A Barda e a Guerreira
By SOMARQ
Amanheceu.
Xena já estava pronta, quando conseguiu, finalmente, acordar a barda. Gabrielle levantou bastante sonolenta e tonta de sono tirou a roupa de dormir sob o olhar surpreso da guerreira que, ao vê-la de costas só de calça, engoliu em seco.
Depois de pronta a barda foi lavar o rosto, despejou a água da jarra na bacia e, ao molhar a face com a água fria, só então despertou.
- Vem fazer o desjejum, Gabrielle. Pelo menos a comida é boa.
- Bom dia. - disse ao se sentar.
- Agora que você respondeu ao meu cumprimento, sua dorminhoca? - disse Xena assanhando a franja da barda.
- Eu não dormi bem, tive pesadelos.
- É, eu notei que você se virou a noite inteira. Com o quê você sonhou?
- Não me lembro, só sei que era um pesadelo.
- Foi a comida.
- Eu não comi muito. Eu estava muito excitada com a tarde e a noite maravilhosa de ontem.
- Talvez tenha sido isso, a peça, a tragédia de Édipo.
- É, talvez.
- Bem, acabe de comer que depois vamos sair.
- Pra onde?
- Primeiro vamos ver Argo, depois vamos fazer umas compras.Gabrielle levou duas maçãs para Argo. E enquanto ela escova a égua, Xena a atrelava. Depois foram até uma casa onde vendiam roupas e calçados de couro.
- Que tal aquela bota, Gabrielle? - perguntou a guerreira apontando para uma bota marrom clara, quase avermelhada. Conclui: - Combina com o seu traje.
- Deve ser cara, Xena.
- Você gostou? - disse a guerreira pegando as botas.
- É muito bonita.
- Então calça, acho que dá em você.A barda calçou as botas e andou de um lado para o outro sob o olhar encantado da guerreira que apreciava o andar gracioso todo próprio dela.
- E então, o que você achou, Xena?
- Maravilhosa... Quero dizer, você é quem tem que dizer o que achou. - a guerreira quase foi surpreendida.
- Além de bonita, ela é leve. Nunca vi uma bota tão macia assim.
- A minha é assim.
- Os pés de uma guerreira têm que ser bem tratados, você me disse isso uma vez.
- É por isso que você vai usá-la.
- Isso que dizer então...
- Que como minha ajudante tem que estar a minha altura, quero dizer, não quero ver minha guerreira se queixando que não faz o trabalho direito por causa dos pés, bolhas, calos...Xena não conseguiu terminar de falar, pois a barda abraçou-a dizendo:
- Oh, Xena! Finalmente, você está me dando crédito e reconhecendo que eu também sou uma guerreira.
Xena olhou para os lados, porém ficou tranqüila por perceber que só as duas estavam naquela parte do estabelecimento.
Ao saírem dali, Gabrielle pergunta abotoando o casaco por causa do frio:
- A gente vai pra onde agora?
- Você não disse que queria conhecer a Praça Pnice? Então...
- Mas nós não podemos, Xena.
- Podemos sim. O Conselho não vai se reunir hoje.
- Tem certeza?
- Tenho. Há dois dias teve uma das tais reuniões das quarenta vezes que eles fazem por ano.
- Como você sabe das coisas, Xena! - disse a barda admirada.Chegam ao anfiteatro natural o qual ficava numa das colinas ao oeste da Acrópole. Fascinada, Gabrielle andou de um lado para o outro. Foi até o centro e perguntou:
- É aqui que eles se reúnem?
- Aqui mesmo. Bem aqui no centro ficam os representantes de cada uma das dez tribos Áticas. Ao redor, o Conselho é composto de quinhentos homens, cinqüenta representantes de cada uma dessas tribos.
- Por que só de homens?
- Porque as mulheres ainda não perceberam que estão perdendo lugar, que estão sendo colocadas de lado, como seres inferiores. Há uma exclusão proposital da presença da mulher em qualquer posição superior ao do homem. Se continuarmos assim, chegará o dia em que nem terão direito nenhum.
- Mas isso não pode acontecer, Xena.
- É por isso que eu sou guerreira.
- Eu também. Como barda não quero que ninguém cale a minha voz, o meu direito de me expressar. E como guerreira quero ter liberdade pra viver do jeito que eu quiser.
- Isso foi muito bonito, Gabrielle. Mas, agora, guerreira, vamos pegar a estrada. Conheço um atalho na descida onde tem um riacho que costuma ter peixe grande.Já pesquei algumas vezes por aqui.À beira do riacho, Gabrielle ficou sentada numa pedra observando a guerreira em pé dentro da água, usando apenas o traje debaixo e sem as botas, mergulhar os braços, esperar pacientemente e pegar um peixe grande. A barda ainda não estava acostumada com a habilidade da guerreira de pescar dessa maneira.
Assim que Xena saiu da água, ela correu ao seu encontro entregando-lhe o pano de banho para a guerreira se enxugar, enquanto colocava o peixe na panela. Depois a ajudou a calçar as botas e colocar a armadura. Já pronta, Xena ensina a Gabrielle a tratar do peixe.
Após comerem, ainda sentada ao lado da guerreira, Gabrielle diz:
- Podíamos acampar aqui, o quê você acha, Xena?
- Aqui não, Gabrielle. A noite aqui é um gelo. Venta muito. Já que você está querendo mesmo acampar, daqui a pouco vamos descer o riacho, é que lá embaixo tem uma pequena gruta onde poderemos acampar.
- Que maravilha! Hum, esse peixe também estava maravilhoso, uma delícia! - disse se levantando.
- Ainda cabe mais alguma coisa aí dentro, barda?
- Por que você está dizendo isso? - ficou curiosa.
- Por isso. - disse Xena estendendo um pequeno pacote pra ela.Gabrielle se sentou novamente, abriu o pacote e vendo do que se tratava, disse:
- Humm... Pra isso sempre tenho um lugarzinho reservado.
- Não é aquele doce que vende perto lá da Academia. - avisou a guerreira.
- Mas é gostoso. - disse a barda depois que comeu um pedaço e oferecendo o doce diz: - Quer um pedaço? Experimenta.
- Não é todo seu. - disse desviando o rosto.
- Ah, Xena, experimenta só um pouquinho.
- Não, obrigada. Pode comê-lo todinho.
- Só um pedacinho... - insistiu Gabrielle mostrando com o dedo indicador e o polegar o tamanho.
- Ta bem, só um pedacinho então.Gabrielle tira uma pequena lasca do doce e oferece a Xena.
- O quê?! Só isso Gabrielle? - disse a guerreira impressionada com o "tamanho" mínimo do doce nos dedos da barda.
- Foi você quem pediu. - disse colocando o doce na boca de Xena, perguntando a seguir: - Que tal, gostou?
- Como vou saber, nem deu pra sentir. Me dá outro pedaço.
- Não.
- Não?!
- Não.Xena percebeu que Gabrielle estava brincando, se divertindo. Resolveu entrar no jogo.
- Que barda gulosa! Me deixa provar isso.
- Não. - disse Gabrielle virando-se de costas para ela e se divertindo com isso.
- Ah, é assim? - rapidamente Xena a vira para si e segurando a mão dela que estava com o doce, dá uma boa mordida nele ao mesmo instante em que olha para a barda e a vê olhando-a com uma expressão encantada no rosto. Desconcertada a guerreira disfarça dizendo:
- Hum, gostoso mesmo.Descendo a estrada a caminho da gruta, encontraram com um vendedor ambulante.
- O que você tem aí pra frio? - perguntou Xena.
- Tudo. - disse o homem descobrindo a carroça.
- Escolhe alguma coisa pra você, Gabrielle.A barda segurando as rédeas de Argo, diz sem olhar para dentro da carroça:
- Não estou precisando de nada.
- Está sim. Principalmente de roupa para dormir.
- Mas Xena...
- É uma ordem, Gabrielle. - disse seriamente.A barda obedece. Dá uma olhada nas roupas, vê um conjunto de luvas, gorro e cachecol, pergunta o preço e achando caro, deixa-o de lado. Mesmo pegando as outras peças de roupas, de vez em quando olhava para aquele conjunto. Percebendo, Xena pega o conjunto e o dá para ela, dizendo:
- É seu.
- Mas Xena é muito caro.
- É um presente, Gabrielle. - disse pagando ao vendedor.
- Mais um. - disse sem jeito.
- Não quero que minha ajudante adoeça.Durante todo o caminho, ao ver a barda calada, toda encolhida, Xena dá a volta na frente de Argo, ficando ao lado de Gabrielle e percebe que ela havia chorado.
- O que foi barda? - perguntou parando na frente dela.
- Eu nunca poderei pagar o que você faz por mim, Xena.
- Não viso nenhuma recompensa, a não ser a sua amizade.Foi então que Gabrielle chorou mais. Xena a conduz para fora da estrada perguntando:
- O que está acontecendo com você, Gabrielle?
- Estou feliz por ter uma amiga como você.
- Chegamos.Era uma gruta pequena atrás de uns arbustos. Dentro dela havia um pequeno lago provocado pela água que descia de alguma nascente.
- Isso aqui, além de ser um excelente lugar para pernoitarmos, Gabrielle, ainda tem água para beber. Agora vou lá fora pegar alguns gravetos para fazer uma fogueira. E você podia arrumar as nossas coisas, escolhe um lugar para a gente dormir.
Não foi preciso procurar muito, logo a guerreira achou uns gravetos e ao entrar na gruta, viu a barda que acabara de arrumar as coisas delas num canto, olhando com admiração e acariciando o conjunto que há pouco lhe dera. Só então que Xena percebeu que, Gabrielle, devia ter passado necessidade durante esses quase três anos na Academia, embora ela nunca tenha se queixado. A guerreira lembrou da pequena quantidade de dinares que Hecuba dava a filha quando voltava para a Academia, era somente o preço de duas passagens de barco e nada mais. Xena ficou chateada com ela mesma por não ter percebido isso antes e de como a barda não fazia questão da sua parte das vezes que elas ganharam recompensas pelos serviços prestados. E que graças a esses dinares que recebera de Xena, Gabrielle pôde comprar a tal sonhada roupa de guerreira e que passara frio por isso. Percebeu que, na verdade, se não fosse por ela, aquela barda sonhadora jamais se formaria. Sorriu feliz por estar proporcionando essa felicidade para aquela garota.
- Xena, o que é que você está fazendo aí parada? - perguntou a barda.
- Ahn... Estou tentando coçar as minhas costas. - inventou a guerreira que fora pega de surpresa.Gabrielle foi até onde ela estava e coçando-lhes as costas, diz:
- Francamente, Xena, com tantos galhos nas mãos você poderia ter usado um deles para coçar as costas. Mas, enquanto eu estiver por perto, deixe que eu faço isso.
- Como está a água? - perguntou a guerreira se desvencilhando e colocando os gravetos próximo onde elas iriam dormir.
- Fria, muito fria.
- Bem, vou acender logo a fogueira e esquentar o resto do peixe que sobrou do almoço. Acho melhor a gente não tomar banho hoje, já está anoitecendo.Depois que jantaram ficaram um bom tempo conversando até que a barda não conseguiu conter um leve bocejo. A guerreira então resolveu que era a hora de dormir. Gabrielle foi arrumar os cobertores e Xena foi ver Argo.
- Oh, não! - quase gritou a barda.
- O que foi? - perguntou Xena se aproximando.
- Olha só o que aconteceu com a minha roupa de dormir. - mostrou a roupa toda molhada.
- Como foi que isso aconteceu?
- Eu tirei a roupa da bolsa e deixei aqui em cima desta pedra, enquanto arrumava os nossos cobertores. E ela deve ter escorregado e caiu aqui atrás onde a água escorre. Vou ter que dormir com a minha roupa de guerreira. - disse chateada.
- Vai nada. - disse a guerreira e pegando de dentro da bolsa a camisa branca que ela costuma dormir. Completa: Pegue!
- E você? - pergunta a barda após pegar a camisa.
- Vou dormir com a minha roupa de baixo.Enquanto a barda mudava de roupa, Xena foi bloquear a entrada da gruta. Estava arrumando os galhos quando viu Gabrielle levar até o nariz a sua camisa. Desatenta e espantada com aquele gesto acabou por levar uma estocada de uma haste flexível, mas bastante dura que acabou por machucá-la. Capengou até a sua bolsa de montaria e pegou um ungüento.
- O que foi que aconteceu, Xena? Você se machucou? - perguntou Gabrielle se aproximando e já vestida na sua camisa, que nela serviu como uma perfeita roupa de dormir.
- Não foi nada. Levei uma estocada aqui por dentro da coxa. Vou passar esse ungüento...
- Deixe que eu passo. - disse a barda tomando o ungüento da mão da guerreira.Gabrielle ajuda a Xena a tirar a armadura, o traje de couro, ficando somente com o traje debaixo. Depois a ajuda a tirar as botas. Então se ajoelha frente à coxa machucada e começa a massageá-la com o ungüento. Xena estava paralisada, com a respiração contida. Mas quando sentiu a mão direita da barda deslizando pela parte de dentro da sua coxa direita, sentiu algo desenfreado, tomando forma e antes que isso desenvolvesse, fazendo com que ela perdesse a cabeça, se desvencilhou saindo correndo e antes de entrar na água tirou o traje e a calça. Gabrielle que havia levado um susto com aquela reação da guerreira levanta-se dizendo:
- Xena, saia daí! Você pode ficar doente.
A guerreira que estava sentada coberta pela água até os ombros molha o rosto, se levanta e sai calmamente da água.
Gabrielle corre até ela com o pano de banho e agasalhando-a, pergunta:
- Xena, por que você fez isso?
Depois de se enxugar e vestir a roupa que havia tirado, a guerreira diz sem olhar para a barda:
- Porque isso ajuda a enrijecer os músculos.
- Quer que eu passe o ungüento de novo?
- Não precisa. - disse Xena com firmeza.
- Se precisar é só pedir. Eu já vou deitar, estou com muito frio. Você não vem?
- Daqui a pouco.Secando as pontas dos cabelos, Xena ficou olhando a barda calçar as meias, o cachecol, o gorro e se meter embaixo do cobertor. Caminhou até a fogueira colocando mais gravetos para que esquentasse mais, se aqueceu um pouco enquanto pensava no quê realmente ocorrera. Ver aquela garota ajoelhada a seus pés, com o decote da camisa que ela não fechara direito deixando ver todo o colo e quase todo o seio dela. E sentir a mão dela deslizar por dentro da sua coxa... Fora demais para ela. Teve ímpetos de agarrá-la, beijá-la e possuí-la. Sentiu raiva por saber que a Conquistadora ainda fazia parte dela. "Conquistadora?! Não, Destruidora!". Mais um momento daqueles em que ela se sentia confusa, era como se ela tivesse sido ou vivido algo antes do que era agora. Ficou confusa. Sentindo-se bastante aquecida, resolveu deitar. E como sempre a barda se aconchega as suas costas.
- Xena como você está quente! - disse se aconchegando mais as costas dela.
- Me aqueci na fogueira.
- E a coxa?
- Não dói mais. Vamos dormir?
- Está bem. Boa noite. Ah! Boa noite, Argo. - disse mais alto a barda.A égua relinchou em resposta. Foi o bastante para Xena relaxar. Agora, mesmo com a barda colada em suas costas, sentia-se mais tranqüila.
Quando Gabrielle acordou não viu a guerreira. Olhou ao redor e só viu Argo. Foi até lá e afagou a égua, depois foi até o pequeno lago e molhou o rosto. Quando estava mudando de roupa é que reparou na pequena panela com água no fogo e as duas canecas ao lado da fogueira. Se aproximou, percebeu que Xena havia posto folhas de chá dentro delas. Pegou a panela com um pano e colocou a água quente nelas. Depois foi até a entrada da gruta. Percebeu que ainda chovia muito, quase não dava pra enxergar direito por causa do aguaceiro, mas viu a guerreira chegando com uma ave na mão e com um peixe na outra.
- Desjejum, almoço e jantar garantidos. - disse mostrando a guerreira.
- Isso quer dizer que vamos ficar aqui?
- É o jeito. Está chovendo muito. - disse Xena entrando e puxando os galhos para fechar a entrada.
- O chá está pronto. Vou pegar o pano de banho para você se enxugar.
- Agora não, porque eu vou levar Argo lá fora. Pode pôr o peixe no espeto, já está tratado. Não demoro.Quando voltou, percebeu que a barda estava usando o casaco colorido e que a aguardava com o pano de banho na mão.
- Xena tira logo essa roupa molhada, se enxuga e vista o casaco.
- Sim senhora. - disse já se despindo.Terminaram o desjejum. Xena foi tratar a ave que trouxera e Gabrielle ficou ao lado ajudando.
- E Argo, Xena, vai ficar lá fora?
- Antes de anoitecer vou buscá-la.
- Hoje eu não fico sem tomar banho. Assim que tiver descansado daquele peixe delicioso, vou me exercitar bastante para poder entrar nesse laguinho gelado.
- Ao invés disso, vamos treinar. - sugere Xena, colocando a ave no espeto e a colocando na fogueira.
- Vamos continuar com as aulas com o cajado?
- Claro. Tenho uns truques que eu quero que você aprenda.Instantes mais tarde, enquanto a perdiz assava, as duas vestidas nos seus trajes de guerreiras se exercitavam lutando. Xena improvisou usando um galho forte como cajado. Rodou por cima da cabeça e trocando de mão rodou o cajado improvisado por todo o corpo. Logo depois mandou que a barda fizesse o mesmo. E quando a barda aprendia, outro truque novo era ensinado. Ficaram lutando por muito tempo, Xena só parava para ir virar a ave no espeto. Depois voltava e treinava mais golpes novos com a barda. Até que ficaram completamente esgotadas e suadas.
- Gabrielle que tal o banho agora?
- Imediatamente Xena.Em pouco tempo a guerreira se livrou de toda a roupa e entrou no pequeno lago. Gabrielle também havia se despido e vinha trazendo o pano de banho da guerreira, o sabão e com o seu pano de banho cobrindo-lhe à frente. Onde estava a guerreira pôde ver o contorno das curvas daquele belo corpo. A barda parou na beira do lago e perguntou:
- Está muito frio?
- Dá pra suportar. Vem logo antes que o seu corpo esfrie.
- Então pegue o sabão. - disse a barda jogando o sabão forçando a guerreira a pegar.No momento em que Xena pulou para pegar o sabão, Gabrielle aproveita para entrar no lago.
- Você tem razão, Xena, não está tão frio assim.
Xena olhou para ela com um sorriso maroto e estendendo o sabão diz:
- Rápido, vamos ensaboar as costas uma da outra, antes que a gente comece a sentir frio.
Instantes depois.
- Vamos sair. - avisou Xena.
- Já estava começando a sentir frio.Xena levanta na frente de costas para Gabrielle, que a segue. A guerreira teve vontade de se virar, mas se conteve. Depois de vestidas, as duas foram para frente da fogueira se aquecer e comer a ave assada.
- Parou de chover. - disse Xena se sentando novamente ao lado da barda após ter dado uma espiada na abertura da gruta.
- A gente vai hoje ou amanhã?
- Amanhã de manhã. Tem muita lama lá fora. Antes do entardecer vou chamar Argo.
- E eu vou dar um banho nela, deve estar toda suja.
- Você gosta dela. - não fora uma pergunta e sim uma confirmação.
- Muito. E é engraçado isso. Lá em Poteidaia, nós sempre tivemos um cavalo e eu nunca pude cuidar como faço com Argo. Porque papai nunca deixou Lila e eu sequer se aproximar dos bichos. Ele achava que a gente poderia estragar os animais, mimando-os.
- Argo também gosta muito de você. E olha que ela não deixa ninguém chegar perto dela.
- Ela é linda.
- Você também. - essas palavras escapuliram da boca da guerreira.Gabrielle sorriu daquele jeito todo próprio dela franzindo o nariz. Xena coçou a ponta do seu próprio nariz desajeitada.
Nisso, Argo bate o casco já entrando na gruta.- Olha só Xena quem está chegando! - disse Gabrielle indo ao encontro da égua.
- Vamos cuidar da nossa amiga, Gabrielle, que ela bem que está precisando._ disse olhando para a égua que estava molhada com folhas grudadas por todo o corpo e com as pernas e patas enlameadas.Enquanto cuidavam de Argo, Gabrielle escovando a crina e Xena limpando os cascos, a barda pergunta:
- Xena depois daquele dia A... O Deus da Guerra apareceu pra você?
- Uma vez. Mas eu o despachei com pouco caso que ele ficou chateado e sumiu. Deve estar ocupado com as guerrinhas dele.
- Xena, eu tenho tanto medo que ele possa te convencer, te seduzir...
- Ele me seduzir?! Já foi o tempo. Hoje eu tenho nojo dele. Ele representa o passado que eu quero esquecer.Gabrielle nada disse, mas tornou a sorrir daquele jeito que tanto a guerreira gostava.
As duas estavam dormindo, quando Gabrielle começou a se debater. Xena acorda e fica observando a barda que chama por ela em seu sonho. A guerreira a acorda ao perceber que ela parecia estar sofrendo.
- Xena!... Graça aos deuses que era apenas um sonho...
- E o que foi que você sonhou, se lembra?
- Eu sonhei que estava encolhendo.
- Encolhendo?
- É, encolhendo. Ficando cada vez menor. Eu tinha caído num buraco. Tudo que você jogava para que eu pudesse pegar, eu não conseguia alcançar, porque tudo era enorme para as minhas mãos. Até que eu sumi. Via você chorando, me chamando... Mas você não podia me ver, eu tinha virado um grão, um grão de areia. Aí acordei. - disse se sentando.
- Foi um pesadelo, Gabrielle, foi um pesadelo. - disse Xena segurando as mãos dela bastante preocupada, disse: - Agora deite, vamos dormir.
- Posso dormir abraçada com você?
- Não vai dizer que está com medo?
- Estou com medo sim, não tenho vergonha de admitir.
- Está bem, barda. - disse Xena se deitando e abrindo o braço para acolher a barda, conclui: - Venha, que eu não vou deixar que nada de mal lhe aconteça.Gabrielle se aconchegou no braço dela.
Acordaram cedo e logo partiram.
Chegaram ao vilarejo no meio do dia com o sol a pino.
- Esse vilarejo é conhecido como a cidade da uva e do vinho. Quis trazer você aqui para que conheça a Cidade de Dionísio.
- O deus Baco?
- É, ele é também conhecido por Baco.
- Ai, Xena, a gente vai dormir aqui?
- Por que a pergunta Gaby?
- Por causa das Mênades.
- Das bacantes?
- Xiii... Não fale esse nome.
- Por quê?
- Atrai.
- Isso não passa de superstição, Gabrielle. Nós vamos passar essa noite aqui e amanhã partiremos bem cedo. E no caminho vou te levar até o grande teatro de Epidauro, é bem perto daqui.
- É aquele que foi construído pelos adoradores de Dionísio e onde o sacerdote tem o melhor lugar reservado?
- Como sabe disso?
- Li nos livros e pergaminhos lá da Academia. Só espero não encontrar nenhuma bacante. - disse tampando a boca.Xena riu, realmente, ela era uma barda muito engraçada.
Foram até a única pousada da cidade. Onde comeram carne de porco e Gabrielle não quis beber do famoso vinho. Depois foram até o celeiro onde Argo estava. Enquanto a barda alimentava a égua, Xena conversava com o dono do celeiro.
- O quê vocês conversavam? - perguntou Gabrielle quando a guerreira se aproximou.
- É que hoje começa o festival de inverno. Vai ter uma grande festa por toda a cidade.
- Ai, ai, as ba... As mêna... As garotas vão estar por aí. - disse a barda passando a mão na testa.
- Elas atacam nos bosques, Gabrielle.
- Mas algumas vêm à cidade para atrair suas presas, até dançam com elas, as embebedam... E quem sabe não mordem ali mesmo.
- É, você leu mesmo sobre isso!
- Ah, Xena vamos embora daqui.
- Deixa de bobagem, Gabrielle. Além do mais eu estou aqui.
- Mais você é uma só. Elas andam aos bandos. E basta só uma mordida para que uma jovem inocente se transforme numa bacante. - assustada tampa a boca.
- Isso se for uma jovem. Se não for, elas sugam todo o sangue.
- Ai, Xena.Xena percebeu que a barda não estava brincando, viu que ela estava muito assustada, que ela sentia medo mesmo.
- Venha, vamos conhecer melhor a cidade. Nós não somos as únicas pessoas estranhas aqui, tem gente de todo lugar da Grécia. Tivemos sorte em arranjar aquele quarto.
- É, bem de frente para a praça. - lamentou a barda.Xena pôde constatar que havia realmente um grupo de gente estranha visitando a cidade. Achava que não tinha cabimento o medo da barda. Todavia achou melhor ficar atenta.
Como era inverno anoiteceu depressa.
Xena havia saído da tina, estava se enxugando quando percebeu que a barda ainda estava sentada dentro dela.
- Mas o que foi agora, Gabrielle? Você já está aí dentro há bastante tempo, antes mesmo de eu chegar... O quê que há?
- Ah, Xena a gente precisa mesmo descer? Não podemos ficar aqui?
- Já entendi. Vamos Gabrielle, sai daí, vem se arrumar.A barda nem se mexeu.
A guerreira olhou para ela e com as mãos na cintura disse:
- Só tem um jeito de lidar com uma barda teimosa.
Pegou o pano de banho de Gabrielle e se aproximou da tina, dizendo:
- Tirando-a daí.
- Não precisa, Xena, eu saio.Xena estendeu o pano de banho, abrindo-o a sua frente para que a barda se enrolasse nele. E foi o que ela fez. Rapidamente a guerreira puxou-a, tirando-a da tina e a levando no colo até a cama onde estavam as roupas. Hesita por uns instantes e depois diz ao colocá-la no chão:
- Estou te esperando lá embaixo.
Saiu sem olhar para trás. Parou atrás da porta. Passou a mão no rosto e percebeu que esquecera o casaco. Fez menção de entrar, mas pensou que do jeito que estava, se visse a barda nua... Achou melhor descer e tomar um licor.
Instantes depois, Gabrielle se aproxima dela que estava sentada ao balcão e lhe estende o casaco, dizendo:- Sei que você não é de sentir frio, mas, por favor, ponha o casaco. Não sei o que seria da sua saúde se eu não estivesse aqui para cuidar de você.
Xena vestiu o casaco sem dizer uma palavra.
De repente, começaram a ouvir um som irresistível vindo da praça. O servente avisou a elas:
- O festival começou. E o vinho é de graça.
Xena praticamente arrastou Gabrielle para a praça.
- Agora que reparei, Gabrielle por que você está com o cajado?
- Me sinto mais segura. Tal qual você com suas armas.Andando atrás dela, Xena riu sem que a barda visse. E achou divertido o modo como ela estava atenta a tudo a sua volta. Mas como era ainda uma principiante não percebeu um grupo de garotas vestidas com roupas pretas, todas muito pálidas que dançavam sem parar. De imediato, Xena, percebeu que eram bacantes. Afastou a barda sem alarde e avisou ao mestre de cerimônia sobre a presença delas. Depois de um tempo elas sumiram, devem ter percebido que notaram suas presenças. Mesmo assim, sem perigo por perto, a guerreira achou melhor não contar nada para a barda.
Mais tarde no quarto.
- Viu como não tinha nenhuma bacan... - a guerreira não terminou de falar porque a barda tampou-lhe a boca com a mão.
- Xiii... Não diga esse nome.
- Você não acha que está exagerando Gaby?
- Não, Xena. Posso fechar a janela?
- Se isso a tranqüiliza...Gabrielle fechou a janela, verificou se a porta estava trancada e ao deitar pediu:
- Xena se importa de deixar as velas acesas?
- Ah, essa não, Gabrielle. Vai ficar muito claro.
- Então posso dormir abraçada com você?
- Está bem.E mais uma vez a guerreira estava com a barda nos braços aninhada a ela. Ao mesmo tempo em que sentia prazer em tê-la assim, sentia-se tolhida por ter que ficar imobilizada, não tocá-la da maneira que desejava. Desta vez Gabrielle ao enlaçar a cintura de Xena com a mão esquerda, provocou um estremecimento na guerreira que de imediato se ajeitou para que a barda não percebesse. Xena poderia jurar que sentira calor nesse momento. Demorou pra dormir, quando conseguiu foi acordada pelo choro da barda. Olhou para Gabrielle e percebeu que ela estava tendo um pesadelo. Acordou-a com cuidado.
- Xena!... Oh, Xena... - sussurrou agarrando-se a guerreira.
- Gabrielle, o que foi que você sonhou, você se lembra?
- A gente estava num rio se banhando, quando eu comecei a encolher e indo para o fundo do rio. Via você mergulhar me procurando, emergia me chamando, tornava a mergulhar e eu estava ali perto de você, mas você não me via, porque eu tinha me transformado num minúsculo peixe, num peixinho.E a barda então começa a chorar. Xena a abraça, coloca a cabeça dela no seu peito para que ela não veja a sua expressão de preocupação.
- O que será isso, Xena? Por que eu tenho tido esses pesadelos?
- É como você mesma disse barda, é um pesadelo. Nada mais do que isso. - disse sem convicção.Enquanto botava a barda para dormir, Xena ficou lembrando do que acontecera na praça durante o festival. Ela havia pegado duas canecas de vinho e pediu para Gabrielle pegar uvas e outras frutas. A barda dispensou o vinho e estava comendo com prazer as belas uvas que trazia na pequena cesta. Xena pediu que ela lhe desse umas uvas. A barda foi tirando do cacho uma a uma e colocando na boca da guerreira. A princípio Xena estranhou, mas depois foi gostando do tratamento, percebendo também que a barda não estava ciente do que estava fazendo, pois a atenção dela estava dirigida para as pessoas ao redor. Xena comera um cacho inteiro de uva sem ao menos ter tido vontade. Ela também percebera que as pessoas que olharam para elas pensaram que eram amantes ou que a barda fosse sua escrava. O servente da pousada chegou até a indicar uma pousada numa cidade perto dali que ele disse que era freqüentada por guerreiras e amazonas. Já estava ficando difícil de esconder o que ela sentia pela barda, algumas pessoas até conseguiam perceber.
Olhou para a barda, parecia que dormia tranqüila deu um beijo no topo da cabeça dela, aspirou o perfume dos cabelos dela e deitou ao lado dela.
No dia seguinte partiram cedo. Enquanto caminhavam na estrada, Xena disse querendo arreliar um pouco:
- Eu não disse que não tinha bacantes...
- Xiii...
- Ah, Gabrielle, não exagera já estamos longe de lá.
- Eu não sou exagerada, você que é muito descrente.Xena olhou pra Gabrielle e percebeu que ela estava tensa. Montou em Argo e estendendo a mão para ela, disse:
- Venha, Gabrielle, suba. Cavalgando chegaremos mais depressa.
Quando a barda fez menção de montar atrás dela, Xena a puxa para frente dizendo:
- Segure firme o cajado, Gabrielle. Pode deixar que eu a seguro. Vamos Argo, corra garota!
- Por que você está correndo, Xena? - perguntou Gabrielle um pouco assustada.
- Acho que você não vai gostar de saber.
- Bacantes! Você deve ter visto...
- Ladrões. Eram muitos e estavam escondidos. E eu não estava disposta a lutar com eles.
- Devíamos avisar a milícia sobre eles.
- Não será necessário. Eles vão ter uma bela surpresa daqui a pouco quando a tropa ateniense cruzar o caminho deles.
- E eu não percebi nada! Como eu tenho que aprender com você guerreira. - disse encostando mais as costas no tórax de Xena.A guerreira nada diz, apenas a aperta mais nos braços. Ao sentir que já estava chegando, Xena diminui o galope para, na verdade, poder curtir um pouco mais aquele momento.
Assim que chegaram, Xena desmontou e quando ia descer a barda, esta salta quase em cima dela. Por pouco não se chocaram.
- Já sei saltar de Argo, Xena.
- É, estou vendo, quase me atropelou.
- Uau! Como esse teatro é grande! - disse a barda admirada olhando para baixo da colina.
- Não é à toa que é chamado de o Grande Teatro de Epidauro.
- Eu não acredito que vou conhecer o maior de todos os teatros.
- Argo fique aqui. - disse a guerreira para a égua e completa: - Venha, vamos descer pra você ver melhor.Enquanto desciam Gabrielle perguntou:
- Quantas fileiras de lugares têm esse teatro, Xena?
- Umas sessenta e sete fileiras em forma de ferradura. E as da frente, na maior parte é ocupada por sacerdotes e nobres.Assim que chegaram na frente do palco, Gabrielle vai até o centro e diz em voz alta:
- Argo, você está me ouvindo?
A égua lá em cima relincha em resposta.
- Uau, Xena, a acústica aqui é fantástica!
- É a melhor de toda a Grécia. Já assisti uma peça aqui, o som é inacreditável. Este teatro foi muito bem arquitetado foi feito numa erosão, nesse enorme buraco entre as ruínas do Proskenion e a Skene, daí o eco que produz o tal som, uma acústica fantástica.
- Por que esse teatro tem o nome de Epidauro, se ainda estamos em Atenas?
- Porque aqui é a divisão entre Atenas e Epidauro. Agora, o porquê eu não sei.
- Porque foi construído pelo povo de Epidauro em homenagem a Dionísio. - respondeu uma voz vinda da platéia, da fileira da frente.Xena avistou logo a figura de capuz sentada no trono de pedra reservado ao sumo sacerdote de Dionísio. A guerreira ao se aproximar percebeu que se tratava de uma senhora.
- Obrigada pela informação. Quem é você?
- Meu nome é Soraya.
- E o que você está fazendo aqui, Soraya?
- Cumprindo uma missão.
- Sentada no trono do sacerdote de Dionísio? - perguntou a guerreira com certa ironia.
- Não se preocupe, os sacerdotes só vão se reunir aqui daqui a dois dias.
- Está bem informada.
- Tenho que ser.
- A senhora veio de onde? - perguntou Gabrielle.
- Eu vim e estou voltando para Cálcis.
- Cálcis?... É isso, Cálcis! A senhora não é cartomante lá?
- Era. Já não sou mais.
- Ah, que pena! Eu estava pensando que quando fosse passar por lá iria fazer uma consulta. Uma vez bem que tentei, mas estava muito cheio.
- E o que você quer de mim, minha jovem?
- Gostaria de saber um pouco mais sobre o meu destino.
- Tem coisas no destino que não é bom saber com antecipação. O certo é aceitar e deixar acontecer. - disse isso olhando insistentemente para Xena.
- Mas é muito interessante saber o quê está por vir, não acha? - perguntou Gabrielle com os olhos brilhando de curiosidade.
- Não é não, minha jovem, pode acreditar no que eu estou dizendo. - disse a senhora olhando desta vez para Xena com uma expressão forte no olhar.
- Gabrielle, não vai insistir, não é? - disse Xena olhando enigmaticamente para a mulher.
- Oh, não, Xena. Na verdade eu ia convidá-la para almoçar com a gente.
- Não sei se devo. - disse a senhora ainda olhando insistentemente para a guerreira.
- Claro que sim. A menos que não goste de carne assada com pão e frutas. - disse Xena a encarando.
- Então aceito.E elas repartiram a comida. Xena notou que a cartomante olhava pra Gabrielle de uma maneira muito estranha e que a olhava como se quisesse dizer alguma coisa. Xena entregou a Gabrielle um saco de cenouras dizendo:
- Gaby me faz um favor, leva lá pra Argo essas cenouras, ela deve estar com fome.
Enquanto Gabrielle foi alimentar a égua, Xena imediatamente disse:
- Agora pode falar.
- Como você sabe que eu tenho algo para falar?
- Porque vi como me olhava. E ficou claro que não queria fazê-lo na presença da minha amiga. Por tanto, seja rápida antes que ela volte.
- Pois bem, guerreira, o que eu vou lhe contar a sua amiga não poderá saber. É sobre o que irá acontecer com ela. - disse Soraya quase sussurrando.
- O que vai acontecer com ela?! - perguntou Xena confusa.
- Por favor, não me interrompa, pois o tempo é pouco. Preste atenção: No fim da próxima estação, leve-a ao antigo templo de Afrodite, onde vocês já estiveram uma vez. A vida dela vai estar nas suas mãos guerreira. Ela precisa permanecer pura como é, isso é vital para a cura.
- Cura, cura de quê? Do quê você está falando?
- A vida dela vai estar em suas mãos. Lembre-se que só a pureza dela poderá curá-la e o amor que você sente por ela. Se você a ama de verdade, não a tocará, não antes de o inevitável acontecer.
- Inevitável?! Mas o que é que é isso? O que é que não se pode evitar?
- As pedras do destino já estão em andamento. Agora só resta esperar o desfecho. Você não pode esquecer disto guerreira: a pureza dela deve permanecer intacta. Entendeu?
- Como você sabe do meu amor por ela? Como você sabe dessas coisas? Quem é você? Por que eu não posso tocá-la? - Xena estava mais do que confusa, estava tonta com aquilo tudo que ouvira.
- Estou aqui numa missão, é tudo que eu posso dizer. Se eu soubesse como curá-la, te diria. Lembre-se, a cura não está no corpo. A cura está no sentimento.
- Quem está querendo fazer mal pra ela?
- Já cumpri a minha missão te avisando. Agora é com você.
- Mas eu nem sei do quê se trata, como isso vai acontecer e como eu posso evitar isso.
- Eu já disse. No final da próxima estação leve-a para o antigo templo de Afrodite. Ela não pode saber que vai acontecer algo com ela. Gabrielle precisa permanecer casta. Você freie seus instintos ou então poderá perdê-la para sempre.E sem olhar para trás a mulher avisa:
- Ela vem vindo. Nossa conversa terminou.
- Mas...
- Se ela souber será pior, será mais trágico. Não esqueça de tudo que eu lhe disse.Gabrielle chegou perguntando:
- Vocês estavam conversando sobre o quê?
- Eu estava pedindo informação como voltar mais rápido para Cálcis por terra, já que não viajo pelo mar. - disse a cartomante.
- Eu também tenho problemas com o mar, mas Xena diz que é o meio mais rápido.
- Bem, eu já vou indo. Obrigada pela comida.
- Eu é que agradeço. - disse Xena demonstrando na voz o que realmente sentia.Assim que a mulher se afastou Gabrielle perguntou:
- Xena foi mesmo sobre ir pra Cálcis que vocês tanto conversavam?
- E o que mais poderia ser, Gabrielle?
- Não sei, mas lá de cima me pareceu que você estava nervosa.
- Impressão. Vamos embora?Durante toda a tarde enquanto cavalgavam Xena permaneceu calada, cismada com as palavras da cartomante que não lhe saiam da cabeça.
- Xena! - quase gritou a barda e vendo o rosto assustado da guerreira diz: - Aposto que não escutou uma palavra do que eu disse.
- Desculpe Gabrielle, é que eu estou preocupada onde vamos acampar.
- Ah, pensei que fosse alguma coisa a ver com aquela cartomante.
- Imagina, nem me lembrava mais. - mentiu a guerreira.Já estava bem escuro quando Xena avistou uma clareira.
- Vamos passar a noite aqui. Vou fazer uma fogueira. E você desatrela Argo.
Tarde da noite, Xena acorda com os gritos abafados de Gabrielle chamando por ela. Xena a acorda com cuidado.
- Oh, Xena... Tive outro pesadelo. - disse abraçando-se a guerreira.
- Conta.
- Eu sonhei que estava colocando uns gravetos na fogueira quando comecei a encolher. Gritei por você, mas você não me ouvia. Tentei chegar perto de você, mas você quase me pisou. Depois você foi embora com Argo e eu fiquei sozinha, desesperada e chorando. Aí você me acordou.
- Foi um pesadelo, Gaby, apenas um pesadelo. - disse Xena abraçando-a preocupada.
- Estou com medo de dormir, Xena.
- Não tenha medo, Gaby, durma que eu vou velar seu sono.
- Está bem.Instantes depois a barda conseguiu dormir, mas a guerreira não. Estava preocupada. Essa era a terceira vez que a barda se lembrava do pesadelo que tivera. E era quase sempre a mesma coisa, Gabrielle encolhia e ela não conseguia salvá-la. Lembrou o que a cartomante falou sobre que a vida da barda estava nas mãos dela. No entanto no sonho ela lhe escapulia pelas mãos. Precisou meditar para poder dormir.
Continua...