A Barda e a Guerreira

By SOMARQ

 

 

 

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No dia seguinte, depois do desjejum seguiram a pé por um bom tempo e depois cavalgaram. Chegaram numa pequena aldeia onde apenas almoçaram e seguiram viagem. Xena resolveu cortar caminho pela floresta e acabou por descobrir um lugar para acampar próximo ao rio. Após cumprirem todo o ritual que sempre faziam ao acampar, as duas se sentam próximas a fogueira descalçando as botas.

- Acho que essa noite não vai fazer tanto frio igual às outras noites. - disse Xena agora tirando a armadura.
- Eu diria que hoje está até quente. - disse Gabrielle indo pegar os cobertores.
- É e está demorando pra escurecer.

Quando ia pegar os cobertores Gabrielle vê, próximo a armadura de Xena, o chakram. Pega-o e admirando diz:

- Bem que você poderia me ensinar a usá-lo, Xena.

Xena olha para ver do que se tratava e avisa a seguir:

- Gabrielle, não brinque com isso é perigoso.
- Eu não estou brincando.
- É melhor deixá-lo onde estava.
- Se está pensando que eu posso me cortar, não se preocupe, eu sei que isso aqui é uma arma.
- Gabrielle põe no chão.

Gabrielle não diz nada e segura o chakram como se fosse lançá-lo. Xena estende a mão e com voz autoritária, diz:

- Me dá isso aqui Gabrielle.
- Calma Xena, não vou arremessá-lo. Só estou treinando.
- Isso não é brinquedo.
- Eu sei, eu não estou brincando. Como o chakram é leve!
- Gabrielle me dá isso aqui. - disse se levantando.
- Não. - respondeu recuando.
- Gabrielle...
- Não dou, não. - disse a barda ainda recuando e sorrindo.
- Olha que eu vou aí pegar.
- Vem nada.
- Gabrielle...
- Você não é capaz. - atiçou a barda sempre caminhando pra trás.
- Olha que eu lhe mostro que sou. E se eu for aí, você vai ver só o que acontece.
- Ver o quê?
- Vou te jogar no rio de roupa e tudo.
- Vai nada.
- Gabrielle não me provoque... - disse se aproximando.
- Vamos fazer o seguinte: se eu chegar lá onde Argo está eu ganho e você me ensina a arremessar o chakram. Se você ganhar pode me jogar no rio.

Xena olhou e viu a égua na beira do rio a poucos metros de onde elas estavam.

Gabrielle que já havia tomado uma certa distância, diz espantada e apontando pra trás da guerreira:

- Xena olha ali!

Enquanto Xena se põe em guarda olhando para trás e tentando ver do que se tratava, Gabrielle sai correndo tomando uma boa dianteira.

Ao perceber que fora enganada, que era um estratagema da barda para ganhar a aposta, Xena aperta os olhos e numa expressão totalmente selvagem solta o seu grito de guerra e sai correndo. E para compensar o tempo que perdeu, Xena salta dando várias cambalhotas no ar até ultrapassar a barda que estava a três passos da chegada, saltando por cima dela e tocando em Argo.

- Assim não vale! - reclama a barda.
- Ah... E trapacear vale? - disse a guerreira com as mãos na cintura.
- Ah, Xena, eu só estava brincando. - disse a barda entregando-lhe o chakram.
- Mas eu não. - disse a guerreira jogando o chakram no chão e pegando a barda no colo.
- Xena o quê você vai fazer?
- O que eu prometi. - disse caminhando em direção ao rio.
- Xena você vai ter coragem de fazer isso comigo? - disse a barda numa voz tão meiga e com uma expressão tão angelical, que a guerreira a olhou por uns instantes, assim tão de perto, com aqueles olhos intensamente verdes da cor da água que o rio tinha naquele momento. Colocou-a no chão e em seguida, rapidamente, tirou o traje de baixo e se atirou no rio.

Gabrielle foi até a beira do rio, meio atônita com aquela atitude da guerreira, procurou por ela que havia sumido, já estava ficando preocupada quando a guerreira emergiu. Quando Xena, finalmente, sai da água, Gabrielle pergunta:

- Xena que deu em você, por que você fez isso?
- Eu estava precisando. - disse passando direto por ela e indo em direção a fogueira.

Gabrielle se aproxima colocando o chakram junto com o traje da guerreira e entregando-lhe o traje de baixo. Assim que Xena se veste, Gabrielle põe a mão no ombro dela, dizendo:

- Desculpa.
- De quê?
- Pela brincadeira.
- Gabrielle, você sabe que eu gosto de brincar.
- Eu fui uma garota má.
- Garota má?! Você não sabe o que é uma garota má. Eu fui uma garota má. Gabrielle, você não tem nem idéia de como eu era uma assassina, uma bandida, uma sacana. Sim, eu tripudiava com os sentimentos de quem se aproximava de mim. Era a Destruidora de Nações, como muitos me chamavam. Você teria medo de mim, me odiaria, porque eu estava dominada por... - parou de falar abaixando a cabeça.
- Por Ares. Xena, ele se aproveitou que você era uma adolescente amargurada pela perda do seu irmão e expulsa pela sua mãe e pelo seu povo.
- Isso mesmo. Eu estava cheia de ódio, mesmo depois que vinguei Lyceus. Queria me vingar de tudo e de todos. Eu havia esquecido de quem eu fora e de quem eu era. Me transformei num monstro. Com certeza você me odiaria. E se você chegasse até mim, era porque seria uma escrava._ ao acabar de dizer isso Xena sentiu aquela estranha sensação de ter vivido o que acabara de dizer.
- Você tinha escravos?
- Tinha. Principalmente na época em que vivi uns tempos no mar. Eu tinha um barco grande, veloz que usava para saquear outros barcos, onde além dos tesouros, também ficava com os escravos. E teria muito mais se não tivesse conhecido Hércules e se não tivesse tido aquele desentendimento com Darphus e de ter sido destronada, bendito seja aquele dia.
- Então, não foi de todo mal a surra que você levou?
- Foi a segunda melhor coisa que podia ter me acontecido. A primeira coisa veio depois, quando conheci você.
- Obrigada por me fazer sentir importante.
- Quem deve agradecer sou eu.
- Xena, eu sou tão importante assim para você?
- Muito mais do que você imagina.

A barda abaixou os olhos dizendo:

- Xena, eu não mereço a sua amizade.

A guerreira se levanta e a olhando de frente pergunta:

- O que você está dizendo, Gabrielle? Eu é que não mereço a sua amizade, que você seja minha amiga e que goste de mim.
- Não fale assim. - disse a barda ainda com os olhos baixos.
- Sabe por que eu estou na estrada? Estou tentando redimir tudo aquilo que fiz de errado no passado. Não que com isso consiga apagar ou compensar os crimes que cometi, mas pra tentar ajudar àqueles que precisam de ajuda contra as pessoas iguais a que já fui um dia. E você é essa força que preciso pra continuar.

Gabrielle levantou os olhos e viu lágrimas nos olhos da guerreira, disse emocionada:

- Eu não vou deixar você voltar a ser a Destruidora. Vou estar sempre ao seu lado, presente ou não.
- Como assim, presente ou não? - teve um certo tom de preocupação o tom de voz da guerreira.
- Se de repente eu morrer, vou virar um raio de luz e invadir o seu coração.

Xena segura as mãos da barda, levando-as até a sua boca e diz emocionada antes de beijá-las:

- Gabrielle se você morrer, morro também.

A barda se atira nos braços da guerreira chorando.

- Oh, não, Gabrielle, como você anda chorona... - disse Xena tentando acalmá-la e a afastando um pouco de si, conclui: - Agora vá arrumar os nossos cobertores, que eu vou colocar o peixe pra esquentar.

Mais tarde, enquanto Xena estava cuidando de Argo, Gabrielle tira o cinto e a saia para dormir, ficando só com a calça de perna e o top. De onde estava a guerreira ficou olhando, achou-a linda sob a luz do luar que a iluminava contornando aquele corpo tão desejável. Sentiu-se invadir por tamanho desejo que teve que virar de costas.

- Não vem dormir? - perguntou Gabrielle se deitando.
- Agora não, depois que limpar as minhas armas. - disse a guerreira se sentando de frente pra fogueira e de lado para ela.

Na verdade, Xena não queria se deitar porque estava ardendo de desejo e não saberia qual seria a sua reação se a barda se encostasse nela como sempre fazia.

- Xena, você está sem sono? Quer que eu te faça uma massagem?
- Não, não precisa. Quando eu terminar aqui e se ainda estiver sem sono vou andar um pouco.
- Quer que eu te faça companhia?
- Não, não precisa. Agora durma Gabrielle.

Demorou propositalmente ao limpar as armas, depois resolveu andar um pouco. Pensou e constatou que o seu desejo pela barda estava aumentando, se é que fosse possível ser maior do que já era e que ela já não estava mais controlando o impulso de espiá-la, de ver um pouco mais daquele corpo que tanto queria ter, além da vontade de dizer a ela que a amava, que a queria. Por isso que não podia se deitar ao lado dela naquele momento, porque se a barda a abraçasse, se isso acontecesse, ela não responderia por seus atos. Era muito forte o que sentia, quase incontrolável. Xena sabia que tinha que lutar contra isso, refrear os instintos como a cartomante dissera. Lembrou das palavras de Soraya, não podia correr esse risco, Gabrielle não era só a pessoa que ela mais amava e queria, ela era a sua amiga. Ficou por um longo tempo pensando, cansada resolveu se deitar. Se aproximou sem fazer barulho, olhou para a barda, sem dúvida que estava dormindo, puxou a coberta e deitou se cobrindo a seguir. Deixou as costas prontas para que a barda se aconchegasse durante a noite. E foi o que aconteceu. Gabrielle ao se aconchegar nas costas dela acabou por acordá-la. Xena prestou atenção no sono da barda, estava tranqüilo, então sossegada dormiu.

Quando a guerreira acordou, percebeu que estava com a barda em cima dela. Adorou sentir aquele corpo quente e extremamente macio sobre o seu corpo, mas tinha que acordá-la, pensou "Mas esta barda é mesmo espaçosa... Como se não bastasse me fazer de travesseiro, agora eu sou o seu colchão também! Vou acordá-la, só quero ver a cara dela". Deu um beijo na cabeça dela e a chamou. Preguiçosamente Gabrielle abriu os olhos e viu que havia escalado a guerreira, que estava não somente com a cabeça no peito dela e o braço envolto da cintura, mas a sua perna totalmente em cima da guerreira. Levantou a cabeça e viu Xena olhando-a divertida que lhe diz:

- Bom dia, pelo que vejo dormiu muito bem, não é mesmo?
- Ahn... Bom dia, Xena... Eu não sei como isso... Me desculpa... - balbuciou saindo de cima dela.
- Pelo que vejo também, você não teve pesadelo esta noite.
- Não. Dormi tranqüila.
- Deu pra perceber. Agora levante, vamos fazer um rápido desjejum e voltar pra estrada.
- Vamos para algum lugar especial?
- Aquela cidade indicada pelo servente da Cidade de Dionísio e que eu gostaria de conhecer.
- Então vamos.

Chegaram no fim da tarde na tal cidade. Foram direto para a tal pousada indicada pelo servente. Pediram um quarto e antes de subirem para a acomodação, a servente avisa que a noite ia ter música para dançar e que elas eram bem-vindas. A barda ficou toda animada. Xena já estava achando que tinha feito uma besteira ou que tinha cometido uma imprudência ao levá-la para lá. Pois sabia exatamente que tipo de freqüência deveria ter aquele lugar. Agora, como convencer a barda de não sair do quarto... Não ia ser fácil, mas ela tinha que tentar.

- Xena a gente podia tomar um banho agora, se arrumar e descer.
- Excelente idéia a do banho. Há dois dias que não tomamos um banho decente e relaxante.

Durante o banho a guerreira tenta convencer a barda e ao fazer-lhe uma massagem nas costas com a esponja de banho, diz:

- Gabrielle, eu estava pensando que, ao invés de descermos, comêssemos alguma coisa aqui mesmo no quarto. Posso pedir que tragam a galinha assada, que é a especialidade da casa e um bom vinho. Que tal?
- E perdermos a oportunidade de comer ao som de uma boa música? Nada disso.
- É que eu estou cansada. - mentiu a guerreira.
- A gente não precisa ficar a noite toda, só o tempo de comermos sem pressa. Você mesma disse que música é relaxante e faz a gente dormir mais leve.

Xena percebeu que não adiantava argumentar, Gabrielle já havia decidido. E quando aquela barda queria uma coisa...

A música já havia começado há bastante tempo, quando as duas desceram para o salão. Como Xena havia previsto, a freqüência era exclusivamente de mulheres. Percebeu que todos os olhares eram dirigidos a elas. E que todas as mesas estavam ocupadas.

- Eu não disse que teria sido melhor que comêssemos lá em cima. - disse a guerreira.
- É, você tem razão. Devíamos mesmo ter jantado lá no quarto e descido depois.
- Venha, vagou dois lugares no balcão.

Xena pediu uma porção de galinha assada e duas taças de vinho.

- Xena?

A guerreira se virou ao chamado. E surpresa perguntou:

- Acidália! O que você está fazendo aqui?
- Sou eu quem deveria perguntar, já que essa pousada é minha e da Amanda.
- "Guerreira"... Como é que eu não me lembrei quando vi o nome. - disse Xena admirada.

Nisso chega Amanda, que estava atrás do balcão, cumprimenta Xena e olha indagativa para Gabrielle. Percebendo Xena diz:

- Esta é a minha amiga Gabrielle. - e se dirigindo a barda explica: - Gabrielle esta é Acidália, uma guerreira, e sua amiga e sócia Amanda. Elas são as donas desta pousada.
- Somos as donas graças a Xena. - comentou Acidália.
- Gabrielle não sabe, ela não sabe de nada. - disse Xena frisando a última palavra.

As duas entenderam. Acidália avisa:

- Vocês duas são as nossas convidadas de honra. E serão sempre que vierem aqui. Mas agora quero que se divirtam. Mais tarde conversaremos.

Nem bem as duas haviam se retirado, Gabrielle, que se manteve calada até então, pergunta:

- O que eu não sei Xena?
- É uma longa história Gaby.
- Vai me contar? Ou vou ter que perguntar pra suas amigas?

Sem alternativa, Xena resumiu a história, omitindo o fato de ter transado com Acidália e de as ter convidado para tal envolvimento. Disse apenas que ficara com pena das duas e como aquela pequena fortuna era produto dos saques da Destruidora, nada mais justo que ajudá-las a recomeçar.
Gabrielle sorriu e segurando-lhe a mão, diz:

- Estou orgulhosa de você. Vamos dançar?
- Dançar?!
- Não sei se você reparou, mas o salão está cheio de mulheres dançando... - parou de falar e olhando de novo para os pares conclui:... - uma com a outra.

A guerreira percebe que só agora a barda notara que a freqüência era predominantemente feminina. Ficou observando-a olhar atenta aos pares dançando e namorando.

- Xena, elas estão... - Gabrielle não conseguiu concluir, pois ficara espantada vendo duas mulheres se beijando.
- Agora você sabe por que não devíamos descer. - disse Xena um pouco sem jeito.
- Tudo bem, mas eu ainda quero dançar. Vamos dançar?
- Dançar?! Gabrielle, não sei se você percebeu mesmo que isso aqui... Quero dizer...
- Não me importa, sei lá o que isso aqui for, quero apenas dançar. Se você não quiser dançar comigo, danço sozinha. - disse saltando do banco.

Xena olhou ao redor e notou que tinha muitas guerreiras sozinhas e isso não era nada bom.

- Espera. Deixa eu acabar de beber.

Depois foram para um canto mais sossegado.

- Você sabe dançar? - perguntou a barda na frente dela.
- Claro que sim. - disse a guerreira num meio sorriso.
- Então me ensina, porque eu não sei.
- Você não sabe? Nunca dançou?
- Já dancei a dança dos camponeses quando festejamos a boa colheita. Mas essa maneira de dançar não sei não.
- É fácil. Quando for música lenta é só se mexer bem lentamente, quase sem sair do lugar. E quando for música agitada, balance o corpo, os braços conforme sentir a música.
- Falando assim parece fácil.
- E é fácil mesmo. - disse a guerreira se aproximando da barda e segurando as mãos dela que estavam estendidas. Xena começa a se mexer lentamente dando pequenos passos de um lado para o outro e conseguindo conduzir Gabrielle no mesmo ritmo.

Gabrielle olhou ao redor e viu que as outras mulheres dançavam de forma diferente. Estavam abraçadas, mais envolvidas fisicamente. Os braços delas não estavam estendidos ao longo do corpo como elas estavam fazendo. Aquelas mulheres dançavam enlaçando o pescoço ou a cintura uma da outra. Sentiu uma vontade incontrolável de pôr os braços no pescoço de Xena. Resolveu então, timidamente, desprender a mão direita da mão dela e tocar por cima da armadura o ombro da guerreira.

- O que foi, a alça está desprendendo? - perguntou a guerreira olhando para o próprio ombro.
- Não. Estou ajeitando o cordão que dei, estava aparecendo. - inventou Gabrielle sem olhar para ela. Disse: - Xena você dança muito bem.
- E você aprende depressa.

Gabrielle ficou pensando porque Xena não a envolvia nos seus braços naquele momento. Estava a ponto de pedir isso para ela, quando a guerreira perguntou:

- Sabe rodopiar?
- Como elas estão fazendo? Acho que sei.
- Então me dê a sua mão direita.
- Não seria melhor tirarmos os casacos?

Penduraram os casacos na parede e foram dançar. Xena segurou a mão da barda, levantando o braço e fazendo-a rodopiar ao ritmo da dança. Depois colocou a mão da barda em seu ombro e com sua mão direita segurou a cintura dela para os passos rítmicos. A guerreira constatou que a barda era uma excelente aluna, pois aprendera rápido. Estavam dançando tão bem que despertaram as atenções dos outros pares. Xena notou que todos os olhares eram dirigidos para elas. Sentiu-se lisonjeada e ao mesmo tempo um estranho ciúme a invadiu. Pois viu que muitos olhares eram dirigidos a barda, olhares de cobiça. Olhou bem para Gabrielle, de como ela estava linda com aquela sensualíssima roupa de guerreira, de como aquela garota ficara tão bonita e desejável, de como ela a espiava nos momentos íntimos e de como aquelas lobas famintas também estavam olhando para ela da mesma maneira. Xena tinha consciência que estava sendo torturada. Era uma doce e maravilhosa tortura, por ter a barda o tempo todo ao seu lado, mas sem poder tocá-la do jeito que ela queria tocar. Porém, ali, ninguém sabia disso, todas pensavam que eram amantes e que ela a tinha. Envolveu a barda nos braços, enlaçando-a pela cintura. Quando a puxou um pouco mais para si, viu a barda rindo pra ela daquele jeito tão inocente, que sentiu culpa por está se aproveitando dela.

- Que tal uma caneca de vinho?
- Por mim, eu não parava de dançar. Mas já que você está com sede...
- Estou, estou com muita sede. - disse Xena sem poder explicar de que sede era.

Ao voltarem para o balcão, a servente avisa:

- Já está pronto. A senhora vai querer agora?
- Vou. Ah, eu também quero duas taças de vinho.
- O quê é Xena?_ perguntou curiosa.
- Você vai ver.

Nem bem acabou de responder, a servente deposita no balcão uma bandeja e Gabrielle ao ver o que era, sorri.

- Torta de maçã com calda de ameixa preta. - diz Xena e acrescenta: - Não foi isso que você queria comer hoje de manhã?
- Xena, você mandou fazer para mim?
- Bem, como nunca festejamos juntas os nossos aniversários, essa poderia ser uma boa ocasião. - Xena lembrou que nunca fora tão sem criatividade como estava sendo naquele momento, finaliza: - Feliz aniversário, Gabrielle.
- Feliz aniversário pra você, Xena.

Gabrielle corta um pedaço da torta com a colher, passando-a na calda e a leva até a boca de Xena que vira o rosto dizendo:

- Não Gabrielle, mandei fazer pra você.
- Mas você como aniversariante também tem que comer. E o primeiro pedaço é seu.

Xena não discutiu, abriu a boca e saboreou aquele pedaço de torta. Gabrielle também comeu um pedaço, achou delicioso e logo após deu outro pedaço pra guerreira, que não se fez de rogada e que estava adorando o tratamento, mas demorava de propósito mastigando para dar tempo de a barda comer mais. Xena adorava vê-la satisfeita, feliz.

Quando terminaram de comer, Gabrielle pegou o pequeno pano de mesa e limpou o canto da boca da guerreira e em seguida a sua própria boca. Tal gesto, para as outras pessoas, com certeza, confirmava que havia intimidade entre elas.

- Estão satisfeitas? - perguntou Acidália ao se aproximar.
- Lia, deixa as duas. Não vê que elas estão querendo ficar a sós. - repreendeu Amanda enlaçando a amiga pelo braço.
- Que falta a minha. Xena, você e a sua namorada podem pedir o que quiserem.
- Gabrielle é minha amiga. - disse Xena olhando seriamente para a ruiva, levantando a sobrancelha.
- Oh, desculpe... É que pensamos... Bem, não importa. O que importa é que vocês sejam bem tratadas.
- Isso você pode ter certeza que sim. - disse Gabrielle.

Depois que as duas saíram, Gabrielle diz:

- Posso fazer um pedido de aniversário?
- O quê é?
- Posso?
- Pode.
- Vamos dançar?
- De novo?!
- Por favor... - implorou a barda.
- Está bem.

"O que Gabrielle quer, que Xena não faz?" - pensou a guerreira. Aquela barda não tinha noção do poder que tinha sobre ela.

Estava tocando agora um ritmo agitado e elas dançaram como da outra vez, mão de Gabrielle no ombro de Xena e desta na cintura da barda. Durante a dança Xena percebeu, novamente, os olhares gulosos das outras guerreiras, quase parou de dançar para pegar o casaco e cobrir a barda. Lembrou que nunca na vida dela tivera ciúmes de alguém como estava sentindo naquele momento por Gabrielle. Tinha que parar o que estava sentindo, então perguntou:

- Vamos subir?
- Está com sono?
- Estou.
- Está bem. - concordou a barda um tanto desolada.
- Vamos pegar os casacos. - disse a guerreira aliviada.

Quando tomaram o caminho para a escada, Xena viu e pode sentir os olhares de inveja. Repuxou no canto da boca um sorriso ao lembrar que todas aquelas mulheres estavam pensando o que aconteceria naquele quarto, seria na verdade, o menos óbvio, elas iriam dormir.

Assim que entrou no quarto, Gabrielle diz:

- Você viu só?
- O quê?
- Foi a primeira vez que não me confundiram como sua escrava. Não que eu me importe que pensem isso. Mas foi porque elas me viram como uma guerreira, já que acharam que eu era a sua namorada.

Gabrielle quis ver a reação de Xena com o que dissera, mas teve uma amarga resposta:

- Imagine só, que disparate, dizer que somos namoradas! Só na cabeça daquela ruiva.
- O que você quer dizer com isso? - perguntou um pouco magoada.
- Que qualquer um pode ver que somos amigas.

Batem a porta. Era Acidália.

- Desculpem, sei que não é o momento propício... Mas, Xena, eu preciso muito falar contigo. - fez sinal para que ela saísse.

Xena encostou a porta. A ruiva segurou-lhe os braços dizendo:

- Queria lhe agradecer por ter vindo aqui. Novamente você nos salvou.
- Como assim?
- Amanda andou um tempo cismada. O que eu tenho sofrido, você nem faz idéia.
- Ainda não entendi.
- Xena, depois daquela noite lá nas termas, eu demorei um longo tempo pra convencer Amanda que, o quê eu tive com você naquele dia foi apenas uma transa. Até pouco tempo ela sentia ciúmes de mim com você. Agora não, você veio acompanhada... E por falar nisso, viu só que fora eu dei, achando que Gabrielle era sua amante?

Xena puxa a ruiva para o fundo do corredor, dizendo:

- Gabrielle é só minha amiga.
- Era essa garota que você tentou encontrar na minha Amanda naquela noite?
- Era sim.
- Você a ama?
- Ela é a coisa mais importante da minha vida.
- Por que você não se declara a ela?
- Porque tenho medo de perder a amizade dela.
- Eu acho que você deveria tentar.
- Ainda é cedo. Ela é totalmente inexperiente.
- Amanda disse que vocês estão pensando em partir amanhã.
- Ainda não combinei direito com Gabrielle.

Quando voltou ao quarto, viu a barda deitada, achou estranho. Chamou por ela, mas Gabrielle nem se mexeu. Xena sentiu que tinha algo errado. Mudou de roupa, vestiu a camisa e antes de se deitar ao lado dela, tentou ver se ela estava acordada e teve a impressão que Gabrielle fechara os olhos quando ela se aproximou. Teve vontade de chamá-la novamente, mas resolveu respeitar o silêncio dela. Deitou e custou a dormir. Ali do seu lado, Gabrielle estava mesmo acordada, sentia-se traída, as palavras de Acidália ecoavam pela sua cabeça. Ela escutara o começo da conversa das duas. Mesmo sabendo que, não tinha o direito de se sentir traída por Xena por ter tido um envolvimento com aquela ruiva durante o tempo em que já se conheciam, mesmo assim sentia-se enganada. Xena escondera isso dela quando lhe contara como ajudou Acidália e Amanda. Omitira não somente que as duas eram amantes, como também do seu envolvimento com a ruiva. No quê mais a guerreira havia-lhe mentido? Será mesmo que não procurou por Atma daquela vez? Por que escondia tais coisas dela? Talvez fosse porque não a considerasse capaz de entender. Será que Xena ainda a considerava uma criança? Então lhe mentira chamando-a de ajudante, de guerreira?... Não era só a traição que a magoava, principalmente porque não havia nada entre elas, o que mais lhe doía era por ter sido enganada, Xena lhe mentira. Engoliu as lágrimas, pois não queria chamar a atenção dela. Custou a dormir.

Quando acordou, Xena estranhou por não encontrar a barda aconchegada nela. Realmente alguma coisa deve ter acontecido. Ficou pensando se deveria acordar a barda, mas não foi preciso.

- Bom dia. - disse Xena observando-a.
- Bom dia. - respondeu secamente.

Xena continuou observando como ela estava agindo. Gabrielle depois que se levantou, lavou o rosto e sentou-se à mesa defronte a ela. E como fazia todas as manhãs, lhe serviu o desjejum, se serviu e comeu calada. Xena resolveu quebrar o silêncio, perguntando:

- Teve outro pesadelo?
- Não.
- Está chateada comigo?
- Não.
- Então por que está assim?
- Assim como?
- Calada, distante. E se não está zangada comigo, com quem então?
- Comigo.
- Com você, por quê?
- Porque sou uma idiota. - disse se levantando e indo arrumar a cama.
- Não quer me contar o quê se passa? - perguntou Xena se aproximando.
- O quê eu tenho pra falar? Nada. São coisas minhas.
- Está no seu ciclo?
- Não.
- Quer ir embora ou ficar mais um dia aqui?
- E você o que quer?
- O que você quiser.

Gabrielle pensou um pouco e disse:

- Vamos ficar mais um dia.
- Ótimo. Que tal agora mudarmos de roupa e fizéssemos uma caminhada com Argo?

Gabrielle balançou a cabeça concordando. Xena sentiu-se um pouco aliviada.

Enquanto andavam, Xena notou que Gabrielle continuava extremamente carinhosa com Argo, como ela sempre fora, no entanto bastante fria com ela. Xena agora tinha certeza que a bronca da barda era em relação a ela. Só que não conseguia se lembrar o que fizera pra deixá-la tão brava assim. Resolveu dar um basta nisso.

- Me desculpa.

Gabrielle olhou para ela sem entender.

- Me desculpe se te fiz alguma coisa, embora eu nem mesma sei o que fiz. - disse Xena.

Gabrielle encheu os olhos de lágrimas e disse abaixando o olhar:

- Sou eu quem deve pedir desculpas.
- O que está acontecendo, Gabrielle? - perguntou segurando-a pelos braços.
- Sabe que dia é hoje?

A guerreira pensou, coçou a cabeça, chegou até a olhar pra Argo como se ela pudesse lhe dizer alguma coisa, olhou novamente para a barda e disse:

- É algum dia especial?
- Estamos na metade das minhas férias. Só tenho sete dias para ficar junto a ti.
- Oito, Gaby.
- Não, Xena, são sete dias. É que no décimo quinto dia vou ter que me apresentar no fim da tarde na Academia.
- Você está certa. Então é por isso que você está assim. - disse Xena nitidamente aliviada.
- A gente só vai se ver no dia da formatura, como é que você quer que eu me sinta?
- Sua barda tola, você acha mesmo que eu ia ficar esse tempo todo sem fazer umas visitinhas pra você lá naquele jardim?
- Vai mesmo, Xena? Mas você não disse que tem um longo trabalho para fazer com Toris?
- Isso não vai impedir de eu dar umas escapulidas.

E, novamente, a barda começa a chorar. Xena a abraça dizendo:

- Gabrielle, eu já lhe disse que você anda muito chorona?
- Eu sou uma garota má, Xena.
- E essa agora! Por que você acha isso?
- Porque eu exijo muito de você, mais do que você pode me dar.
- Você não exige nada, Gabrielle. Tudo que dou pra você é porque posso dar. Agora vamos parar com essa conversa boba e vamos caminhar mais um pouco. - disse soltando a barda.

Quando voltaram para a pousada, Gabrielle já tinha voltado ao normal, com a sua alegria costumeira.

Durante o almoço com Acidália e Amanda, Xena comenta:

- Nós estamos querendo acampar, mas com esse frio...
- Você já ouviu falar das Águas Quentes? - perguntou Acidália.
- Já, mas não sei onde fica.
- Fica exatamente há dois dias daqui. Num desvio ao lado da velha estrada, dentro da floresta que leva para a cidade de Atenas.
- Nós viemos por esta estrada, cortamos caminho por ela. - lembrou Xena.
- No meio do caminho não tem uma estrada interrompida, cheia de buracos? - perguntou Acidália.
- Tem sim.
- Pois é, esse é o caminho, essa é a estrada que vocês têm que seguir. Mais adiante vão achar um novo caminho, uma estrada com uma bifurcação. O caminho da esquerda, não tem passagem livre, vocês vão ter que passar por dentro do bosque porque é lá que fica o lago das Águas Quentes. O caminho da direita leva até uma casa, que antes tinha sido um estábulo, que agora é uma pousada para amazonas e guerreiras. Não convém levar a sua amiga para lá se não quiser arranjar problemas. Nós erramos o caminho e fomos parar lá, duas guerreiras se engraçaram pela minha Amanda. Se não fosse por ela, por ter me puxado e até ameaçado de me deixar, eu teria levado a maior surra da minha vida. Vocês precisavam ver o tamanho e a largura das duas mulheres.

Todas três riram com os gestos que Acidália fez se referindo ao físico das mulheres citadas. Até Xena que momentos antes ficara tensa quando a ruiva havia se referido das duas mulheres tinham se engraçado pela sua Amanda, olhara imediatamente para Gabrielle que não demonstrou nenhuma surpresa e continuou prestando atenção na conversa dela. E a guerreira quase caiu dura quando a ruiva disse:

- Nós passamos a nossa noite de núpcias lá. - e olhou com carinho para a companheira.
- É um lugar maravilhoso, meio escondido, um paraíso. - disse Amanda segurando a mão da companheira.
- Quando as nossas ajudantes estiverem mais preparadas para cuidar disso aqui, vamos voltar lá.
- E a água é quente mesmo? - perguntou Gabrielle.

Xena que estava calada, somente observava a barda, pergunta:

- É um lago mesmo?
- Respondendo as duas perguntas: a água é quente mesmo. No verão deve ser insuportável acampar lá. Não é um lago normal, é pequeno e cheio de pedras vulcânicas coberta por uma camada de areia, areia mesmo. O que posso dizer mais é que é um lugar único. - disse Acidália.
- Então deve ter um vulcão por perto. - disse Xena.
- Sinceramente nem notei, também num lugar daquele e com a minha Amanda ao meu lado...

Desta vez a guerreira nem olhou para a barda. Sentiu vontade de esganar aquela ruiva. E ficou surpresa quando a barda disse:

- Gostaria muito de conhecer, vamos Xena?
- Tudo bem, partiremos amanhã bem cedo. - foi o que a guerreira conseguiu falar naquele momento.

Amanda e Acidália trocaram um olhar significativo e cúmplice. Xena notou.

Na manhã seguinte.

- Não queríamos incomodá-las, é muito cedo. - disse Xena para Acidália e Amanda.
- Imagine se iríamos deixar vocês partirem sem que fôssemos nos despedir. - disse Acidália.
- Mas nós nos despedimos ontem. - disse Xena.
- Vocês se despediram, mas nós vamos nos despedir agora e pedir para que voltem aqui, não é Lia? - disse Amanda.
- É sim. E Amanda preparou um lanche para vocês levarem pra viagem.

Gabrielle agradeceu, pegou a sacola com o lanche e colocou na lateral da sela de Argo.

Um dia e meio depois chegaram a frente da estrada interrompida. Xena desmonta. Gabrielle ao desmontar, pergunta:

- É aqui?
- É aqui que começa. Agora vamos achar o caminho com a pequena bifurcação.

Passam por inúmeras árvores até encontrarem o caminho com a pequena bifurcação.

- É o da esquerda, não é? - perguntou Gabrielle.
- É sim. Fique aqui com Argo que eu vou sondar o da direita.

Xena andou até a estrada que dava para o bosque. Parou, fez sinal com a mão espalmada para que Gabrielle esperasse e sumiu entre as folhagens. Pouco depois reapareceu.

- E então? - perguntou a barda.
- É, a tal pousada está lá.
- Você foi até lá?
- Não, só fui ver se ainda existia. Vamos sair daqui, alguém pode nos ver.

Adentraram pelo bosque até o fim deste. Até que avistaram o pequeno lago.

- Que lugar lindo, Xena! - disse deslumbrada.
- É mesmo. Este é um dos poucos lugares da Grécia que eu não conhecia. - disse Xena e ao virar para o lado avista algo e diz: - Olhe ali, Gabrielle, é uma escavação na clareira, quase uma gruta, onde poderemos acampar sossegadas e protegidas do sereno ou se chover.
- Amanda tem razão de dizer que este lugar é um paraíso. - disse Gabrielle molhando a mão no lago e constatando: - A água é quentinha. Isso aqui é um sonho.

Xena que fora constatar a temperatura da água, diz:

- Vamos arrumar as nossas coisas, depois vou desatrelar Argo e após isso, que tal um banho bem relaxante?
- É pra já! - disse Gabrielle arregalando os olhos e sorrindo.

Xena tinha tirado as armas, a armadura e agora estava cuidando de Argo, quando a barda a chama:

- Xena vai demorar?
- Só mais um pouco Gabrielle.
- Você não sabe o que está perdendo.

A guerreira olhou e viu que a barda já estava dentro do lago.

- Ah, não me esperou, não é? Espere só até eu chegar aí.
- O que você vai fazer?
- Você vai ver. - disse a guerreira numa expressão muito marota.

Depois que se despiu foi andando de tal maneira que a barda nadou para mais longe, submergiu e nadou por baixo da água de volta a pedra onde ela havia colocado os panos de banho, o sabão e a esponja. Ficou atrás desta escondida. Esperou um pouco e então resolveu olhar onde a guerreira estava, mas não a viu. Estava procurando com o olhar quando sentiu algo puxar o seu pé e em seguida ser tragada para o fundo do lago. Estava se debatendo quando viu no fundo a guerreira subindo em sua direção após largar o seu pé. Ela estava sorrindo emitindo várias bolhas de ar ao redor do rosto dela. Sem se conter, Gabrielle deu dois socos nos ombros dela, que a puxou para a superfície.

- Oh, Xena!... Você... Me... Assustou! - disse a barda ainda engasgada com a água que bebera.
- Desculpe, desculpe. - disse a guerreira sem convencer, ainda com cara de travessa.

Xena bem sabe que não foi muito honesta com a barda, pois mergulhou na intenção, não só de brincar com ela, mas de espiá-la, ver o corpo lindo que a barda havia adquirido. E que agora, mais do que antes, iria ativar a sua imaginação nos momentos de excitação. De certa forma, Xena sabia que a estava usando, mas não conseguia evitar, era mais forte do que ela. No entanto, a consciência lhe pesou fazendo que fosse a primeira a sair da água, deixando que a barda pudesse se cobrir sem ficar constrangida.

Mais tarde.

- Pensei que a comida fosse durar até o almoço de amanhã, mas só vai dar pro desjejum. - disse Gabrielle colocando a carne na panela para esquentar na fogueira.
- Quanto tempo você quer que fiquemos aqui? - perguntou Xena se sentando ao lado dela.
- Até partimos para a cidade de Atenas.
- A contar de hoje teremos cinco dias, pois levaremos um dia e meio para chegarmos a tempo de você se apresentar. Quer mesmo ficar esses dias todos aqui?
- Gostaria muito. Aqui é muito lindo. Temos conforto para acampar, água quentinha... Só se você não quiser ficar.
- Como você mesma disse, aqui é o lugar perfeito para acampar. Por mim tudo bem.
- Então está decidido, vamos ficar aqui.

Na manhã seguinte, após o desjejum.

- Vou sair a tarde pra caçar quer vir comigo? - disse enxugando os pratos que a barda acabara de lavar.
- Você vai me ensinar a caçar? - perguntou Gabrielle enxugando as mãos.
- Vou. Agora que você é minha ajudante é bom que me ajude nisso também. Vou te ensinar tudo que sei.
- Tudo?
- Sim. Eu já te ensinei a pescar, agora vou te ensinar a caçar e a fazer armadilhas.
- Armadilhas para quê?
- Tem dois tipos de armadilhas que você precisa aprender: as que servem pra pegar animais e as que servem para proteção. Vou te ensinar as duas. E vai ser agora mesmo.

E, Xena, então, levou Gabrielle para a floresta e mostrou como fazer armadilhas com cordas e galhos para pegar coelhos e cervos. Também mostrou e montou armadilhas feitas também de cordas e galhos colocadas em pontos estratégicos do acampamento para não só pegar o intruso, como também para que fosse avisada da presença dele pelos barulhos dos galhos que se soltariam e bateriam um no outro.

Gabrielle se empenhou ao máximo e aprendeu em pouco tempo. Voltaram para o acampamento para almoçar e depois foram de novo para a floresta desta vez para caçar.

Já estava no final da tarde quando Xena conseguiu caçar um cervo. Gabrielle antes tinha perdido dois coelhos, três perdizes e um outro cervo. Iam ficar sem jantar se não fosse Xena ter caçado aquele cervo.

- Sou uma negação como caçadora.
- Gabrielle essa foi a primeira vez que você caça, a sua primeira tentativa. - disse Xena querendo confortá-la.
- Foram seis tentativas, seis bichos que devem estar rindo de mim. E perdi as seis flechas.
- Por falar nisso, amanhã vamos treinar sua pontaria. Agora vá até o nosso acampamento e traga um saco para que eu coloque as partes do cervo que vou levar.
- E o que você vai fazer com o resto?
- Vou deixar aqui para os outros animais.
- Que animais?
- Bem, perto daqui tem uma alcatéia. Vi rastros.
- Lobos! - disse Gabrielle espantada e olhando em todas direções.
- Ah, tinha me esquecido que você tem medo de lobos. Mas fique tranqüila, que eles estão bem longe daqui, foram caçar e só vão sentir o cheiro desse cervo à noite. Vá logo Gaby e cuidado com as armadilhas. E traga o sal também.

Depois que Gabrielle saiu e enquanto esquartejava o cervo, Xena lembrou que essa noite a barda iria dormir agarradinha a ela. E se ouvisse os uivos dos lobos, aí seria nos braços dela que aquela garota amedrontada dormiria. A guerreira sorriu satisfeita.

Quando a barda voltou com o saco, Xena já havia separado as peças de carne e reclamou:

- Você demorou, o quê houve?
- Estava procurando o sal, mas acho que nós não trouxemos. Você comprou como pedi?
- Não, esqueci completamente. Mas já sei o que vou fazer. Vamos levar a carne para o nosso acampamento, depois vou até aquela pousada comprar um pouco de sal e quem sabe amônia.
- Amônia pra quê?

Xena olhou para a barda e achou melhor não dizer que a amônia seria para colocar na entrada da passagem para o acampamento, por causa da carne do cervo, para espantar os lobos. Se dissesse com certeza iria assustá-la, então disse:

- É para qualquer eventualidade. Agora me ajude a carregar isso, segure nas pontas do saco aí atrás.

Assim que chegaram no acampamento, lavaram as peças de carnes.

- Vou até a hospedaria, não demoro. - avisou Xena.

Xena tomou cuidado ao sair da floresta e seguiu a pé até a outra estrada da bifurcação. Quando entrou na hospedaria percebeu que o ambiente era quase escuro, descuidado e até um pouco sujo. Completamente diferente da "Guerreira" a hospedaria da Acidália e da Amanda. Percebeu que já havia freguesia, três mesas ocupadas, num total de doze amazonas, nenhuma guerreira. Foi até ao balcão, uma mulher muito gorda a atendeu.

- Uma caneca de vinho. - pediu a guerreira e viu que ao lado do balcão havia um extenso corredor com candeeiros iluminando várias portas, sem dúvida que eram os quartos. E do outro lado do balcão um outro corredor que levava a cozinha, pois vira quando a porta se abrira e a servente com uma bandeja de comida passou. Assim que recebeu a caneca de vinho perguntou: - Tem torta, bolo ou doce para vender?
- Depois de amanhã vamos ter torta de maçã.
- Eu estou acampada não muito longe daqui e gostaria de comprar sal e amônia.
- Posso arranjar a amônia, mas o sal... Estamos esperando o entregador.

Xena levou a garrafa de amônia e foi até onde estava o cervo morto. Cortou um galho e com ele varreu o chão. Depois jogou um pouco de amônia por todo o caminho que levava a entrada do acampamento Quando ia colocar mais amônia antes de abrir a passagem, alguém chama por ela. Mesmo antes de se virar conhecera a voz, era Atma.

- Xena o que você está fazendo aqui? - perguntou Atma puxando o cavalo.
- E você Atma o que faz aqui? - perguntou Xena levando tempo para arranjar uma resposta.
- Estou indo para a hospedaria. E você o que está fazendo aí?

Percebendo que não adiantaria mentir, disse:

- Estou acampada aqui perto.
- Por que você está jogando amônia aí? - perguntou quando se aproximou e sentiu o cheiro forte.
- Para que os lobos não sintam o cheiro da carne que cacei.
- Está sozinha?
- Não. Atma por acaso você tem sal pra vender?
- Tenho e bastante.
- Você me venderia uma boa quantidade de sal?
- Eu posso dar a quantidade que você quiser, contanto que você me convide para almoçar.

Xena coçou a cabeça pensando como ela iria explicar pra Gabrielle e quando ia responder contando a verdade, alguém diz:

- Está convidada.

Era Gabrielle que estava parada, segurando o galho que tampava o caminho. Xena pensou "Era só o que me faltava. Agora que o caldo vai entornar de vez".

- Espera aí, eu te conheço... - disse Atma se aproximando de Gabrielle e conclui: - Você não é aquela garotinha que Xena estava levando para a Academia?
- É ela mesma, a minha amiga Gabrielle. - Xena respondeu logo.
- Bem, tenho que refazer o que disse. Garotinha não, e sim uma bela mulher. - disse Atma olhando de cima a baixo a barda, admirando-a.

Xena ficou esperando pela reação de Gabrielle e qual não foi a sua surpresa, quando viu o sorriso da barda e a delicadeza dela em abrir passagem segurando o galho para que Atma passasse com o cavalo. E as duas foram andando na frente, enquanto Xena espalhava amônia pelo caminho.

- Posso te fazer uma pergunta bastante indiscreta? - Atma perguntou para Gabrielle.
- Pode.
- O que é que você e Xena estão fazendo aqui escondidas?
- Acampando. - respondeu simplesmente.
- Que vocês estão acampando eu sei, mas você não deveria estar na Academia?
- Estou no período de férias. E Xena está me ensinando a ser uma guerreira.

Atma a olha surpresa e diz ao ver o lugar:

- Mas que beleza!
- Lindo, não é? - disse Gabrielle.
- Muito. Engraçado, eu freqüento há muito tempo a hospedaria aqui perto, mas nunca tinha vindo aqui. Acho mesmo que nem as donas da hospedaria conhecem. Também fica bem escondido.

Xena se aproxima, mais do que curiosa pra saber o que as duas conversavam e escutando apenas o que dissera Atma, diz:

- Atma queria te pedir um favor para que não comente com ninguém sobre esse lugar.
- Pode deixar, Xena. Temos mesmo que preservar esse lugar.
- Agora acho melhor salgarmos a carne que não vamos comer.

Atma tira de cima do cavalo várias sacolas e dentro de uma delas um saco de sal. Pergunta:

- Será que dá ou quer mais?
- Dá e sobra. - disse Xena pegando o saco de sal.

Enquanto salgavam a carne, Xena estava pasma com o entrosamento da barda com Atma, que conversavam animadamente. E foi assim também durante o jantar. E a guerreira quase se engasgou com a água quando Gabrielle convidou Atma para passar a noite ali.

- Seria maravilhoso, mas tenho que ir para a hospedaria. Tenho negócios a fazer lá. Mas amanhã, se vocês me convidarem, venho almoçar essa carne deliciosa com vocês.
- Então está convidada. - disse Gabrielle, novamente se antecipando a Xena.
- Bem, vou indo. Vou levar o meu cavalo pra não levantar suspeitas e pra esse lugar permanecer secreto.
- Vou com você pra que não caia nas armadilhas. - disse Xena, na verdade, dando uma satisfação a Gabrielle.

Enquanto caminhavam pelo bosque desviando das armadilhas, Atma diz:

- Xena como essa sua amiga ficou bonita! Quem diria que aquela menininha magrinha fosse se tornar nessa mulher apetitosa.
- Atma, Gabrielle pode parecer uma mulher, mas ela ainda é uma criança. - disse Xena interrompendo-a e muito séria.
- E você está apaixonada por ela.
- Que absurdo Atma! - repreendeu Xena parando.
- Confessa Xena, qual é o problema? - perguntou encarando-a.
- Gabrielle é minha amiga.
- Mas você a ama, está nos teus olhos. Eu te conheço guerreira.
- Você está vendo coisas.
- Eu sabia que um dia você iria se apaixonar.
- Não começa, Atma e vamos andando antes que fique escuro demais.
- Tudo bem, já que você não está apaixonada por ela... E se eu lhe disser que estou interessada nela?
- Não se atreva. - disse a guerreira em cima dela.

Atma riu, se afastando um pouco, diz:

- Calma guerreira, não se preocupe. Você sabe que eu gosto de mulher alta e morena. Mas, quem sabe? - e saiu apressadamente.

Quando Xena voltou pro acampamento reparou que Gabrielle havia arrumado tudo e estava preparando os cobertores para dormir. Pela primeira vez, a guerreira ficou sem ter o que dizer. Começou a tirar as braçadeiras, a armadura, as botas e viu que o pano de banho da barda estava molhado.

- Você se banhou?
- Foi. Eu estava cheirando a carne.
- Nem me esperou. - a voz da guerreira soou decepção.

Gabrielle notou e disse:

- Desculpe, pensei que você fosse demorar.
- Tudo bem, vou tomar um banho agora, também estou cheirando a carne e amônia.

Gabrielle terminou de arrumar os cobertores, sentindo-se egoísta por ter tomado banho correndo, fizera aquilo de propósito porque ainda estava chateada com a guerreira, desconfiava dela com Atma. De repente percebeu que a guerreira havia esquecido o pano de banho. Pegou o pano e foi até a beira do lago. Abriu-o mostrando-o para ela. A guerreira veio nadando e quando chegou perto levantou e caminhou em direção a ela. O coração da barda quase parou ao ver a guerreira se aproximando toda molhada e lindamente nua. Mas do que depressa levantou o pano na altura do seu rosto para que ela não visse o rubor que lhe cobria a face naquele momento. Quando Xena se enrolou no pano, Gabrielle perguntou ainda perturbada:

- Quer beber um chá?
- Só se você for beber. - respondeu se enxugando.
- Então vou fazer.

Gabrielle estava esperando o chá ferver quando viu Xena se aproximando vestida naquela camisa branca, seu coração disparou. Ficou olhando-a, achando-a mais linda.

- O que é quê você está olhando? - perguntou Xena em pé na frente dela.
- É que você fica muito... Muito bem vestida assim. - quase a barda se trai.
- Você já disse isso antes, mas é bom ouvir de novo. - disse se sentando e arregaçando as mangas.

Gabrielle teve vontade de fazer outro elogio, mas preferiu calar. Xena pegou mais uns galhos secos que estavam ao lado e depois que os colocou na fogueira, disse sem olhar pra barda:

- Fiquei feliz do modo como você recebeu e tratou Atma.
- Ela é também sua amiga. - disse olhando-a.
- Mesmo assim.

Gabrielle novamente preferiu ficar calada. Limitou-se apenas a pegar a caneca da guerreira, serviu o chá e entregou a ela. Enquanto tomavam o chá um lobo uivou tão perto que Gabrielle quase derrubou a caneca ao se levantar assustada.

- Esse... Esse lobo está aqui bem perto, não está?
- Não, Gaby. Ele está na floresta, lá onde o cervo morto ficou.
- Tem certeza, Xena? Me pareceu que ele estava ali atrás daquelas árvores. - disse apontando pro bosque.
- Foi o eco. O lobo estava chamando a família dele para comer.

Xena estava se divertindo vendo o medo da barda que agora estava ao lado dela e com os olhos arregalados pra escuridão do bosque.

- Xena, eu estive pensando... Não seria melhor a gente acender mais uma fogueira ou quem sabe mais algumas fogueiras?
- Não precisa temer, barda. Os lobos não virão para este lado.
- Como você pode ter certeza? Com essa carne toda aqui...
- Eu sei. Além disso, só por precaução, coloquei amônia em pontos estratégicos. E o vento que só sopra em uma direção aqui, me dá essa segurança. Não se preocupe. Vamos dormir?

Antes de deitar, Gabrielle colocou o chakram e a espada ao lado de Xena e o cajado ao seu lado. E a cada uivo de lobo, além de estremecer, agarrou-se tanto as costas da guerreira que já estava quase a escalando. Xena disfarçando a satisfação vira-se para ela e a abraçando, disse:

- Agora veja se dorme, barda.
- Obrigada por me proteger, Xena.

Novamente o sentimento de culpa veio à mente da guerreira. Mas não quis nem pensar nisso, estava muito cansada e acabou adormecendo, não sem antes dar um beijo no topo da cabeça da barda.

Na manhã seguinte, as duas estavam treinando com cajados, quando Atma chega.

- Acho que não cheguei num bom momento. Volto daqui a pouco.
- Espere Atma. - disse Gabrielle.
- Não, se eu ficar é bem capaz de Xena querer me botar pra lutar. E, francamente, eu estou muito cansada pra isso.
- Não vou, não. A gente já terminou. - disse Xena.
- Agora é a minha vez de dar uma virada na carne que está assando. - avisou Gabrielle deixando o cajado de lado.
- Gabrielle, você sabe usar esse cajado tão bem quanto Xena. - disse Atma se aproximando da barda.
- Melhor do que Xena?! Aí você está exagerando. - disse a barda rindo.
- Eu já tinha falado isso pra ela. Mas ela achou que era brincadeira minha. - disse Xena também se aproximando.
- Gabrielle, o que Xena diz tem que ser considerado, essa guerreira sabe tudo.
- Que exagero Atma. - retrucou Xena.
- Antes que eu me esqueça, vou pegar ali no saco as duas garrafas de vinho que escondi ontem. E hoje pra não levantar suspeita pedi que ninguém fosse me chamar pro almoço ou outra coisa qualquer. Disse que estava de ressaca e queria descansar. Pulei a janela e vim pra cá. Xena me ajuda a pegar as garrafas.

Xena foi com Atma até onde ela deixara o saco com as garrafas. Atma diz baixinho:

- Xena como você está conseguindo resistir? A Xena que eu conheci já a teria seduzido. E não venha me dizer o que disse ontem, que ela é uma criança, você está tão apaixonada por ela que não enxerga isso.
- Quer parar com isso! - disse seriamente.

Durante o almoço, Atma avisou que iria embora no dia seguinte bem cedo. Havia fechado um negócio e ia para Corinto.

- Pois é, negócio é negócio. E por causa disso vou perder a inauguração do bordel amanhã.
- Do bordel?! - perguntou Gabrielle.
- É, hoje à noite ainda dormirei na hospedaria. Mas, a partir de amanhã, vai virar um bordel. Um bordel especial só pra guerreiras e amazonas. E agora de manhã quando fui dar aquele aviso eu vi as garotas e os rapazes que vão trabalhar lá. Humm... Vou ficar freguesa toda vez que passar por aqui.
- E a festa de amanhã vai ter música, dança? - perguntou Gabrielle mostrando interesse.
- Claro. Quem já viu um bordel sem música e dança? Ah, me esqueci que você não deve saber o que é um bordel.
- Já estive em um. - respondeu a barda.

Ao ver a cara de surpresa de Atma, Xena explica:

- Na verdade, nós fomos ajudar Aglaia a livrar o bordel dela das garras de dois irmãos facínoras.
- Eu estive com ela antes de vir para cá, mas ela não me disse nada.
- Ela é muito discreta.
- Só se for "nisso".

E as duas caem na risada.

- Será que a gente poderia ir amanhã, Xena? - perguntou a barda.

Antes de responder, Xena percebeu a expressão de Atma ao ver a barda lhe pedindo consentimento, disse:

- Não, Gabrielle. O ambiente aqui é diferente daquele que fomos e da hospedaria "Guerreira".
- Mas Xena... - insistiu Gabrielle.
- Não e ponto final. - disse asperamente.
- Ah, então vocês conhecem a hospedaria "Guerreira"!
- Claro, Acidália e Amanda são duas amigas nossas. - respondeu Xena olhando para Gabrielle que estava emburrada.
- Não sei por que eu ainda fico espantada por você conhecer os lugares mais incríveis da Grécia. - disse Atma.
- Com licença, vou ver Argo. - disse Gabrielle se levantando e levando umas cenouras e nabos para a égua.

Atma ficou olhando o carinho da barda com a égua, que se portava docilmente ao trato dela. Disse:

- Não me diga que ela conquistou Argo também?
- Também? Como também?
- Você também. Quem você pensou que fosse? - perguntou Atma divertida com a situação.
- Você não disse que estava encantada com ela? - perguntou Xena testando-a.
- Ela realmente é um encanto. Mas você sabe muito bem do que eu gosto, guerreira.

Atma levantou para lavar as mãos. E Xena percebera que ela também a chamava de guerreira, mas não da maneira como a barda chamava. Gabrielle tinha um jeito todo próprio e especial de dizer essa palavra. E ela adorava ouvir, pois se sentia forte e importante aos olhos daquela pequena garota.

Atma voltou e disse:

- Hoje tenho um encontro com uma das garotas, a mais alta delas e uma bela mulher.
- Gabrielle ia te convidar pra dormir aqui. - disse Xena.
- Ia não, vou. - disse Gabrielle se aproximando.
- Sinto muito, Gabrielle. Mas é que eu tenho um encontro. Fica pra próxima. A gente vive mesmo se esbarrando por aí.

No final da tarde, ao se despedir Atma se aproxima de Gabrielle e diz:

- Gabrielle, eu gostei muito de você. Se você me permite, gostaria de te dar um conselho. Posso?
- Claro, Atma.
- Se você quer a guerreira, então vá a luta, garota. O momento é esse. - Atma passa a mão carinhosamente na face de Gabrielle e se afasta.

Gabrielle fica paralisada com o que escutara.

Xena conduziu Atma até a entrada do bosque. Atma diz:

- Xena, só você não vê que essa garota está caidinha por você.
- Pára com isso, Atma.
- Depois não vá dizer que não foi avisada.
- Vamos mudar de assunto?
- Se você quer continuar sofrendo, problema seu. Mas que vocês estão perdendo tempo, estão.

Em resposta Xena olha feio para ela.

- Tudo bem, não vou insistir. Se você quiser aparecer hoje para conversar, sabe onde me encontrar. - disse Atma e antes de passar para o outro lado da estrada diz: - Acho que vocês ainda não perceberam que já é um casal. Eu achei bonitinho ela pedir a você para ir amanhã na festa.
- É que eu sou responsável por ela.
- Será mesmo que você não notou que ela não é uma menina, que já é uma mulher?
- Você não entende, Gabrielle é muito ingênua.
- Ah, isso ela é mesmo. E você não permite que ela não seja.
- Atma, eu acho que você está se metendo demais em algo que você não conhece direito, pra não dizer que não é da sua conta. - disse abrindo mais a passagem, praticamente convidando-a a se retirar.
- Está bem, Xena. Quando esfriar a cabeça, se quiser conversar comigo sobre isso, é só me procurar lá na hospedaria. Ah, uma coisinha, o que aquela criança precisa é de carinho, carinho de amante. - e saiu depressa.

Quando voltou pro acampamento, viu Gabrielle no lago. Se aproximou dizendo, quase numa bronca:

- Novamente não me esperou.
- Você demorou. Mas fiquei te esperando. - disse a barda se ensaboando.

Xena se despiu rapidamente e nadou até onde Gabrielle estava.

Enquanto a barda ensaboava-lhe as costas, a guerreira perguntou:

- É impressão minha ou você realmente está chateada?
- Não é impressão não. Realmente eu estou muito aborrecida com você, Xena. - e continuou a massagear-lhe as costas.
- O que foi que eu fiz? - perguntou querendo olhá-la de frente.
- Eu só queria que você me enxergasse um pouco. - respondeu a barda esfregando-lhe o pescoço.

Xena se vira para ela e diz:

- Mas eu só tenho olhos pra você... Quero dizer, eu presto atenção nas coisas que você me fala e estou sempre atenta a tudo que lhe diz respeito.
- Se tivesse mesmo atenta perceberia que não sou mais a garotinha de Poteidaia, que sou... Sou uma mulher.
- Por que você está me dizendo isso Gabrielle?
- É porque você gosta de me tratar como se eu fosse uma criança, não me enxerga como adulta que sou. Há pouco aqui mesmo na presença de Atma você me tratou como se eu fosse... Sua filha! E isso eu nunca quis ser. - disse demonstrando que ainda estava ressentida.

Xena passou a mão molhada no rosto e depois disse:

- E tudo que eu não quero é te magoar.

Gabrielle vira de costas para ela e começa a chorar. Xena fica atordoada, sem saber o que fazer, se aproxima mais de Gabrielle e quando ia abraçá-la lembrou que ambas estavam nuas, então apenas acariciou por trás os cabelos dela, dizendo:

- Barda, você anda muito chorona. Desculpa essa guerreira que às vezes usa tão mal as palavras como seus próprios gestos. Mas pode ter certeza que eu nunca quis te magoar.
- Oh, Xena... - balbuciou Gabrielle se virando e abraçando a guerreira.

O contato do corpo da barda, mais a água naquela temperatura, fez a guerreira quase desabar. Ainda mais quando Gabrielle deitou o rosto no seu peito. Prendeu a respiração, quase sentiu falta de ar por isso. Mas não queria que a barda percebesse o que estava se passando com ela. Tentou levantar os braços pra afastá-la um pouco, mas não conseguiu, a barda mantinha-os seguros. E qualquer movimento brusco naquele momento poderia parecer que a estava rejeitando, porém o seu instinto não queria que se afastasse, mas a prudência lhe dizia que sim. Com muita sofreguidão conseguiu suspender os braços e com as duas mãos afastou um pouco a barda e passando a mão molhada no rosto dela, disse:

- Não gosto de vê-la chorando, principalmente se for por minha causa.
- Não é por sua causa, Xena. É que eu estou com os nervos à flor da pele.
- Por quê?
- Depois de amanhã vamos voltar pra cidade de Atenas. É isso.

Xena ri aliviada e espirra com a mão um pouco de água no rosto da barda, que ri com a brincadeira, mas não revida.

- Venha vamos comer, o seu estômago acabou de avisar. - disse Xena sorrindo.
- É, o esganado. Acho que ele tem vida própria.
- Agora sim, a barda está de volta. - disse Xena sorrindo e nadando depressa para a margem.
- Xena!

O dia já havia clareado quando Gabrielle despertou com um raio de sol no seu rosto. Ainda sonolenta olhou para o lado e percebeu que Xena havia levantado. A barda se levantou e procurou a guerreira com os olhos e não a viu. Porém, percebeu que ao lado de sua caneca, ela havia colocado uma maçã. Mudou de roupa e se sentou perto da fogueira que já estava com a carne no espeto assando. Começou a saborear a maçã com o olhar fixo na direção do caminho da floresta. Virou o espeto da carne para que assasse por igual. Já estava ficando impaciente. Andou de um lado para o outro até que, não agüentando mais, pegou o cajado e quando foi em direção ao caminho, encontra Xena.

- Aonde você foi, Xena? - perguntou a barda.
- Bom dia, Gaby. - disse a guerreira bem humorada.
- Bom dia. Aonde você foi? Por que não me acordou?
- Eu não te acordei porque você dormia profundamente. E eu fui me encontrar com Atma, fui pedi um favor pra ela.
- Posso saber o quê é?
- Não. - disse a guerreira passando rapidamente por ela.
- Não?! - disse a barda confusa.
- Não. - respondeu segurando o riso.
- Pensei que não houvesse segredo entre nós. - disse Gabrielle se aproximando dela.
- Mas não há nenhum segredo. - disse Xena virando a carne no espeto.
- Então por que você não quer falar o que conversou com Atma? - perguntou a barda se sentando ao lado dela.
- Porque não quero estragar a surpresa.

Se Gabrielle visse a expressão de sapeca no rosto de Xena, não ficaria tão preocupada como estava.

- Surpresa?! Que surpresa?
- Gabrielle se eu contar deixa de ser surpresa.
- E quando eu vou saber?
- Que barda curiosa! - disse Xena se levantando e mordendo o lábio inferior pra não ri.

Assim que terminaram de almoçar, Xena se levanta dizendo:

- Não demoro.
- Vai aonde?
- Não demoro.

Xena se afastou tão rápido que não deu tempo de Gabrielle resmungar alguma coisa.

Pouco tempo depois, a guerreira aparece com um embrulho nas mãos e se aproxima de Gabrielle, que estava estendendo as roupas lavadas em cima de uma pedra ao sol.

- Isso é para você. - disse estendendo o embrulho à barda.

Gabrielle enxugou rapidamente as mãos e se aproximou da guerreira com um pequeno riso nos lábios. Pegou o embrulho e ao tirar o pano, diz encantada:

- Torta de maçã com calda de ameixa preta! Ai, Xena como você conseguiu isso?
- Pedi pra Atma encomendar pra mim.
- Hum... Que cheiro! Isso deve estar uma delícia. Venha Xena, vamos comer.

Xena ficou olhando a barda pegar a faca, os pratos e cortar a torta aspirando o aroma. Era gratificante ver a alegria dela nas coisas mais simples da vida. Gabrielle não ligava para dinares, jóias e nem roupas finíssimas e caras, ela gostava era de roupa de guerreira e de comer. Ah, sem dúvida que aquela barda era doida por doce.

- Mais um pedaço?
- Está brincando? Ainda nem terminei esse aqui. - disse Xena colocando a mão na frente do prato.
- Então foi isso que você pediu pra Atma.
- E o quê você pensou que fosse?
- Que tivesse marcado um encontro com ela, depois que me levasse na Academia.

Xena ignora o comentário, termina de comer e diz:

- Vou tomar um banho, você vem?
- Se você esperar eu dar duas mordidinhas?
- Ô Gabrielle, deixa a torta aí que ela não vai fugir e venha logo.

A barda não discutiu e foi atrás da guerreira.

À noite, após o jantar, Xena se arruma colocando a armadura, as braçadeiras, as munhequeiras e as armas, depois se aproxima de Gabrielle que fica surpresa e diz:

- Gabrielle, eu vou até a hospedaria, vou demorar um pouco. Mas chego a tempo pro nosso chá antes de dormir.
- Vou com você. - disse a barda se levantando.
- Não, Gabrielle, eu vou sozinha.
- Não é hoje a tal da festa que Atma falou?
- É, acho que é.
- Então está resolvido.
- O que você quer dizer com isso?
- Que eu vou com você.
- Mas não vai não. - disse Xena com as mãos nos quadris.
- Vou sim. Por que você pode ir e eu não? - perguntou a barda também com as mãos nos quadris.
- Por que... Por que... Ora, porque eu sou uma mulher vivida, experiente.
- E eu estou começando a viver.
- Mas não nesse lugar, Gabrielle.
- O quê tem esse lugar pra você não querer me levar?
- Você sabe, é um bordel.
- Mas você vai.
- Barda, você ainda é uma criança. Eu sou uma guerreira, uma mulher guerreira e tenho as minhas necessidades.
- Em primeiro lugar, eu não sou mais criança. Eu sou uma garota, uma mulher. E por fim, eu também tenho as minhas necessidades.
- Gabrielle, as necessidades as quais me referi são necessidades físicas... Sexuais. Entendeu agora?
- Eu também sinto isso. - disse firme.

Xena já estava ficando sem argumento para convencer aquela barda teimosa, então diz:

- Olha Gaby, você não pode ir porque você é virgem.

Gabrielle, mesmo ruborizada, responde:

- Posso deixar de ser.

Xena fica possessa e rangendo os dentes, tira o chakram da cintura, a bainha com a espada das costas e atira-os no chão. Depois tira a armadura quase a arrancando do corpo. Logo a seguir tira as botas e antes de se atirar na água, sob o olhar espantado de Gabrielle, joga o traje na beira do lago e mergulha.

Gabrielle, ainda um pouco atônita, fica feliz por ter impedido a guerreira de sair.

Emergindo, já mais calma, a guerreira murmurava para si mesma:

- Barda maluca! Sim que eu vou deixar ela ir lá! Quer ter experiência... Não consigo imaginar vê-la nos braços de outro ou outra, a não ser nos meus. Ninguém poderá amá-la como eu.

Quando Xena, finalmente, saiu da água, Gabrielle que estava a esperando na beira do lago, diz:

- Xena essa é a terceira vez que você, sem nenhuma explicação, pula dentro da água. Por que você fez isso?

A guerreira a olha, depois revirando os olhos para cima suspira demonstrando impaciência. Pega o pano das mãos da barda sem nada dizer. Gabrielle então diz:

- Só quero ver o que você vai fazer quando estivermos num local onde não tiver água por perto.

Xena teve vontade de rir, escondeu o rosto no pano fingindo que o enxugava. Agora que estava completamente serena, pôde constatar que a barda era realmente ingênua e que ela não tinha o direito de assustá-la com o seu desejo, com o seu amor.

Depois de colocar um outro traje e de se deitar ao lado da barda, que parecia que ainda estava aborrecida, a guerreira se apóia no cotovelo e olhando para ela pergunta:

- Gabrielle me diz uma coisa: você realmente falou sério quando disse que ia deixar de ser virgem lá no bordel?

A barda se vira e leva um pequeno susto causado pela proximidade do rosto da guerreira com o dela, dá um leve suspiro e responde:

- Não. Só falei aquilo pra te provocar.
- Pra me provocar?
- Sim, para que você tivesse um pouco mais de respeito por mim.
- Pelos deuses, Gabrielle! Eu não faço outra coisa a não ser te respeitar! - disse com indignação.
- O respeito a que me refiro é pela mulher que sou e você se nega a ver.

Por uns instantes as duas se encararam e Xena pôde ver nos olhos da barda um misto de tristeza e ressentimento.

- Sinto muito, Gabrielle. Eu nunca fui boa com as palavras.

Gabrielle se ergue, também se apoiando no cotovelo e com a outra mão segura a mão livre de Xena, dizendo:

- Xena, como você, eu também tenho necessidades que até agora tenho feito sozinha.

Xena abaixa os olhos e diz:

- E eu sou culpada disso, por ter te desviado de Perdicas.
- Perdicas?!
- Ele poderia ter sido o seu primeiro.
- Poderia se eu o amasse. Mas não é nele quem penso quando estou... - Gabrielle não completou o que ia dizer, deitou novamente, se virando de costas, pois se sentia envergonhada.
- Você pensa em alguém? - perguntou a guerreira, após tão inesperada revelação.
- Penso.
- Em quem você pensa, Gabrielle? - Xena não conseguia conter a curiosidade.
- Estou com sono. Boa noite, Xena.

Um silêncio se fez repentinamente.

- Boa noite coisa nenhuma! - disse Xena virando a barda pra si.
- Estou com sono, Xena.
- Duvido. Se fosse eu quem tivesse falado, você não me deixaria em paz.
- Está bem, Xena. O quê você quer saber? - disse novamente se apoiando no cotovelo.
- Você disse que pensa em alguém. Quem?

A barda coçou o nariz e olhando seriamente para a guerreira, diz:

- Antes de responder... E você também pensa em alguém naquele momento?
- Penso.

Gabrielle leva um susto com a resposta, mas mesmo assim pergunta:

- Se eu disser, você diz também?

Xena olha cheia de dúvidas e desconfiança para a barda e deitando, diz:

- Acho melhor a gente esquecer isso.
- Eu também acho.

E cada uma se virou para um lado, sabendo que aquela noite seria a mais longa que já tiveram.

 

Continua...