A Barda e a Guerreira
By SOMARQ
Já havia se passado uma semana desde que Xena partira, Gabrielle estava inquieta e aflita, pois não havia recebido nenhuma notícia da guerreira e do tal vilarejo. Numa tarde, quando fora ao armazém comprar sal, encontrou com um velho comerciante que estava de passagem e que ia para o tal vilarejo levar rolos de arames farpados. Pouco depois, lá estava a barda na carroça do comerciante a caminho de onde Xena estava. Foi conversando e contando histórias para ele até chegarem lá.
Assim que a guerreira a viu, foi imediatamente ao seu encontro. A barda se preparou pra levar uma bronca devido ao olhar e a altura da sobrancelha esquerda da guerreira.
- Gabrielle, o que você está fazendo aqui? Eu mandei que você me esperasse lá na sua casa!
- Calma Xena, eu vim ajudar. - disse descendo da carroça e mostrando o cajado.
- Ótimo! Mais uma preocupação!Depois de ter ajudado os camponeses a usar o arame farpado, e bem mais calma, Xena se aproxima da barda, que também estava ajudando, puxa-a pelo braço num canto, diz:
- Gabrielle, a sua família sabe que você está aqui?
- Agora eles devem estar sabendo. - disse a barda sem encará-la.
- Como agora? - perguntou Xena ainda sem soltar o braço da barda.
- Deixei um bilhetinho com o Sr. Dimitrius, o dono do armazém, para que ele entregasse para Lila quando ela fosse atrás de mim e do sal que eu fui comprar.
- Gabrielle! - exclamou Xena quase gritando.
- Xena, entenda, eu não podia dizer nada para eles. - disse desprendendo a mão da guerreira do seu braço que começara a doer.
- Eu até posso imaginar o que seu pai deve estar falando de mim. - disse passando a mão embaixo da franja.
- De você não, de mim.
- Se não fosse tão perigoso, eu ia mandá-la de volta agora mesmo. Só de pensar no risco que você correu vindo aqui...Gabrielle ficou calada, pois sabia que a guerreira tinha toda razão. Ela realmente fora imprudente, mas não estava arrependida.
- Você sabe contra quem estamos lutando? Com Spiros, ele era o chefe dos guardas e o primeiro tenente do meu exército. Como eu imaginara, uma parte do exército que ficou sob o comando de Krykus não conseguiu se manter unido, mesmo eu tendo matado Darphus que comandava a outra parte do exército. Spiros deve ter reunido uns doze gatos pingados que sobrou e formou um bando. E anda aterrorizando as estradas e vilarejos por onde passam. Parece que agora eles estão querendo se estabelecer por aqui. Mas eu não vou deixar.
- Ele sabe que você está aqui?
- Eu queria fazer uma surpresa, mas um dos homens dele me viu. Por isso, que ainda não atacaram. Já se passaram sete dias, quatro a mais do prazo que foi dado e até agora nem sinal. O tal do "rato espião" dele tem dois dias que não aparece.
- Quando você acha que vão atacar?
- Acho que hoje ao anoitecer.
- Como sabe, se você disse que não tinha nenhum sinal?
- Acabei de ver uma revoada de pássaros bem estranha, pareciam assustados.
- Como se alguém os estivessem espantados?
- Isso. E se eu conheço bem Spiros...
- E o que vamos fazer? Você deve ter um plano, qual é? - perguntou a barda batendo com o cajado no chão.
- O plano é o seguinte: você vai ficar dentro da casa tomando conta das mulheres e das crianças.
- Mas Xena, eu posso ser útil aqui fora.
- Será mais útil lá dentro.
- O que adianta você ter me ensinado a usar o cajado e eu ter treinado durante esse tempo todo, se eu não tenho a oportunidade de demonstrar o que aprendi, que posso ter alguma utilidade.
- Você terá tempo para demonstrar o que aprendeu em outra ocasião.
- Mas Xena...
- Gabrielle eu quero que você me obedeça. O que vai acontecer aqui será uma batalha, não um espetáculo, uma demonstração. Quero você lá dentro e não me desobedeça. - percebendo que a barda ficara triste diz num tom de voz menos autoritário: - Gabrielle, você será responsável pela segurança das pessoas que estiverem lá dentro. Fique atenta, olhos aguçados e de cajado na mão.A guerreira viu como os olhos da barda brilharam de gratidão. E quando ela entrou na casa, Xena diz pra si mesma:
- E essa agora! Como se não bastasse, ainda vou ter que ficar de olho nela.
Ao anoitecer, como Xena previu, Spiros e seu bando iniciaram o ataque. Primeiro com as flechas incendiárias, que foram arrancadas e apagadas de imediato por um grupo de rapazes treinados pela guerreira para isso; Depois tentaram surpreender pelos fundos, mas caíram na armadilha dos arames farpados, os gritos deles confirmaram isso; E logo a seguir Spiros adentra, ao derrubar o portão, com os seus doze homens. Só então que Xena percebeu que havia um pouco mais do que os doze gatos pingados, mas isso não importava agora, pois já tinham sido neutralizados.
Assim que Spiros avista Xena, manda os seus guerreiros atacá-la, mas a guerreira ao partir para cima dos bandidos dá um assobio e as espadas dos facínoras encontram as foices, os tridentes e as espadas de alguns aldeões que já tinham sido soldados. Xena queria lutar com Spiros, mas este se esquivava e colocava outro guerreiro na frente dela. De repente, Xena percebeu que ele se dirigia para a porta da casa e nesse momento ela estava lutando com dois bandidos. Então puxou o chakram e ia lançá-lo contra Spiros, quando viu Gabrielle surgir por trás dele e golpeá-lo nas juntas dos joelhos. E quando ele tomba no chão, a barda desfere dois golpes que o deixa quase inconsciente. Mantendo a ponta do cajado na garganta dele, ordena:
- Manda os seus homens se renderem ou... Esmago a sua garganta.
Xena consegue se livrar dos dois bandidos e corre pra onde está Gabrielle.
- Como é Spiros não vai fazer o que ela mandou? Olha, eu não vou me meter no trabalho de outra guerreira. Você é quem sabe, se não morrer vai ficar mudo.
Spiros gritou com todo o fôlego para que seus homens se rendessem. Nem precisava, pois todos os bandidos tinham sido dominados.
Após amarrar Spiros, Xena diz pra Gabrielle:
- Bom trabalho. Estou surpresa.
- Eu não disse que eu podia ajudar? - disse Gabrielle ainda trêmula, mas orgulhosa.
- Mas quase me matou do coração. Que susto levei ao vê-la atrás daquele facínora.
- Que nada, ele está muito bem guardado aí. - disse a barda colocando a ponta do dedo indicador na armadura do peito esquerdo da guerreira se referindo ao coração dela.
- Mas você me desobedeceu novamente, Gabrielle.
- Você não disse pra eu tomar conta das pessoas dentro da casa? Quando vi que aquele homem ia arrombar a porta, pulei a janela do lado e o ataquei antes que ele me visse. Agora vai brigar comigo depois de me chamar de guerreira?
- Falei aquilo pra reforçar o que você fez.
- Xena, o que eu preciso fazer pra te provar e convencer que posso ser a sua ajudante, que sou uma guerreira? E que estou pronta para...
- Depois que você se formar a gente conversar. - disse a guerreira interrompendo e pondo um ponto final antes que a barda começasse, de novo, com aquela conversa.Ajudaram os colonos a amarrarem e vigiarem os bandidos durante a noite e na manhã seguinte ajudaram a levar os bandidos até o porto de Poteidaia, colocando-os no barco prisão. Não aceitaram a recompensa, deixaram com os colonos para que pudessem reconstruir o que foi danificado pelos bandidos. Mas tiveram que ficar no porto até o barco partir a pedido do próprio capitão que aguardava a milícia que estava pra chegar. Almoçaram ali mesmo e ficaram de guarda no cais até que o capitão as liberou.
Quando pegaram a estrada que ia para a aldeia da barda, Xena percebeu que já estava bastante escuro e que seria perigoso continuar cavalgando sem praticamente enxergar o que estava a sua frente.
- Acho mais seguro a gente arranjar um canto e dormir. Devíamos ter ficado lá no porto. - disse Xena.
- O que você sugere?
- Sair da estrada imediatamente.Tomaram o rumo de uma viela feita pela própria natureza. Quando um tilintar de espadas desperta a atenção delas. Avançando um pouco mais vêm um soldado lutando com três homens. Se aproximaram, Xena desmonta dando cambalhotas no ar soltando o seu grito de guerra até parar ao lado do soldado, dizendo com a espada em punho:
- Precisa de ajuda?
- Bem-vinda. - disse o soldado.Nisso surgem mais três homens e um deles vai ao encontro de Gabrielle que ainda estava montada em Argo. Xena percebe e diz para o soldado:
- Pode deixar que eu cuide deles, proteja a minha amiga que está em perigo.
Como Argo era muito alta e Gabrielle ficou com medo de descer, pois não conseguia enxergar onde pisar, segurou firme o cajado e ficou esperando o bandido se aproximar. Percebendo a inexperiência da garota, o bandido dá a volta por trás da égua, mas não consegue chegar perto, pois Argo começa a dar pequenos coices evitando assim a aproximação dele.
Quando o bandido puxou o punhal e ia lançá-lo em Gabrielle, Xena puxou o chakram, mas antes de lançá-lo viu o soldado gravar a espada no tórax do bandido, salvando a barda. E Xena, com a espada numa mão e o chakram na outra, mata os outros dois bandidos restantes. Notando que o soldado ficou ajoelhado na frente do corpo do bandido, vai até lá e pergunta:
- Você está bem? Está ferido?
O soldado limita-se a balançar a cabeça negativamente.
Xena desmonta Gabrielle, que se aproxima do soldado dizendo:
- Perdicas, é você?
O rapaz a olha com o rosto coberto de lágrimas, diz:
- Sou o que restou dele.
- O que houve Perdicas? - perguntou se abaixando ao lado dele.
- Gabrielle, você é a minha única esperança.
- O que você está dizendo?O rapaz tira o capacete e ainda ajoelhado, segura as mãos de Gabrielle dizendo:
- Gabrielle, por favor, se case comigo.
Gabrielle o olha surpresa, olha de imediato para Xena que parecia surpresa e olhando novamente para ele, o escuta dizer:
- Gabrielle, se você não me quiser, nada mais para mim importa. Você é a minha salvação.
- Não estou entendendo, Perdicas.
- Eu estava me sentido perdido com toda essa violência que tenho vivido como soldado. E agora como tenente ateniense comandei uma frota inteira para a morte, sei que estava cumprindo ordens, mas isso não justifica o que aconteceu. Já estava quase desistindo da vida quando vi o seu rosto na minha frente. Então percebi que você é a minha salvação. Gabrielle case comigo.
- Eu não sei o que dizer... - disse a barda olhando pra ele e pra Xena.
- Diga que sim. - suplicou Perdicas encostando as mãos dela na face dele.
- Não posso te dar uma resposta agora. - disse aflita.
- É uma decisão muito séria para se resolver assim. - Xena se intrometeu na conversa e conclui: - Agora o que temos que fazer é sair daqui e arranjar um lugar tranqüilo para dormir. Amanhã vocês conversam sobre isso.Escolheram um local pra dentro da floresta, enquanto Perdicas e Gabrielle faziam uma espécie de varredura no lugar, Xena acendia a fogueira. Ao terminar, levanta-se e diz interrompendo o silêncio que se instalara até então:
- Vamos dormir. Uma boa noite de sono clareia as idéias. Amanhã tudo se resolverá.
Gabrielle e Perdicas concordam com ela. Xena então pergunta a Perdicas como ele foi parar na estrada sem cavalo e apetrechos pra viagem, ele responde:
- Meu cavalo se assustou com os bandidos e me derrubou.
- Então amanhã vamos atrás dele.
- Não precisa, ele deve ter voltado lá para aldeia.
- Pra Poteidaia?
- Não exatamente para a aldeia, mas para a minha fazenda que fica atrás da casa de Gabrielle.Xena fica pensativa. Pega o cobertor de forrar o chão e a manta de Gabrielle e dá pra Perdicas. Depois pega o seu cobertor e a sua manta, que eram maiores do que da barda e chama a barda dizendo:
- Vem Gabrielle, nós duas vamos dormir juntas.
Gabrielle deita virada pra Perdicas. Xena desatrelou Argo e depois se deitou ao lado dela. Ao puxar com cuidado a manta é que percebeu que a barda estava acordada.
- Gabrielle.
- Sim, Xena. - disse virando-se de frente para ela.
- Tente dormir.
- Não consigo.
- Tente.
- Como posso? Se amanhã vou ter que resolver o meu destino...
- Vire de bruços, eu vou fazer uma massagem pra você relaxar.Enquanto Xena aplicava os toques dos seus dedos em pontos específicos nos seus ombros e nuca, Gabrielle olhava para Perdicas e para a sombra da guerreira que estava refletida no espaço do chão entre os dois. Suas pálpebras foram ficando pesadas e em poucos instantes estava dormindo. Xena ao contrário, passara a noite em claro. Estava perturbada, irritada, com raiva até. "Que tinha esse rapaz de ter aparecido..." - pensou Xena. "Como pode o cavalo dele ter voltado para a fazenda, se ele veio de Atenas?" - isso a estava intrigando. "Atenas! É isso! Não é um cavalo do exército ateniense. Só um cavalo acostumado a fazer o percurso do porto até a fazenda que poderia voltar a esta. E o cavalo não foi amestrado há tempo para isso, já que Perdicas raramente vem para Poteidaia. O cavalo é daqui, é dele. Então ele mentiu". E, assim, Xena passou o resto da noite pensando, cismando.
Quando os primeiros raios da aurora riscaram o céu, a guerreira se levantou e acordou a barda chamando-a baixinho e a levando, ainda sonolenta, para um lugar longe do jovem adormecido.
- O que foi, Xena? O que aconteceu?
- Preciso falar com você e tem que ser agora.
- Ainda está escuro...
- Gabrielle está acordada?
- Claro, Xena.
- O que foi que você decidiu?
- Eu acho que a resposta é sim, Xena. - disse abaixando os olhos.
- Como assim?
- Vou aceitar o pedido de casamento dele.
- Por quê, Gabrielle?
- Por que... Porque ele precisa de mim e salvou a minha vida. Devo isso a ele.
- E isso é motivo para que você se case com ele?
- Xena, você não viu? Ele estava desesperado. Estava a ponto de fazer uma besteira. Não posso permitir que ele faça isso.Xena segura Gabrielle pelos braços e olhando-a diretamente nos olhos diz:
- Preste atenção, Gabrielle, é isso que você realmente quer: largar a Academia, se casar com Perdicas e voltar pra Poteidaia? Então seu pai tinha razão, era só fogo de palha o seu ideal.
- Mas, Xena, você não entende? Ele precisa de mim. Vi o desespero nos olhos dele.
- E é só por isso que você vai jogar a sua vida fora?
- Eu não posso deixar que ele desista da vida.
- Desistindo você primeiro? Como será a vida de vocês? A sua vida, hein? Vou te dizer: será um inferno. Chegará um dia em que você vai culpá-lo pela sua infelicidade. Não, Gabrielle, com sacrifício não se faz felicidade. Eu não vou permitir que você estrague a sua vida.
- Mas eu não posso... A minha consciência não vai suportar.
- Você o ama? - perguntou Xena ainda a segurando pelos braços.
- Eu... Eu gosto dele. Afinal ele era o meu noivo. - disse Gabrielle sem encará-la.
- Eu perguntei se você realmente o ama, o quer, o deseja. - disse Xena a encarando.
- Não, eu não o amo. - disse Gabrielle de olhos baixo e intimidada com aquela proximidade.Xena suspira aliviada e sem largar Gabrielle diz:
- Quer continuar sendo minha amiga e minha ajudante?
- Quero, mas...
- Então não vou permitir que você case com ele.
- Xena, eu não sei se terei coragem de dizer não para ele. Seria como se eu lhe virasse as costas.
- Pois você vai ter que ter coragem e ser sincera com ele. Eu vou estar do seu lado.Ao voltarem para o acampamento viram Perdicas acordando.
- Gabrielle... - ele tentou falar.
- Perdicas, antes que você fale alguma coisa, eu preciso lhe dizer que eu já me decidi.
- Vai se casar comigo? - disse se levantando.
- Perdicas, você foi o meu primeiro namorado. Ficamos noivos e íamos nos casar. Mas eu não estava preparada para isso. Queria ir para a Academia e fui. Ser uma verdadeira barda é o meu ideal, o meu sonho. Não posso abandonar a Academia para casar com você. Não seria feliz e, principalmente, te faria infeliz também. E isso eu não posso fazer com nossas vidas. Sinto muito.
- Mas Gabrielle, isso não impede que a gente se case. Eu estou morando em Atenas porque sirvo ao exército de lá e a sua Academia é em Atenas. Podemos casar e morar lá.
- Como poderíamos casar se eu passo dez meses dentro da Academia e além disso...
- Por favor, Gabrielle, não precisa dar uma resposta agora, pense mais um pouco. Eu me precipitei, é que eu tenho uma licença de dez dias para ficar aqui em Poteidaia e queria voltar para Atenas casado com você ou, pelo menos, noivo.Gabrielle olha apreensiva para Xena, que a olha seriamente. Volta a olhar para Perdicas e diz:
- Sinto muito Perdicas, mas eu não posso me casar com você, porque eu não te amo.
Perdicas nada diz e ruma a caminho de Poteidaia. Enquanto Xena atrela Argo, Gabrielle coloca os cobertores e as mantas nas bolsas. Momentos depois, montadas em Argo, alcançam Perdicas e ele as ignora. Silêncio total até chegarem perto da aldeia, quando ele se despediu apenas com um aceno de mão.
- Ele está muito magoado, nem quis entrar na aldeia com a gente, foi para a sua fazenda pelos fundos._ disse Gabrielle um pouco triste.
- Ele vai superar. - disse Xena olhando de soslaio para ela.
- Eu nunca fiz mal pra ninguém... Estou me sentindo tão mal...Xena pára, desmonta e ajuda a Gabrielle desmontar dizendo:
- Parei aqui porque quero lhe dizer uma coisa.
- E o quê é?
- Não quero que se sinta culpada, principalmente porque Perdicas não agiu direito com você.
- Como assim, Xena?
- Eu descobri que o cavalo, que ele disse que voltou para a fazenda, não é um cavalo do exército ateniense e sim o cavalo dele criado na fazenda aqui em Poteidaia, já que ele garantiu que o cavalo teria voltado para a fazenda.
- Não estou entendendo.
- Gabrielle, o que aconteceu ontem não foi coincidência.
- O que você está querendo dizer, que Perdicas armou aquela emboscada? Mas como ele podia saber que passaríamos por ali?
- Ares.
- Ares?!
- Isso mesmo, o velho e safado Deus da Guerra. Os soldados são devotados a ele e Perdicas também deve ser. De alguma forma aquele canalha ofereceu ajuda a Perdicas que, com certeza, não tinha idéia do que aconteceria.
- Como você descobriu isso Xena?
- Passei a noite inteira juntando os caquinhos e me lembrei de que um dos bandidos queria matar você. E antes disso, percebi que Perdicas ficou assustado quando apareceram mais três bandidos e um deles foi direto para você. Posso garantir que o choro dele foi de arrependimento por quase provocar a sua morte.
- Xena, por que você não me disse isso antes?
- Porque queria ter certeza que seria uma escolha sua sem que eu precisasse provar nada.
- Obrigada.
- Obrigada por quê?
- Por me proteger de mim mesma. Ia cometer o maior erro da minha vida.
- Vamos indo. Já escutei o seu estômago se manifestar três vezes.
- Claro, o coitado está sem comida desde ontem.Quando entraram pelo portão da casa da família de Gabrielle, Lila correu ao encontro delas, dizendo:
- Gabrielle, você quase nos matou de susto! Onde você estava sua maluca?
Gabrielle olhou pra Xena e disse baixinho:
- Vai começar o interrogatório.
Xena ficou sem saber se ia pro celeiro cuidar de Argo ou se ficava e dava apóio à barda. Resolveu ficar.
Hecuba foi ao encontro da filha fujona, depois de abraçá-la a repreendeu:
- Gabrielle você está bem? Como você pôde fazer uma coisa dessas com a gente?
Depois de várias explicações de Gabrielle e de Xena contar o heroísmo da barda, finalmente, elas conseguem entrar na casa. Gabrielle olha ao redor procurando alguém.
- Se está procurando o pai, está na lavoura. - disse Lila ainda abraçada a irmã.
- Ele deve ter ficado ainda mais zangado comigo. - disse Gabrielle.
- Zangado e preocupado, tanto que pediu pra Perdicas... Por falar nele... Vocês não se encontraram com ele?
- Como você sabe disso? - perguntou Gabrielle olhando para Xena.
- O pai o incentivou a ir atrás de você. Vocês se encontraram?
- Sim.
- E aí?
- E aí o quê?
- Vocês fizeram as pazes?
- Lila, Perdicas e eu não brigamos, nós apenas terminamos o noivado. Olha, a gente está sem comer desde o almoço de ontem. O meu estômago está aos gritos.Xena não conseguiu conter o riso. Gabrielle se aproxima dela e diz baixinho:
- Ta rindo de quê? Pensa que eu não ouvi o barulho do seu estômago?
Hecuba e Lila foram providenciar alguma coisa para elas fazerem o desjejum. Xena aproveita para dizer:
- Estou orgulhosa de você. Já não é mais uma garotinha.
- E eu tenho muita sorte de ter você sempre ao meu lado.Depois do farto e delicioso lanche, Xena foi até o celeiro cuidar de Argo e Gabrielle foi cuidar das roupas de viagem, pegando o cobertor e a manta da guerreira sem que ela visse. E a manhã transcorreu tranqüila até que Hecuba, ao mandar Lila avisar Gabrielle e Xena que o almoço iria ser servido, depara-se com o marido aflito na porta da casa aos gritos:
- Onde está Gabrielle?
- Foi até o armazém. - respondeu Lila.
- E aquela... Outra?
- Foi também. E eu vou até lá chamá-las.
- Vocês sabiam que Gabrielle teve o desatino de recusar Perdicas mais uma vez e sabem por quê? Por causa daquela guerreira!
- Herodotus, você está sendo injusto! - replicou Hecuba.
- Injusto? É por causa dessa mulher que Gabrielle está assim.
- Não seja injusto homem! Que você não goste de Xena, tudo bem. Mas culpá-la pela esquisitice da nossa filha é demais!
- Foi por causa dela que Gabrielle saiu de casa.
- Aí que o senhor se engana, pai. Gaby ia fugir de qualquer maneira. E sabe-se lá o que poderia ter acontecido com ela. - interferiu Lila.
- Não acredito que ela teria coragem para fazer isso.
- Herodotus, você não conhece a sua filha mais velha mesmo.
- O que é que deu em vocês duas para ficarem defendendo essa mulher e atacar Gabrielle?
- Não estamos atacando Gabrielle, estamos dizendo a verdade. - se defendeu Hecuba.
- Pai, o senhor mesmo disse que Gabrielle é diferente da gente, chegou a dizer que ela é meio doida. - disse Lila.
- Falei isso no momento da raiva.
- Pai, nós temos que agradecer a Xena por ela ficar levando e trazendo Gabrielle sem nenhuma obrigação. - ainda Lila.
- Se você não é grato, eu sou. E quero que ela seja bem tratada toda vez que vier aqui. - disse Hecuba pondo um ponto final na conversa.Herodotus, totalmente irritado, sai batendo a porta.
Xena que havia entrado para colocar as compras que fizera com Gabrielle no quarto dela, ficou o tempo todo ali dentro escutando a conversa sem poder sair. Tentou pular a janela, mas lembrou que o cajado da barda estava encostado do lado de fora da janela impedindo que abrisse sem que fizesse barulho. Quando Herodotus sai e as duas vão para a cozinha, ela aproveita para sair. Vai até o celeiro onde a barda estava alimentando Argo.
- Xena como você demorou!
- Gabrielle, não diga nem pra sua e nem para Lila que eu estive há pouco no seu quarto.
- Por que, Xena?
- Depois eu te explico. Lila vem chegando.Lila tentou levar as duas para almoçar, mas Xena não quis ir, preferiu ficar ali mesmo. No entanto pediu que Gabrielle almoçasse com sua família.
Instantes depois, chega a barda com o almoço da guerreira.
- Queria almoçar aqui com você, mas mamãe quer conversar comigo.
- Eu também. Depois, quero ter uma conversa contigo.
- Sobre o quê?
- Vá conversar primeiro com sua mãe, depois a gente conversa. - disse Xena se sentando num feixe de feno e começando a comer.Assim que sentou à mesa, Gabrielle percebeu que o prato do seu pai não estava ali. Perguntou:
- E o pai?
- Saiu. - respondeu Hecuba.
- O que está acontecendo mamãe?
- Seu pai soube que você recusou novamente o pedido de casamento de Perdicas.
- Como ele soube disso? Eu não falei nem para vocês.
- Por Perdicas. O pai tinha mandado Perdicas atrás de você. - disse Lila.
- Então não foi mesmo um encontro casual. Aposto que foi ele quem sugeriu a Perdicas para me pedir em casamento novamente. - disse Gabrielle e se levantando avisa: - Volto já, preciso fazer uma coisa antes.Gabrielle conta o ocorrido a Xena.
- Xena, você tem idéia de como estou me sentindo? Eu ia ser enganada não só por Perdicas, mas pelo meu pai.
- Não creio que Perdicas tenha mentido para você, Gabrielle.
- Como não? Se foi meu pai quem o mandou atrás de mim.
- Ele foi atrás de você porque a ama e eu vi sinceridade nos olhos dele.
- Mas porque fingiu e armou aquilo tudo?
- Quem armou aquela encenação toda foi Ares.
- Isso não justifica o que ele fez tentando me enganar.
- E isso faz alguma diferença pra você? É importante para você? Mudaria a sua decisão? - perguntou a guerreira olhando-a seriamente.
- Não, mas não gostei de me sentir usada, de quererem me ludibriar... Estou decepcionada com meu pai, eu acho que ele não gosta de mim.
- Não diga isso, Gabrielle. Talvez por gostar muito de você que ele agiu assim. Ele gosta tanto de você que a quer aqui perto dele. Tenho certeza disso.
- Obrigada.
- Está me agradecendo por quê?
- Por você ter sempre a palavra certa para mim. Por fazer ver e entender além do meu limite. Eu nunca vou poder agradecer a você o suficiente por ser minha amiga.E um "extremado-Gabrielle-abraço" deixou a guerreira sem graça, disse apenas:
- Vai almoçar, estão te esperando.
Assim que acabou de almoçar Gabrielle foi até o celeiro.
- Xena o que você queria conversar comigo?
- É sobre a sua atitude de hoje. Gabrielle, você me deixou preocupada.
- Minha atitude... Te deixou preocupada... Com o quê, Xena?
- Com as suas atitudes contraditórias, as suas repentinas mudanças de opinião.
- Atitudes contraditórias... Mudanças de opinião... Não estou entendendo, Xena?
- Se você não me interromper eu posso explicar.
- Pode falar, não vou mais te interromper.
- Gabrielle, primeiro você era noiva de Perdicas e então decide ir para a Academia e termina o noivado; Então, me conhece, quis deixar a Academia para ser minha ajudante; E, agora, quase deixa a Academia e a mim, para casar com Perdicas. Ta entendendo, ou vou ter que explicar de novo?
Gabrielle estava atônita olhando para ela. Ficou sem saber o que dizer. A guerreira conclui:
- É, eu acho que você realmente ainda não sabe o que quer.
- Engana-se, eu sei sim. Se eu quase aceitei o pedido de casamento de Perdicas foi porque senti pena dele. Eu já o havia magoado antes, não queria magoá-lo novamente, não naquele momento em que eu pensava que ele iria fazer uma besteira. Quanto a ser sua ajudante, eu realmente quero isso e sei que serei, assim que sair da Academia.
- Agora quem está enganada é você, pois você já provou que pode e é a minha ajudante. Ah, e antes que você me dê um abraço daquele, quero avisar que estou com agulha e linha na mão e que acabei de reforçar a costura do meu traje de baixo.Mesmo assim, isso não foi empecilho para a barda deixar de dar um abraço carinhoso naquela tão querida guerreira.
Antes mesmo do dia previsto, elas partem para Atenas. Gabrielle havia pedido para Xena que não queria ficar mais ali com medo que o seu relacionamento com o seu próprio pai se tornasse impossível.
Dias depois, quando chegaram a Atenas, ao saírem do cais, encontram-se com um velho conhecido da guerreira.
- Xena! Foram os deuses que me guiaram até aqui para te encontrar! - disse um homem velho e de roupas extravagantes.
- Oi, Tynus, o que é que há?
- É Aglaia, ela está precisando muito da sua ajuda.
- O que aconteceu?
- Os irmãos Lucius e Virgilius estão querendo tomar a casa de show de Aglaia.
- Tomar?
- É, primeiro eles quiseram comprar por uma ninharia. Aglaia não quis vender. Então eles deram um prazo para Aglaia assinar a compra da casa por bem ou por mal. Foi isso o que disseram. Você pode nos ajudar, por favor?
- Xena e eu iremos ajudá-los. - respondeu de imediato a Barda.
- É, vamos. - disse Xena olhando seriamente pra barda.
- Oh, graça a Zeus! - exclamou o homem levantando as mãos para o céu.
- Não, graças a Gabrielle. - corrigiu a guerreira e pergunta: - Ainda tem alguma hospedaria ou pensão lá por perto?
- Tem sim, mas porque a pergunta?
- Porque antes de ir ver Aglaia quero encontrar um lugar pra me hospedar com a minha amiga.
- Xena, vocês podem se hospedar lá mesmo. Imagina se Aglaia vai deixar vocês irem para outro lugar.
- Tynus, não posso levar Gabrielle para lá, digo, nos hospedar por lá. Entendeu por quê? - Xena fez sinal com a cabeça indicando a barda.
- Ah, entendi... Mas quanto a isso não se preocupe, a casa tem duas partes distintas. Vocês podem ficar no lado residencial.
- Nós vamos. - disse Gabrielle olhando pra Xena e dando um meio sorriso para ela.
- Então venham, por favor, me sigam. Estou com a minha charrete aqui, vim buscar esses dois tonéis de licor, além de procurar ajuda, posso dar uma carona para vocês.
- Gabrielle vai com você na charrete e eu vou em Argo. - disse ajudando a barda a subir.Ao chegarem na cidade, Tynus da à volta por trás da casa, dizendo:
- Vamos entrar pelos fundos, pois pode ser que tenha algum espião lá na frente.
Entraram pelos fundos daquela casa que, por fora, era extremamente colorida em tons de rosa, azul, verde, amarelo, vermelho escuro, marrom e lilás. Gabrielle estava espantada, pois nunca vira nada igual. Percebendo, Xena cochicha ao seu ouvido:
- Quase as cores do arco-íris. Prepare-se agora para ver por dentro.
Assim que passaram pela cozinha que era igualzinha a tantas outras, adentraram no grande salão. Gabrielle não só arregalou os olhos como ficou de boca aberta com o que estava vendo. As cores da parede eram rosa com ornamento em dourado; as quatros colunas gregas eram serpenteadas por parreiras e algumas com pequenos cachos de uvas verdes; inúmeros divãs forrados de vermelho ladeavam as paredes; no centro, ao alto, um enorme lustre de cristal com inúmeras velas, que no momento estavam apagadas por ser ainda de dia; e circulando embaixo deste lustre, no chão, várias mesas redondas com quatro cadeiras cada uma, todas cobertas por panos verdes; na lateral do lado direito da larga porta da frente uma espaçosa escada forrada com tapete vermelho que conduzia para o andar de cima. "E sabe Zeus o que tinha por lá"._ pensou Gabrielle.
Xena olhava divertida para a barda que parecia tonta de tanto que o olhar dela percorria aquele salão.
- Xena! Tynus não poderia ter arranjado ajuda melhor. - disse a mulher de roupa vermelha esvoaçante que acabara de adentrar no salão e indo rapidamente abraçar a guerreira.
- Como está Aglaia? Tynus já nos pôs à par do que está acontecendo. - disse a guerreira se desvencilhando dos braços dela, dizendo ao mostrar a barda: - Esta é a minha amiga Gabrielle, lembra dela?Aglaia dá uma olhada de cima a baixo na barda e depois diz:
- Quase não a reconheci. Já é uma moça!
Gabrielle sorri.
- Aglaia, eu quero um lugar discreto, sem contato com o lado festivo da casa para deixar Gabrielle. - disse Xena.
A barda olhou indignada para Xena e se dirigindo para Aglaia disse:
- Ela pensa que eu ainda sou uma criança. Sei que eu sou aprendiz, mas sou sua ajudante. - disse essas últimas palavras olhando e apontando com o dedo indicador o peito da guerreira, que olha feio para ela.
- Vocês duas podem deixar que eu sei como resolver isso. - disse Aglaia se dirigindo a escada e as chamando com um aceno de mão para que as seguisse.O topo da escada dava para uma imensa parede ornamentada de pequenos quadros, mas tinha duas laterais: a da direita levava a uma estreita parede com um quadro pendurado e a da esquerda ao corredor com vários quartos. Aglaia se dirigiu a lateral da direita onde, ao levantar o quadro de flores pregado na parede, a própria parede se abre. Ela explica:
- Está é a passagem não tanto secreta que dá acesso aos dois lados das casas.
- Perfeito. Belo esconderijo. - disse Xena olhando de um lado ao outro e percebeu que eram mesmo duas residências distintas, porém essa outra era bem menor e mais simples.Aglaia as levou para um quarto ao fim do corredor, dizendo:
- Esse é o quarto ideal para vocês, pois dá acesso ao celeiro, onde vocês poderão entrar e sair sem que alguém as vejam.
- E dá também para ver quem entra na casa da frente. É o lugar perfeito pra ficar vigiando tanto a entrada como os fundos. - disse a guerreira espiando a rua pela fresta da cortina.
- Tinha certeza que você iria aprovar, Xena.Nesse momento Xena procura por Gabrielle que estava muito calada e a vê admirando o cômodo. O quarto era bem espaçoso, todo em cor salmão bem claro com cortinas brancas; uma enorme cama com colcha cinza e branca cobrindo-a; um armário grande, uma mesa com duas cadeiras e um lampião em cima dela; num canto, havia um anteparo móvel feito de folhas de madeira fina articuladas por dobradiças e revestidas num pano enfeitado com desenhos orientais, peça esta que dividia o espaço e criava um recanto resguardado e que escondia uma enorme tina cravada no solo. Ficou maravilhada. Olhou pra Xena, que riu.
Aglaia, maliciosamente, após olhar de uma para a outra, diz:
- Acho que vocês preferem agora tomar um banho, acertei?
- Desesperadamente. Uma das coisas chatas de viajar de barco, é que não tem água doce pra tomar banho. - respondeu Gabrielle.
- Como eu previ. Já mandei que preparassem o banho pra vocês. Agora me dêem as roupas sujas que a minha lavadeira vai cuidar pra vocês. E essas que vocês estão usando ela pega depois.Gabrielle abre a bolsa e tira de dentro uma saia e um top iguais aos que ela estava usando.
- O que é isso? - perguntou Aglaia ao ver a roupa de dormir da barda.
- É a minha roupa de dormir.Aglaia olha para Xena, que lhe dá aquele olhar, que lhe era peculiar e que ela conhecia muito bem, o de suspender levemente a sobrancelha, achou melhor guardar pra si o que achara da tal roupa de dormir. E ao se dirigir à porta, diz:
- Sei que vocês devem estar cansadas e famintas. Vou mandar trazer uma comida especial pra vocês enquanto a água quente pro banho não chega. O sabão e os panos de banho estão naquela pequena cômoda perto da tina. Tem também sais e óleo de banho.
- Aglaia, você acha que os tais irmãos podem vir hoje?
- Duvido. Eles foram se esbaldar numa festa bem distante daqui. Como hoje aqui não tinha mesmo função, é dia de folga das meninas. Você está realmente mudada, Xena, nem perguntou pelas meninas.Xena esperou Aglaia sair para dizer pra barda:
- Gabrielle, você me prometeu que vai obedecer todas as minhas ordens, se lembra?
- Claro, Xena, senão você não me traria para cá.
- Vai me obedecer?
- Vou.
- Então não discuta comigo quando eu mandar você fazer alguma coisa.
- Pode deixar, eu vou acatar calada.Xena olhou desconfiada pra ela.
- Já separou a roupa suja? - perguntou a barda desviando o olhar.
- Já.
- Então me dê aqui que eu vou levar pra lavar.
- E você sabe onde é?
- Não, mas eu acho.
- Nada disso. Não quero você andando por aí e entrando em lugar que pode ser perigoso.
- Xena, se tem algum perigo aqui é do outro lado da casa. - protestou a barda.
- Gabrielle, você prometeu...
- Sim, Xena, está bem.Nisso Aglaia entra acompanhada por duas mulheres que traziam o almoço. Diz:
- Não bati porque a porta estava aberta. Algum problema?
- Não, a gente só estava conversando. - disse Xena.
- Quando vocês acabarem de comer vão até meu quarto que eu vou esperar. - diz e antes de sair pega as roupas sujas.Depois de comerem com prazer a deliciosa comida e de Xena ter esperado a barda se deliciar com a sobremesa, vão até o quarto de Aglaia. Entraram, pois a porta estava aberta. Gabrielle ficou surpresa com o colorido do quarto, igual a outra casa, um verdadeiro arco-íris. A única coisa discreta ali era as cortinas brancas. Xena ficou olhando a barda que parecia perdida no meio de tantas coisas coloridas.
- Gostaram do meu quarto? - perguntou Aglaia vinda de um aposento ali reservado.
- Vejo que você não mudou, Aglaia. O quarto é igualzinho àquele lá de Corinto.
- E você continua uma excelente observadora, Xena.
- Certamente não foi para mostrar o seu quarto que você nos chamou aqui.
- Não. É que achei melhor mostrar as duas casas para vocês agora, aposento por aposento, aproveitando que tem pouca gente no momento e no final da tarde chegam as meninas. Ah, Gabrielle, na volta, tenho uma coisa para dar pra você.A barda arregalou os olhos.
Aglaia mostrou todos os aposentos daquele lado da casa e depois demonstrou como passar pro outro lado da outra casa, que consistia apenas em abrir a janelinha onde ficava, do outro lado da parede, a moldura. E que através da transparência da tela dava para espiar se não havia ninguém para poder passar. Passando para a casa de show, Aglaia mostrou o andar de cima e adentrando ao longo corredor, foi mostrando os quartos de cada uma das suas meninas, onde também recebiam os fregueses. Xena notou que a barda estava corada e com os olhos bem arregalados. Depois desceram e foram para o salão.
- Você banca os jogos, Aglaia? - perguntou Xena alisando a coberta verde de uma mesa.
- Não. Esta não é uma casa de jogo. Mas os fregueses podem jogar entre eles. Você sabe como os homens são, adoram um jogo.Quando voltaram para a casa que iam ocupar, Aglaia chama Gabrielle e a leva até o seu quarto. Xena a espera no corredor um pouco apreensiva com aquela novidade.
- Como eu disse, tenho uma coisa para te dar, não chega a ser um presente, mas está nova e eu nunca usei.
Aglaia pegou de cima da cama e deu pra Gabrielle que ficou fascinada com que via e estava sentindo nas mãos. - uma roupa de dormir branca de tecido fino e transparente.
- É lindo! Nunca vi nada igual! - exclamou a barda passando o tecido na face.
- Eu ia te dar em vermelho, mas por enquanto não é a cor ideal pra você.
- Eu nunca vi nada igual. - repetiu a barda.
- Use-a esta noite.Gabrielle sorri, agradece e sai. Encontra Xena encostada na porta do quarto delas com as mãos na cintura e com aquela expressão que ela tão bem conhece, que era de preocupação.
- Aglaia me deu um presente. Uma linda roupa de dormir. - disse a barda entrando no quarto e ao colocar a roupa encostada no corpo, diz para Xena:
- Dá pra imaginar uma camponesa que nem eu vestida nesta roupa tão fina? Talvez essa seja a roupa de dormir que as princesas usam.Xena olhou bem e teve vontade de dizer que não importava que roupa ela usava, pois era encantadora de qualquer jeito. Mas calou-se e ficou perturbada com tal pensamento. Apenas sorriu. E Gabrielle pensou "Só quero ver quando eu vestir essa roupa se ainda ela vai achar que sou um neném".
Perceberam que o banho estava pronto. Xena colocou os sais e o óleo de banho sem espiar a barda se despir, ela ainda estava cismada com aquele pensamento. Durante o banho, após lavar as costas da guerreira, Gabrielle se vira para que Xena lavasse as suas costas. No entanto a guerreira ficou olhando para aquelas costas nuas a sua frente e teve ímpetos de não só acariciar como de querer percorrê-la com seus lábios e depositar lá beijos ardentes. Levou um choque com tal pensamento que derrubou a esponja.
- Xena, o que foi? - pergunta a barda sem se virar.
- Foi a esponja que escapuliu da minha mão e caiu. Demorei a achá-la por causa da espuma. - mentiu a guerreira e logo a seguir começa a massagear as costas da barda com a própria mão, queria sentir a maciez daquela pele e com as pontas dos dedos fez uma massagem nos ombros e na nuca.
- Obrigada, Xena. Estava mesmo precisando. - disse Gabrielle dando uma palmadinha na mão da guerreira.Depois de lavarem os cabelos uma da outra, Xena se encosta na lateral da tina e fecha os olhos tentando não pensar em nada.
- Você tem razão, Xena, é relaxante mesmo. - disse a barda se sentando ao seu lado.
Ao sentir o contato da coxa dela na sua, Xena afasta a perna com cuidado para a barda não notar.
- Você já deve ter algum plano em mente, Xena, o que é?
- Não, ainda não. Primeiro quero conhecer melhor os dois canalhas, depois eu vejo como agir. - respondeu sem abrir os olhos.
- Xena, o que há? Você está estranha.
- Sou assim mesma, Gabrielle. É que estou preocupada como devo agir. - falou ainda de olhos fechados.
- Então eu vou ficar caladinha aqui ao seu lado para não atrapalhar seus pensamentos. - e fechou os olhos também.Instantes depois, Xena sai do banho e veste a calça cavada e o roupão. Senta-se na cadeira e pega a espada que estava em cima da mesa junto com o chakram e começa a afiar com uma pedra lixa. Gabrielle que havia saído junto com ela, estava agora vestida na tal roupa de dormir que ganhara e ao ficar na frente do espelho diz admirada:
- Pelos deuses! Estou praticamente nua!
Ao levantar a cabeça e ver o porquê a barda dissera aquilo, Xena fica estática e com a boca ligeiramente aberta. Ficou encantada com o que via, Gabrielle estava lindíssima naquela roupa que generosamente deixava ver os encantos daquele corpo que já possuía desejáveis curvas. Não disse nada, limitou-se agora a polir a espada. Mas arriscava a espiá-la toda vez que passava ao seu lado.
Quando puxou a colcha da cama, Gabrielle diz admirada:
- Olha só o pano de cama, Xena... É de seda!
Xena levanta a cabeça e dá uma espiada e vê a barda sentada na cama deslizando a mão no pano até deitar de lado, dizendo:
- Eu nunca dormi numa cama como essa. Num pano como esse.
- Seda perolada é um lindo pano. - disse a guerreira sem saber por que fizera esse comentário.
- Já estou arrumando a cama pra dormir. - avisou Gabrielle ajeitando os dois travesseiros e ao abrir a coberta percebe que é de casal. Sorri. Depois olha pra Xena e pergunta: - Você não vem dormir?
- Daqui há pouco. Depois de limpar o chakram.
- Não demora, temos que acordar cedo.Gabrielle se deitou e ficou quieta na cama. Xena acabou de limpar o chakram e começou a lustrar a armadura peitoral. De vez em quando olhava para a barda que continuava quieta. Demorava propositalmente. Terminada as tarefas se aproximou da cama e percebeu que Gabrielle ainda continuava virada pro outro lado do lugar que ela iria ocupar, ela estava de olhos fechados. A barda estava cada vez mais linda, pensou Xena. Tirou o roupão e só de calça, como de costume, com muito cuidado deitou na cama. Deu as costas para Gabrielle, como sempre fazia, se ajeitou e fechou os olhos.
- Você demorou. - disse a barda se virando pra ela e se aconchegando em suas costas.
- Você ainda está acordada? Pois devia estar dormindo.
- Agora sim, vou dormir. Boa noite, Xena.
- Boa noite, Gabrielle. - respondeu quase num sussurro.Xena ficou pensando em que situação ela se encontrava: num lugar como aquele, numa cama igual aquela, com uma linda mulher agarrada a ela, usando uma roupa como aquela e ela seminua... O que pensaria Aglaia ou quem quer que fosse que entrasse ali naquele momento. Suas noites estavam se tornando um martírio. Sim, um doce martírio. Não sabia como arranjava força pra manter o juízo no lugar. Sabia sim, na inocência da barda.
Continua...