Eternamente
Kênia T.
Contato: Khaymam@hotmail.com
DISCLAIMER:
Os personagens de Xena e Gabrielle são marca registrada da MCA/Universal e Renaissance. Os personagens vampiros são criação da escritora Ane Rice e encontram-se em sua trilogia sobre vampiros. Os outros personagens foram retirados da mitologia e portanto de domínio público para esses fins. Eles são usados aqui sem intenção de lucro ou de infringir as leis de copyright. O resto da estória é autoria de Kenia T. e nenhum aspecto original desta poderá ser utilizado em outro lugar sem prévio consentimento, por escrito da autora. Essa estória não poderá ser alterada e esta informação sobre direitos autorais deve sempre aparecer com a mesma.
A estória a seguir contém temas adultos expondo relações sexuais explícitas entre duas mulheres adultas. Se você for menor de 18 anos ou onde mora é proibido ler esse tipo de material, por favor, não continue. A escritora e a pessoa que mantém o website onde esse trabalho aparece não aceita responsabilidade legal pelo não cumprimento desse alerta.
NOTA DA AUTORA:
Tenho quatro heróis: Xena, Gabrielle, Lestat e Louis. A semelhança peculiar entre eles tornou o desejo de uni-los numa só estória... irresistível, semelhança esta que poderá ser constatada nessa fanfiction e parecerá ainda mais óbvia no caso do leitor conhecer, além das personagens Xena e Gabrielle, a trilogia de Ane Rice: "Entrevista com o Vampiro"; "O Vampiro Lestat" e "A Rainha dos Condenados". Não se trata de uma continuação mas toma como referência minha primeira fanfiction: "Ao Amor", seria então interessante lê-la antes desta.
À consistência do amor...
a dor?
Qual a distância que separa?
Qual a que une?
A da carne?
A da mente?
À união pode-se culpar tantos
quanto à separação.
Um descendente, um não
Um amante, o sexo
de sangue... de carne...
À carne que se corta
Que cura e que putrefa
Juntas, as duas
quem vence?
A morte ou a cura?
Que morte?
A da carne ou a da mente?
Que cura?
A da alma ou a do corte?
Era um dia quente, muito quente, mas a mata embalava -se de uma brisa fresca e para os dois corpos nus que repousavam sobre o cobertor a temperatura parecia ser a melhor possível. Era, em todos os sentidos uma visão singular: duas guerreiras expostas daquela forma, como se fossem estrangeiras vindas de um paraíso sem o menor conhecimento do mundo agressivo que as cercava; a terrível e temível Xena protegida apenas pelo abraço de sua pequena barda, era algo tão inesperado que a Deusa Afrodite parou para contemplar. A enorme Princesa Guerreira descansava sua cabeça no peito de sua jovem companheira e dormia profundamente o sono dos sonhos de Morpheus, sua expressão era de paz, algo que mal conhecia;
_ Inveja mamãe? Disse cupido que acabara de chegar à moda dos Deuses.
_ Deuses não invejam meu filho, deuses ambicionam e decidem.
_ No que está pensando... ?
_ Que tal a jovem? Disse a Deusa contemplando a Rainha das Amazonas que dormia à direita da guerreira, repousando o rosto sobre os cabelos de Xena.
_ Xena lhe daria muito trabalho...
_ Poderia ser ela mesma então...
_ Está precisando encontrar problemas para combater o tédio? sabe que não conseguiria segurá-la por muito tempo, desista não vai conseguir separá-las.
_ Talvez... mas para quê serve o poder senão para almejar e conseguir o inesperado?
_ Não percebe que estaria sendo uma tirana ao separar duas criaturas que encontraram o que até mesmo para os deuses é uma raridade? o que essas duas têm só pertence à elas, e só existe entre elas, uma ou outra sozinha não lhe dará o que procura...
_ Ainda não tentei para saber o que pode e o que não pode ser possível... além do mais, se posso ser tirana, porque seria benevolente querido filho... ?Sumiram quando ouviram passos...
Xena acordou num sobressalto... que chateação, já conhecia esse filme de cor, precisava levar mais à sério o desejo de Gabrielle em dormir em cavernas quando possível, o problema é que ainda não havia decidido se seria mais seguro estar encurralada... correu para pegar sua espada que estava descuidadamente a alguns metros de distância. Surgiram cinco soldados que pararam estáticos diante da visão que surgia à frente: A Princesa Guerreira, deslumbrantemente nua; tinha a pele levemente dourada a não ser nas partes em que a roupa de couro cobrira, mas a diferença de cor era tão sutil que dava a impressão de que andava quase sempre nua, ou sempre em frenético movimento impossibilitando que o sol a alcançasse; os músculos do abdômen - no qual notava-se uma cicatriz mal curada ainda - das pernas e braços estavam todos à mostra e alerta; enquanto segurava sua espada na mão direita sustentava uma expressão fantástica de ódio, pronta para atacar.
_ Então...? esbravejou a guerreira.
_ V v v vamos homens... ataquem! Gaguejou um deles.Gabrielle, que como sempre dormia o sono dos justos só acordou ao primeiro toque de espadas. Esfregou os olhos mais para acreditar no que estava vendo do que num simples gesto característico das manhãs... sua cara de espanto foi-se transformando em profunda irritação até que se levantou carregando consigo um cobertor. Enquanto Xena lutava Gabrielle, de todas as formas tentava cobri-la, expondo-se e expondo-a ao perigo.
_ Por Zeus Gabrielle quer parar?! Gritou a guerreira.
_ Por Zeus Xena, quer por favor se vestir?! Berrou a bardaA Guerreira, sabendo não ser possível controlar o temperamento de sua amiga tratou de acabar logo com aquilo, nem mesmo se preocupou em deixar um infeliz vivo para saber o motivo do ataque, mesmo porque nem sempre haviam motivos...
_ O que há com você, enlouqueceu? quase nos mata, não pode ser tão inconsequente Gabrielle... Disse a guerreira sinceramente preocupada.
A barda se culpava nessas ocasiões pois nem sempre conseguia sentir-se preocupada quando estava ao lado de sua Guerreira; sua confiança na força daquela mulher era tanta que às vezes era mal interpretada, como se não se importasse com ela, o que não era em absoluto, verdade. A expressão da barda, que agora olhava dentro dos olhos da guerreira era de uma criança contrariada e furiosa.
_ Não sabia que era tão... tão possessiva... A guerreira contemplava aquela expressão deliciosa e divertida, tinha vontade de rir mas sabia que só iria piorar as coisas, conhecia o temperamento da "baixinha invocada" para saber, e ai dela se soubesse sobre essa referência... "baixinha invocada".
_ Sempre fui, a diferença é que agora posso ser! vamos, vista-se! Disse a barda pegando suas roupas, balançando a cabeça, finalmente lembrando-se que também estava nua. A guerreira aproximou-se com um sorriso terno e segurou-a puxando-a para um beijo, o resto foi inevitável... ah! aquela sensação de complemento quando fazia amor com Gabrielle... quando se entregava totalmente à única pessoa que conseguia essa façanha... tê-la então... sentir seu sexo encharcar e finalmente bebe-lo... estar no mais puro e profundo êxtase...
_ Ah... bom dia Gabrielle... Disse uma Princesa Guerreira saciada à uma barda abobalhada.Era o primeiro dia de intimidade entre as duas e agora que descobriram-se como amantes Xena cogitava um tipo de lua de mel, uma viajem para terras mais calmas, onde pudesse descansar e conhecer melhor essa nova e deliciosa Gabrielle.
Deixaram o acampamento indo em direção ao sul. Montada em Argo Xena sentia o rosto quente da barda em suas costas, num abraço apertado como se quisesse impedir que qualquer coisa as separasse, enquanto segurava suas mãos que apertavam sua cintura. Amava tanto aquela criança que chegava a doer, não compreendia aquela dor mas ela estava ali; não sabia se era medo ou se simplesmente se dava ao fato do amor ser maior do que um corpo pudesse suportar. Mas amava, e muito, e ela estava ali ao seu lado, e isso era paz.
Viajaram todo o dia, andavam lado a lado agora, de mãos dadas, procurando um lugar para acampar pois já escurecia. Gabrielle puxava Argo pelas rédeas e se divertia com Xena enquanto lembravam as inúmeras vezes em que tiveram que esconder ciúmes e desejos uma da outra. A pureza das gargalhadas combinavam com a natureza que as cercava mas não com aquele tempo hostil. De repente Xena parou colocando seu braço à frente de Gabrielle obrigando-a a parar também.
_ O que foi? Perguntou a barda assustada.
_ Não sei... não parece humano... não ouço ou vejo nada... é uma sensação de presença... sinto isso quando algum Deus se aproxima...
_ Qual deles poderia ser? A barda não estava realmente preocupada, ainda, contemplava a intimidade entre as duas, nos pequenos gestos como aquele, explicando o que sentia, parecia querer dizer-lhe tudo ao seu respeito, tornando-a realmente cúmplice, o que não era do seu feitio.
_ Não sei meu amor... na verdade parece diferente das outras vezes. Disse a Guerreira olhando em volta, alerta.
_ Xena... olha ali... Sussurrou a barda mudando totalmente de expressão, apontando para uma minúscula clareira, como se esta tivesse sido criada apenas para abrigar aquela criatura. _ Pelos Deuses, o que é isso?Parado, olhando para as duas amantes estava um homem de cabelos compridos, castanhos claros, cuidadosamente penteados, estava um pouco distante mas notava-se que a cor da pele daquele homem era sobrenatural, tão branca que lembrava um mármore maciço ferindo a penumbra do anoitecer. Em meio ao seu encantamento hipnótico e proposital Xena deduziu que o ser viera de uma terra muito distante e desconhecida pois nunca vira aquele tipo de vestimenta, porém não conseguia organizar seu raciocínio pois sentia que algo invadia sua mente. Gabrielle lutava desesperadamente contra uma sensação de perda e separação, sentia-se sendo jogada para fora daquela cena, como se assistisse a um filme, impotente para interferir enquanto a criatura se aproximava... praticamente deslizava sobre as folhas secas até parar em frente à Xena. Seus olhos eram tão azuis quanto os da guerreira mas não eram transparentes e brilhantes, pareciam sólidos, impenetráveis; e era um pouco mais alto. As duas mulheres jamais haviam visto um rosto tão perfeito e lindo, não lembrava um anjo pois sua beleza parecia dura demais para sê-lo.
_ "Me chamo Lestat de Lioncourt, o Príncipe da Trevas."
Ao se apresentar às duas criaturas estáticas à sua frente, o ser tocou com um dos dedos o queixo da Princesa Guerreira, olhando-a tão profundamente que parecia sugar seu cérebro.
_ "Ora, ora Princesa Guerreira, temos mais coisas em comum do que nossos lindos olhos azuis... temos o lado negro... a culpa... um título de príncipe e uma amante loura cheia de compaixão que se chama Gabrielle..." Dizendo isso sorriu elegantemente mostrando os caninos levemente salientes e olhou para a barda, aproximou-se dela e aprisionou seus pensamentos libertando a Princesa Guerreira que pensou em pegar sua espada... "Não perca seu tempo bárbara, sabe que é inútil..." Disse-lhe com sua voz sobrenatural, sem tirar seus olhos dos de Gabrielle.
Ela sabia que era inútil, aliás era incrível tudo o que sabia sobre ele agora, e tudo o que não entendia sobre o que sabia. Era uma figura fascinante, tão presente em e ao seu tempo e infinitamente distante em gerações de conhecimento, milênios à frente carregava naquele olhar inquieto alternando entre o amor e o ódio. Havia também uma tristeza pulsante e excitante em seus olhos famintos e apesar da virilidade aparente era um ser assexuado, andrógino. Sua alma parecia tão densa que chegava a ser ainda mais palpável que seu próprio corpo, talvez por isso sabia tanto, ou talvez porque ao invés de sugá-la ele tivesse realizado uma troca.
Lestat era um vampiro de mais de duzentos anos apesar de ter nascido muitas centenas de anos depois daquele tempo em que se encontrava agora. Adorava se vestir com a simplicidade dos mortais da época em que estava vivendo: calças jeans, jaqueta de couro, botas, etc.. Vivia no final do século XX, numa época em que os "bárbaros" não se tocavam para ferir em uma batalha, num tempo de armas fantásticas e violência psíquica; o amor obedecia à uma série de regras sociais e leis; os deuses não falavam com os mortais e na maioria das vezes eram tão ignorados quanto os vampiros, ele mesmo não acreditava, até que Cronos o trouxera para esse tempo. Há pouco tempo havia aprontado uma bela bagunça em seu tempo e era conhecido como o "vampiro rebelde", era o mais popular de todos os vampiros e um dos mais poderosos apesar de ser um demônio muito jovem; isso se dava principalmente ao fato de ter sido amante de Akasha, a primeira Rainha dos Condenados, a mais poderosa das criaturas que já andou sobre a terra, a mais velha de todas as criaturas das sombras e que agora estava morta, numa época em que a morte era realmente o fim, mesmo para um vampiro; a troca de sangue com ela lhe havia dado esse poder. Lestat estava entediado, Louis, seu primeiro e último amor encontrava-se em uma de suas intermináveis crises de culpa por ser um demônio impotente diante da "fome", e seu amor delicado e inocente seria suficiente para preencher o vazio causado pela sede de vida de um ser aprisionado num corpo morto não fosse Lestat um inquieto apaixonado por desafios e regaras quebradas... era seu modo de dar vida à morte e assim sentir-se vivo, além do mais, se era um demônio amaldiçoado, que assim fosse... sentia-se melhor assim do que remoendo sua culpa, como fazia Louis.
E foi pensando nisso que numa fração de centésimos de segundo pulou sobre Xena num abraço mortal mordendo-lhe o pescoço e sugando sua vida até que restasse apenas uma centelha, o suficiente para estar em seu último grau de lucidez... sentia-se saciado, em êxtase... que ser fascinante e delicioso!... e forte, espantava-se com o tamanho daquela força contida no corpo de uma mulher mortal.
Xena caiu, praticamente morta nos braços de Gabrielle que a segurou e deitou-a em seu colo. Tudo acontecera tão rápido que ainda não sabia o que estava acontecendo, novamente sentia apenas a pele gelada de sua amada... foi sendo tomada pelo desespero pois não sabia se teria forças para lutar contra a morte dela pela segunda vez em tão pouco tempo, naquele momento preferia morrer também se esse fosse o caso. Segurou o rosto de sua guerreira com uma das mãos e começou a chorar chamando seu nome...
_ Xena, não... por favor, não... Seu choro agora transformava-se em gritos de desespero entre os soluços... _ acorda! acorda! por favor...
Lestat pensava na oferta de Cronos, que a princípio havia lhe parecido tentadora, e agora ao conhecer aquela bárbara mais ainda. Sentir aquela força e paixão num corpo tão poderoso apesar de mortal era excitante e desconhecido pois aquela guerreira vivia centenas de anos antes dele ter nascido, numa época fantástica de crenças, deuses e batalhas sangrentas. Ele se sentia vivo ali pois não era um mito ou uma fantasia, era real, acreditavam nele assim como acreditavam em seus deuses e demônios. Mas a oferta de Cronos não era para ficar e sim levá-la para seu tempo, o que também era fascinante, era como se pudesse levar uma parte daquele mundo num dos seus melhores espécimes. Queria saber mais, aprender com aquela bárbara. Pensou também em como seria divertido apresentá-la a Khayman, um vampiro fascinante da primeira geração, talvez até a conhecesse pois era tão velho que havia caminhado pelas ruas de Tróia. Estava diante de mais um inusitado desafio... quebrou a primeira regra ao transformar uma criança, Cloudia, a segunda ao se tornar um astro de Rock famoso expondo-se aos mortais, e agora queria aquela bárbara. Nenhum vampiro jamais havia viajado no tempo para transformar um herói num demônio. Era realmente excitante! Adoraria levar a barda também, sua pureza lhe lembrava Louis aquela criatura que também tinha aqueles olhos verdes, doces e apaixonados, não via inocência nela, havia sim uma imensa vontade de não ver o mal, nem mesmo o que carregava em si mesma, fazia-o por idealismo e sabia sobre a maldade, conhecia-a sim e era capaz de ser muito, muito cruel... mas acreditava no ser humano, inclusive no ser humano que podia ser, por isso criava um mundo de compaixão e "pureza" em torno de si e do seu amor, e sofria como um animal ferido quando alguém lhe mostrava o mal... seu e do mundo... mas inocente, não... pensou que a inocência era algo muito relativo, talvez ela o fosse sim, à sua própria maneira, como mérito de seu esforço... assim como Xena o era quando levada instintivamente tanto pelo ódio quanto pelo amor, sem se aprofundar demais, apenas sentia e entrava em ação... do tipo que era perdoada por Deus pois não sabia o que fazia... ai da barda se o fizesse pois sabia exatamente o que fazia, seu ideal era tão poderoso que ela mesma se punia, talvez mais cruelmente que seus próprios deuses pudessem fazê-lo... como lembrava-lhe Louis... mas não podia levá-la, sentia o amor entre elas e não queria dividir a atenção da Guerreira. Não seria difícil separá-las, sabia que ao se transformar, Xena não colocaria seu amor em risco ao seu lado, e muito menos lhe daria o presente das...
A barda olhou para Lestat que estava de pé em frente a elas admirando sua dor, e lhe falou entre soluços:
_ Por favor, faça o que quiser... eu farei o que quiser, qualquer coisa... mas por favor não a deixe morrer...
_ "Calma criança, isso só acontecerá se ela assim o quiser." Lestat se aproximou e ajoelhou-se diante da vítima, rasgando a pele de seu próprio braço com o chakram de Xena que estava em sua cintura, deixando o sangue frio escorrer... "beba..."De alguma forma Xena sabia o que aquilo significava, talvez por causa da "troca". Estava fraca, tudo girava à sua volta, como se estivesse bêbada, mas sabia que não queria beber aquele sangue... não queria o que aquilo significava, não sabia exatamente o que era pois sua proximidade com a morte a deixava confusa... apenas não queria, e assim se negou a bebê-lo.
_ "Se não o fizer vai morrer, sabe disso não sabe bárbara?" Disse Lestat preocupado diante de sua resistência .
_ Xena, bebe esse troço logo, estou mandando! Disse a barda desesperada, colocando o corte do braço do vampiro em sua boca.As forças que a Princesa Guerreira ainda possuía, gastara para cerrar os dentes impedindo que o líquido vermelho entrasse em sua boca. Não sentia seu corpo, suas pernas ou braços mas sentia fome, uma fome alucinante, quase incontrolável e sabia que era de sangue, daquele sangue... mas não queria, não queria aquilo que vira nos olhos do monstro.
_ "Melhor mudar de idéia bárbara... se morrer ainda me restará sua pequena amante, e definitivamente não perderei minha viajem..."
_ Não... sussurrou a Guerreira.Não tinha escolha agora, não podia deixá-la nas mãos do vampiro, o que não queria para si queria muito menos para Gabrielle. Então ela bebeu... o sangue queimava sua garganta como um ácido e invadia todos as fibras de seu corpo, sentia-o novamente à medida que o líquido, que se tornara quente em contato com sua essência, revivia seus membros. Sua pele queimava com o calor e as ondas de êxtase percorriam-lhe cada parte sua. Sentia-se transformar em algo muito, muito poderoso, percebeu o poder insuperável do mostro que a transformava e sua fome aumentou... ergueu-se e puxou-o para morder-lhe o pescoço com seus novos caninos, era um banquete à sua disposição e obediência... e ela estava faminta. Ao lembrar-se da consciência que ganhara sobre as consequências de tudo aquilo o soltou de repente deixando-o cair sobre seus joelhos, de olhos fechados, saciado. Olhou para Gabrielle, que também estava de joelhos ao seu lado e jamais sentira uma dor maior que aquela, nem mesmo quando a barda fugira; era insuportável, aquela mulher não poderia mas queria apenas morrer... sabia que aquilo tudo significava a separação irremediável... vagaria, num mundo desconhecido, imortal e demoníaca sobre e sob a terra sentindo a solidão mais lasciva e cruel que poderia sentir um mortal ou imortal. Soube que havia uma única metade para cada ser quando conhecera Gabrielle, e agora que sabia disso apenas ela poderia lhe dar a tão cobiçada paz, pois conhecera o máximo do êxtase espiritual ou carnal, nada mais poderia satisfazer ou preencher sua alma. Gabrielle parecia compreender tudo e chorava incontrolável e desesperadamente quando pulou no pescoço da guerreira abraçando-a, tentando impedir o que estava por vir, mesmo sabendo-se impotente, e isso a desesperava ainda mais, mais do que a sensação de abraçar uma rocha fria, gelada. Xena se transformara numa titã impenetrável e invencível; seu olhar escurecera, tornara-se sólido, sem luz, sem brilho; sua pele agora era muito branca, gelada e rígida como o aço de sua espada. Poderia esmagar todos os ossos de Gabrielle apenas pelo descuido de um abraço emocionado, isso lhe doía pois sentia-se uma pedra com a vida frágil nos braços, impossibilitada de corresponder ou expressar seu amor pois era um demônio agora, uma condenada, um monstro das trevas e a única forma de fazê-lo seria atender às súplicas de seu corpo que pedia, implorava lascivamente por Gabrielle... estava tão excitada que sentia o cheiro e o movimento do sangue de sua amada enquanto passeava rapidamente por suas veias... sua boca encostava naquele pescoço quente e íntimo... era fome, amor e desejo juntos, atormentando a guerreira, alucinando-a, fazendo-a apertar descuidadamente o corpo de Gabrielle que se entregava cegamente... precisava dela, precisava senti-la, toma-la, ah! como era insuportável aquele desejo, tinha que unir-se à ela novamente... como a amava... entreabriu a boca encostando seus dentes e sua língua na jugular macia da barda, sentindo seu cheiro chamando-a... quando levou um solavanco sendo puxada pelo demônio e erguida para o alto... ele podia voar... não reagiu, na verdade agradeceu aos deuses quando se deu conta do que estivera prestes a fazer... ainda ouviu o grito cortante da barda lá embaixo... "_ Nããããããooooooo!!!!!!!!..." e sentiu seu coração se partir definitivamente.
Houve um tempo
em que seu olhar salvava meus dias
Não havia relento
porque em qualquer lugar soprava aquela brisa
Bastava você estar olhando em mim.
Você sempre pôde ir embora.
Sempre soube que eu não iria te privar de sua rota.
Ver você partir nunca foi uma derrota
porque me sentiria contigo...
onde quer que fosse
qualquer que fosse
quem quer que fosse o seu abrigo.
Mas eu descobri ser mais seguro para nós duas
deixar você olhando em volta, procurando por nós duas
Eu não podia lhe pedir para voltar...
Eu não podia voltar...
e sua ausência agora não faz de mim uma derrotada mas a própria derrota.
Gabrielle tinha alguma consciência do que havia acontecido... Lestat a tinha dado, só não sabia por quê. Levantou-se, pegou o chakram que Xena havia deixado para trás, montou em Argo e partiu à procura do poderoso Cronos, o Deus do tempo. Chegando em seu templo, localização que poucos conheciam, chamou por ele com voz firme...
_ Apareça Cronos...
O Deus não respondera... mas Gabrielle sentia-o muito perto... lembrou-se de Xena, entendia agora o que ela dizia sobre sentir uma presença. Sentia a fúria tomando conta de sua alma...
_ Vamos Cronos, apareça... Sua voz saíra apertada, entre os dentes... _ se não vier falar comigo tornarei sua vida imortal um inferno, viva ou morta! Gritou a barda, quase rosnando.
A Rainha das Amazonas ouviu então um riso mórbido, digno de um Deus sério, o que ela pensava ser Cronos.
- Estou curioso para saber como faria isso minha jovem... disse o Deus surgindo à sua frente. Ele era sóbrio, tanto na voz quanto nas palavras, no olhar e na aparência. Não era bonito, mas muito elegante e atraente.
_ Não duvide Cronos, não sabe do que posso ser capaz quando ferida no ponto certo!
- Engano seu... eu sei muito bem do que é capaz... só não acredito que haja alguma coisa que possa fazer contra mim...
_ Com que propósito interferiu no tempo trazendo o demônio do futuro para levar Xena, ela nem ao menos é sua inimiga, para quê? Por quê tão longe? Sua voz fraquejava, queria chorar, implorar...
- O tempo é bastante relativo Gabrielle, para mim ele não passa nem pára, as dimensões e as épocas coexistem dentro de mim, eu sou o tempo... sou ontem, hoje e amanhã num mesmo segundo - acha mesmo que pode fazer-me algum mal?
_ Traga-a de volta Cronos...
- Não posso...
_ Leve-me até ela então!
- Posso compreender sua agonia mas não pretendo mudar as coisas.
_ Você já mudou as coisas e quero saber por quê! Retomou sua voz de guerreira. _ O que ganhou com isso Deus?
- Eu, nada... mas Afrodite...
_ Afrodite? sabe que Afrodite é uma Deusa inconsequente... porque sucumbir à ela?
- Ela tem seus próprios meios...
_ Mas o que ela pode ter ganhado com isso?
- Ela quer você...
_ AH!! ela me quer, pois ela vai ter! Dizendo isso saiu pela porta do templo atrás de Afrodite.Gabrielle estava determinada e iria ao fim do mundo para conseguir o que queria. Viajou incansavelmente por cinco luas até chegar ao templo de Afrodite. Sabia de sua impotência diante dos Deuses mas encontraria um meio... encontraria sim!
_ Afrodite!!! Berrou a barda...
- Ora, ora se não é a doce Gabrielle... Disse a Deusa surgindo atrás da pequena guerreira, olhando-a com um ar de desejo e cinismo.
_ Doce uma ova! não consigo imaginar o que pretende nessa sua cabeça doentia mas se é a mim que você quer então é a mim que terá... terá o pior que posso ser Deusa se não trouxer Xena de volta! vou infernizar tanto a sua vida inútil que lhe restará me matar ou fazer o que quero... vê? me perderá de uma forma ou de outra.
- Mas que criaturinha desaforada... não sabe seu lugar mortal? Disse a Deusa mudando totalmente de expressão.
_ Não sabe o seu, fútil Deusa do amor? Gabrielle estava furiosa...
- Não preciso de você bardazinha... queria apenas um pouco de distração... o que pensou, que era importante para mim? oh, por favor... não quer ficar? vá então para a sua vidinha sem sua querida Xena; acha minha vida inútil? pelo menos tenho poderes para movimentá-la, amanhã encontro algo melhor para me divertir, faço isso há séculos... mas e você pobre mortal, o que tem? posso não ter você mas consegui separá-las, não diziam ser impossível? além do mais, não imagina como me sinto recompensada por tê-la castigado, garota insolente! ah! a propósito, não tente infernizar minha vida... não vou matá-la pois não é da minha natureza, mas posso facilmente encontrar alguém que o faça... E sumiu.Gabrielle encostou suas costas na parede e escorregou até o chão, encolhendo suas pernas e escondendo a cabeça entre os braços que abraçavam os joelhos, e começou a chorar. Sentia-se impotente, não iria desistir mas precisava chorar um pouco, aliviar a dor por alguns instantes. Pensava em procurar Cronos novamente, descobrir um ponto fraco... foi quando sentiu uma mão suave acariciar seus cabelos... levantou a cabeça e viu o jovem e belo filho de Deusa Afrodite, olhando-a com compaixão... era Cupido. Ele segurou suas mãos e levantou-a.
_ Por favor... me ajude... Disse a barda entre soluços, enxugando suas lágrimas com as mãos.
- Como poderia Gabrielle?
_ Me diga... como Afrodite convenceu Cronos a fazer isso?
- Ela o chantagiou...
_ Como?
- Cronos tem uma amante mortal que vive em Tróia e se chama Mariel, é uma criatura doce e justa que se apaixonou pelo Deus do Tempo e espera um filho dele... Zeus não sabe disso e apesar de ter um filho com uma mortal não será tolerante diante da desobediência de Cronos em quebrar essa regra e o castigará, ou pior, castigará Mariel e seu filho.
_ Então é isso! claro! vou ameaçá-lo da mesma maneira...
- Não vai funcionar Gabrielle, Zeus não pode ser encontrado pelos mortais como os outros deuses; não há um templo ou casa onde possa falar-lhe, e Cronos sabe disso...
_ Posso dizer-lhe que pedirei a Hércules que o faça para mim...
- Sabe tão bem quanto ele que Hércules não faria isso, ele é ético demais.
_ Então vou matá-la... O olhar da barda escurecera...
- Você realmente faria isso Gabrielle?A barda apenas fitou-o, não precisava responder.
- Não acha incoerente lutar por seu amor matando outro, logo você que luta tanto por justiça?
_ Não há coerência alguma em minha vida agora Cupido, por quê ser justa se faço parte de um jogo irresponsável de Deuses que não se preocupam com nada além de alegrar suas vidas fúteis, mesmo que isso custe a felicidade ou até a vida de alguns míseros mortais; que coerência pode haver numa vida que é destruída pelo capricho de uma Deusa insana? é até compreensível tantos deuses loucos posto que são comandados por um Zeus injusto e fanfarrão.
- Cuidado com o que diz Gabrielle...
_ Cuidado com o quê Cupido? cuidado para quê, o que posso temer agora? o que adiantou perdoar e respeitar a vida, a morte, os Deuses... olhe como fui recompensada... vivo lutando por justiça com o mundo, com a pessoa que amo, comigo mesma... que mal fiz para ver meu amor, minha metade, minha vida sendo arrancada daquela maneira? pode imaginar meu desespero ao ver aquela dor nos olhos mortos de Xena? ela sempre pôde e fez alguma coisa para me salvar, eu não pude fazer nada por ela... além do mais, já sujei minhas mãos de sangue uma vez, posso sujar de novo, a diferença é que agora é por uma boa causa. O jovem Deus sentia-se culpado, por ter-lhe contado sobre Mariel e por saber ser verdade boa parte do que falara sobre os deuses.
- Não posso permitir que a mate barda...
_ Não quero fazê-lo Cupido... mas não vejo outra forma...
- Tente o blefe.
_ Sobre matar a amante?
- Não, diga a Cronos que eu a ajudarei intervindo entre você e Zeus.
_ Faria isso?
- Não... mas posso confirmar sua história. Dizendo isso Cupido retirou uma pena de suas asas e colocou-a nas mãos da barda que entendeu e agradeceu ao jovem Deus, saindo em direção ao templo de Cronos._ Olá Cronos... tenho novidades... Disse a barda estudando o salão vazio... sentiu-o.
- Hum... estou curioso jovem... E surgiu à sua frente. "Os Deuses sérios sempre chegavam pela frente" pensou a barda.
_ Agora sei sobre Mariel.
- E?
_ Lanço-lhe a mesma chantagem usada por Afrodite... quero Xena de volta, contarei a Zeus sobre seu filho com uma mortal caso não o faça. Sua voz e expressão eram muito duras.
- E posso saber como faria isso, como falaria com Zeus?
_ Cupido está comigo e intercederá por mim. Falou a jovem mostrando a pena.
- E por que o jovem Deus iria querer interferir?
_ Porque acredita no amor.
- Se esse é o caso, o meu caso também se trata de amor, não vejo diferença, apenas protegi os meus.
_ Se você pôde interferir em minha vida arrancando meu amor de mim, porque eu não poderia fazer o mesmo? foi o que ele me disse, seria justo.
- Não acredito que Cupido venha a se intrometer nesse assunto... muito bem Rainha das Amazonas, farei o que me pede, mas fique ciente de que não o farei por me sentir pressionado mas por ser complacente e perceber seu esforço e desespero... - A barda soltou um grito de alívio... - mas tem uma coisa, não trarei a Princesa Guerreira de volta, fiz um trato com Lestat e não voltarei atrás... você irá ao seu encontro numa terra estranha, num tempo inimaginável para você, e estará sozinha... não poderá se arrepender nem voltar, está preparada?... acha mesmo que seu amor pela guerreira é capaz de suportar tudo isso?
_ Não faz idéia do que o meu amor por Xena é capaz de suportar Deus do Tempo.
- Pois muito bem...
_ França, 1998_
Gabrielle sentia dores por todo o corpo enquanto recobrava a consciência depois do que parecia ter sido um sono de dias sobre rochas salientes... via muitas tochas ao seu redor, sua visão estava turva e tentava se acostumar com a claridade... gradativamente foi percebendo que não eram tochas, ou pelo menos não eram tochas feitas de fogo. Levantou-se do chão, que não era de terra... era todo coberto de uma pedra lisa pintada de verde e percebeu que se encontrava no que parecia ser uma pequena clareira entre um emaranhado de enormes torres e castelos, muito diferentes dos do seu tempo é claro, mas reconheceu-os como moradias. O ar era pesado, difícil de respirar e havia um barulho insuportável ao longe, pareciam o ronco de dezenas de gigantes ao mesmo tempo. Começou a andar para sair daquele lugar que estava todo cercado por correntes finas entrelaçadas. Pulou a cerca de arame e entrou num beco até sair do outro lado. Deu um salto para traz de susto ao ver os carros que passavam em alta velocidade... como podiam se movimentar sozinhos, sem nada para puxá-los? Era tudo incrivelmente novo, luzes brilhantes reluziam, pessoas andavam freneticamente de um lado para outro... eram tantas... parecia que o resto do mundo havia se mudado para um só vilarejo. Suas roupas eram estranhas... algumas feitas de borracha, outras de couro, e outras de tecidos que não conseguia identificar... algumas pessoas se vestiam como o demônio que levara Xena... queria que estivesse ali, descobrindo aquilo tudo junto com ela... seria divertido... a barda sentia-se excitada com tanta novidade mas a euforia não vencia sua solidão. Tentou ver o céu, procurar as estrelas, ter alguma referência de seu tempo... mas as enormes construções de pedra lisa erguiam-se monstruosamente sobre ela e o pedacinho do céu que ainda estava à mostra parecia turvo, escuro... será que haviam destruído as estrelas? Sentia frio e fome, era uma terra gelada, precisava procurar um abrigo e algo para matar sua fome... saiu andando procurando uma árvore frutífera, um rio ou qualquer coisa que pudesse comer... iria descobrir que sobreviver nesse tempo não era algo tão elementar quanto nos tempos bárbaros...
Gabrielle vagou dias à procura de algo que lhe desse uma pista de sua amada, passou fome e frio, muito frio... conheceu pessoas maltrapilhas e fedorentas que como ela dormiam ao relento... estava acostumada com o relento mas esse era diferente, era um relento dolorido que trazia sensação de absoluto abandono... tivera contato com algumas pessoas daquele tempo, pessoas caridosas, de quem ganhara cobertor e comida, e pessoas violentas e mal educadas, mas esses contatos eram sempre fugazes e jamais perguntara pelos demônios, sabia que seria inútil, Lestat havia lhe dado essa consciência, e de qualquer forma ainda tinha dificuldade em se comunicar naquela língua. Conheceu televisão, adorou diga-se de passagem, aviões, embarcações movidas a motor, armas de fogo poderosas - pensou em Afrodite - eletricidade... era tudo muito fantástico e muito novo mas reconhecia aquele século como se tivesse sonhado com ele, e esquecido como na maioria das vezes acontecia com os sonhos quando despertava, mas quando estimulado, voltava à mente em vários fragmentos; era como se no primeiro minuto de contato aquelas coisas fossem inacreditáveis, magia mesmo, porém, imediatamente depois as reconhecesse de alguma forma. Comia o que lhe davam ou o que roubava em escassas árvores que descobrira serem em sua maioria particulares... aprendera que poderia ganhar dinheiro escrevendo poesias, mas não poderia vendê-las como faziam alguns chamados "vagabundos" pois quase não sabia escrever na língua deles, Lestat não lhe dera essa consciência, pelo menos não em sua totalidade... passava os dias procurando; levava consigo apenas um cobertor e o chakram de Xena, sempre escondido dentro de suas roupas cada vez mais surradas... até que num daqueles fragmentos de consciência percebera que não era de dia que devia procurar, claro! os demônios vagavam à noite, não de dia... precisava procurá-los em lugares ermos, escuros e sombrios, sim, compreendia agora... não procurou naquele dia, apenas esperou, sentada à beira de um rio asfaltado e mal cheiroso, o céu escurecer... ali era um do poucos lugares que conhecia para ver as estrelas, elas eram tímidas e escassas, mas as encontrara. Quando escureceu, levantou-se e começou sua caça particular aos demônios... percorreu os lugares mais sombrios e perigosos, e tivera que lutar com um ladrão que queria roubar-lhe sabe-se lá o quê... quando já era madrugada e o sol não se demorava a aparecer, viu em um beco escuro uma criatura muito branca, bem vestida, seus cabelos negros cuidadosamente penteados, não era muito alto e olhava para ela... era um deles, tinha certeza. Tinha algo em suas mãos... era um homem... ele o segurava pela gola de seu casaco quando jogou-o aos pés de Gabrielle que reconheceu-o, era o ladrão que tentara roubá-la. Olhou a criatura novamente, ela se virava e preparava-se para partir...
_ Espere! Gritou Gabrielle que saiu correndo atrás do monstro... tarde demais, ele sumira.
Estava confusa, tentava imaginar o que aquilo significava enquanto voltava para o prédio abandonado onde dormia agora... voltaria na próxima noite àquele beco e esperaria o demônio.
Ela dormira o dia todo e estava faminta quando o sol se preparava para se retirar... passou por uma padaria onde um simpático senhor gordinho sempre lhe dava um pão com alguma coisa dentro, nunca identificara o que era aquilo... mas era bom. Dirigiu-se ao beco da noite anterior e sentou-se para devorar seu desjejum. Esperou a noite inteira... aquela e duas outras... na terceira noite sentira a presença do sobrenatural e levantou-se num salto, pondo-se alerta. O monstro, numa atitude extraordinariamente rápida, pulou sobre a jovem e segurou seu pescoço... quando sentiu os dentes afiados do demônio encostando em sua jugular Gabrielle, sendo estrangulada pelas mãos frias e fortes do vampiro, sussurrou o nome "Lestat de Lioncourt". O vampiro interrompeu o ato imediatamente e fitou a jovem, soltando seu pescoço.
- O que disse? Perguntou o vampiro espantado.
_ Eu disse Lestat! sabe onde posso encontrá-lo? Falou a barda massageando seu pescoço com as mãos.
Aquele demônio de olhos castanhos era quase tão lindo quanto Lestat, talvez a escuridão tornasse as pessoas mais belas, talvez fossem recompensados pela beleza já que viviam nas trevas. Não sentia medo dele, confiava naquele demônio, talvez por culpa de algum fragmento de consciência.
- Quem é você jovem, e porque procura por Lestat?
_ Meu nome é Gabrielle... procuro-o porque tem algo que me pertence... e você, como é seu nome?O Vampiro gostara da jovem, era sincera e deliciosamente teimosa, sem contar que pretendia enfrentar Lestat, e por mais incrível que pudesse parecer sentia que ela poderia ser capaz, isso era realmente inusitado, divertido, adorou a idéia. Sua simpatia pela criança dera-se desde a primeira vez que a vira e pensara ser mais uma caçadora de aventuras, algumas almas perdidas muito comuns naquele tempo: acreditavam nos vampiros - culpa de Lestat - e procurava-os para implorar que as transformassem. Geralmente eram mortas pelos demônios, mas aquela ele não queria matar, por isso jogara aquele homem aos seus pés para dar-lhe um aviso, mas como ela insistira perdera a paciência, mesmo porque o sangue daquelas jovens era tão doce... não conseguira resistir.
- Me chamo Armand, venha comigo... Dizendo isso, segurou a jovem pela cintura e começou a andar e saltar rapidamente sobre os telhados da cidade até chegar à uma casa grande e bonita que se erguia entre um denso jardim, de árvores altas e corpulentas. Ele tinha muitos carros, era muito habilidoso com o dinheiro, adorava o conforto mas gostava de esgueirar-se nas sombras da cidade para se alimentar à moda antiga. Entraram pela porta da frente, num salão luxuoso... tudo reluzia, parecia ser de ouro aquele lugar... a barda nunca havia imaginado nada igual... nem mesmo os palácios que conhecera em seu tempo eram tão luxuosos, e ficou deslumbrada com a casa do demônio.
_ Uau! Soltou Gabrielle.
- Quer tomar um banho?
_ Bem quentinho? Ah, adoraria!
- Vou sair um pouco, estou com muita fome...
_ Eu também, traga um pouco para mim... disse a jovem sorrindo.Armand riu da inocência naquela frase... ele não sabia, mas não havia inocência nenhuma naquela frase, ela estava brincando... tinha a consciência dada por Lestat e sabia exatamente qual seria seu banquete.
- Pierre cuidará de você minha pequena... Disse o vampiro olhando para um senhor grisalho vestido de preto e branco que se encontrava num canto da sala.
- Por aqui madame... disse o mordomo gentilmente guiando a jovem para as escadas.
Quando Armand chegou a jovem já havia tomado banho e jantado, e agora vasculhava sua biblioteca fascinada... vestia um roupão branco de algodão e tinha seus cabelos molhados... ainda bem que já havia se alimentado...
- Podemos conversar agora meu bem... disse o vampiro mostrando-lhe uma poltrona em frente à que estava sentado.
Era tudo tão confortável... acabaria ficando muito mal acostumada.
- O que Lestat tem que lhe pertence?
_ Xena.
- A bárbara que aquele louco trouxe do passado??? Disse o vampiro surpreso.O coração de Gabrielle parecia querer saltar de seu peito... pulou da poltrona e parou de joelhos em frente ao monstro segurando-lhe as pernas.
_ Você a conheceu? onde eles estão? como ela está?
- Sim... viajaram para a América... morta...
_ América? morta?
- A América é um continente desconhecido para você pequena, e morta é um modo de dizer... ela está morta, como eu estou morto, como todas as criaturas das trevas estão mortas... apesar de achá-la ainda mais morta que seu próprio corpo... então é você o motivo da tristeza da bárbara vampira? como conseguiu viajar no tempo para vir atrás dela?
_ Essa é uma longa história meu amigo e não tenho tempo para contá-la agora; diga-me como faço para chegar à tal América, e como faço para encontrá-los lá...
- Eu vou ajudá-la querida - Disse o monstro levantando-se - vou lhe dar dinheiro, roupas e um endereço onde poderá procurar por sua amiga... e não precisa ter medo pois duvido muito que sua Guerreira deixe alguém lhe fazer algum mal... nem mesmo Lestat... ele sabe que não pode controlar o poder da aberração que criou caso ela queira usá-lo... - Disse o vampiro para a jovem sorridente à sua frente - mas em troca ficará aqui essa noite e me contará essa história sim, preciso saber... além do mais, você também precisa saber muitas coisas se quer sobreviver.Quando a barda desembarcou do avião no aeroporto de New Orleans parecia uma autêntica adolescente do século XX, a não ser pelo pavor estampado em seu rosto quando foi a primeira a sair do avião, estava tão apavorada que escorregara nas escadas batendo o traseiro nos quatro últimos degraus. Vestia uma "incômoda" calça Jeans, uma blusa branca de malha, um sobretudo de camurça preto e tênis; levava também uma bolsa de lona marrom onde carregava dinheiro, o chakram e um pacote de biscoitos, ah! adorava aqueles biscoitos recheados. Procurou um táxi, como havia sido orientada por Armand, e entregou-lhe o endereço que estava escrito num pequeno pedaço de papel, aliás gostara muito daquele tipo de papel macio e das canetas coloridas daquele tempo. Aquele lugar e aquela linguagem já não lhe pareciam tão estranhos, seus "fragmentos de consciência" estavam cada vez mais nítidos, pensava que talvez as informações passadas por Armand os houvesse estimulado. Chegara a uma velha casa em ruínas e pediu que o mal humorado motorista a esperasse. Vasculhou a construção com os olhos, do lado de fora... não precisava entrar para saber que não havia nenhuma "presença" ali... entrou no carro novamente e entregou outro endereço ao homem... pensou em como seria divertido dar nomes às trilhas e números às cabanas, construções e castelos de seu tempo... "O templo de Afrodite? ah sim... fica no final da Rua das Cobras, na Praça dos inúteis em frente ao Rio das Peçonhentas, nª 000..." como odiava aquela mulher... Chegaram em frente a um bar fechado, muito moderno e luxuoso que se chamava "As Fúrias"... Gabrielle riu e balançou a cabeça naquele movimento peculiar, quando parece estar querendo organizar os miolos... pagou, saiu do carro e entrou num café próximo ao bar, onde pediu um peixe para comer e lhe trouxeram um sanduíche de peixe empanado... ficou esperando anoitecer sentada em uma poltrona vermelha, com os cotovelos apoiados na mesa que ficava em frente a uma parede de vidro de onde poderia ver o movimento na rua.
Pensou em como as pessoas não haviam mudado; o mundo mudara mas as pessoas continuavam as mesmas... ainda haviam os tiranos, os ambiciosos, os bárbaros... haviam batalhas absurdamente mais sangrentas, maldades ainda mais imorais, busca inescrupulosa por poder e riqueza... estava decepcionada, achava que com o tempo os seres humanos perceberiam seus erros e evoluiriam tornando o mundo um lugar melhor para se viver... os temas haviam mudado, os meios haviam mudado, a terra havia mudado e o homem continuava o mesmo. Mas haviam também os heróis daquele tempo, os que lutavam por justiça, pela natureza, pelos excluídos, contra a maldade requintada daquele tempo. Também haviam os poetas, os utópicos, os sonhadores que acreditavam no ser humano e na "cura" que estaria no futuro, queria dizer aos seus "colegas" que não, mas percebia que se eles soubessem disso as coisas estariam piores. Queria acreditar que ao saber disso lutaria ainda mais contra o mal quando voltasse para casa, se voltasse, achando não ter sido suficiente o que fizera até hoje... mas sabia que jamais seria a mesma... ela havia mudado, suas ambições transformavam-se cada vez mais em sonhos distantes... seus deuses não eram tão poderosos assim pois haviam desaparecido totalmente, restando para a humanidade adorar estátuas frias e deuses feitos apenas de crença, que nada faziam, nada mudavam, não aconselhavam, atrapalhavam ou ajudavam... neste tempo, a verdade dela se chamava mito. O homem havia inventado um mundo confortável e frenético para compensar sua própria estática espiritual, enquanto que o ar era desconfortável, a comida era sem gosto e a paixão, boa ou ruim, era frágil e desmotivada... por isso gostava tanto daquela caixinha de sonhos que se chamava TV, a fantasia daquele tempo era o que mais se aproximava da realidade de seu tempo... queria saber quem inventava aquilo, talvez fossem viajantes do tempo assim como ela.
A noite caíra e o bar que se chamava "As Fúrias" estava abrindo suas portas... pagou a conta e dirigiu-se a ele... sentou-se em uma mesa, pediu uma bebida que se parecia com o vinho de seu tempo e esperou até que um deles entrou... levantou-se imediatamente, dirigiu-se a ele e disse:
_ Procuro Lestat...
- Quem é você? Perguntou o demônio estudando a mente da jovem.
_ Gabrielle...
- Não procura Lestat, não é mesmo? procura por Xena...
_ Sabe onde encontrá-la?
- Sim e não... chegou atrasada jovem, eles partiram ontem à noite..."... lá vamos nós de novo..." pensou Gabrielle antes de entrar na aeronave. Só entrava naquilo porque sabia que era infinitamente mais rápido num tempo em que as distâncias eram enormes... haviam finalmente povoado todo o planeta. O vampiro lhe informara que estariam numa cidade chamada "Rio de Janeiro" mas não sabia onde encontrá-los... ele diria se soubesse... era fácil tirar informações sobre o paradeiro do vampiro Lestat, parecia haver uma conspiração para que os encontrasse. Seu traseiro ainda não havia se curado da última pancada quando caíra nas escadas do avião de novo, não conseguia se conter... não conseguia admitir que aquele troço pesado ficasse suspenso no ar... definitivamente! Nem mesmo a mega estátua do "Cristo Redentor" ou a bela "Baía da Guanabara" pela janela a distraíra, achou tudo muito bonitinho mas queria mesmo era descer.
Estudava o lugar pela janela do carro... era uma cidade quente, em todos os sentidos, gostou daquele lugar... as pessoas pareciam mais apaixonadas e pulsantes e cultivavam um pouco mais a "fantasia"; se divertiam apinhando as margens do oceano, banhando-se e brincando com jogos que lhe pareciam muito divertidos. Corriam de um lado para o outro descompromissadamente, talvez fosse o calor que agitava seus "sucos" e os excitava daquela forma, haja visto que os últimos lugares que conhecera eram gelados, ouviu em algum lugar que as pessoas eram mais felizes em países tropicais e que o céu cinzento causava uma sensação de nostalgia em seres humanos. Livrou-se rapidamente do casaco quando sentiu o sol queimar suas costas enquanto o motorista a levava à um lugar para dormir atendendo às suas especificações; estava exausta... pagou dez diárias e instalou-se num hotel bastante confortável que ficava numa rua muito movimentada à beira mar... por isso o escolhera, adorava o mar, de longe é claro... dava-lhe impressão de estar perto de casa... ficou num quarto muito alto, tomou um banho para refrescar-se - quisera ela saber o que era ar-condicionado - e deitou-se na cama macia em frente à janela que dava para a praia... adormeceu olhando-a e sonhando com o momento em que encontraria sua amada; ela estava ali... tão perto...
Gabrielle acordou sentindo a deliciosa brisa marítima que invadia o quarto... abriu os olhos mas não se levantou, ficou ali parada, na mesma posição, enquanto se deslumbrava com o poderoso pôr do sol que tomava conta daquela janela de vidro... como se fosse uma visão encantada e não quisesse quebrá-la ao se levantar... ao final do espetáculo encaminhou-se em direção à janela aberta e viu a vida pulsante lá fora... aquela cidade parecia ainda mais linda à noite, as pessoas continuavam incansáveis lá embaixo, vivendo, pulsando, apaixonando... precisava encontrar Xena. Sabia que teria que procurar muito, nem fazia idéia de onde começar... e adorava estar calçando aquele tênis macio, mas definitivamente não aguentava mais calças jeans, precisava de algo mais confortável e por isso entrou numa loja reluzente e, ajudada por uma vendedora comprou uma calça larga, verde escuro e de cós baixo, dessas da moda que ficam abaixo do umbigo e têm bolsos nas pernas... e uma blusa justa de algodão e gola em "v" branca com pequenas listas verdes nas mangas - "...É a sua cara meu bem..." disse a vendedora. Gabrielle achou a roupa bastante prática e confortável, estava satisfeita e pediu mais uma peça de cada, faria muitos bolsos em suas saias quando voltasse para casa... seria muito bom voltar para casa... mas se tivesse que ficar, daria um jeito de se adaptar... contanto que estivesse com Xena, sem ela não havia lugar ou tempo no mundo onde realmente quisesse ficar, fosse em casa ou cinco mil anos antes ou depois.
Gabrielle perambulou pelas ruas do Rio a noite toda, viu pessoas bebendo, conversando e brigando; viu a fome, a miséria e o mal que também existia naquela cidade maravilhosa, assim como em Paris e New Orleans ou em seu tempo. Ouviu a música barulhenta que saía de lugares coloridos e super iluminados, que piscavam no ritmo da música; até que gostava dela, divertia-se ao sentir seu coração trepidar... parecia uma felicidade artificial. Aliás, a música era uma coisa muito interessante, a jovem podia identificar várias línguas através dela, em todos os lugares em que estivera até agora... parecia ser a única linguagem comum daquele tempo... a aurora invadia um céu um pouco mais generoso em estrelas, o dia estava nascendo e não encontrara Xena esta noite... passou uma parte do dia sentada à beira da praia, numa enorme calçada em frente ao seu hotel que tinha nome de mulher... olhando para o mar pedia-lhe que lhe dissesse onde encontrar sua Princesa Guerreira... elegera-o como seu Deus pessoal, sentia-se menos sozinha dessa forma. A outra parte do dia descansara, agradecida ao generoso Armand pelo conforto, o que lhe restara para compensar sua tristeza...
Acordada novamente por aquele cheiro sensual do mar, Gabrielle retomou sua ronda noturna... precisava achá-la logo, temia que viajassem novamente, e o dinheiro de Armand não era eterno como o dono... talvez Lestat estivesse mostrando o mundo à Xena... e talvez ela estivesse se divertindo... eram tantas as novidades... e teria ao seu lado um dos demônios mais poderosos e belos do planeta para mostrar-lhe tudo, explicar-lhe o que não entendia... é, seria difícil ficar entediada em meio à tantas descobertas... talvez até tivesse aprendido a amar o monstro... sentiu seu peito apertar enquanto sua garganta doía juntamente com a pressão das lágrimas que lutavam para sair... bem, teria que descobrir e a única forma era encontrá-la. Não era muito tarde quando se deparou com os portões de uma enorme floresta cercada que se impunha no meio da cidade... escalou-o e começou a andar por uma trilha de paralelepípedos, quando foi abordada por um homem alto que segurou seu braço com força...
- Ei! você não deveria estar aqui gatinha...
_ Me solta! Puxou o braço e começou a correr...O homem corria atrás de Gabrielle que se embrenhava na mata, estava apavorada pois não havia ninguém por perto...
_ Socorro!!!
Foi quando se sentiu sendo arrancada violentamente do chão, suspensa pela cintura, até pousar no terraço de um prédio muito alto. A barda virou-se para ver o ser que acabara de soltá-la... era ela... finalmente era ela... pelos Deuses! Como estava linda! Reluzia sua pele estupidamente branca, parte de seus cabelos presos, como sempre... ela estava realmente imponente, forte... se as trevas presenteava seus filhos com uma beleza imortal, no caso dela havia se excedido pois parecia ter preservado a beleza mortal daquele corpo apesar da rigidez de sua pele e da escuridão de seus olhos... a vida parecia coexistir pacificamente com sua porção sobrenatural. Vestia-se com profunda sobriedade e charme, usava uma calça bege de linho e uma blusa de chamoir marrom, com as mangas arregaçadas até a metade dos braços... estava absolutamente deslumbrante... Gabrielle pensou que fosse desmaiar com a visão de seu único amor, ali parada à sua frente, olhando-a com aqueles olhos azuis escuros arregalados, como se visse um fantasma, uma assombração...
_ Gabrielle...? Soltou Xena num fio frágil de voz, inesperadamente contraditório com seu corpo titânico.
A Guerreira esticou vagarosamente o braço para tocar a face da barda, sentiu-o macio nas pontas de seus dedos maciços... ergueu o outro braço e segurou-o entre suas mãos olhando a expressão frágil, cansada e deslumbrada de sua pequena barda... aquele olhar era puro amor e súplica... puxou-a para um abraço, e sentiu aquele corpo pequeno e quente, tão conhecido, tão amado... queria apertá-lo mas tinha medo de quebrá-lo... - "Gabrielle..." - À medida que repetia seu nome a voz de Xena estrangulava-se num choro contido, como se suplicasse desesperadamente que aquela visão fosse real e não um sonho... "Gabrielle..."
Gabrielle sentia seu corpo contra uma rocha, agora porém viva, pulsante e quente... começou a chorar nos braços de sua Princesa... chorou todas as dores que estavam aprisionadas por sua determinação... as duas permaneceram por um longo tempo assim... uma nos braços da outra... o universo poderia ruir naquele momento, nada mudaria aqueles minutos. Algum tempo depois a Guerreira afastou seu rosto e olhou-a com um amor desesperado nos olhos, como se ainda não acreditasse...
_ Mas como... ? Não completou a frase, foi interrompida pela barda que tocara sua boca com os dedos e a beijara... como era doce e macia aquela boca...
_ Você está tão quente, tão diferente da última vez que... Falou a barda interrompendo o beijo.Xena desviou o olhar fitando o chão... sentia-se envergonhada... acabara de se alimentar, era inevitável... Gabrielle entendeu e tocou sua face dizendo com voz doce:
_ Eu te amo Xena... e não sou muita coisa sem esse amor... não saia de perto de mim nunca mais tentando me poupar ou me proteger de qualquer coisa que seja... estará sendo burra pois nada pode ser pior que ficar sem você... por favor, entenda isso!
A Guerreira jamais saberia expressar o que era ter Gabrielle ali, em seus braços... o coração que não pulsava mais explodia em seu peito... queria aquele mesmo minuto para o resto da eternidade. Mas era inevitável preocupar-se... as duas eram muito diferentes agora... eram o oposto: a morte e a vida... o anjo e o demônio; o perigo que sua criança corria ao seu lado, diante de sua fome, do seu desejo... mas não queria deixá-la, não, nunca mais.
_ Isso não vai acontecer... não se preocupe. Disse Xena.
_ O que vamos fazer agora?
_ Não há muito o que se fazer meu amor... infelizmente.
_ Entendo...
_ Vamos, você vai ficar comigo no casarão.
_ Que casarão?
_ É um lugar bastante confortável onde vivo com alguns... da minha espécie. Respondeu a Guerreira.
_ Inclusive Lestat?
_ Inclusive Lestat.
_ Fica de frente para o mar? Perguntou a barda com um frio na barriga por causa do monstro... como seria entre eles?
_ Sim, fica... esse seres sabem lidar com o dinheiro, é impressionante a riqueza que colecionam.
_ É... sei disso.
_ Onde conseguiu essas roupas? Perguntou a Guerreira.
_ O que foi, não gostou?
_Adorei, são a sua cara.
_ É, já ouvi isso... Sua princesa parecia totalmente adaptada àquele tempo... usava até um relógio de pulso e um sapato de veludo... não tinha salto é lógico, não aguentaria... ela estava realmente deslumbrante.
_ Segure-se em mim.
Dois corpos...
o frio... o quente
Dois olhos...
o céu... o mar
O fogo do sangue
e o sangue do corpo
duas formas de amar...
O vivo e o morto
Um, o lado imaculado
outro, o mutilado
e ainda assim se reconhecem
como as duas partes do todo.
_ "Ora, ora, ora... mas não é que ela conseguiu? Disse o demônio com um risinho cínico.
_ O que está falando Lestat, sabia que ela viria? Perguntou Xena.
_ "Não... mas sabia que tentaria. vejo que ainda não se banqueteou..."
_ Isso não vai acontecer! Esbravejou a Vampira... ele sorriu...
_ Então toda aquela informação que me dera sobre todas aquelas coisas não foi casual, é isso? Perguntou Gabrielle à criatura das sombras... _ porque queria que eu viesse?
_ "Não queria... mas gosto de desafios..."
_ Vamos subir Gabrielle, tem muito o que me contar... disse Xena.
_ "Cuidado com o sol, não vá se distrair bárbara"... brincou Lestat.As duas amantes subiram as escadas rumo ao andar superior. Entraram num quarto espaçoso e escuro... as cortinas eram de veludo vermelho, muito grossas... havia uma enorme cama no centro, em frente à ela uma estante com uma televisão em cima; haviam também duas poltronas muito confortáveis uma em cada lado da cama... o piso era de madeira lisa escura, super encerada... haviam mais duas portas além daquela por onde entraram... uma era do banheiro e ficava no canto direito da parede em frente à cama, e estava aberta, a outra estava fechada e ficava no canto esquerdo da mesma parede... Gabrielle se dirigiu à ela e colocou a mão na maçaneta para abrir...
_ Não Gabrielle... Pediu a vampira à barda que ficou olhando-a sem dizer nada e sem se afastar da porta, como se esperasse que mudasse de idéia... _ Tudo bem, pode abrir...
A barda abriu a porta e se deparou com um corredor curto e estreito com um luxuoso caixão no centro... não se espantou, já imaginara que seria um caixão... já havia visto um daqueles na mansão de Armand e em seus "fragmentos" também. Fechou a porta e virou-se para sua amada com um olhar doce.
_ Não precisa ter vergonha de mim, o que se tornou e o que é são duas coisas muito diferentes, e eu sei bem quem você é Xena, e isso já faz muito tempo.
_ Eu mudei muito Gabrielle...
_ Não meu amor, você não mudou nada... Retirou o chakram de sua bolsa... _ isso lhe pertence.Como era bom tê-la ali, era como sentir-se em paz no meio do inferno e em comunhão com o demônio. Sentia-se perdoada e inocente.
_ Então, conte-me como chegou aqui... se bem a conheço imagino que tenha infernizado a vida de muita gente... e provavelmente os venceu pelo cansaço... pobre dos ouvidos de Cronos e Afrodite.
_ Quisera eu ter esse poder Xena, na verdade você não reconheceria em mim os métodos que tive que usar... percebi que meu poder de persuasão não funcionaria e por alguns instantes tive que me transformar no que não era para conseguir o que precisava, e meu castigo foi ver um lado em mim que antes não me permitia ver... mas antes de lhe contar, porque não vem comigo tomar um banho? você ainda toma banho não toma?
_ Sim, mas não preciso... Xena sentiu um calor na nuca, um calor incômodo, agudo... olhou o relógio... era o sol, tinha que se recolher. _ preciso ir...
_ Tudo bem... boa noite meu amor...
_ Bom dia Gabrielle... E beijou a barda, afastando-se lentamente, desafiando o sol.Na noite seguinte a barda foi apresentada aos "outros"... haviam cinco deles, além de Xena. Lestat, o monstro com quem travaria uma queda de braço diária; Louis, um doce e educado senhor das trevas; Daniel, que particularmente achara meio antipático no início; o sério e compenetrado Marius, sempre lendo seu jornal ou jogando damas; e o poderoso Khayman, com quem passaria horas conversando sobre os tempos bárbaros... ficara fascinada quando ele lhe contara sobre o "Cavalo de Tróia" e em como aquilo tudo havia se tornado história.
Os dias se seguiam assim... uma pequena família de demônios das trevas e uma jovem imaculada entre eles, totalmente adaptada aos seus costumes e horários... dormia de dia e vivia à noite. Muitas vezes saía com eles para se divertir na noite quente do Rio de Janeiro... ia àqueles lugares apinhados onde ouviam música e dançavam, gostava daquela sensação de fantasia que as luzes piscantes provocavam; gostava também dos estádios cheios de gente, deleitava-se quando a multidão explodia para gritar "gooolll!!", não torcia para time algum, apenas escolhia o lado mais apinhado e ficava; sempre acompanhava Xena aos cinemas, ela adorava ver o sol, as batalhas em aço e os deuses que eram mostrados naquela tela enorme, quase real... muitas vezes, no final da noite, ela levava sua amada para voar sobre o mar... não raro pousavam sobre a cabeça do enorme Deus de pedra e ficavam conversando até perto da hora do sol, olhando o mar... Gabrielle amava aquilo, vivia falando em como tinham que tirar proveito da situação, ver o lado bom; nenhum vampiro jovem conseguia voar... aliás, muitos antigos também não, o caso dela é que havia sido transformada pelo poderoso Lestat, que agora carregava em si o sangue da "Rainha dos Condenados", ele costumava dizer que sua própria força bárbara também contribuíra, mas o caso era que o "presente das trevas" era diferente para cada um, e não seguia uma lógica. Todos apreciavam muito a companhia da jovem amiga de Xena, até mesmo Lestat que já se desinteressara pela Guerreira, mas adorava provocá-las; muitas vezes sentavam-se à mesa com a barda para lhe fazer companhia enquanto jantava, uma vez arrancara gargalhadas incontroláveis nos monstros quando o sério Marius lhe disse que comia demais e depois perguntou se a torta doce estava gostosa, no que Gabrielle respondeu: "Prove" e enterrou-a em sua cabeça; não tinha medo ou cuidados com os monstros... sim, ela trazia vida à "Casa da Morte", fazia-os se sentir normais, uma grande família. Nunca os vira caçando, quando a sua Princesa das Trevas "sumia", Khayman ficava ao seu lado. Uma vez Lestat perguntara à barda se ela queria vê-lo caçando... Xena ficou furiosa e partiu para cima do Príncipe das Trevas, levantando-o pelo pescoço no meio de um bar... ele não parava de rir, dava gargalhadas como se nada estivesse acontecendo, até que ela o largou... Gabrielle percebeu que a Guerreira se sentia um tanto cúmplice do vampiro, parecia compreender sua prepotência e rebeldia... não o amava, mas também não o odiava. Eles se passavam facilmente por pessoas normais, seus caninos eram discretos e vestiam roupas de manga comprida e golas altas às vezes, e sempre que voltavam da caça pareciam mais corados, mais humanos. Havia uma coisa que Gabrielle admirava muito naqueles demônios; eles mantinham uma certa coerência seletiva sobre suas vítimas... gigolôs, assassinos, ladrões e traficantes; à sua maneira, e muito provavelmente nem percebiam por causa da culpa, estavam tentando mudar o mundo. Ouviu as histórias sobre os outros vampiros, falaram-lhe inclusive sobre Armand. À tardinha, enquanto esperava que os outros acordassem, dedicava-se a ler a última estripulia de Lestat; o livro sobre Akasha, Enkil e todos os outros vampiros... "A Rainha dos Condenados", o qual descaradamente assinara, mas, como não acreditavam em vampiros...
A noite estava agradável, ouvia o vento balançar as folhas das árvores no jardim... lia o livro deitada de barriga para baixo sobre a cama e estava mais ou menos na metade quando ouviu Xena acordar ... apenas levantou os olhos e esperou para vê-la surgir, cada dia mais linda, não se cansava daquele momento... ela se dirigiu à poltrona à sua frente e sentou-se, fitando a barda de uma maneira muito sensual, que a acompanhara com os olhos... Gabrielle se sentou e cruzou as pernas, apoiando os cotovelos nos próprios joelhos, se colocando de frente para ela. As duas olhavam-se profundamente, entravam dentro uma da outra... um desejo doloroso e insuportável começou a tomar conta das duas amantes, cada uma à sua maneira;
Gabrielle queria tocá-la, senti-la, fazer seu corpo se entregar em suas mãos... ansiava ter o corpo da guerreira junto ao seu, sua boca, sua pele, seu sexo... queimava de desejo e paixão, precisava desesperadamente daquela união e complemento... sentia-se encharcar entre suas pernas apenas com aquele olhar faminto... estava suando, sentia o fogo crescendo por dentro e sua respiração tornava-se cada vez mais ofegante...
O corpo da Guerreira tremia veemente, seus olhos queimavam, sua alma molhada pulsava pedindo por Gabrielle, queria beber aquele sangue, tomar sua alma, e dar-lhe o seu sangue e a sua alma; tomá-la e entregar-se à ela... precisava sair dali, seu desejo estava se tornando incontrolável...
_ Preciso sair... Disse levantando-se da poltrona num salto. Sentia pena do infeliz que cruzasse seu caminho naquela noite... sua fome era tanta que poderia estraçalhar qualquer corpo mortal.
_ Eu vou com você... Retrucou Gabrielle levantando-se da cama.
_ Não Gabrielle, por favor... não vou demorar. Seu olhar implorava... a barda não teve coragem de insistir e viu seu amor sair pela janela.Quando voltou tinha novamente aquele ar vivo... quente. A barda tentava não pensar no que ela havia acabado de fazer... mas era difícil.
_ Não posso evitar Gabrielle...
A barda se dirigiu até ela e beijou-a. Sentiu sua boca um pouco mais macia e quente agora. Sorria gentilmente e realmente não a culpava, levou-a para a cama e sentou-se à sua frente. Não conseguia esquecer e não resistiria à pergunta.
_ Como é caçar?
_ Precisamos mesmo falar sobre isso?
_ Sim, nós precisamos Xena... noite após noite eu olho para você e vejo o desejo lhe queimando... me excito quando a vejo me desejando, e toda vez que isso acontece sai correndo pela janela, me deixando aqui sozinha, louca por você... quando volta, volta assim, calma, compreensiva... me sinto traída, abandonada... o que há? não tem vontade de fazer amor comigo? não deseja meu corpo? sente apenas essa maldita fome?A barda estava inconsolável. Xena segurou seu pequenino e frágil rosto mortal entre suas mãos, e com uma expressão muito triste olhou profundamente em seus olhos e começou a falar.
_ Não Gabrielle, está errada... desejo-a muito, não pode imaginar a dor alucinante que isso causa em minha alma... esse é o ponto, tudo o que sinto... dor, desejo, amor; não sinto em meu corpo, sinto em minha alma... tenho uma casca dura e impenetrável no lugar de um corpo... não é ele quem deseja nem é ele quem explode de prazer... todas essas sensações sinto diretamente em minha alma, meu sexo é feito de alma e você não pode tocá-lo a não ser com sua alma e isso só aconteceria se eu a bebesse e me desse para você beber... compreende isso meu amor? quero muito me deitar com você e sentir seu corpo nu estremecer em minhas mãos, isso me daria muito prazer... mas não posso me arriscar pois meu prazer só seria libertado por seu sangue, sua vida... o amor é inconsequente e incontrolável, e eu a amo demais para apostar que vou conseguir controlar minha vontade.
_ Então me transforme Xena... não suporto mais essa distância, essa diferença. A vampira levantou-se da cama abruptamente e lançou-lhe um olhar muito duro.
_ Isso não, nunca! você não sabe o que está dizendo Gabrielle, não sabe o que é ser um "condenado", um demônio fadado a viver na escuridão e obrigado a matar para sobreviver... não poder ver o sol, ter que ouvir o mal à quilômetros de distância... não sabe o que é viver aprisionada a um corpo morto... eu sou um zumbi Gabrielle, não percebe? a diferença é que não estou caindo aos pedaços, o sangue que bebo faz com que isso não aconteça.
_ Eu não me importo... só quero ficar com você, viver a mesma vida que vive, sentir como você sente, pelos Deuses, me sinto sob o Feitiço de Áquila! (um filme que vira na tv).
_ Esqueça! Dizendo isso Xena abriu a porta do quarto e saiu.(...)
Todos haviam saído a não ser Daniel... sim, aquele demônio seria perfeito, seria fácil persuadi-lo. A jovem se aproximou do vampiro que jogava seu Playstation sentado em frente à Tv... seu olhar era sedutor; vestia uma blusa vermelha comprida, de gola cavada que deixava parte de seus seios à mostra. Ela estava um verdadeiro banquete. Abaixou-se em frente ao jovem vampiro e tirou-lhe o controle das mãos...
_ Você ainda não se alimentou não é querido? Disse com uma voz sedutora, provocando-o com seus dedos macios e quentes sobre a boca do pobre demônio... afinal, quem era a presa?
_ Não...
_ Então meu bem, porque não janta em casa hoje... ?Daniel sabia que Xena provavelmente o mataria... mas era um jovem inconsequente e geralmente não conseguia controlar-se diante de sua impulsividade. Sentiu a garganta doce e pulsante da jovem roçando sua boca... entreabriu os dentes e enterrou-os na carne macia... quando sentiu a primeira gota de sangue queimar sua língua foi arrancado com violência e jogado contra as paredes grossas da casa, atravessando-as e indo parar no último cômodo ao fundo. A guerreira furiosa começou a andar na direção dele... é, ela iria matá-lo.
_ Não Xena... não é justo, eu o provoquei!!! deixe-o em paz! Berrou Gabrielle. o monstro voltou-se para ela com o fogo do inferno nos olhos, abaixou-se e tapou os dois pequenos furos em seu pescoço com os dedos, erguendo-a no colo com o outro braço.
_ O que pensa que está fazendo Gabrielle? não insista nisso ou juro que vou acorrentá-la quando não estiver por perto.
_ Por quê não posso decidir o que fazer da minha própria vida??
_ Porquê não sabe o que está fazendo de sua própria vida!!Xena sabia que poderia se controlar mas não conseguiria controlar a barda por muito tempo... tenha que fazer alguma coisa, não queria que Gabrielle se transformasse no que ela havia se tornado. Subiu para o quarto e pegou a bolsa de Gabrielle, estava determinada a procurar a "cura" para a sua maldição ou pelo menos afastá-la dos "outros" e sabia que não conseguiria isso naquele tempo. Com a barda ainda um pouco frágil nos braços decidiu que iria para a Grécia, a terra de seus deuses, daria um jeito de voltar...
"... que não seja imortal posto que é chama;
mas que seja eterno enquanto dure."
Vinícius de Moraes
Assim como o resto do mundo, sua terra estava muito diferente, mas mesmo assim se sentia um pouco mais perto de casa. Localizou o lugar onde deveria estar o templo de Cronos e começou a escavar a terra com suas próprias mãos, a barda estava impressionada, nenhuma máquina daquele tempo seria tão eficiente, em alguns minutos encontrou as ruínas do templo e entrou, levando Gabrielle pelas mãos. Encontrou o altar e começou a preparar um ritual que aprendera há muito tempo atrás... sentia saudades da simplicidade de ações e reações de seu tempo, estava cansada daquele mundo tenso, complicado e pesado.
_ Vamos Cronos... apareça... eu preciso de você... Pediu a Guerreira.
Nenhuma resposta...
_ Sabe que me deve isso Deus... e sei que está aqui...
Nada, só o silêncio e a respiração de sua amada ao seu lado... Ela se tomava de um profundo pavor diante de sua própria fé... tinha que acreditar, só lhe restava isso, mas estava longe de suas crenças há tanto tempo que começava a vacilar e duvidar. Travou então uma batalha interna, lembrando-se de quem era e de onde viera e fez então algo que jamais havia feito em sua vida... nem naquele tempo, nem em seu tempo... ajoelhou-se e suplicou...
_ Por favor Cronos, não me abandone... quando precisou de mim, fui sua guerreira e defendi Teu nome... eu preciso voltar, preciso salvá-la e sei que é um Deus benevolente... e sei também que ama alguém por isso pode me entender... sou imortal agora e não pretendo enganá-lo, tentarei mudar isso, mas enquanto for assim coloco minha Morte e minha força à Tua disposição, mas leve-nos para casa, eu imploro...
A Guerreira sentiu tudo escurecer à sua volta e desmaiou... quando acordou estava no meio da floresta... ah! a conhecida floresta, aquele cheiro, aquele ar frio da noite... tudo o que conhecia...
_ Gabrielle? Ela não estava ao seu lado... ficou apavorada... _Gabrielle!!! Gritou com todas as forças... não podia admitir a possibilidade de sua barda não estar ali, se levantou e começou a gritar seu nome várias vezes... pensava em sua amada sozinha no futuro e em como seria infeliz sem ela, apenas com sua maldição. Pensou em esperar o sol, vê-lo pela última vez, entregar-se ao seu castigo.
_ Olá Xena... Disse Cronos suavemente surgindo à frente da Guerreira.
_ Onde está Gabrielle Cronos...? Ela estava cansada e dolorida...
_ Preciso saber Guerreira... cumprirá sua promessa?
_ Nunca menti para você Deus, mas minha promessa não terá nenhuma validade sem Gabrielle... onde ela está!!? Gritou.Cronos começou a desaparecer... dos feixes de luz que emanavam de seu corpo enquanto sumia começou a surgir a barda, materializando-se gradativamente. A guerreira correu para perto dela e levantou-a segurando-a em seus braços...
_ Pelos Deuses, que fome... sussurrou a barda abrindo os olhos...
Xena sorriu e apertou-a contra seu peito... quase esqueceu-se de sua força.
_ Ai!... vai com calma meu amor, sou de carne e osso lembra?
_ Desculpe Gabrielle... Disse, soltando-a envergonhada.
_ Eu disse para ir com calma, não para me soltar... E puxou-a pela gola da camisa do século XX para beijar sua boca.As duas caminhavam pela mata deleitando-se com cada pedacinho daquele lugar... o lugar delas, onde se sentiam seguras apesar de toda a barbárie de seu tempo, mas era uma violência que conheciam e entendiam, sabiam como lidar com ela. Xena quase esquecia o que era, seu amor era sua redenção e sua casa o seu perdão... encontrava a paz tão sonhada por seus semelhantes das trevas; pensava que talvez o segredo fosse o amor... o divino, o verdadeiro, o completo, o que a fizera preservar Gabrielle apesar de toda a angústia e solidão, o que a fazia ter certeza de que era totalmente capaz de se controlar agora pois nada era mais importante que ver Gabrielle assim, imaculada, viva... esse era o segredo, não iria adiantar levá-la para a escuridão para lhe fazer companhia, para buscar cumplicidade ou para sentir-se mais perto dela se o que precisava era justamente desse elo entre a morte e a vida. Sentia-se bem, essa era a sua vaidade, ter entendido isso e portanto não ter a pior das culpas: matar seu próprio amor... preferia vê-la envelhecer e morrer, e guardar sua imagem assim, viva, para o resto de sua eternidade ou até o dia em que escolhesse ver o sol.
Pararam no alto de uma colina e apreciaram a lua...
_ Então, estamos em casa... acha que encontraremos uma forma de faze-la voltar ao normal? Perguntou Gabrielle.
_ Bem, estamos num tempo em que até mesmo a morte é remediável... existem poucas coisas impossíveis aqui meu amor... A barda olhou-a e segurou em sua mão.
_ Xena, me leve para voar...A Princesa Guerreira colocou os braços de sua Gabrielle em torno de seu pescoço, abraçou-a e começou a subir... o céu tomado por estrelas lembravam aquelas ruas apinhadas do futuro... a lua iluminava o rosto branco da Guerreira Imortal e de sua barda enquanto se olhavam profundamente nos olhos. Sentiam correntes elétricas percorrendo seus corpos, entrando e saindo de uma para a outra, não era o êxtase mas uma sensação de êxtase, complemento e paz. Gabrielle suspirou e sorriu:
_ Eu poderia trocar um orgasmo por isso... Disse.
_ Eu também... mas não por muito tempo.
_ Tenho que concordar... sinto sua falta... gostosona! Retrucou Gabrielle olhando-a com uma expressão sapeca.
_ O que é isso?! onde anda aprendendo essas coisas fedelha?
_ Por aí...
_ Quê que é isso... você conhece a história do elefante que ajudou o escorpião a atravessar um rio?
_ Não... Respondeu a curiosa.
_ O escorpião pediu ao elefante para ajudá-lo a atravessar um rio... o elefante disse-lhe que não pois o escorpião poderia picá-lo, que por sua vez garantiu que não faria isso... sendo assim o grandalhão concordou em ajudá-lo. No meio do rio ele sentiu uma fisgada nas costas, percebeu o que estava acontecendo e perguntou ao peçonhento se estava louco pois agora iriam morrer os dois... o escorpião respondeu: me desculpe, mas não posso evitar... é de minha natureza...
_ Isso é uma ameaça?
_ Sim...Gabrielle sorriu sabendo que sua Guerreira estava brincando... descansou sua cabeça no peito da titã, agradecendo aos deuses pela paz que sentia em sua Amada das Trevas.
Fim