O desabrochar da paixão

- Um conto da primeira vez -

Rose Angel

 

Traduzir página Web:

de

 

Xena sabe que Vulcanus é o guardião da cratera do vulcão do monte Ixion. Sabe também que não conseguirá chegar a tempo de salvar Gabrielle se cavalgar em Argo até lá. Desespera-se e tenta racionar e elaborar um plano para chegar a tempo.

Rapidamente se dirige ao templo de Afrodite, a deusa do amor, situado na estrada da aldeia vizinha a Potedia. Lá chama por Afrodite que aparece cercada por belos exemplares do sexo masculino, como sempre.

- Xena... que bom revê-la. Mas que ar preocupado?
- Afrodite, eu preciso da sua ajuda, por favor...
- Calma, criança... o que houve?
- É Gabrielle. Ares a levou para a caverna do monte Ixion.
- Ah, Xena, nesses assuntos de família eu não posso me meter, afinal Ares é meu irmão.
- E Gabrielle é sua amiga! Ares vai mata-la!
- Não... ele não faria isso.
- Faria sim. Ele faria qualquer coisa para alcançar seus objetivos. E ele quer a mim!!! Afrodite, eu sei que você gosta de Gabrielle...por favor, não deixe que nada de mal lhe aconteça...

Afrodite sorri maliciosamente para Xena:
- Acho que estou começando a entender essa história... Você, ein??? Tem bom gosto. Gabrielle é realmente tudo de bom...
- E eu não posso perde-la sem que ela saiba disso, Afrodite...
- Entendo, entendo...
- Afrodite... o tempo urge.
- Tá bom, tá bom... o que eu não faço em nome do amor...mas que Ares nem desconfie que eu estou metida nisso, combinado?
- Combinado.
Afrodite levanta sua mão e materializa Xena no sopé da montanha do monte Ixion.
- Obrigado. – diz Xena e penetra na montanha através de uma caverna nas rochas.

Xena segue cuidadosa, atenta a qualquer investida surpresa de Ares. Este, no entanto, nem imagina a proximidade de Xena e se encontra ao lado da cratera do vulcão, dirigindo-se à Gabrielle amarrada e colocada de pé numa pedra cuja extremidade está voltada para dentro da caldeira de fogo do vulcão:

- E agora, Gabrielle??? Onde está sua amada Xena? Mesmo que ela consiga chegar até aqui será tarde... você já vai ter virado carvãozinho...HÁ, HÁ, HÁ...
- Eu, se fosse você, não teria tanta certeza, Ares – diz Xena atrás dele.

Os olhos de Gabrielle encontram os de Xena, num pedido silencioso de socorro. Seu rosto estava vermelho pela proximidade do calor do fogo. Seu corpo todo transpirava de calor e de pânico frente à morte iminente.

- Xena!!! Como conseguiu chegar tão rápido???
- Não te interessa, Ares. É a mim que você quer... solte Gabrielle.
- Na-na-ni-na-não... eu não caio mais nessa. Enquanto essa loirinha estiver respirando você não terá olhos para mais ninguém, nem para o deus da Guerra.
- Deixa de ser idiota, Ares. Se matar Gabrielle eu te infernizo por toda a eternidade!!! E você bem sabe do que eu sou capaz, não sabe?
- Eu não aceito ameaças Xena!!! – diz Ares partindo para cima de Xena.

Ela saca sua espada e começam a lutar enquanto Gabrielle assiste a tudo completamente imóvel, pelas amarras e pelo medo. Xena é bastante ágil e consegue se esquivar dos golpes do deus da guerra. Quando Ares se encontra num canto da caverna Xena arremessa seu chacran contra as pedras suspensas acima da cabeça do adversário. Estas despencam e soterram Ares, porém por pouco tempo. Ainda tonto ele se levanta, olha para Xena e lança um raio contra a base da pedra que sustentava o corpo de Gabrielle. A pedra se desprende e Gabrielle cai na direção da fornalha do vulcão. Com a velocidade de um raio e a agilidade de um felino, Xena corre, flexiona as pernas e arqueia o corpo, realizando um salto mortal e projetando-se na direção da cratera. Consegue segurar Gabrielle nos braços, caindo de pé no outro lado das rochas. Ainda com Gabrielle nos braços se volta para Ares e com a voz embargada pela raiva diz:

- Eu te odeio, deus da guerra... mesmo que você fosse a última pessoa na face da terra eu jamais seria sua. Você me causa asco e desprezo.

Ares se volta para ela, recuperado da luta e responde:

- Quer saber do que mais??? Agora sou EU que não te quero mais... EU, o TODO PODEROSO DEUS DA GUERRA é quem não te quer. Nem para limpar o chão onde eu piso... E quer saber mais? Fique com a SUA Gabrielle, e faça bom proveito... EU te daria o que você quisesse, poder e glória. Com essa aí você viverá sua vidinha medíocre de mortal e terá o fim de todos eles, embaixo da terra. Adeus Xena, até nunca mais.

Ares desaparece no ar. Na caverna impera o mais absoluto silêncio. Xena se ajoelha e coloca Gabrielle no chão, libertando-a das amarras:

- O que foi que fizeram contigo? – pergunta Xena olhando para o ferimento na boca de Gabrielle e acariciando sua face. – te machucaram???
- Se você considera uma boa surra como machucar...machucaram. Mas se estiver se referindo a alguma coisa mais íntima... não deu tempo. – responde Gabrielle conseguindo ter bom humor mesmo numa situação como aquela.
- Minha querida... – diz Xena abraçando Gabrielle, que retribui o abraço apertando seu corpo contra o de Xena.

Com a proximidade do rosto de Gabrielle, Xena lhe beija afetuosamente os cabelos, a testa, a face e lentamente o canto da boca. Gabrielle sente o calor dos lábios de Xena e vira sua boca na direção dela, capturando seus lábios num beijo a princípio suave e vagaroso. Os corações de ambas disparam frente ao inusitado, mas os lábios não se separam, pelo contrário, o beijo se torna cada vez mais intenso. A língua de Xena explora o céu da boca de Gabrielle e cada canto daquela boca macia é invadido e sugado com paixão. Gabrielle corresponde à volúpia da paixão dos lábios de Xena e aperta cada vez mais seu corpo ao encontro do dela, movendo lábios e corpo em movimentos sincronizados de entrega e êxtase. Tanto Xena quanto Gabrielle não saberiam precisar quanto tempo ficaram abraçadas. Finalmente Xena consegue dizer:

- Eu te amo, Gabrielle.
- Eu também te amo, Xena.
- Eu tinha receio que você não me amasse do modo como eu a amo...
- E eu pensava a mesma coisa – responde Gabrielle.

Beijam-se novamente. Xena ergue Gabrielle em seus braços. Ela aninha a cabeça no ombro de Xena, enquanto a princesa guerreira lhe carrega para fora da caverna do monte Ixion. Do lado de fora Afrodite as aguardava:

- Muito bem...pelo visto conseguiram se acertar...
- Afrodite! – diz Gabrielle – Eu bem que devia ter desconfiado que tinha dedo seu metido nessa operação resgate... Xena é rápida, mas não é deusa.

Xena coloca Gabrielle no chão. Ela ajeita a saia e o top.
- Menininha... Eu estava com saudades. E seus pergaminhos? Tem produzido muito? – questiona a deusa do amor.
- Mais ou menos... nos últimos tempos eu andei meio...digamos, desorientada para escrever. – responde Gabrielle.
- Mas pelo ar de felicidade da tua carinha parece que agora você encontrou a inspiração que precisava, ein?
- Afrodite...
- Mas é verdade, não é Xena? – pergunta Afrodite sorrindo maliciosamente.
Xena sorri e concorda, dizendo:
- Muito obrigado, do fundo do meu coração. Te devo essa pelo resto da minha vida.
- Para mim você não deve nada... mas, faça minha amiga feliz, ok?
- Com certeza – responde Xena, não cabendo em si de felicidade.

Afrodite se despede com um tchauzinho e desaparece no ar. Outra vez materializa Xena, desta vez acompanhada de Gabrielle, perto da cachoeira de Potedia.

- Vamos para casa, meu amor – diz Xena beijando a boca de Gabrielle – perdemos o almoço, mas ainda conseguiremos chegar a tempo de jantar.
- Minha família deve estar preocupada conosco.
- Pedi a Lila que não falasse nada a seus pais, pelo menos até o final do dia. Vamos logo, ela deve estar ansiosa. A propósito, Gabrielle, acho bom você chupar um limãozinho antes de entrar em casa...
- Por que???
- Para tirar esse ar de satisfação da cara... Lila vai pensar que é gozação, afinal ela sabe que você foi capturada por aquela corja...
- Xena...- retruca Gabrielle sorrindo.

Xena e Gabrielle entram em casa quando os últimos raios de sol se escondiam atrás das montanhas do leste. Lila corre até elas e abraça Gabrielle:

- Que os deuses sejam louvados!!! E você também Xena. Gabrielle, você está com o lábio cortado...
- Não é nada sério... só um tapinha de um certo senhor da guerra... – responde Gabrielle.
- EX-senhor – completa Xena.
- Vamos, vamos, vamos jantar – convida Lila.

O pai de Gabrielle senta-se à cabeceira da mesa e a família ao redor, Xena na outra extremidade. O jantar transcorre normalmente, sendo que a mãe de Gabrielle comenta:

- Vocês não almoçaram em casa... da próxima vez avisem, pois eu havia caprichado na refeição.
- Desculpe, mamãe... é que nos distraímos na floresta, não é Xena???
- Ah...sim...pois é.

Após o jantar Xena senta-se no alpendre em frente à casa para conversar com o pai de Gabrielle. A mãe estava exausta da lida e recolheu-se cedo. Enquanto arrumavam a cozinha Gabrielle e Lila conversavam:

- Quer dizer que você falou com a Xena??? – bisbilhota Lila, falando a meia voz e cutucando Gabrielle no cotovelo.
- Porque você está me fazendo essa pergunta ?
- Gabrielle, eu te conheço desde que você nasceu! Teus olhos estão brilhando...
- Você tinha razão, irmã. Me surpreendi com Xena. O sentimento dela é igual ao meu, graças aos deuses!
- Eu sabia.
- Se sabia porque não me falou logo?
- Tem coisas que é a gente mesmo que deve descobrir, Gabrielle.
- É... tem razão. O que importa é que eu estou me sentindo a mulher mais feliz do mundo!
- Uma delas, não é? – responde Lila – A outra está sentada lá fora com o papai.

Gabrielle e Lila sorriem. Terminam de arrumar a louça do jantar e Lila se recolhe. O pai também vai para a cama. Gabrielle senta no alpendre, numa rede, ficando de frente para a cadeira que Xena ocupava.

- Eu já te agradeci por ter salvo minha vida novamente? – questiona Gabrielle.
- Você não tem nada para agradecer. Na verdade eu salvei a minha vida, pois você é a minha vida, Gabrielle.
- Xena, eu te amo.
- Eu também, mais do que tudo.

Os olhos azuis de Xena refletiam a luz da lua em quarto crescente e adquiriam uma tonalidade escura, quase anil. Gabrielle também possuía o luar refletido em suas madeixas douradas que emolduravam sua face radiante de felicidade. Gabrielle era tímida e apresentava certa dificuldade de externar sentimentos relacionados a questões mais íntimas. No entanto, a simples contemplação de Xena, sentada à sua frente, povoava seus pensamentos dos mais variados desejos e fantasias. Realmente Xena a atraía de forma que mal podia se controlar. O olhar da Princesa Guerreira a desnudava e Gabrielle sentia-se completamente excitada. As duas ficam se olhando em silêncio até que Xena fala:

- Eu quero ficar com você num lugar mais sossegado, Gabrielle. A gente tem tanto para conversar... e para fazer...- diz Xena maliciosamente.

Gabrielle fica corada até a raiz do cabelo. Xena se diverte com a situação.

Gabrielle questiona:
- Você está se referindo a uma...uma... lua de mel?
- É, podemos chamar de lua de mel... eu preciso de você Gabrielle – diz Xena fitando-a nos olhos.

O olhar de Xena deixa Gabrielle fora do ar. Ela vai até Xena, aproxima-se e senta em seu colo, de frente para ela, colocando uma perna de cada lado, entrelaçando-as por trás do corpo de Xena. A guerreira sente o calor do corpo de Gabrielle, o fogo ardendo por debaixo de sua saia franzida. Xena começa a transpirar e coloca as mãos por baixo do top de Gabrielle, em suas costas, sentindo a pele macia e quente.

Gabrielle geme com o toque e pressiona seu corpo ao encontro do de Xena. Elas se beijam apaixonadamente. Xena respira fundo e afasta Gabrielle dizendo:

- Meu amor, seus pais podem acordar.
- Mas eles vão ficar sabendo. Não vou esconder minha felicidade do mundo.
- Tudo bem, mas vamos dar um tempo para que se acostumem com a idéia?
- Tudo bem, você tem razão.
- Eu quero te levar para um lugar especial, meu amor...
- Para onde??? – quer saber Gabrielle, repleta de curiosidade.
- Surpresa! Amanhã arrumamos nossas coisas e partimos depois de amanhã, ok?
- Ok!!! Mas você não vai me contar mesmo???...
- Não senhora, eu já disse que é surpresa. – responde Xena beijando Gabrielle novamente. – Agora vamos dormir que o dia foi exaustivo.
- No seu quarto ou no meu??? – brinca Gabrielle.
- Cada uma no seu respectivo quarto, Gabrielle. Seus pais acordariam com o barulho – responde Xena rindo maliciosamente.
Gabrielle fica corada novamente:
- Eu me referia a dormir mesmo, dona Xena...
- Eu sei...

Naquela noite as duas dormiram o sono dos justos, como há muito tempo não o faziam. Desta vez os sonhos eram claros como os dias ensolarados e a paixão fazia deles bálsamos para compensar semanas de angústias e dúvidas.

Xena novamente acordou cedo e foi para a cachoeira. Outra vez precisava de um banho frio! Desta vez, no entanto, mergulhou nas águas gélidas com imenso prazer, lavando seu corpo e sua alma, como que energizando-se para oferecer à sua amada Gabrielle o melhor de si. Xena refletia consigo mesmo enquanto executava compassadas braçadas na água, deslizando com suavidade por entre a nuvem de gotículas formadas pela queda d’água. Pensava em quanto estava feliz. De fato jamais havia sentido algo parecido em sua vida, era como se pesadas cortinas houvessem sido descerradas e uma claridade que ofuscava a vista houvesse inundado sua existência e dado um norte para os seus dias futuros. Emanava felicidade por todos os poros e era como se a natureza à sua volta captasse a vibração de seu espírito, toda a floresta lhe sorria.

Gabrielle dormiu até mais tarde e foi despertada pela luminosa claridade matutina que penetrava nas frestas da janela. Sentiu o cheiro saboroso de pães e bolos feitos por Lila para o café da manhã. Adentrou na cozinha mal conseguindo disfarçar a felicidade que estava sentindo.

- Onde está Xena? – pergunta para Lila.
- Acordou cedo e foi para a cachoeira.
- Ela já tomou café?
- Acho que não, Gabrielle.
- Vou busca-la. Eu estou faminta!!! – Refere uma efusiva Gabrielle.
Antes de sair Gabrielle abraça a irmã e lhe diz:
- Lila, Xena e eu vamos partir.
- Eu imaginava...vocês têm muito que conversar...a sós. – responde Lila.
Gabrielle cora e diz:
- Sabe... Xena quer me levar para... para uma... uma...lua de mel.
- Isso é bem a cara da Xena – refere Lila divertindo-se com o constrangimento da irmã.
- Na verdade isso é...digamos...atípico. Mas eu estou adorando! Só que a danada não me contou aonde iremos. Eu estou morrendo de curiosidade.
- E não é só o lugar que a está deixando...curiosa, não é Gabrielle?
- Ai Lila, você sabe como me deixar embaraçada...vamos mudar de assunto.

Lila se cala, rindo consigo mesma. Gabrielle sai correndo, quase atropelando sua mãe que chegava do quintal neste momento, com uma cesta repleta de maças.

- Devagar, menina – diz a mãe.
- Desculpe, mamãe, eu te amo... – grita Gabrielle já bem longe.
- Eu não entendo essa menina. Até ontem estava prostrada e desanimada... agora parece uma serelepe saltitante...
- Deve ser o ar do campo que lhe fez bem – diz Lila com ar maroto.
- É, deve ser...

Gabrielle corre até a cachoeira e contempla sua amada banhando-se nas águas transparentes da lagoa. Examina atentamente as curvas da musculatura de Xena em cada braçada que a impulsiona para frente. Neste momento a princesa se vira e nada de volta, de costas, sendo que a visão de seu sexo e seus seios nus deixam Gabrielle sem ar. Inúmeras vezes já vira Xena despida, mas agora era diferente. Gabrielle respira fundo e grita:

- XENA... Hora do café...

Xena ouve, acena de dentro d’água e nada em direção à margem. Sai da água calmamente e caminha em direção às suas roupas com a majestade de uma deusa, seu corpo escultural deixava Gabrielle com palpitações. E Xena sabia disso!!! Vestiu-se sincronizadamente valorizando cada movimento, e andou em direção à sua amada tomando-a nos braços firmemente, envolvendo-a pela cintura e beijando-a carinhosamente nos lábios. Precisou segurar Gabrielle, pois suas pernas fraquejaram. Xena sorriu dizendo:

- Bom dia, meu amor.
- Bom...muito bom...- responde Gabrielle procurando novamente os lábios de sua amada.
- Vamos...ou o café vai esfriar... – cochicha Xena no ouvido de Gabrielle.
- Eu tô morrendo de fome!!!

Ao regressarem e sentarem-se à mesa quase não se encaravam para que os olhos não delatassem o que o coração teimava em gritar para o mundo. Lila as observava e sorria, radiante pela felicidade estampada no semblante da irmã, e de Xena também.

Durante a manhã Gabrielle e Xena trabalharam nos jardins da frente da casa e na hora do almoço Gabrielle comunicou aos pais que partiriam no dia seguinte.

- Mas já??? – questiona a mãe – vocês recém chegaram.
- Pois é... – diz Gabrielle – mas é que lembramos do... do aniversário de um amigo, de Eólios, não é mesmo Xena?
- Ah é...
- E ele ficaria inconsolável se não fôssemos abraça-lo!
- Bom, se é assim... mas pelo menos não demore tanto para nos visitar, filha. Amamos você e sentimos saudades.
- Eu sei mãe, eu também amo vocês.

De fato eles já estavam acostumados com as idas e vindas da filha e não desconfiaram do real porquê de não ficarem mais algum tempo. Xena e Gabrielle prepararam suprimentos para a viagem e partiram na manhã do dia seguinte, bem cedo, logo após o nascer do sol.

- Boa viagem, Gabrielle. Boa viagem, Xena. – Diz Lila e, chegando bem perto de Xena, cochicha ao seu ouvido – Cuide bem da minha irmã.
- Com toda a certeza – responde Xena – ela é o meu tesouro.
Montam em Argo e partem.
- Que os deuses às acompanhem – diz Lila enquanto acena.

Gabrielle segurava-se fortemente na garupa de sua amada. Xena podia sentir o pulsar dos batimentos do coração de Gabrielle contra suas costas. Mais ainda, conseguia sentir o calor emanado do meio de suas pernas, que lhe roçava no cóccix enquanto Argo cavalgava velozmente. Gabrielle tinha consciência do que conseguia provocar em Xena e isso a divertia um bocado, pois estava acostumada com uma Xena senhora de seus atos e com pleno controle sobre suas emoções. Gabrielle passava a mão sobre a armadura que protegia os seios de xena, acariciando-a e descendo até suas coxas, em movimentos suaves e rítmicos. Xena suava e Gabrielle sentia seu suor de encontro ao peito. Beijava as costas de sua amada e lhe afagava os cabelos. Xena quase não se agüenta de tanta excitação e ao passarem perto de um riacho, numa estrada deserta, Xena desmonta e puxa Gabrielle para si. Enlaça sua amada pela cintura e a levanta do chão beijando-lhe ardentemente a boca, o pescoço e o peito. Gabrielle geme de prazer e retribui cada toque, cada carícia mais ousada. Gabrielle leva suas mãos até a nuca de Xena, puxando-a e lambendo seu pescoço e orelha:

- Eu quero ser sua, meu amor...

Xena enlouquece de tesão, coloca Gabrielle no chão e se deita sobre ela, colocando suas mãos por dentro de sua saia, tocando seus quadris e apertando-a contra si. Gabrielle abre suas pernas oferecendo-se para a mulher que escolheu para ser sua, querendo ser possuída por inteiro. Num esforço sobre humano Xena respira fundo e se afasta um pouco, recuperando o fôlego e olhando amorosamente para Gabrielle. Esta estranha a atitude de Xena e questiona:

- O que foi? O que foi que eu fiz? Você não me quer?
- Quero Gabrielle... você é o que eu mais quero na vida. E você sabe disso, sua danada...
- Então o que houve, porque se afastou? Eu quero ser sua Xena, toda sua.
- Eu também quero ser sua, aliás eu já sou toda sua, meu amor.
- Mas então, eu não entendo... – diz Gabrielle.
- Sabe o que é? Eu quero que a nossa primeira vez seja especial, assim como você é especial, diferente de tudo o que já vivemos até aqui. Minha vontade é me entregar aqui, agora, por completo, possuí-la e ser possuída. Mas você, Gabrielle, merece o melhor. Eu a estou levando para um lugar muito especial, digno de vossa majestade, minha rainha amazona. A minha mulher merece o paraíso aqui na terra, nada menos que isso! Tenha paciência... e me ajude a ter também, Gabrielle...
- Tá bom... – sorri Gabrielle – você sempre acaba fazendo as coisas do seu jeito mesmo...
- Você não vai se arrepender... eu prometo. – diz Xena beijando suavemente os lábios de sua poetiza.
- A propósito Xena, você poderia tirar a sua mão de dentro da minha saia???

As duas caem numa gargalhada e se abraçam. Ajeitam suas roupas, comem algumas maçãs e parte do bolo de nozes feito por Lila, e seguem viagem.


Gabrielle e Xena cavalgaram de Potedia até a cidade costeira de Vólos, sendo que levaram três dias para chegar, atravessando a região da Calcídica, Macedônia e Tessália, passando por Scotus, Thessaloniki e Methone, sendo que pernoitaram, a primeira noite, em hospedaria nesta última cidade. Em Methone, ao desmontarem em frente a uma taverna, o sol já se punha no horizonte e o céu assumia uma cor azul acinzentada, preparando-se para descortinar o brilho das primeiras estrelas. O sol ainda refletia, por detrás das montanhas ao fundo, fachos de luz colorida que davam tonalidades, que iam do vermelho vivo ao rosa, laranja e lilases, para as nuvens próximas à linha do horizonte, formando um espetáculo digno de ser apreciado. E foi o que Gabrielle e Xena fizeram. Sentaram-se lado a lado, caladas, contemplando aquele presente dos deuses e agradecendo pelas bênçãos de estarem juntas e felizes.

Xena conduziu Gabrielle para dentro do estabelecimento de um velho conhecido seu, Niklos. Ao vê-la Niklos abriu os braços sorridente e correu em sua direção. Era uma figura de fato engraçada. Devia medir cerca de 1,50m, era possuidor de um abdômen bastante projetado para frente, suas mãos eram gordas, com dedos curtos, parecendo pãezinhos de mel. Era bastante claro, seus cabelos pendiam até os ombros, eram ondulados, rebeldes e ruivos, escondendo uma calvície no centro da cabeça com um barrete de veludo verde musgo. Suas faces eram rosadas, porém o que chamava a atenção naquele velhinho eram seus olhos de um azul cristalino, da cor do céu em dias de sol claro. Usava uma calça também de veludo verde amarrada por um cinto de couro acima da barriga, com uma camisa branca impecavelmente enfiada para dentro do cós das calças. Suas botas de couro quase lhe batiam nos joelhos. Gabrielle calculou que Niklos deveria ter perto de oitenta anos, porém apesar da idade conservava a jovialidade e a destreza em cada gesto. Saiu de trás do balcão e abraçou Xena, que o levantou do chão com um abraço. Balançando os pés no ar Niklos se derrete:

- Minha menininha... cada vez que te vejo você parece que cresceu mais um pouco...
- Ou será que é você que está diminuindo com o peso dos anos??? – provoca Xena sorrindo.
- Ora, ora, continua sempre respondona... – retruca sapecando um beijo estalado na face de Xena – mas afinal, o que faz por aqui? E quem é essa sua amiga simpática?
- Gabrielle, este é um querido velho amigo, Niklos.
- Muito prazer – diz Gabrielle.
- O prazer é todo meu, amigos da minha menininha são meus amigos também. Venham, venham... sentem-se. Aposto que estão famintas!
- Eu estou!!! – diz Gabrielle.
- E quando é que você não está com fome, Gabrielle??? – sorri Xena provocante.
- Engraçadinha... – Gabrielle franze o nariz sorrindo.

Elas se acomodam em uma mesa de canto onde conseguem ter uma visão de todo o estabelecimento. No térreo são servidas as refeições e as bebidas. No andar de cima existem pequenos cômodos, bastante simples, porém extremamente limpos e confortáveis, servindo para hospedar viajantes e mercadores. Enquanto Xena e Gabrielle jantam são observadas por Niklos, que sorri contente com o que vê: a felicidade e o amor estampados nos olhos de Xena quando contempla Gabrielle. Niklos lembra perfeitamente de Xena criança, ocasião em que residia em Amphipolis, bem perto da casa de Selene, mãe de Xena. Talvez por sentir falta do pai aquela garotinha morena, de olhos azuis e longos cabelos negros, inquieta, costumava passar horas em sua oficina observando-o enquanto realizava seus afazeres de consertar objetos dos mais variados tipos: panelas, castiçais, portões, cadeiras, etc. Trabalhava tanto com metais quanto com madeira ou cerâmica. Xena tinha verdadeira fascinação quando ele confeccionava brinquedos. Certa vez esculpiu um cavalinho de madeira a quem Xena batizou de Argo e foi seu brinquedo inseparável por vários anos. Xena sempre o fascinou por sua perspicácia e caráter. Niklos chegou a ouvir histórias referentes à Xena conquistadora de nações, mas tinha certeza de que aquela não era sua garotinha, porém aquela mulher perdida de amor que agora ocupava a mesa de canto de sua taverna, essa sim era a sua Xena, com toda a certeza. Era bom tê-la de volta. Ao terminarem o jantar e aproveitando que Gabrielle havia ido ao  toillete, Niklos se aproxima e pergunta a meia voz no ouvido de Xena:

- Quarto para casal?
- Niklos, seu bruxo velho... – retruca Xena com um sorrisinho no canto da boca – DOIS quartos.
- Tudo bem... mas é que eu te conheço...

Desta vez é Xena que puxa o amigo para perto e lhe pergunta ao pé do ouvido:

- É tão evidente???
- Claro como água. – responde Niklos.
- VOCÊ me conhece, por isso não vale.
Niklos gargalha.
- Conheço mesmo. Você está com o mesmo olhar do dia em que eu te dei o Argo, lembra? É o olhar de quem está pleno de felicidade.
- É verdade, meu amigo. Hoje eu sou de fato a mulher mais feliz do mundo.
- Então porque os quartos separados?
- É que eu quero levar a Gabrielle para um lugar bem especial...
- Hummm... eu até imagino aonde seja... vocês partirão de Vólos?
- Realmente você deve ser um feiticeiro... – diz Xena sorrindo e puxando Niklos para junto de si, fazendo com que sentasse em seu colo.

Nisto Gabrielle retorna à mesa e acha graça da cena com a qual se depara. Niklos, no colo de Xena, não consegue encostar os pés no chão e balança as pernas enquanto conversam. Gabrielle não resiste e questiona:

- Escuta... vocês já pensaram em dançar no meio do salão???
O trio cai na risada e Niklos responde:
- Sim... mas ia parecer que eu escalava o Monte Olimpo. He,he,he,eh...

Xena coloca Niklos no chão e antes de voltar para o balcão o velho cochicha no ouvido de Xena:

- Se mudar de idéia o quartinho dos fundos está vago...é bastante discreto e as janelas são para o poente, não se ouvem os barulhos de dentro...

Xena belisca o traseiro de Niklos e lança-lhe um olhar de  cumplicidade, empurrando-o para longe de sua mesa.

- O que foi que ele disse, Xena? – quis saber Gabrielle.
- Nada não, provocações de um velho amigo...
- Sei... – diz Gabrielle com um movimento de sobrancelhas, desconfiada.

As duas terminam o jantar e sobem para os seus aposentos. Na porta do quarto de Gabrielle Xena espreita sorrateiramente a escada e aproveitando que estava deserta enlaça sua amada pela cintura e beija sua boca com paixão. Ao ouvir passos na escada se afasta e diz baixinho:

- Dorme bem meu amor. Eu te amo.
- Em também te amo, Xena.

Elas acordam cedo, fazem o desjejum, se despedem de Niklos e preparam-se para seguir viagem. Antes de montarem em Argo, Niklos estende um pacote para Xena:

- É um presente de um velho amigo... fiz durante a noite. Eu sei que você sempre gostou dos meus trabalhos.

Xena abre o pacote e se encanta com uma figura de cerca de vinte centímetros de altura esculpida em cedro, retratando a silhueta de dois corpos nus entrelaçados, dois corpos de mulher. Gabrielle enrubesce e Xena diz:

- É lindo, Niklos. Você é de fato um artista. Muito obrigado. Você é uma das poucas pessoas que sempre me aceitou como eu sou, desde pequena, quando era chamada de esquisita...você me fazia sentir amada...
- E você Xena, com toda a certeza, é a filha que eu não tive... mas que considero como tal.

Xena e Niklos se abraçam e choram. Realmente Niklos foi sua figura paterna de referência, pois seu pai, Átrius, passava a maior parte do tempo em batalhas e desapareceu quando Xena tinha menos de sete anos. Xena seca as lágrimas de Niklos e este retruca:

- Vamos, menina, que a ocasião é de festa... não é mesmo, Gabrielle?

Gabrielle, também secando as lágrimas da face, abraça Niklos e o beija na face afetuosamente.

- Bem... pelo que vejo, agora, eu tenho duas filhas! – diz Niklos já sorridente – façam uma boa viagem e passem aqui na volta para me contar as novidades de...

Neste momento Xena dá uma pisada no pé de Niklos que fecha a boca antes de referir o local da lua de mel das amantes. Gabrielle arregala os olhos e diz:

- Niklos... você sabe de alguma coisa que eu não sei???
- Nada não... mas, confie em Xena! – diz, piscando o olho para Gabrielle.
Esta sorri e abraça o velhinho:
- Adorei ter conhecido você. Com certeza, ao retornarmos...não sei de onde – diz Gabrielle fazendo uma careta para Xena – passaremos aqui sim, para contar as novidades...
- Ótimo, vou ficar esperando!!! – responde Niklos acenando para as duas – Ah, Xena, já ia me esquecendo... sua encomenda. – refere estendendo um pequeno frasco de ervas para a amiga.
- Muito obrigada, você nem imagina o valor dessa encomenda... – responde Xena sorrindo, enquanto Gabrielle observava sem entender ao que se referiam.

Elas se despedem e partem montadas em Argo, no de carne, pelos e ossos, pois o de brinquedo ficou no passado longínquo de Xena.