correndo. Pátroclo deixa um suspiro escapar e caminha na direção contrária.
- Bem... Ao trabalho, Pátroclo.
Philemon, Callisto e Arleia, que decidiu ajudar os garotos, organizam o grande celeiro, como Pátroclo pediu. Phil reforça as portas e as janelas, enquanto as mulheres limpam o galpão, jogando fora restos podres de comida, estrume de cavalo e cacos de garrafas de vinho.
- Que lugar nojento.
- Ninguém se preocupa em limpar isso, filha. Mas, veja, já aparenta um mínimo de decência.
Philemon sai do armazém e aponta para o horizonte.
- Já está amanhecendo.
Callisto o acompanha, bocejando.
- Achava que Pátroclo viria aqui pelo menos um pouco.
- Duvido que tenha ido dormir. Tinha a cabeça cheia de planos.
- Tem razão.
Enquanto conversavam, um grupo de soldados bêbados se aproximou. Os homens mal se continham em pé. Cantavam cantigas pornográficas e, como se ainda estivessem na taverna de Átrius, pediam mais vinho.
- Você sumiu ontem à noite, Philemon. Não devia ter feito isso, Átrius demora muito para atender.
- Tive que resolver uns probleminhas.
O que falava com Philemon se virou para outra e disse orgulhoso.
- Não disse? Não disse? E você... Hic... dizia que eu estava bêbado! Bêbado está você e seus cavalos, hic.
- Eu juro que vi.
Philemon suspira de tédio, já estava mais do que acostumado com as ininteligíveis conversas de bêbado.
- Viu o que?
- Hic... Vi um monte de cavalos vindo para a vila... Hic... Até parece que Xena voltou.
Callisto, sua mãe e Philemon ficam brancos como leite ao ouvir a frase do soldado.
- Temos que agir imediatamente.
Um dos bêbados ainda pergunta.
- Agir?
- Temos que proteger a vila de Xena. Vamos, garotos. Há muito o que fazer.
Os três saem correndo, deixando o grupo de bêbados sozinhos.
- Escutaram isso? Xena está atacando.
- Temos que defender nossa vila...Hic.
- É isso aí!
- Venham comigo. Tenho uma coisinha para essa Xena.
Enquanto isso, Philemon, Callisto e Arléia correm por toda a vila anunciando a presença de Xena, mas, para sua surpresa, não encontram quase ninguém. As ruas estão praticamente desertas. Algumas casas até pareciam abandonadas às pressas.
- Ué, aonde foram todos?
- Será que fugiram?
- Sem fazer barulho? Impossível.
Ao se aproximar da praça central da Aldeia, escutam o barulho da multidão.
- Olhem!
Callisto aponta para um homem na multidão e corre até ele.
- Papai!
Ela o abraça com força.
- Filha...
Arléia põe as mãos na cintura e balança a cabeça negativamente, sorrindo.
- Sabia que não iria ficar em casa se lamentando, Pankos.
Mancando, o pai de Callisto, vai até Arléia, a agarra pela cintura e a beija. Callisto olha orgulhosa para o pai. Ela sabia que era um sacrifício enorme para ele deixar que estranhos vissem os terríveis ferimentos que sofreu em uma batalha há muito tempo e sentissem pena do “pobre aleijado”.
- O senhor é um herói.
Arleia dá um forte assovio, chamando a atenção de todos.
- Vamos agora. Precisamos nos esconder de Xena. Se prestarem atenção, já poderão escutar os cavalos da Destruidora de Nações se aproximando.
Todos começam a se movimentar e a falar alto. Callisto e Philemon deixam a multidão partir e olham para o outro lado da cidade, onde a batalha deve acontecer.
- Você sabe o que quero fazer, não sabe?
- Vou com você.
- Você mal sabe manejar uma espada, Phil.
- Está enganada. Eu detesto isso, mas...
- É a nossa aldeia, a nossa vida...
- Vale a pena lutar por isso.
Arleia e seu marido, ao notarem que os dois garotos ficaram para trás, voltam imediatamente.
- O que estão fazendo aqui? Não pensem que...
Lágrimas brotam dos olhos de Callisto. Ela não deixa a mãe terminar a frase, dando-lhe um abraço forte.
- Promete pra mim que não vão deixar ninguém entrar ou sair daquele galpão?
- Callisto...
- Promete... Se algo acontecesse com vocês, eu...
Pankos abraça as duas ao mesmo tempo.
- Toma cuidado.
Callisto abraça os dois com mais força ainda.
- Vocês também.
Um forte estrondo é ouvido por todos que entram em pânico. Mulheres gritam desesperadamente, crianças agarram as saias das mães e começam a chorar. Um tumulto generalizado se formava.
- Ela está vindo.
- Vamos todos morrer.
Pankos volta o mais rápido que pode até a multidão e grita tentando contê-la e organizá-la.
- Da maneira mais ordenada possível, me sigam até o Grande Celeiro.
Eles começam a se afastar. Callisto mais uma vez abraça sua mãe.
- Desculpa...
- Pelo que, meu amor?
- Por ter brigado tanto com vocês. Eu te amo muito, mamãe.
Arleia levanta o queixo da filha, fazendo com que ela olhasse diretamente nos seus olhos.
- Eu também te amo e nunca, nem por um segundo duvidei do seu amor.
As duas ficam abraçadas em silêncio por muito tempo ainda. Philemon observa tudo calado e com água nos olhos. Ele e seu pai tiveram o mesmo diálogo anos atrás.
Os cavalos correm uma velocidade frenética. A proximidade da batalha faz com que Xena desvie sua atenção das palavras da velha adivinha, que teimavam em incomodá-la a noite toda. Os soldados, em sua maioria, pareciam confiantes e concentrados. Alguns, no entanto, estavam completamente despreocupados, contando como certa uma vitória fácil.
A comandante faz um sinal para que todos diminuam. Apesar disso, um deles continua correndo e logo ultrapassa todo o grupo. Sem perceber, aciona uma armadilha e é atingido por várias flechas. Outro sinal de Xena e todos param. Ela vai até o corpo caído no chão e sorri ao perceber que é o mesmo que ridicularizou os soldados de Cirra na noite passada.
- Um idiota a menos no mundo.
Ela olha para trás e grita.
- O local está cheio de armadilhas. Tomem cuidado.
Ela atira o chackran pra frente e desarma algumas armadilhas, derrubando várias flechas e redes.
É isso aí. Cirra será bem mais divertida do que parece.
Na aldeia, Pátroclo esperava pacientemente. Callisto e Philemon logo chegaram. Seu semblante demonstrava confiança. Deu um escudo enorme e uma espada a cada um dos garotos e pediu que aguardassem.
- Onde estão os outros?
- Nos seus devidos lugares.
Callisto e Philemon se entreolharam satisfeitos. Aquele era um Pátroclo completamente diferente dos dias anteriores. As olheiras denunciavam que ele não dormiu nada ou quase nada à noite. Surpresas aguardavam a Princesa Guerreira.
- Que barulho foi aquele?
- Meu presente de boas vindas para Xena. Átrius e Arléia sabem que vocês estão aqui?
Os dois balançam a cabeça positivamente.
- Deixa de mistério e conta o que você aprontou, Pátroclo.
- Cal, Cal... Sempre impaciente.
Callisto faz uma careta para o amigo.
- Conta.
- Não quero estragar a surpresa. Só fiquem preparados para possíveis flechas.
Xena aperta com força os próprios lábios. Já consegue ver os três nitidamente. Sabe que mais armadilhas estão preparadas. Faz um sinal e alguns soldados param seus cavalos e preparam seus arcos.
- Não se deixem levar pelas aparências. Cirra pode não ter um exército numeroso mais, porém, como viram, tem uma estratégia muito inteligente.
Merda. Aquele soldadinho conseguiu mesmo me enfrentar. Uma catapulta, armadilhas... Vai ser um prazer matá-lo.
- Parem!
Quase imediatamente, todos interrompem a marcha. A guerreira faz seu cavalo girar em 180 graus e fica de frente para o exército. Os guerreiros aguardam novas ordens. Ela, todavia, permanece muda por muito tempo. Seus olhos azuis, apesar de voltados para o bando de mercenários, pareciam visualizar algo totalmente diferente.
- Algum problema, comandante?
- Já tivemos mais de vinte soldados inutilizados e nem chegamos na vila. Se continuarmos assim, vamos ser dizimados por meia dúzia de idiotas.
Os guerreiros permanecem atentos às palavras da guerreira. A dúvida e o espanto, no entanto, já havia tomado suas almas. Não contavam com uma resistência tão grande.
- Não me olhem com essa expressão de perdedores. Nós vamos dizimar esses idiotas – Ela aponta para um grupo de soldados e volta a dar ordens – Quero que vocês contornem a vila e ataquem por trás. Arqueiros...
Os arqueiros, que estavam mais atrás, descem dos cavalos e se aproximam.
- Quero que mantenham distância. Quando estivermos avançando ataquem com tudo que tem, quando chegarmos lá, só atirem quando necessário. Prestem atenção nos lugares mais altos. Existem muitos inimigos lá. Agora, palermas, vamos arrasar aqueles idiotas.
Ela instiga o cavalo a correr para Aldeia e grita com toda a força:
- Atacar!
Os soldados acompanham a comandante, dando gritos de guerra e aclamando o nome de sua comandante:
- Xena, Xena, Xena, Xena....