A maldição de Gabrielle
Crônicas de uma Barda-Guerreira
Sarah Ishtar
Capítulo 9
Gabrielle dormia profundamente, pelo menos assim pensava a sombra que sorrateiramente invadia o quarto onde descansava a poetiza. Abriu a porta sem provocar ruídos e pisou com todo o cuidado sobre a madeira, evitando qualquer tipo de barulho. Aproximando da cama, inclinou o tronco para verificar se Gabrielle dormia, já que um grosso mando cobria todo seu corpo, deixando nenhuma brecha. Mesmo com a lareira acessa, as noites em Amam no inverno podem ser extremamente frias.
Ao se aproximar, o homem foi surpreendido com um poderoso chute abaixo do joelho esquerdo, provocando sua queda para trás. No mesmo instante que tocou o chão, Gabrielle já se encontrava em cima do seu tronco com sua arma no pescoço do invasor.
"Não acha que está um pouco tarde para uma visitinha?". Questionou a barda.
Derfel atônito disse.
"Quis apenas te avisar!". – respirou profundamente procurando se acalmar. "Não quis fazer isso na taverna".
"Avisar sobre o quê?". – Gabrielle levantou, permitindo que Derfel fizesse o mesmo.
O dono da taverna, ao sair do chão, tentou apoiar seu pé esquerdo, sentiu um pouco de dor. Passou a mão no local da pancada, tentando aliviar o desconforto. Pela manhã haveria um grande hematoma. Contudo, conseguiu ficar de pé.
"Você está sendo vigiada por Odin. As valkirias percorreram todas as tavernas e colocaram observadores para anunciar sua chegada".
Os sais foram guardados nas botas enquanto Derfel falava. Gabrielle não demonstrou surpresa sobre o fato de estar sendo vigiada, na verdade esperava por isso. Anos de convivência com a Xena ensinaram que alguém sempre estará observando, espionando, porém a poetiza ficou intrigada pela cautela de Odin.
"A morte de Xena provavelmente se espalhou por todos os cantos, até chegar aos ouvidos de Odin. Mas Odin não tinha como saber sobre minha viagem para Cirdan, Como ele ficou sabendo. Será que sabe sobre meu propósito?".
O silêncio do quarto foi quebrado pelo questionamento de Gabrielle. Sem nenhuma emoção na voz, de maneira meiga.
"Derfel... Você sabe por que as valkirias estão me vigiando?".
"Não". – Derfel olhou para Gabrielle mostrando honestidade no olhar. - "Grinhilda apenas a descreveu, pedindo para comunicar imediatamente sua chegada para umas das aves de Odin". – em seguida completou. "Ela apenas comentou que sua chegada está sendo aguardada pelo deus nórdico".
"Por que está me ajudando?".
A pergunta surpreendeu Derfel, mas vindo da Gabrielle, era uma pergunta pertinente.
"Xena". – Derfel viu uma expressão interrogativa no semblante de Gabrielle. Sentou na cama. - "Sou um ex-soldado, na verdade fui um mercenário. Em um momento de confronto entre os exércitos, fiquei frente a frente com Xena". – um pequeno sorriso irônico surgiu nos lábios do dono da taverna. – "Vi a morte. Durante a nossa luta, Xena me golpeou com o cabo da espada na minha cabeça... Cai no chão atordoado. Sabia que morreria, mas no momento que Xena preparava para dar o golpe final, implorei. Chorei... Chorei pela minha filha que havia perdido a mãe e agora iria perder o pai". – Derfel respirou profundamente. – "Xena ajoelhou ao meu lado, apoiada sobre a espada e disse em um sussurro frio: Largue a espada e cuide da sua filha. Em seguida levantou e continuou dilacerando os soldados que apareciam em sua frente".
"Xena economizou sua vida, por isso está me ajudando". Completou Gabrielle.
"Vi você nessa batalha. Com seu cajado, com um ar pueril, cabelos mais compridos. Não associei sua descrição com a de Grinhilda, como poderia? Você não envelheceu. Mas assim que te vi, percebi que havia algo importante acontecendo. A sua fama lhe precede. Ainda mais com a morte de Xena".
A dor da lembrança da morte de Xena surgiu no rosto de Gabrielle. Derfel percebeu que sua última frase não foi bem aceita, mas antes que Gabrielle dissesse algo, ele caminhou até a porta, mas antes de fechá-la disse:
"Não sei o que está acontecendo. Mas para que Odin se envolva, acredito que algo grande está acontecendo". – Derfel tentou encorajá-la. – "Espero que você consiga o que veio procurar".
"Obrigada". Gabrielle ficou emocionada com a sinceridade das palavras que acabara de ouvir.
Derfel fechou a porta. Gabrielle deitou na cama com o objetivo de obter algum sono, mas essa seria uma noite longa, cheia de pensamentos, dúvidas e saudade.
**********
O quarto de hóspedes no palácio de Odin era pequeno para as preocupações da seguidora de Eli. Eva andava de um lado para o outro tentando achar uma solução, uma maneira de impedir que Gabrielle caia em desgraça, para que não perca sua alma. Em desespero caiu de joelho ao lado da lareira. Devagar olhou para as chamas que consumiam e destruíam a madeira. Um pequeno sorriso surgiu nos lábios de Eva e um pensamento brotou em sua mente.
"Gabrielle não perderá sua alma".
A ave de Odin, pousada em cima da mesa de madeira no centro do aposento, observava a mulher no quarto.
Eva olhou para o corvo.
"Não precisarei de sua ajuda, você está livre para partir".
Assim fez a ave.
Capítulo 10
Gabrielle caminhava a passos rápidos pela floresta de Cirdan. Os raios solares invadiam timidamente a escuridão, iluminando precariamente a trilha. A poetiza lembrava perfeitamente o caminho até o palácio de Odin. Essa não é a primeira vez que segue por esses caminhos. No ano passado ela entregava as maçãs para Odin, para serem protegidas, agora percorria o mesmo trajeto para salvar Xena. Lembranças invadiram os pensamentos da poetiza.
Odin havia convidado Xena e Gabrielle para pernoitarem em seu palácio. O dia foi longo, já que as guerreiras haviam recuperado a divindade de Afrodite e Ares, estabelecendo o equilíbrio entre o amor e o ódio.
Um banquete foi servido para as convidadas, que escolheram ser servidas em um salão com um grande tapete marro com detalhes vermelhos, repleto de almofadas de várias cores e tamanho, ao invés do salão com uma grande mesa de madeira.
Odin, acompanhado pela Grinhilda, observavam a interação entre as amantes. O clima sensual era evidente. Xena alimentava sua companheira e, em cada mordida, Gabrielle com sua língua acariciava os dedos da guerreira. Percebendo a necessidade das amantes por privacidade, Odin disse.
"Estou me recolhendo". – O deus levantou e gesticulou para a comandante das valkirias. – "Grinhilda as acompanhará até o aposento. Boa noite, minhas amigas".
"Obrigada pela hospitalidade". – Disse Xena com um sorriso.
O deus nórdico respondeu, no momento que caminhava para seus aposentos.
"Desfrute e se puder descanse". Tal frase foi seguida por um tom brincalhão e sugestivo.
Grinhilda as levou até o aposento no qual Gabrielle e Xena ficariam. Parando na porta se despediu.
"Boa noite. As vejo amanhã".
Xena antes de abrir a porta de madeira, percebeu a figura entalhada de uma árvore. A guerreira lembrou que o palácio possuía vários entalhes bem detalhados e bonitos.
Gabrielle também percebeu. As tochas nas paredes mostravam claramente a figura. A poetiza ficou ao lado da Xena para visualizar melhor. Passou as pontas dos dedos sobre a porta para sentir a textura, não percebendo que seus dedos estavam sendo acompanhado pelo olhar de luxúria de Xena, que antecipava sentir aqueles dedos.
De repente Xena sentiu que estava muito longe do seu objeto de desejo e aproximou seu corpo, até estar atrás de Gabrielle.
A poetiza sentiu mãos fortes, porém suaves, segurar seu quadril. Também sentiu o corpo de Xena, seu calor, nas suas costas. Sua mão direita continuava encostada na porta, apoiando seu corpo. Um arrepio percorreu sua espinha, quando os lábios de Xena e língua deslizavam pelo seu pescoço sensível. Automaticamente seu braço esquerdo segurou os longos cabelos pretos da sua doce agressora, indicando que queria que continuasse com essa tortura deliciosa.
Os olhos da poetiza fecharam quando as pontas dos dedos de Xena começou a percorrer por debaixo de sua blusa, até atingir o mamilo esquerdo ereto. Foi o limite.
Gabrielle precisava ser beijada. Retirou a mão de Xena do seu mamilo e girou seu corpo, ficando de frente. Em seguida segurou firmemente a cabeça da guerreira para beija-la com volúpia.
Os corpos se aproximaram, quase se fundindo, encaixando suas coxas. Xena quebrou o beijo. Abriu a porta do quarto, e direcionou Gabrielle para entrar. Fechou a porta. Gabrielle cobriu a curta distância entre as duas para provar novamente os lábios de sua amante. Tal ato foi aceito sem relutância por Xena, que aproveitou a aproximação para erguer Gabrielle, que entrelaçou as coxas na cintura de Xena.
Em poucas passadas Xena alcançou a cama. Talvez foi seu instinto apurado e sua visão periférica responsáveis em encontrar a cama, já que ao entrar no quarto não reparou nos detalhes do aposento.
Gabrielle foi deitada cuidadosamente. Nesse momento o beijo havia cessado e a guerreira contemplou os olhos da sua poetiza – guerreira. Gabrielle viu tanto amor nos olhos azuis de Xena!
Xena acariciou o rosto de Gabrielle com as pontas de seus dedos. Seu polegar tocou suavemente os lábios que acabara de beijar.
O pensamento de Xena quebrou o silêncio, mas solidificou ainda mais o amor da poetiza.
"O melhor de tudo que nos aconteceu hoje, não foi restaurar o equilíbrio entre o amor e o ódio, mas sentir novamente o amor que tenho por você Gabrielle". – Xena beijou levemente os lábios de Gabrielle. – "O fato de perder esse sentimento por um instante me mostrou o quando o nosso laço de amizade e companheirismo é importante, e que o nosso amor só intensifica esse união". – Mais um suave beijo. – "Te amo pela pessoa que você é... Minha amiga, minha companheira e minha amante".
"Gabrielle!".
A lembrança da poetiza foi interrompida por um sussurro.
"Gabrielle!".
Os olhos atentos percorreram cada centímetro da floresta e da neve. A luminosidade aumentada pelo avanço da manhã permitiu melhor visualização, porém não se via nada, assim como não se ouvia nenhum ruído.
Gabrielle continuou seu caminho com passos cautelosos. Por prevenção empunhou seus sais.
"Gabrielle!".
O chamado foi mais audível, fazendo a poetiza – guerreira assumir uma postura defensiva.
"Não tenha medo!".
"Quem é você!". – Gritou Gabrielle com autoridade.
Não houve resposta, contudo a poetiza sentiu uma presença. Por impulso virou seu corpo para a direita em posição de ataque e confrontou-se com um ser em chamas.
"Brunhilda". – Sussurrou.
A ex-valkíria apenas confirmou com a cabeça. Em seguida assumiu seu aspecto humano.
"Estou aprendendo a controlar meus poderes, é cansativo assumir a forma humana, já que a punição de Odin foi me transformar em uma alma em chamas".
Gabrielle guardou os sais em sua bota. Em seguida apoiou a mão direita no ombro de Brunhilda, mas teve que tirar rapidamente. Uma dor aguda atingiu a palma de sua mão, como se estivesse queimando. Brunhilda tentou evitar o contato, projetando seu ombro para trás, mas quando viu Gabrielle já a tinha tocado.
Brunhilda se desculpou. A voz triste mostrou a dor em sua alma.
"Desculpe... Não consigo dominar o calor emanado do meu corpo quando estou na forma humana".
"Tudo bem, não me machuquei". – Mentiu Gabrielle que tentava ignorar a sensação incomoda na palma de sua mão. Não havia se ferido profundamente, mas ficaria dolorido por algum tempo.
Para mudar de assunto Gabrielle disse com um doce sorriso.
"É bom ver uma face amiga". – Respirou profundamente e continuou. – "Preciso de sua ajuda". - A poeta reparou que Brunhilda não vestia roupas. Seus cabelos longos e loiros tinham um brilho bonito. O local onde pisava, a neve se encontrava derretida. Sua alma inquisitória agiu e perguntou em seguida. - "Não sente frio."
A mulher simplesmente sorriu com o primeiro comentário de Gabrielle. Brunhilda sentiu que a poeta realmente estava feliz em vê-la. Seu sorriso aumentou ao ouvir a pergunta curiosa.
"Não. Já tenho calor suficiente. Não preciso de roupas. Além disso, elas acabariam sendo queimadas". – Brunhilda olhou em volta procurando por Xena.
"Não vejo Xena".
"Ela está morta". Disse a poetiza com a eterna tristeza em sua voz.
Brunhilda nada falou. Ficou algum tempo apenas olhando para Gabrielle. Tal atitude incomodou Gabrielle. Geralmente as pessoas mostraram condolências, mas Brunhilda ficou indiferente. Gabrielle tentou entender.
"Ela não conhecia Xena... Permaneceram muito pouco tempo juntas para que se conhecessem".
A ex-valkiria não se desculpou, apenas comentou.
"Deve estar acontecendo algo importante para você estar aqui no reino de Odin, ao invés de estar em luto por Xena".
"Sim". Foi a resposta ouvida por Brunhilda. Em seguida completou com carinho.
"Uma vez lhe ajudei a encontrar Xena. Também lhe protegi quando possuiu o anel e caiu em sono profundo. Sempre ficarei do seu lado Gabrielle".
"Precisarei de toda a ajuda. Estarei seguindo um caminho sem volta".
Gabrielle explicou a situação para Brunhilda.
Capítulo 11
Não houve dificuldade para Gabrielle entrar no palácio de Odin. Os portões de bronze estavam abertos. Não havia nenhuma valkiria ou guarda.
Brunhilda esperou na floresta. Nada podia fazer no palácio de Odin. Persuadir o deus em entregar a maçã era o plano a de Gabrielle, se não conseguisse, a poetiza entraria em guerra se necessário e Brunhilda seria uma grande ajuda.
"Odin me espera". Pensou.
A barda caminhou lentamente até o salão do trono. Como imaginava, o deus nórdico ocupava seu trono de ouro, forrado com couro vermelho, de qual animal, Gabrielle não sabia. À direita de Odin, em pé, estava Grinhilda.
O silêncio foi quebrado por Odin.
"Seja bem vinda Gabrielle".
Dúvidas corriam pela mente da poetiza, mas foi direto ao ponto.
"Preciso da maçã dourada".
O olhar penetrante do deus encontrou com o olhar determinado de Gabrielle. Odin não via nenhum sinal de dúvida com relação ao objetivo da guerreira. Ela queria a maçã e faria qualquer coisa para a ter.
"Sim, eu sei que você deseja a maçã. A morte de Xena já é de meu conhecimento, assim como a intenção de Lúcifer em destruir a alma da sua companheira". – Odin levantou e caminhou até a Gabrielle. – "Quer mesmo a imortalidade? Sofrer eternamente com a lembrança, a morte atual e as futuras mortes de Xena?".
Gabrielle respondeu com uma voz quase inaudível, com raiva e dor.
"Suportarei qualquer angustia, mas Lúcifer não tocará em Xena!".
"Grinhilda buscará a maçã dourada". – Disse o deus.
Sem esperar outra palavra de Odin, Grinhilda saiu do salão.
Gabrielle não sabia onde o deus guardava as maçãs, nem se preocupou, ainda mais com a colaboração de Odin. Sorriu em agradecimento.
"Obrigada".
Momentos depois Grinhilda entrou apresada no salão e disse surpresa.
"As maçãs sumiram!"
Odin sentou novamente no trono. Seu rosto mostrava uma fúria profunda.
"Eva! Ela roubou as maçãs!".
Gabrielle ficou surpresa.
"Eva estava aqui no seu palácio?".
"Sim". – Respondeu Odin. – "Ela quer proteger você, por isso roubou as maçãs".
"Como Eva soube que queria as maçãs?".
"O seguidor do amor a avisou". Informou Odin.
"Eli! Por quê?". Questionou Gabrielle.
"Isso é algo que você terá que perguntar para Eva".
"Mas você sabe o porquê".
"Sim, mas esse assunto tem que ser tratado entre você e Eva. Já fiz bastante por vocês duas". Disse enfaticamente Odin, deixando claro que sua ajuda terminou naquele momento.
Gabrielle não quis forçar mais o deus, mesmo que sua raiva mandasse. Decidiu usar a ração.
"Eva tinha um cavalo?".
Grinhilda respondeu. "Não, mas ela arranjará um facilmente na aldeia".
"Preciso de um cavalo. Deixarei na Taverna das Valkirias".
Odin acenou com a cabeça e completou. "Vá, seu destino não está dentro das paredes do meu palácio".
Gabrielle olhou para o deus. Sentia que algo estava errado, mas não tinha tempo para descobrir, precisava encontrar Eva.
Capítulo 12
Eva afastava o mais rápido possível de Cirdan. Sabia que era uma questão de tempo até que Gabrielle a encontrasse.
"Tenho que destruir essas maçãs". Sussurrou.
O cavalo emprestado ofegava. Sabia que logo teria que descansar, já que quase não se via nada. A noite avançava rapidamente.
Parou em uma clareira, protegida por árvores. Não conseguiria dormir, pelo menos não nevava. Juntou alguns galhos, quase secos, que dariam uma fogueira razoável. Carregava alguns grãos que deu para a égua comer. Também trazia algumas frutas secas, pães para viagem e vinho, mas não sentia fome.
Eva apoiou em um tronco. Colocou uma manta de couro no solo para se proteger do frio e umidade. Sua tranqüilidade momentânea foi quebrada pela voz de Gabrielle.
"Por que Eva?"
A seguidora de Eli levantou assustada.
"Como conseguiu me alcançar?"
"Peguei um cavalo alado com Grinhilda". Disse calmamente.
Eva ficou surpresa. "Grinhilda?".
Gabrielle sorriu. "Agora faz sentido. Grinhilda lhe ajudou a roubar as maçãs, depois me ajudou para não levantar suspeitas diante de Odin".
A poetiza caminhou em direção a Eva. Eva se afastou.
"Não posso deixar que você coma a maçã".
Gabrielle parou. "Por quê? Não entendo porque Eli se envolveu".
A fogueira separava as duas.
"Lúcifer não está apenas brincando com você. Ele precisa encontrar a alma de minha mãe. Se o demônio conseguir condenar a alma dela ao inferno, conseguirá devolver o trono para a legitima dona, assim o reino da terra estará livre para se conquistado". - Eva controlou suas lágrimas que teimavam em cair. Perdeu a luta. – "Você é a única capaz de encontrar a alma de minha mãe. É sua alma gêmea. Se você comer a maçã, se tornará uma alma amaldiçoada, Lúcifer conseguirá te seguir, e conseqüentemente chegar até Xena".
Gabrielle sentou onde Eva estava. "Lúcifer está me manipulando".
Eva confirmou. "Sim. Você não tem o direito de ser imortal. Se você comer aquela maçã estará condenando sua alma a eterna tortura. No dia do julgamento, no dia em que você encontrar com o Deus Único, sua alma estará perdida, condenada ao inferno". – Eva respirou. Gabrielle só ouvia. "Nós não temos o direito de tirar nossas vidas. Temos um período de aprendizado na terra, onde morremos e renascemos para aprendermos, para evoluirmos. Se você não completar seus ciclos, não conseguirá aprender, alcançar a redenção espiritual da sua evolução".
Gabrielle olhou tristemente para Eva. A dor no rosto de Gabrielle era enorme, tanto que comoveu Eva.
"Preciso proteger Xena, se morrer esquecerei da minha vida anterior. Ter as lembranças, saber quem são meus inimigos me tornará mais capaz de evitar que Lúcifer atinja seus propósitos".
Eva aproximou de Gabrielle. Ajoelhou em frente da poetiza e segurou suas mãos.
"Isso não é verdade. Você renascerá, justamente para ser o apoio de minha mãe, seu equilíbrio, sua consciência se necessário." – Eva disse suavemente. – "Gabrielle... Você já mudou minha mãe, poderá sempre fazer o mesmo".
Lágrimas desciam do rosto de Gabrielle. Eva abraçou sua amiga. Ambas choravam.
"Sinto tanta falta de Xena". Confessou Gabrielle.
"Eu também". Sussurrou Eva.
Gabrielle olhou para Eva. Passou os polegares no rosto de Eva, enxugando as lágrimas.
"Sinto muito". Falou Gabrielle.
Eva não teve tempo para reagir. Gabrielle aplicou os pontos de pressão no pescoço da seguidora do amor. A poetiza segurou cuidadosamente Eva e a colocou no chão. Sabia que não tinha muito tempo. Levantou, pegou a sacola de couro próxima do tronco, tirou as maçãs de dentro, destacou uma.
Olhou para Eva que respirava com dificuldade. "Não posso correr o risco de perder a alma de Xena". Em seguida mordeu a maçã.
Uma energia percorreu seu corpo. Sentia mais forte, com mais vida, mas foi momentânea, a tristeza invadiu novamente seu corpo. Caiu de joelho e a maçã escorregou de sua mão. Lembrou de Eva. Rapidamente foi até a mulher deitada e desfez os pontos de pressão.
O ar entrou pelos pulmões de Eva. Um pouco de sangue saiu de seu nariz. Assim que conseguiu respirar um grito saiu com toda fúria de sua garganta.
"Nãooooooooo!".
Gabrielle abraçava Eva que chorava histericamente.
"Eu precisava fazer isso". Tentava consolar Gabrielle.
Eva apenas repetia baixinho. "Não... Não... Não".
"Tudo ficará bem". Completou Gabrielle. Mas na verdade sua maldição estava apenas começando.
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Risos e gargalhadas misturavam com os sons de clemência das almas perdidas do inferno. Lúcifer gargalhava tão alto que atingia o céu.
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Xena caiu de joelhos em frente do espelho d’água. Eli tentava confortá-la, mas nada que fizesse ou dissesse teria algum resultado. Eli ajoelhou ao lado de Xena e apoiou sua mão no ombro da guerreira que chorava compulsivamente pelo sofrimento que sua amada estaria condenada a suportar. Ali perto Michael observava.
A guerra começou.
Capítulo 13
Gabrielle caminhava nervosamente de um lado para o outro. Gritos de dor chegavam aos seus ouvidos, vindo da cabana a sua frente. Ela queria muito participar do parto, mas não devia se envolver.
Os gritos cessaram. Por alguns segundos um silêncio inquieto e incômodo permaneceu. Gabrielle prendeu a respiração. Mas soltou o ar dos pulmões assim que ouviu o choro forte da criança. Mas sua alegria não durou muito. Sentiu uma presença maldosa.
"Olá Gabrielle". – A voz ecoou demoníaca.
Gabrielle visualizou Lúcifer na sua forma humana. Ele mantinha uma certa distância, mas seu sorriso era bem visível e se tornou ainda maior.
"Que o jogo comece!". Debochou o demônio.
Um arrepio percorreu a espinha da poetiza. Seu destino agora era proteger a alma dessa criança, da sua alma gêmea.
Continua...