O desabrochar da paixão
- Um conto da primeira vez -
Rose Angel
Quando alcançam o segundo degrau da escadaria Xena estanca e segura Gabrielle, fazendo um gesto para que se calasse e desse meia volta na escada. Edna e Morgana ainda estavam na sala, porém somente com a luz do luar penetrando pela janela aberta e refletindo diretamente sobre seus corpos nus. Estavam se amando. Gabrielle e Xena não puderam deixar de contemplar, mesmo que por breves instantes, a beleza daquele momento. Deitadas de lado, frente a frente e em sentido inverso, uma sugava com paixão o sexo da outra. Bebiam da fonte dos prazeres e gemiam baixinho a cada movimento de língua e de quadril. Acariciavam nádegas e coxas enquanto sorviam a umidade quente que escorria das entranhas da companheira. Abocanhavam grandes e pequenos lábios, penetravam-se com a língua em movimentos vigorosos e se detinham lambendo seus clitóris com volúpia e luxúria. A luz da lua refletida nos corpos em movimento tornava a cena digna de ser contemplada. Em dado momento a vibração dos corpos das amantes se tornou mais voraz e espasmos de prazer inundaram concomitantemente aqueles seres sedentos de amor, culminando com o clímax de um duplo orgasmo sincronizado e indescritível.
Xena e Gabrielle deram meia volta em silêncio e retornaram para o seu quarto.
Gabrielle permanecia muda, extasiada com a cena que havia presenciado. Xena quebra o silêncio:
- Vou ter de pular a janela para pegar água...essa água aqui de cima é quente e eu preciso de água fria... – diz saltando do parapeito da sacada com o auxílio de seu chicote. Retorna em poucos minutos, escalando a sacada, com um odre repleto de água fresca.
Gabrielle ainda permanecia em silêncio.
- Agora pode falar, Gabrielle...
- Sabe Xena, nossas amigas são realmente almas gêmeas, assim como a gente.
- São sim... o amor delas é lindo – responde Xena.
- Como o nosso...
- É, como o nosso... – diz Xena abraçando Gabrielle e beijando-a com paixão.
- Xena...
- O que?
- Não ta esquecendo de nada???
- Ah, sim... toma – diz Xena estendendo o odre com água.
- Não é isso...
- Ah, sim... – responde Xena sorrindo, divertindo-se com a impaciência da mulher.
Xena se dirige à janela do quarto e por detrás da cortina retira um pacote escondido e o entrega à Gabrielle:
- Feliz solstício, meu amor...
Gabrielle desenrola o presente e vê que se trata de um pergaminho. Ao ler seu conteúdo percebe tratar-se de um poema de Safo, escrito por seu próprio punho, a pedido de Xena:
- Gabrielle, eu não sou muito boa com as palavras, e como eu gostaria de externar o que me invade a alma encomendei esse presentinho...
- Xena... foi por isso que você e Edna demoraram tanto para pegar os cavalos... e eu colocando a culpa no pobre do Argo...
- Eu pedi para Edna me levar até Safo. Não precisei mais do que três palavras para descrever meu sentimento e ela o colocou no papel como se me conhecesse à séculos... e a você também.
- Meu amor... eu te amo tanto...
- Eu também Gabrielle, eu também...
- Xena, lê pra mim... quero ouvir da tua boca.
Xena se encabula, mas pega o pergaminho e com voz embargada procede a declaração de amor para a mulher de sua vida:
Amando-te Intimamente
Quando tu estiveres a sós comigo quero te possuir em meus braços, para poder te mostrar toda a força da minha paixão.
Escorregarei minhas mãos por todo teu corpo, e desta maneira vou descobrir todos os teus segredos.
Com meus lábios sedentos de desejo vou poder te sentir,
assim como uma abelha que suga incansavelmente o néctar da mais linda das flores.
Serei escrava de todos os teus mais ousados pensamentos, e numa sintonia de amor,
prazeres e ardentes desejos, te possuirei por completo e sentirás a minha volúpia por este momento.
Neste instante seremos uma só, envolvidas pelas nossas mais ousadas vontades,
acompanhadas por murmúrios de amor e sussurros ofegantes de prazer.
E com movimentos que se tornam cada vez mais ardentes
farei com que sintas um prazer que nenhum mortal conseguirá descrever.
Então saberás que teve de mim toda a essência de meu ser, e com minhas últimas forças te direi: eu te amo. (3)
Xena termina de ler e Gabrielle se joga em seus braços:
- Eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo... e eu te amo, sempre!
Xena a envolve pela cintura e a leva para a cama. Elas se despem e se amam como se fosse a primeira vez, num sentimento de total entrega e êxtase.
O dia seguinte amanhece nublado, o sol oculto por nuvens cinzentas que prenunciavam chuvas de verão. Quando Gabrielle abre os olhos depara-se com Xena a contemplá-la amorosamente, enquanto mantinha-se de lado escorando sua cabeça com o pulso da mão esquerda. Gabrielle sorri frente à proximidade do rosto de Xena e sapeca-lhe um beijo na ponta do nariz. Xena retribui e lhe beija a testa:
- Bom dia, meu amor...
- Bom dia... – responde Gabrielle espreguiçando-se como um felino despertando de um sono renovador.
Xena continua a contemplar o rosto de Gabrielle e esta sorri, questionando:
- O que é que a senhora tanto observa, dona Xena?
- Como você é linda... mesmo quando dorme. O contorno da tua boca é o que tem de mais lindo no mundo, sabia?...
- Xena... assim eu fico sem graça...
Xena abraça carinhosamente sua rainha amazona e a beija com suavidade.
- Vamos levantar? Hoje temos bastante trabalho para os preparativos do festival.
- Vamos... além do quê eu to morrendo de fome... – responde Gabrielle com olhar maroto.
As duas caem na gargalhada. Quando chegam à cozinha encontram Morgana e Edna aguardando-as para tomarem o café da manhã.
- Bom dia, dorminhocas...- cumprimenta Edna.
- BOM DIA !!! – respondem Xena e Gabrielle em coro.
- Edna acordou antes do nascer do sol e está agitando desde cedo... – finge reclamar Morgana.
Desta vez é Xena quem não perde a oportunidade de provocar Edna:
- É... pelo visto boa disposição é o que não falta para minha amiga... mesmo com uma noite repleta de atividades... – retruca maliciosamente.
Morgana sorri com o canto da boca e se vira de costas, com o pretexto de cuidar do leite que estava aquecendo no fogão. Edna olha surpresa para Xena e responde:
- Pois é... o... o espetáculo... estava maravilhoso... fiquei excitada e dormi pouco...
- Ôôô... – responde Xena – eu imagino o quanto... atividades artísticas sempre te deixam... agitadinha... não é mesmo? – continua Xena provocante.
Edna pega uma maçã que estava na fruteira, no centro da mesa, e arremessa em Xena, que pega a fruta no ar, antes que a mesma lhe acerte o nariz. As amigas caem na gargalhada e Edna diz:
- Um a zero por hoje, dona Xena... mas o dia está recém começando...
- Isso é uma ameaça, dona Edna?...
- Não... apenas um lembrete...
Xena, num pulo, abraça Edna imobilizando-a e cobrindo-a de beijos.
- XENA... você ta me babando toda...
Morgana ri e provoca:
- Enfim uma parceira à altura... alguém que consegue travar essa mulher.
Edna consegue se desvencilhar do aperto, retribui o abraço em Xena e elas se sentam à mesa para o desjejum. Neste momento despenca uma chuva forte, porém sem indícios de trovões e relâmpagos, apenas água em abundância.
- Será que essa chuva não vai estragar o festival? – questiona Gabrielle.
- De forma alguma – responde Morgana – daqui a pouco teremos um lindo dia de sol... isso é só uma chuvinha de verão. É ótima para limpar a terra. É a natureza tomando seu banho e preparando-se para as festividades da noite.
- Que lindo... – responde Gabrielle – e bem poético...
- Eu diria simbólico, Gabrielle. – continua Morgana – A mãe Terra se prepara assim como nós para as comemorações.
As mulheres combinam as atividades do dia. Edna e Xena ficam responsáveis pela confecção da fogueira e limpeza dos arredores da casa e do pátio, enquanto Gabrielle e Morgana cuidarão da decoração interna e da preparação dos alimentos.
- Espero que as duas não se matem...– brinca Gabrielle, referindo-se à Edna e Xena que saem da mesa abraçadas e, já bem perto da porta, se viram mostrando a língua e fazendo caretas para ela e Morgana.
- Com certeza elas sobreviverão... – retruca Morgana rindo das provocações das duas, que neste momento já estão na rua contemplando o céu azul no horizonte.
As nuvens cinzentas já haviam se dissipado, transformadas em água cristalina já recebida no seio da terra. O horizonte estava azulado e a cor celeste invadia o espaço antes ocupado pelas nuvens, como que empurrando aquelas que ainda teimavam em encobrir o astro rei. Não levou nem um quarto de hora para o sol irromper de seu esconderijo e ocupar seu lugar de destaque na abobada celeste. As gotículas de chuva ainda pendentes nas pontas das folhas formavam pequenos prismas multicoloridos e na direção da cachoeira se formou um lindo arco-íris, como que saudando o festival do solstício. A natureza se enfeitava a seu modo e o clima de festa se espalhava por todos os lados, contagiando todas as criaturas ao redor. Os pássaros gorjeavam alegremente, as águas dos córregos, cachoeira e mar agitavam-se num cântico de louvor à Terra.
Enquanto trabalhavam na cozinha, preparando pratos saborosos para a festa da noite, Gabrielle e Morgana conversavam a respeito das tradições de comemoração dos solstícios e equinócios.
- Pois é, Gabrielle... na verdade eu nem saberia dizer desde quando as civilizações comemoram os festivais sazonais, das estações. Por certo desde que o mundo é mundo, afinal a natureza se manifesta ciclicamente.
- E qual é a diferença entre solstícios e equinócios? – questiona Gabrielle.
- Equinócios são os períodos em que, decorrente dos movimentos do planeta ao redor do sol, sendo o eixo central inclinado, os dias e as noites tem a mesma duração. Logo, temos os equinócios de primavera e de outono. Já o solstício de verão é o período do ano em que ocorre o dia mais longo e a noite mais curta. No solstício de inverno ocorre o contrário. Pode-se dizer que são os marcadores naturais das estações do ano. Hoje comemoramos o dia mais longo do ano, o apogeu da luminosidade. Desta noite em diante, em nosso hemisfério, até o fim de dezembro, a natureza perderá sua vitalidade gradualmente e só acordará na próxima primavera com o retorno da luz. Logo, é momento de agradecer, de celebrar, de partilhar.
- Que interessante... eu nunca tinha visto os festivais por esse ângulo...
- Pois é, Gabrielle. Acabamos perdendo o sentido das comemorações quando nos preocupamos somente em presentear materialmente as pessoas que amamos. Os festivais são muito mais que isso. São na verdade momentos de celebrar a vida, ocasiões para aprofundar o senso de ligação das pessoas com o céu e a terra, incluir o sol, a lua, as estrelas, as árvores, as colheitas, os animais, os elementos da natureza e os seres humanos na mesma celebração. Todos como parte de um único ser, do macrocosmos, afinal tudo que existe está interligado pelo mesmo sopro de vida.
- Morgana, que coisa mais linda – diz Gabrielle com lágrimas nos olhos – então é momento de reconhecermos a natureza em nós mesmos...
- Exatamente, é este o verdadeiro espírito dos festivais. É um retorno às simples verdades do coração da vida. Momento de nos livrarmos de preconceitos e rótulos desnecessários, de cantar e dançar, festejando a vida pelo que ela é, como um milagre que se renova todos os dias, em cada poente e nascente do sol.
- Estou adorando estar aqui justamente neste período. Tantas coisas aconteceram nestas últimas semanas, fatos que mudaram totalmente minha vida e minha visão de mundo... e eu estou amando tudo isso... – refere Gabrielle – Hoje eu posso dizer que realmente me sinto uma mulher completa... e feliz... imensamente, plenamente feliz.
Morgana envolve Gabrielle num longo e afetuoso abraço:
- Eu sei, minha amiga... eu sei...
- Sabe Morgana, é como se a gente se conhecesse à séculos...
- Pois é... e quem há de dizer que não?... Mas vamos deixar a conversa de lado e acelerar o ritmo do trabalho, afinal ainda temos muito que organizar. E depois temos que dar uma supervisionada no serviço daquelas duas...
- Com certeza – sorri Gabrielle.
No meio da mata Edna e Xena discutem a melhor localização para armar a fogueira. Após muitas discordâncias e argumentações finalmente chegam a um acordo escolhendo um ponto numa clareira próxima à cachoeira, local amplo onde as chamas não chegariam a chamuscar as árvores nativas e de onde se poderia, caminhando cerca de duzentos metros ao leste, avistar o mar de cima da imponente encosta de morro onde se encontravam. Definido o local ambas começam a cavar um buraco para fixar o poste central que serviria de suporte para as toras e os galhos da pira. Depois empilharam simetricamente galhos secos, inclusive bambus, formando uma pirâmide de madeira, pronta para iluminar a noite mais curta do ano e que, certamente, pela grandiosidade do resultado final poderia ser quase que avistada do continente grego.
- Xena... acho que exageramos no tamanho dessa fogueira!!! Isso é capaz de incendiar a ilha!!!
Xena, sentada, dá uma gargalhada e concorda:
- É essa tua mania de querer tudo dentro de uma simetria atemática... cada vez que tentávamos deixar um lado igual ao outro essa encrenca ia aumentando de altura e largura!!!
- Mas ficou uma beleza, não ficou? – questiona Edna.
- Realmente, está digno de ser um trabalho nosso...sem falsa modéstia...
- Aposto que a Morgana vai achar um exagero...
- Acho que a Gabrielle também...
Elas contemplam a estrutura em silêncio por alguns minutos, quando finalmente falam ao mesmo tempo:
- E se a gente desmanchar um pedaço...
Explodem numa risada que ecoa pelo vale abaixo. Neste momento são surpreendidas pela chegada de Morgana e Gabrielle que olham a fogueira de baixo até em cima, caladas, extasiadas pela visão daquele verdadeiro colosso de madeira, comparável quase que ao farol de Alexandria. Elas olham para Xena e Edna com olhos arregalados, mal acreditando no que viam. Xena e Edna sorriem amarelo, permanecendo caladas e com cara de criança que fez arte... sem saber se pela frente viria um elogio ou uma carreta de reclamações e críticas. Percebendo a ansiedade das “arquitetas” Gabrielle e Morgana se entreolham e valorizam aqueles segundos de silêncio, numa cumplicidade de fazer inveja, que conseguiu deixar Edna e Xena suando frio. Por fim, não conseguindo mais controlar a vontade de gargalhar, Gabrielle e Morgana dizem, quase que ao mesmo tempo:
- Ficou lindo!!!
- Graças aos deuses!!! – respondem Xena e Edna, sorrindo aliviadas.
Cada qual abraça sua amada e lhe afagam os ombros, por certo doloridos do esforço realizado.
- Xena, vocês devem estar exauridas...vocês trabalharam a manhã toda !!! Já passou da hora do almoço e vocês não desciam...
- Você se preocupou comigo, meu amor?
- Não... imaginei que estaria aprontando alguma...eu te conheço...
Xena envolve Gabrielle num abraço rápido, prendendo seus braços e capturando seus lábios, num beijo de volúpia e paixão. Gabrielle corresponde e esquece da vida nos braços do Xena. Quando os lábios se separam Gabrielle diz:
- Eu me preocupei, sim... eu te amo. – e beija Xena novamente.
Edna e Morgana também trocam carícias no outro lado da fogueira gigantesca. Morgana acaricia a nuca de Edna, molhada de suor, e lhe seca a face carinhosamente com um lenço que trazia no bolso da saia, e diz:
- Minha construtora de monumentos... você não consegue fazer nada que não fique grandioso, não é mesmo?
- É essa minha mania de querer sempre o melhor... começando pela mulher... – diz, puxando Morgana para si e a beijando com paixão.
Morgana introduz sua mão por sob a blusa de Edna, acariciando suas costas suadas e fazendo com que ficasse arrepiada pelo toque macio. Edna geme de prazer e sussurra no ouvido de sua amada:
- Se essas mãos não saírem daí agora eu vou querer senti-las no meio das minhas pernas... e não vai ficar nada bem com nossas amigas aqui ao lado...
Morgana sorri e resvala suas mãos para fora da blusa de Edna, porém passando suavemente por seus mamilos, deixando-os rijos e protuberantes por sob a blusa esverdeada. Morgana sussurra no ouvido de Edna:
- Eu te amo...
Edna sorri e responde:
- Eu também...
Gabrielle fez com que Xena se sentasse sobre um banco feito com um tronco de árvore e baixou as alças de sua roupa, deixando-lhe os ombros descobertos. Por trás massageava suas costas que estavam, de fato, bastante doloridas pelo esforço. Xena porém não era mulher de se queixar, mas estava se sentindo bastante aliviada com o toque macio mas firme das mãos de Gabrielle:
- Xena, você está com os ombros muito tensos... o lado direito está todo embolotado... – diz apertando com mais força.
- Aiii... isso doeu...
- Dói mas alivia... agüenta! – e continua massageando até sentir a musculatura de Xena mais descontraída.
- Agora ta bom... hããããã... que coisa boa...
- Xena, quer fazer o favor de gemer com mais discrição?...
- E quem vai reparar? Os pássaros? As árvores?...
- Nossas amigas, né! – responde Gabrielle.
Xena dá uma olhada com o canto dos olhos e vê mais ao longe Edna e Morgana embriagadas com carícias e declarações de amor.
- Acho que elas não estão ouvindo, não... – retruca Xena sorrindo.
- Mesmo assim... seja mais discreta – diz Gabrielle, dando um apertão mais forte.
- Aiii... esse doeu de novo. Mas não pára... dói mas é bom...hããããã...
- Sabe, Morgana e eu conversamos muito sobre a festividade de hoje. – diz Gabrielle
- Ela é uma mulher muito espiritualizada.
- Eu sei, Gabrielle. Morgana é uma pessoa muito especial.
- To louquinha que chegue a noite para conhecer as pessoas que participarão da festa. Será que são mulheres... assim como a gente?
- Com certeza, Gabrielle, mulheres com seios, bunda, pernas e caras...
- Engraçadinha... você sabe do que eu estou falando...
- Não faço a mínima idéia... – retruca Xena provocante, rindo por dentro.
- Ai Xena, assim como a gente... que amam mulheres...
- Ah...porque não explicou antes...
- Xena, quer deixar de ser debochada!!! É que pra mim isso ainda é novidade!
Xena olha para Gabrielle, desta vez com seriedade, e responde:
- Com certeza, meu amor, as amigas das nossas amigas são pessoas como a gente, pessoas que respeitam e aceitam as outras pessoas como são, independente de quem amem, ou da cor da pele, ou da origem. E virão para, conosco, celebrar o dom da vida.
- Eu sou muito boba as vezes, não é? Faço umas perguntas idiotas...
- De forma alguma... é só curiosidade natural frente a uma nova situação. Até a bem pouco tempo você tinha outra perspectiva de vida, outra concepção de relação íntima... e é normal que leve algum tempo para perceber que não é tão diferente de muitas pessoas. Existem milhares de pessoas... como nós, Gabrielle.
Gabrielle abraça Xena afetuosamente:
- Eu te amo, Xena...
- Eu também, mais do que tudo... mas quem sabe você continua a massagem... estava tão gostoso...
- Sim senhora...
As quatro retornam para casa, após terminarem a limpeza ao redor da fogueira e armarem as mesas e bancos na clareira. Morgana e Gabrielle haviam levado os enfeites com flores e materiais recolhidos na floresta. A clareira transformou-se num salão de festas ao ar livre, tudo muito simples, mas carinhosamente ornamentado para aquela ocasião especial.
Gabrielle e Morgana serviram o almoço enquanto Edna e Xena tomavam um banho rápido para retirar o suor do corpo. Após o almoço deitaram um pouco para descansar, afinal a manhã tinha sido extenuante. Edna e Morgana dormiam abraçadas no tapete da sala, enquanto Xena estendeu uma rede entre duas árvores de copa bem cerrada, com uma sombra convidativa ao descanso. Xena se deita na rede e logo em seguida Gabrielle, que tinha ido tomar um banho, vem para se deitar com ela:
- Me dá um cantinho???...
- Com todo prazer...
- Ah...se for com prazer é melhor a gente deitar no quarto...
- Engraçadinha... – responde Xena aninhando Gabrielle entre suas pernas, fazendo com que repouse a cabeça em seu peito.
Os cabelos de Gabrielle estavam perfumados e ainda molhados, umedecendo o peito de Xena, que lhe afaga as madeixas fazendo com que adormeça com as carícias. Xena, naquela sensação de aconchego, também adormece. Repousa por quase duas horas, despertando quando um raio de sol consegue driblar a barreira espessa de folhas verdes e reflete diretamente sobre suas pálpebras adormecidas. A claridade a desperta e ela sente a respiração de Gabrielle em seu peito, ressonando tranqüilamente. Xena tem a sensação de ter o mundo em seus braços. Realmente ama Gabrielle mais do que tudo, pensa abraçando sua amada e beijando-a carinhosamente para que desperte.
- Vamos acordar, sua preguiçosinha...
Gabrielle aninha seu nariz no pescoço de Xena, querendo permanecer por ali por mais algum tempo. Xena lhe acaricia as costas e os cabelos. Aos poucos Gabrielle sai de seu “esconderijo” e descortina o mais belo sorriso que os olhos de Xena já viram:
- Acordei...
Xena beija aquela boca que lhe fazia beicinho e a ponta daquele narizinho que se franzia quando queria pedir alguma coisa... Após algum tempo de chamegos levantam-se e vão procurar Morgana e Edna. Estas continuam dormindo no tapete da sala.
- Será que desmaiaram?... – brinca Gabrielle.
- Vamos testar?... – pergunta sorrindo Xena enquanto pega uma pena de pavão que adornava um vaso da sala.
Começa a passar a pena na sola dos pés de Edna, sabedora que a mesma morre de cócegas. Não levam três segundos para Edna se encolher e despertar de seu sono. Se dá conta do que está acontecendo e salta sobre Xena. As duas rolam pelo chão numa brincadeira que lembra as que faziam há anos atrás. Morgana também desperta com a confusão e olha para Gabrielle tentando entender o que se passava.
- Melhor não se meter – diz Gabrielle sorrindo.
- Com certeza... – concorda Morgana.
Após muitas risadas e um vaso espatifado Xena e Edna se jogam uma para cada lado, exaustas, como se estivessem saindo de uma arena. Morgana as observa sorrindo e diz:
- Parece que vocês não tiveram infância...
- Tivemos...mas gostamos de reavivá-la, não é Xena?
- É... gostamos... e você continua ágil como uma pantera...
- E você forte como um cavalo!!!
As quatro explodem numa risada e Xena emenda:
- Fico te devendo um vaso novo...
- Que é isso??? Fica pelo vidro de perfume que eu quebrei logo que a gente se conheceu, lembra?
- Lembro! Mas na verdade eu dei graças aos deuses quando você espatifou aquele perfume... tinha cheiro de zurrilho... mas foi a vovó quem me deu e eu não tinha coragem de jogar fora...
Nova risada ecoa na sala. Já havia se passado mais da metade da tarde e elas resolvem se vestir para o festival, pois em breve, antes do poente, as convidadas começariam a chegar. Sobem para os respectivos quartos e se preparam.