A Barda e a Guerreira

By SOMARQ

 

 

 

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No dia seguinte.

Xena acordou Gabrielle que, mais uma vez, dormira em seus braços. Fizeram um rápido desjejum, pegaram Argo no celeiro e foram para o barco.

- Já sabe, assim que começar o enjôo é só comprimir o pulso de leve. - avisou Xena e, vendo a expressão apreensiva da garota, avisa: - Vou levar Argo pro porão. Leve as nossas coisas pra cabine.

Gabrielle levou as duas bolsas, os cobertores, as mantas e o seu cajado. Estava no corredor procurando o número da sua cabine, quando vê uma mulher toda vestida de vermelho. Inclusive, também em vermelho, as botas de cano curto e salto alto. Trazia na cabeça um imenso chapéu branco enfeitado de rendas e plumas vermelhas. Atrás dela havia quatro homens carregando aos pares as duas arcas enormes que colocaram na cabine dela.

Antes de entrar na sua cabine, Gabrielle percebeu que a mulher ficara olhando-a insistentemente.

Depois que colocou as coisas na cabine, Gabrielle foi ao encontro de Xena.

- Vim ajudar. Deixe que eu cuido de Argo. Você limpa a sela dela.

Xena entrega a escova pra barda e virando-se pra égua diz:

- Aí garota, vai receber um tratamento todo especial, hein?

Gabrielle conta sobre a mulher esquisita que vira e percebe que Xena ficara estranha, pensativa.

- Está me parecendo que você a conhece.
- Por que você diz isso? - perguntou a guerreira sem parar de escovar a sela.
- Porque você ficou estranha, pensativa. Pela descrição que fiz, te lembra alguém?
- Uma velha conhecida. Mas pode ser outra pessoa. Bem, já que terminamos, que tal a gente tomar um banho agora, aproveitando que ainda é água do rio?
- Ótima idéia. E depois a gente vai almoçar.

Depois de encherem a tina da cabine, as duas se refrescaram, uma de frente pra outra.

- Xena esta tina é muito pequena. Quase que não deu a gente dentro. Até eu estou com as pernas encolhidas!
- Gaby, é que esta tina... é só para uma pessoa. - disse Xena controlando o riso.
- Oh, por que você não disse? Eu tomava banho depois. Posso sair...

Não terminou a frase, pois Xena a segura pelo braço impedindo-a de se levantar, dizendo:

- Está bom assim.
- Só quero ver como vamos lavar as costas uma da outra.

Xena ainda se controlando pra não rir, pega o sabão e envergando-se para frente, puxa a barda pra si, dizendo:

- Assim.

Numa forma de abraço, Xena começa a lavar as costas da barda. Sentindo-se assim envolvida, Gabrielle encosta o rosto no ombro da guerreira e fecha os olhos. Notando que a barda estava gostando, Xena resolve fazer-lhe uma massagem. Instantes depois, meio a contragosto diz:

- Hei, não vale dormir!

A barda, meio atônita, se afasta um pouco.

- Agora é a minha vez. - disse Xena entregando o sabão para ela e acrescenta: - Depois, quero uma massagem também.

Para que Gabrielle pudesse ensaboar as suas costas, Xena se encolheu e encostou o queixo no ombro dela. O coração da barda estava aos saltos com aquela situação inusitada. Os cheiros da pele e dos cabelos da guerreira estavam a inebriando. Ela não queria que aquele momento terminasse tão depressa, por isso massageava bem lentamente. Só então percebeu que, quando Xena a massageou, não se encostou nela. Mas ela, por ter os braços pequenos, estava completamente abraçada no corpo da guerreira, sentindo aqueles lindos e fortes peitos nos seus. Era uma sensação que a barda, não saberia explicar pra si mesma, porque se sentia tão feliz.

Por outro lado, Xena ao sentir o contato do corpo da barda em si, ficou apreensiva. Pois não queria que a menina se assustasse com isso. Ficou imóvel, quieta, simplesmente. Depois, ao se afastar, disse:

- Você tem mãos de fada e aprendeu rápido a fazer massagem.
- Eu disse pra você que sou boa aluna e que posso ser melhor ainda como ajudante.
- O que você quer dizer com isso?
- Que quero ser sua ajudante.
- Gabrielle, você é uma barda.
- Não importa o que eu sou ou o que eu serei, contanto que eu possa estar sempre junto de você.
- Nós vamos estar sempre juntas, Gabrielle, mas nas suas férias da Academia.
- Sabe Xena, eu estive pensando, não preciso ir para a Academia. Eu...
- Gabrielle, você não pode se deixar influenciar pela nossa amizade. - interrompeu Xena e conclui: - Eu quero ver você formada Gabrielle, quero ter orgulho de saber que ajudei a realizar esse teu sonho.

Gabrielle olha para ela e dá um pequeno e conformado sorriso.

- Agora vamos, estou com fome. E, pra você, nem preciso perguntar, já escutei duas vezes o seu estômago se manifestar. - disse Xena respingando um pouco de água no rosto da barda que havia corado.

Ao saírem para almoçar, ainda no corredor do barco, Xena indaga:

- Qual é a cabine, Gaby, que a tal mulher está?
- A número um.
- Bom, melhor assim, duas cabines antes da nossa e não muito perto. Porque se for quem eu estou pensando..._ disse Xena caminhando na frente.
- Mas esse barco é tão pequeno, só tem quatro cabines, duvido que a gente não vá se encontrar com ela.
- Se for quem eu estou pensando, não vamos não. - disse apressando o passo e já subindo a escada.
- Por quê? - perguntou Gabrielle ao alcançar Xena no convés.
- Porque, essa pessoa, só sai da cabine quando o barco aportar.

Bem que Gabrielle tentou tirar mais alguma explicação da guerreira. Mas, esta se manteve irredutível. Acrescentou apenas que era passado e que não queria falar sobre isso.

Durante a viagem, como da outra vez, toda noite, Gabrielle contava histórias para os passageiros e tripulantes do barco.

Em três dias, antes do prazo previsto, chegaram ao porto de Atenas.

- O meu cálculo de viagem era de chegar um dia antes, mas chegamos com um dia a mais. - disse Xena atrelando Argo.
- E eu agora tenho mais dois dias para usufruir da sua companhia. - disse Gabrielle alisando a crina de Argo e conclui: - De você também, Argo.

A égua relincha balançando a cabeça. E, mais uma vez, Xena teve que controlar o riso.

Quando estavam saindo do barco, Xena, de repente, dá uma volta por trás da égua, ficando ao lado de Gabrielle e encolhendo a sua postura, ocultando-se.

- Xiii!... - advertiu a guerreira levando o dedo indicador aos lábios, indicando assim para que ficasse quieta.

Mas, ao passarem pela pequena ponte que ligava o cais à cidade, alguém grita:

- XENA! XENA!

Gabrielle pára e olha para trás. Não havendo outro jeito, a guerreira faz o mesmo.

- Xena! - chama a mulher de vermelho já se aproximando.
- Oi, Aglaia. - responde Xena indo ao encontro dela, dando antes o arreio de Argo pra Gabrielle e fazendo sinal para que ela ficasse ali.
- Não vai me dizer que estava no mesmo barco que eu?
- É, parece que sim.

A mulher abraça Xena, beija-a na boca e segurando-a pelos braços, diz:

- Xena, você desapareceu... Eu e as minhas meninas sentimos falta de você. Por onde tem andado?
- Por aí. - diz Xena dando uma espiada na barda que, mesmo distante, estava atenta.
- Quanto tempo você pretende ficar aqui em Atenas? - perguntou Aglaia ainda sem largar os braços de Xena.
- Alguns dias.
- Então vá me visitar. As meninas vão adorar te ver.

Depois de apertar a mão dela ao se despedir, Xena foi puxada e beijada na boca novamente. Desconcertada, a guerreira olha para trás.

Olhando para onde Xena olhara, a mulher pergunta, seguindo-a:

- Aquela garota está com você?
- Está sim. - respondeu Xena parando.
- Eu a vi no barco. Ela é mesmo uma gracinha. Quanto quer por ela?

Gabrielle arregala os olhos. Xena nota e se apressa em responder:

- Ela não está à venda. Ela não é minha escrava.
- Bem, eu pensei que...
- Gabrielle é uma amiga.
- Bom! É que ela faz bem o meu tipo.
- O seu tipo?! Não sabia que você gostava de mulher. - disse Xena abaixando a voz, depois que a puxou para um lado.
- É, de mulher não gosto não. Gosto é deste tipo: cara de menina, corpo de menina, sem nenhuma forma, sem peito... É, ela faz bem o meu tipo.

Xena olhou de soslaio e viu que a barda estava com as sobrancelhas contraídas, parecia bastante irritada, indignada. Sem dúvida que escutara.

- Já que é só sua amiga, será que ela não toparia ir lá pra casa?

Xena olhou novamente pra Gabrielle e, antes que ela pudesse abrir a boca para dizer alguma coisa, disse:

- Gabrielle é comprometida.

Depois que Aglaia se afasta, notando que a garota estava por demais calada, coisa totalmente fora da sua característica, Xena pára de andar e virando-se para a barda, pergunta:

- Está chateada?
- Xena, eu sou tão desprovida assim?

Fingindo que não havia entendido a pergunta, a guerreira diz:

- Do que é que você está falando, Gaby?
- Do que ela disse de mim.

Xena ao perceber a expressão de tristeza no rosto da jovem barda, diz levantando o queixo dela com as pontas dos dedos:

- Não tenha pressa, Gabrielle, você ainda está em desenvolvimento. Eu, na sua idade, já tinha o tamanho que tenho, mas não tinha o corpo que tenho hoje.

Os olhos da barda voltaram a brilhar e um enorme sorriso se estampou naquele angélico rosto. Xena sentiu-se arrebatada por aquele inusitado momento. E, ao pegar as rédeas de Argo, diz:

- Bem, vamos andando. Conheço uma taberna onde faz um frango cozido que é quase igual ao da minha mãe.

Xena falara isso para animar a jovem barda que logo mostrou interesse enchendo-lhe de perguntas. Xena gostava de vê-la assim: agitada, eufórica e gesticulando muito enquanto falava. Interrompeu-a:

- Primeiro vamos caminhar um pouco por aqui mesmo em Cândia, onde fica a tal taberna. Depois, como temos dois dias pela frente, vou levá-la a uns lugares muito bonitos, antes de irmos para a cidade de Atenas.
- Vai dar tempo de conhecer a cidade toda de Atenas?

Xena rir e percebe que, a menina, não tinha noção do tamanho daquela cidade. Responde:

- Não, mas vai dar pra conhecer o principal: os lugares mais bonitos da periferia da cidade de Atenas.

Assim que chegaram na tal taberna, as duas despertaram a atenção de todos que ali estavam. Xena não gostou dos olhares que, mesmo depois de se instalarem numa mesa ao fundo, ainda lhes eram dirigidos. Quando a servente se afastou, Xena avisa pra Gabrielle:

- Assim que acabarmos de comer vamos embora. Não estou gostando nem um pouco desses olhares curiosos e dos fuxicos.
- Ih, Xena, deixei o meu cajado na sela. Acha que eu deva ir lá buscar? - perguntou bastante preocupada.

Xena se segurou pra não rir. Tranqüilizou-a dizendo:

- Não creio que vai haver briga por aqui. O que está acontecendo é falação da vida alheia. E eu odeio isso.

Quando a servente chegou e destampou a panela com o frango cozido, Xena olhou de imediato para Gabrielle. A barda tinha fechado os olhos para sentir melhor o delicioso aroma e, depois, arregalou-os quando viu dentro da panela. Esfregou um lábio no outro, saltando um gemido. A guerreira desta vez não se conteve, mas sorrindo discretamente.

- Posso te servir? - perguntou a barda sem tirar os lhos da comida.

Xena estendeu-lhe o prato. E enquanto Gabrielle lhe servia, a guerreira encheu de vinho os dois copos.

No final do almoço a guerreira comenta:

- Acho que só vão parar de olhar pra cá, quando formos embora.
- Já está querendo ir? Xena será que podemos levar o resto deste delicioso frango pra comermos mais tarde na estrada?

Xena balançou a cabeça consentindo e demonstrando a seguir, ao balançar a cabeça pros lados, que a barda não tinha jeito mesmo. Depois, quando estavam saindo, um homem grita:

- Depois que foi destronada, só lhe restou essa escrava pra consolo, Destruidora?

Xena pára na porta, quando ia fazer menção de se virar e responder a provocação, Gabrielle a impede segurando-lhe o braço e pedindo:

- Não reaja, não dê esse prazer a eles. Eu não ligo que pensem que sou sua escrava. Vamos? Por favor, Xena...
- Está bem. - disse entre os dentes a guerreira.

Porém, as gargalhadas das pessoas, dentro daquela taberna, iriam ecoar por muito tempo na cabeça da guerreira.

- Estou orgulhosa de você, Xena. - disse Gabrielle envolvendo o seu braço no da guerreira.
- Mas, eu não posso dizer isso de mim mesma.
- Pois deveria. Você conseguiu se controlar, não revidou quando a chamaram de... - Gabrielle calou-se, pois não queria magoá-la.
- De a Destruidora, pode dizer. - completou Xena com desdém e conclui: - Era o que eu era mesmo.
- Por que não fazê-los chamá-la, daqui pra frente, de A Defensora, A Guerreira, A Princesa Guerreira como a Lao Ma a chamou, aquela que defende o fraco e o oprimido? Lute, Xena, contra aqueles que a querem derrubar; derrube-os também a favor do bem. E eu posso te ajudar.
- Como me ajudar?
- Estando ao seu lado.
- Mas você já está ao meu lado.
- O que eu estou querendo dizer, Xena, não é só agora, neste momento e sim, para sempre.
- Gabrielle... já discutimos isso. - disse Xena parando na frente dela.
- Xena, eu sei que posso ser muito útil pra você.
- Será muito mais na Academia. Não é só por você, ou pela sua mãe e sua irmã Lila, mas é que eu também quero vê-la formada.
- Mas Xena...
- Não me decepcione Gabrielle.

Gabrielle olha pro chão, depois a olha novamente e, um pouco triste, diz:

- Não vou te decepcionar.
- Boa menina. - disse Xena assanhado-lhe a franja.

Na estrada, quando as duas estavam montadas em Argo, Gabrielle vê algumas pessoas saindo de um bonito templo, pergunta para Xena:

- Que templo é aquele?
- De Afrodite.
- Gostaria de ir lá. Podemos ir?

Xena não diz nada, apenas muda de percurso e a leva até lá.

Gabrielle entra devagar, demonstrando muito respeito, olhando tudo atenciosamente e admirada diz:

- Como isso aqui é bonito! Também, para a Deusa do Amor e da Beleza, tinha que ser um lugar especial. Xena, você sabia que Afrodite é a minha deusa favorita?

A guerreira não respondeu, ficou olhando divertida para ela que olhava admirando tudo em sua volta, sem ousar tocar nos objetos ali expostos. Ao parar na frente do altar de Afrodite, a barda viu a estátua da deusa e antes de colocar lá um pequeno pergaminho diz:

- Que estátua linda! Aposto que Afrodite é muito mais bonita que...

Não conseguiu acabar de completar o que ia dizer, pois a deusa materializou-se a sua frente, ao lado da própria estátua. E Gabrielle cai sentada no chão.

- Afrodite!!! - reclama Xena num tom de repreensão, pela deusa ter assustado a barda daquela maneira.
- Xena, você a conhece?! - pergunta Gabrielle admirada, ainda sentada no chão.
- Digamos que sim. - responde a guerreira.
- Pelos deuses!... - exclamou Gabrielle olhando pra deusa.
- O que foi, criança? - perguntou a deusa para a garota que a olhava ainda espantada e sendo levantada por Xena.
- Como você é bonita!... Linda mesmo!
- Xena, eu gostei dela. Ela é tão sincera.

A guerreira revirou os olhos a esse comentário.

Sem tirar os olhos de cima da jovem garota, que estava completamente fascinada com a sua presença, Afrodite pergunta a Xena:

- Mas, o que a traz aqui Xena?
- Gabrielle queria conhecer o seu templo.
- Ah, Gabrielle... lindo nome. - disse a deusa olhando divertida para a garota.

Gabrielle coloca o pequeno pergaminho no altar. Afrodite vê e pergunta:

- O que é isso que você colocou no meu altar?
- Como eu não possuo nada de valor que eu possa lhe ofertar, fiz um poema de coração.
- Que bonitinho... Traga-o aqui.

Gabrielle pegou o pergaminho do altar e quando ia estendê-lo para a deusa, ela lhe diz:

- Leia-o para mim.

Gabrielle desenrolou o pergaminho e compenetrada lê:

"Eu canto,
a Deusa do Amor e da Beleza Eterna,
para que ouça a sua humilde serva,
neste poema em forma de oração,
que faço para exaltar a sua mente
e o seu doce coração.
Eu enalteço,
a mulher que tu és,
que és mais do que um sonho.
que és também a esperança
e a maior força que suponho.
Eu louvo,
a deusa mais bela,
apenas para fazer da vida algo que valha mais
e com o seu amor trazer pro mundo a paz".

 

Gabrielle estava completamente ruborizada. Afrodite se aproxima e, pondo a mão no queixo da garota, diz:

- Menina, eu nunca recebi um poema como esse.
- Sinto muito, me perdoe, eu ainda não sou uma barda. - desculpou-se Gabrielle abaixando os olhos.
- Olhe para mim, criança. Eu disse que nunca tinha recebido um poema como esse, mas não disse que não tinha gostado.

Gabrielle a olha espantada. Então, Afrodite pega o pergaminho da mão dela e diz:

- Menina, você é a primeira pessoa que não me pede nada para si, assim como: um amor, se tornar mais bela ou uma mulher mais desejável... Enfim, essas pequenas coisas que vocês mortais costumam me pedir. E, ao invés de só exaltar a minha beleza, você exaltou a minha mente e o meu coração, pedindo para o mundo a paz. Isso é inaudito, até para mim que sou uma deusa. - e, virando-se para a guerreira, pergunta: - Xena, onde você a encontrou?
- Foi ela quem me encontrou. - respondeu a guerreira.

Afrodite, virando-se para Gabrielle, diz baixinho:

- Por que não me pediu o amor de quem você ama?

Gabrielle enrubesce, pela deusa saber do seu recente segredo. Porém, assim mesmo responde:

- O amor se tiver que acontecer tem que ser por ele mesmo, não por feitiço. E, essa pessoa tem que gostar e me amar do jeito que eu sou.
- Definitivamente, eu gosto de você.

Xena um pouco incomodada pelo cochicho das duas se aproxima perguntando:

- Vai atender o pedido dela, Afrodite?
- O pedido de paz não é o meu departamento. E, se, eu tentasse trazer a paz para o mundo, isso ia fazer com que eu entrasse em confronto direto com o meu irmão Ares.
- Ele não gosta de mim. - disse Gabrielle.
- Tentou até matá-la. - contou Xena.

Afrodite se aproxima mais de Gabrielle e dá-lhe um beijo na face dizendo, antes de sumir:

- Pois, você tem a minha proteção e ele vai ficar sabendo disto.

Assim que a deusa some, Gabrielle com a mão na própria face, diz encantada:

- Xena, ela... me... beijou!
- É, ela gostou de você.
- A Deusa do Amor e da Beleza gostou do meu poema, gostou de mim...
- E te deu a proteção dela. Isso é bom. Dá até pra ficar um pouco aliviada. Só assim, Ares, vai pensar duas vezes antes de querer fazer alguma maldade contra você, a protegida de Afrodite.
- Você acha mesmo?
- Acho, assim espero.

Novamente na estrada, Xena pergunta pra Gabrielle:

- O que foi que Afrodite lhe confidenciou?

Gabrielle montada atrás de Xena e agarrada a ela pôde esconder seu embaraço e mais calma disse:

- Não foi uma confidência, ela me perguntou se eu queria ter... um amor.
- E o que você respondeu?
- Que se fosse por feitiço, não queria não.
- Ah, então você está pensando em namorar! - disse Xena sorrindo.

A barda preferiu ficar calada e não retrucar. E a guerreira não insistiu.

Chegando na cidade de Elêusis, Xena diz, antes de desmontar:

- Vamos ver se dá para passar essa noite aqui.

Entraram numa taberna que também era uma hospedaria e após fazerem o pedido, sentaram à mesa num canto.

- Sopa de legumes!... - disse Xena aborrecida.
- Eu gosto. E com a fome que estou... - disse Gabrielle dividindo o pão e colocando um pedaço no prato de Xena.
- Sem dúvida que você é a melhor companheira de viagem que já tive. Você não reclama de nada!
- Não reclamo? E no barco?
- Aí é diferente, você sente enjôo.

Nisso, a servente chega com a sopa e a coloca em cima da mesa. Xena dá uma olhada e pergunta:

- Não tem nenhum pedacinho de carne aí?
- Não, senhora, só legumes. Hoje só temos essa sopa. - responde a servente antes de se afastar.

Gabrielle começa a servi-la.

Xena olha para a sopa no prato e diz:

- Estou começando a entender como você se sente no barco, acho que vou vomitar.
- Ah, Xena, não reclama. Prove. Está uma delícia. - disse a barda comendo com gosto.
- Mas hoje eu queria comer carne. Comi sopa noutro dia.
- Mas esta sopa está uma delícia, Xena, você vai gostar.

Xena responde com um grunhido.

A servente chega com as duas canecas de vinho.

- Pelo menos isso pra contrabalançar...

Gabrielle sentiu-se constrangida perante o desprazer da guerreira, disse meio sem graça:

- Xena, obrigada por não ficar zangada comigo.
- Porque você deu a comida que tínhamos para aquelas pessoas na estrada? Não poderia. Aquela gente estava precisando mais do que nós.
- Obrigada assim mesmo.

Quando terminaram de jantar, Xena diz ao se levantar:

- A comida foi uma decepção, só quero ver o quarto que vão arranjar pra gente.

Chegando no balcão, primeiro pagou a conta e, quando ia perguntar sobre o quarto, alguém põe a mão em seu ombro dizendo:

- Olha só, se não é a Princesa Guerreira!

Xena, mesmo antes de se virar, já sabia quem era.

- Como vai Atma?
- Agora bem melhor. Quanto tempo Xena!

As duas se abraçam.

Gabrielle olhou para a mulher que, também usava couro, armadura e armas, percebeu logo que se tratava de uma guerreira. Ela era muito bonita, cabelos louros ondulados na altura dos ombros. E um corpo perfeito que a barda não pôde deixar de admirar.

- Xena, me disseram que você tinha sido expulsa pelo seu próprio exército. - disse a loura ainda segurando os braços de Xena.
- E é verdade. - respondeu a guerreira.
- Mas como foi isso? Eles ficaram loucos? Melhor líder que você, eu não conheço. O que foi que aconteceu?
- Foi Darphus, ele vivia questionando a minha liderança. Um dia, quando eu fui resolver um problema pessoal, ele aproveitou e liderou ataques a umas aldeias matando todos os homens, mulheres e crianças também.
- Aquele desgraçado! Aquilo é um animal, uma besta!
- Quando eu soube do ocorrido, o qual eu acabei levando a fama, quis expulsá-lo, mas ele já tinha conquistado mais da metade dos homens a favor dele. E o restante se acovardou, me deixando só.
- É verdade que você passou pelo "corredor"? Ninguém nunca conseguiu...
- Eu consegui. O meu ódio me deu força para suportar toda a dor. A única coisa que eu queria era vingança. E foi o que eu fiz, matei aquele canalha.
- E quanto aos outros, você não quis recuperar o seu exército?
- Não, isso não me interessa mais.
- O que houve com a Xena que eu conheci?

Xena olha pra Gabrielle, que estava muito quieta no seu lugar, coisa que não era normal, em se tratando da jovem barda, respondeu:

- Não sou mais a mesma. - disse olhando de novo pra barda.
- Não mesmo?! Bem, certas coisas nunca mudam. - disse Atma, também olhando pra Gabrielle, conclui: - Mas, Xena, essa sua escrava ainda é muito novinha, quase uma menina. Que eu me lembre, você sempre preferiu as mais incorporadas. Essa aí é uma tábua.

Xena olhou de imediato para Gabrielle que estava com os olhos arregalados e, mais do que espantada com aquelas palavras, estava indignada. E antes que a barda pudesse dizer alguma coisa, a guerreira esclarece:

- Gabrielle não é minha escrava.
- Hum... Vejo, então, que você arranjou um brinquedinho.
- Não é o que você está pensando, Atma. Gabrielle é minha amiga.
- Ah, sei! - disse examinando e olhando com malícia para Gabrielle.
- É verdade, Atma. Eu a estou levando para a Academia na cidade de Atenas.
- Bem, não importa. - e colocando a mão na cintura de Xena, pergunta: - Você vai se hospedar aqui?

Xena olhou pra Gabrielle que estava com uma expressão muito triste.

Como a guerreira demora pra responder, Atma diz:

- Se for, deixe a menina no quarto e vá até o meu. Temos muito que... conversar.
- Não, nós não vamos pernoitar por aqui. - ao terminar de falar, Xena percebeu que a barda mudara de expressão, já não parecia tão triste.
- Entendo, tem que levar a garota para Atenas. Olha, eu devo ficar por aqui mais três dias, é o tempo suficiente de você voltar. Se eu não tivesse um compromisso de trabalho, eu ia com vocês.

Após se despedirem e de Atma, novamente, dizer que iria ficar esperando por ela, Xena, totalmente desconcertada, se afasta com Gabrielle. Assim que montam em Argo, Xena avisa:

- Vamos ter que dormir na floresta. Decididamente, eu deveria ter pegado outra estrada. Que dia!

Xena estranhou que, durante a curta cavalgada, a barda se mantivesse calada. E essa já era a segunda vez que isso acontecia.

Chegaram a uma clareira perto do rio.

Xena acendeu uma fogueira e se aproximou de Gabrielle que estava arrumando as mantas no chão.

- Está chateada comigo?
- Não, com você não.
- Com quem então?
- Comigo.
- Com você? Mas por quê?

A barda senta-se na manta, enquanto diz pesarosa:

- Por eu ser assim como sou.
- Como assim, Gabrielle? - pergunta agachando-se ao lado dela.
- Uma coisinha insignificante.
- Gabrielle! - a guerreira a repreende.
- É isso mesmo, Xena. E, não adianta você dizer que eu estou em desenvolvimento, se os outros não me vêem assim.
- Ah, já entendi. Gabrielle, não ligue para o que a Atma disse.
- O que ela falou é a verdade.
- Gabrielle, você nem bem completou dezoito anos, não vá querer se comparar com uma mulher de quase trinta como Atma e eu. Tenho certeza que você vai ser uma linda mulher, porque agora você é uma linda garota.

Gabrielle olhou para Xena, que sorriu para ela. Sem que a guerreira esperasse, a barda num ímpeto de ternura atira-se em seus braços, derrubando-a para trás. Depois, meio sem jeito, ainda em cima da guerreira diz:

- Oh, me desculpa Xena. Eu só queria te abraçar.
- Isso que é um "extremado-Gabrielle-abraço!" - disse Xena segurando-a em seus braços e sorrindo.

Assim que o dia clareou, Xena abriu os olhos e além de sentir a respiração suave da barda em suas costas, percebeu que a mão dela estava em cima de sua cintura. Era, realmente, uma menina muito espaçosa, pensou Xena, mas isso a agradava muito. Levantou com cuidado a mão da barda da sua cintura e a colocou na própria cintura dela. Então, levantou-se e foi para o rio pescar.

Quando voltou com os dois belos peixes nas mãos, a barda estava sentada na manta ainda meio sonolenta.

- Bom dia, dorminhoca.
- Bom dia, Xena. Por que não me acordou para ir pescar com você?

Xena olhou de soslaio para ela e disse brincando:

- Só se fosse pra você servir de isca, dormindo em pé.
- É, você tem razão, estou com tanto sono... - disse bocejando e espreguiçando-se.
- Vamos fazer o seguinte: enquanto os peixes assam, vamos tomar um banho no rio, que tal?
- Só assim eu acordo. - disse a barda lentamente se levantando.

Quando estavam comendo, Xena comenta:

- Como ainda temos um dia e estamos próximas do caminho que leva a colina...
- Onde estão o Templo de Atenas, o Propileu e o Pártenon?
- É. Pelo que vejo, você, realmente, lê muito.
- Podemos ir, Xena... Podemos? - pergunta Gabrielle completamente eufórica.
- Claro, era isso que eu ia propor. Assim que acabarmos de comer, partiremos.

A estrada para a colina era um pouco movimentada. Além dos fiéis, havia também os comerciantes. E isso, de certa forma, incomodava Xena, pois tinha que redobrar a sua atenção para não ser surpreendida.

Assim que chegaram no alto da colina, foram visitar o Templo de Atenas, onde Gabrielle fez uma oferenda com flores, que ela havia cuidadosamente colhido no meio do caminho e com uma maçã_ que ao invés de comê-la, ofertou-a a deusa, sob o protesto de Xena.

Foram ao Propileu, a porta monumental da Acrópole. Depois, Gabrielle ficou um bom tempo parada, admirando o Pártenon_ o maior e mais belo santuário não só da cidade de Atenas como de toda a Grécia. Ali elas ao entrar, passaram pelos dois guardas que estavam ladeando a porta - que de tão imóveis pareciam estátuas. Assim que entraram, Gabrielle arregalou os olhos o mais que pôde ao ver a monumental estátua de Atena. E, se encanta também, com o mármore do templo, que mudava de cor conforme a luz cambiante das tochas que estavam sendo acesas, variando de ouro e mel à rosa e cinza.

Xena que, não tirava os olhos de cima da barda, divertia-se com todo o espanto e admiração dela. A guerreira sabia que estava realizando um dos sonhos daquela menina. E se sentia bem, até muito feliz, por isso.

Depois, Xena avisou a Gabrielle que elas tinham que partir. Durante toda a descida da colina, Xena foi ouvindo o relato encantado da barda sobre o que ela acabara de ver.

Chegaram a uma grande praça, que ficava em frente ao Altar dos Doze Deuses, onde ficava o mercado aberto. Vendia-se de tudo ali, era um dos mercados mais importantes da Grécia. Igual aquele, só o de Corinto. Xena contou isso pra Gabrielle.

Ao se aproximarem da praça, tanto Xena quanto Gabrielle, perceberam que as jovens atenienses olhavam em direção a elas, mesmo quando passavam os olhares as seguiam. Assim que se aproximaram de uma barraca de roupas, ouviram duas garotas comentarem: "Mas de onde será que essa garota veio? Que roupa horrível!". A outra disse: "Pela roupa, só pode ser uma camponesa ou uma escrava. Coitada!". E se afastaram.

Xena olhou pra Gabrielle e percebeu que ela estava com os olhos rasos d’água. Perguntou para a dona da barraca:

- O que você aconselharia a uma jovem como ela a se vestir?

A mulher deu uma olhada em Gabrielle, que nesse momento estava surpresa olhando para Xena. A mulher diz:

- A mesma roupa que todas as jovens atenienses estão usando.

A mulher pegou uma saia marrom curta e uma blusa também marrom com frisos azuis e dourados em volta do decote, da cintura e das mangas curtas.

Xena pegou as duas peças e entregou a Gabrielle dizendo:

- Vamos, experimente.
- Como? Você quer que eu mude de roupa aqui?!
- Não, sua boba. Entre ali naquela barraca estreita e experimente a roupa.

Finalmente, havia chegado o momento certo que Xena estava esperando para tentar modernizar a sua jovem companheira que, vestida daquele jeito, não tinha como não passar por sua escrava. Xena não quis dizer isso para Gabrielle; não queria magoá-la, dizendo que suas roupas destoavam com aquela cidade. Roupas de camponesa, já um tanto gastas, mas, no entanto causavam uma estranha e boa sensação na guerreira. Xena realmente gostava de vê-la vestida naquele conjunto simples de saia comprida, blusa, cinto e casaquinho. Que deveria ser a melhor roupa de Gabrielle.

A barda saiu da barraca, ainda ajeitando a blusa que era transpassada e que amarrava por trás.

Xena ficou olhando-a se aproximar, agora estava vendo-a com outros olhos. Já não lhe parecia mais uma menina e sim, uma jovem garota.

- Ficou perfeito em você.
- Você acha? Ficou mesmo?
- Lindo.
- É a primeira vez que ponho as pernas de fora e a cintura também. Será que fiquei bem mesmo, Xena?
- Ficou perfeito em você.
- Pelo menos estou igual àquelas duas que falaram da minha roupa.
- As atenienses estão copiando e fazendo uma mistura das roupas de guerreiras com as das amazonas. Mas ficou muito bem em você, deixou de ser aquela menininha.

O rosto de Gabrielle se iluminou e virando-se para a vendedora perguntou:

- Tem, também, na cor verde?
- Acabou tudo. Esse era o último. Talvez pra próxima semana.
- Essa cor fica muito bem em você. - disse Xena fingindo não compreender a razão dela querer comprar outra roupa igual.
- Você acha mesmo?
- Não mentiria pra você. Marrom, verde, azul igual ao que você estava usando antes, tudo fica bem em você.

Gabrielle ficou radiante, dava pra ver o brilho que recendia dela.

- Então vou ficar vestida nele.
- E a outra roupa?
- Vou lá pegar.

Enquanto Gabrielle foi pegar a roupa, Xena pagou a vendedora, depois foi se encontrar com a barda que estava saindo da barraca com a velha roupa nas mãos.

- Sabe, Xena, esta roupa está tão velha e puída que eu acho que vou jogar fora.
- Me dá isso aqui. - disse Xena pegando a roupa e colocando-a dentro da sua bolsa de montaria, que trazia pendurada no ombro.
- O que você vai fazer?
- Tenho um destino melhor para ela. Agora vamos. Tem uma taberna do outro lado da praça, onde servem uma carne de javali que irá me fazer esquecer daquela maldita sopa de ontem. E como sei que você é doida por javali...
- Humm... - respondeu a barda lambendo os lábios.

Ao atravessar a praça, Xena pára numa barraca e compra um pequeno e arredondado recipiente para bebida e o coloca preso em sua cintura, enquanto Gabrielle lia um pergaminho que estava pendurado numa haste. A guerreira chamou pela barda duas vezes. Como não obteve resposta, puxou-a pelo braço. A barda então protesta:

- Xena, eu estava tentando ler o pergaminho. Era uma coisa sobre um calendário Julio...
- Ah, sei. O calendário Juliano.
- Você sabe do quê se trata?
- Sei.
- Então explica.
- Está bem, eu vou explicar, mas lá dentro da taberna.
- Tá bom... E eu é que levo a fama de gulosa.

Xena lança um olhar para ela e balança a cabeça como a dizer que, aquela garota não tinha jeito mesmo.

Na taberna. Enquanto esperavam ser servidas, Xena explica:

- O pretensioso Júlio César criou o seu próprio calendário.
- O calendário Juliano! - completou Gabrielle.
- Isso mesmo. Assim, César, acabou com o calendário romano - que era uma coisa que nunca entendi, pois não tinha datas fixas; o ano era de dez meses e de vinte ou cinqüenta e cinco dias, que variavam de acordo com os trabalhos da agricultura, das idéias políticas e religiosas.
- E esse também é diferente do nosso?
- Esse, pelo menos, é quase parecido com o nosso, porque o ano também tem doze meses de trinta dias, só que, acrescidos de cinco dias complementares e um período que, de quatro em quatro anos há um ano bissexto de trezentos e sessenta e seis dias.

Chega a servente com a carne e Xena pede duas canecas de vinho. Esperou que a barda a servisse como ela sempre fazia, mas percebeu que ela estava completamente absorta e que a olhava admirada.

- O que foi Gabrielle?
- Xena, eu tenho aprendido tanto com você por esses dias que, acho que nenhuma academia poderá me ensinar mais do que a convivência diária com você.
- Gaby, já falamos sobre isso. Você vai me deixar aqui esperando? Estou morta de fome. - diz apontando à travessa na mesa.

Gabrielle que já havia ficado esmorecida, ao se dar conta da iguaria, se anima e começa a servir a guerreira.

À noite, no quarto da pousada, após arrumar a cama para dormirem, Gabrielle se aproxima de Xena que estava lustrando as botas.

- Xena, aquilo que você me disse, naquele celeiro em Cálcis, é verdade mesmo?
- Sobre o quê?
- Não se lembra?
- Falamos de tantas coisas, Gaby...
- Que eu sou a sua luz. Sou mesmo?
- Você é a minha luz.
- Eu não a entendo Xena, mesmo sabendo que eu sou a sua luz, por que não me quer junto a você?
- Pela última vez, Gabrielle: primeiro você vai para a Academia. Depois, quando se formar e se ainda quiser, poderá seguir comigo nas minhas viagens.
- Tá bom... Mas, enquanto isso, você promete que a gente vai se encontrar nas minhas férias?
- Não só prometo, como virei sempre buscá-la e levá-la também. Agora vá dormir, pois amanhã bem cedo iremos para a Academia, para você se apresentar.

Não tendo o que argumentar, Gabrielle não diz nada, muda de roupa e deita-se. Um pouco mais tarde, pensando que a barda havia dormido, Xena despe-se e deita ao lado dela.

- Vai sentir a minha falta? - disse Gabrielle encostando-se nas suas costas.
- Como não sentiria? - disse sem poder se virar.
- É mesmo, não vai ter ninguém pra ficar te questionando, fazendo perguntas idiotas.
- Gaby, você não faz perguntas idiotas.
- Mas te encho de perguntas.
- Ah, é, isso é verdade.
- Xena! - disse protestando e dando um leve tapa nas costas da guerreira.

Xena ri e diz:

- Gabrielle sabia que você é muito divertida? Vou sentir a sua falta.
- Ah, então, só vai sentir a minha falta porque eu sou divertida, eu sou uma...
- Amiga maravilhosa. - completou Xena ainda sem se virar.

Gabrielle ficou em silêncio por alguns instantes. Xena fechou os olhos e abriu-os logo a seguir quando escutou o que a barda disse:

- Vai se encontrar com Atma?
- Não. Tinha até me esquecido dela.
- Mas agora que eu te lembrei, vai se encontrar com ela? - perguntou um pouco aborrecida.
- Não.
- Por quê?
- Não quero remexer o passado.
- Vai para Amphipolis?
- Vou. Tenho que me certificar que está tudo bem por lá.
- Vai falar com a sua mãe?
- Não sei.
- E depois o que vai fazer?
- Vou continuar com a minha viagem.
- Não gosto de pensar em você sozinha por aí, com tanto perigo e Ares a te tentar.

Xena virou-se de frente para ela dizendo:

- Já não sou mais a mesma de antes, a Destruidora de Nações. Agora sou uma guerreira a serviço do bem. E isso graças a você, Gabrielle.

Com lágrimas nos olhos, Gabrielle a abraça. Xena, um tanto desconcertada, diz:

- Não vá chorar.
- Não, não vou.

Pouco depois, com a jovem barda adormecida em seus braços, Xena ainda estava pensando no quanto irá sentir a falta daquela menina. E no quanto, Gabrielle, havia se tornado importante para ela.

Acordaram cedo e foram para a Academia.

- Agora, você entra e vai lá se inscrever. Eu a espero aqui. - disse Xena conduzindo-a até o portão.

Ao voltar para a praça, foi então que Xena percebeu que estava ali também um grupo de pais ansiosos. Ficou um pouco afastada daquelas pessoas que a olhavam curiosas.

- E essa agora, hein Argo? Olha só o quê essa menina me faz passar! - disse baixinho para a égua.

Transcorrida toda manhã e nenhum sinal de Gabrielle. Xena, que já havia percorrido todo o local em volta da Academia, já estava ficando impaciente, quando os portões se abriram de novo e os jovens saíram para se encontrarem com os seus familiares. Gabrielle quase correu ao encontro de Xena.

- Como foi? - perguntou Xena.
- Me colocaram no segundo ano. - disse a barda numa expressão mista de alegria e tristeza.
- Não entendi.
- Eles fizeram uma avaliação com a gente, para saber o nível de conhecimento de cada um. Então, eles acharam que eu não preciso cursar o primeiro ano. Por isso, foi que me colocaram no segundo ano. Agora, só terei que freqüentar a Academia por mais... três anos! - disse Gabrielle tornando-se a desanimar.
- Mas isso que é uma notícia boa! - disse a guerreira tentando também convencer a si mesma.
- Eles nos deram um tempo para que possamos almoçar e nos despedirmos de nossos familiares. - disse a barda de olhos baixos.

Xena, com a ponta do dedo indicador levanta o queixo da garota e diz:

- Não fique assim, Gaby. Vamos almoçar?

Com muito custo Xena conseguiu arrastar Gabrielle para a praça. Chegando lá percebeu que, tanto a taberna quanto a hospedaria, que ficavam perto da Academia estavam lotadas pelos estudantes e seus familiares. As duas, então, preferiram pegar os seus pratos e canecas e foram se sentar na borda do chafariz da praça, bem em frente ao portão da Academia.

- Xena, você vem me visitar?
- E posso? Eles permitem?
- Na verdade, não. Mas a gente pode dar um jeito nisso.
- Aposto que você já sabe como.
- Atrás da Academia fica o jardim perfumado, é o único lugar onde os alunos não costumam freqüentar, por causa do forte perfume das flores. De lá dá pra ver aquela colina ali. - disse apontando para um lugar onde havia uma árvore baixinha.
- Já entendi. De lá eu posso te ver no jardim.
- É isso, pelo menos assim poderemos nos ver. O único dia da semana que temos folga é no domingo na parte da tarde, onde temos o direito ao lazer que quisermos. Só não podemos sair da Academia.
- Então vamos combinar como nos encontraremos. No final deste mês, no último domingo, virei te ver.
- Vem mesmo?
- Estou dizendo.
- Você vai estar vindo de onde?
- De Amphipolis.
- Quando vai partir?
- Amanhã de manhã, já lhe disse.
- Você vai passar a noite naquela hospedaria?
- Que hospedaria?
- Ah, Xena, aquela onde... Atma está te esperando. - disse a barda olhando-a seriamente.
- Não. Eu também já lhe respondi isso. - e olhando para o prato da barda, diz: - Gabrielle, você ainda não tocou na comida.
- Perdi a fome.
- Isso é incrível! - brincou Xena.
- Estou com medo.
- Medo? Medo de quê?
- Medo de que você se esqueça de mim.

Xena ficou um pouco sem jeito, mas disse firmemente:

- Vamos, coma. Se não vou ficar zangada contigo

A barda obedece. Mas, Xena percebe o quanto estava custando a aquela garota, junto com a comida, engolir o pranto.

Instantes depois, o sino da Academia toca chamando os alunos. E aí, a barda não se contém e começa a chorar.

- Oh, não, Gaby... Por favor, não torne isso um suplício para mim.
- Oh, Xena... Eu vou... sentir muito... a sua falta. - disse a barda passando as costas das mãos nos olhos.
- No final do mês venho te ver.
- Vem mesmo?
- Venho.

Gabrielle levanta-se, pega a bolsa e o cajado, aproxima-se de Argo e abraça-a dizendo:

- Argo, também vou sentir a sua falta. Toma conta de Xena.

Quando se aproxima de Xena, esta lhe diz:

- Isto aqui é seu.

Gabrielle reconhece a pequena sacola de dinares que sua mãe lhe dera. Ao perceber que estava cheia pergunta:

- Que dinares são esses, Xena?
- Não está reconhecendo a sacola?
- A sacola estou sim, mas os dinares eu gastei.
- Não, está todinho aí.
- Mas, Xena, eu não posso...
- Você não vai querer me ver zangada, vai?
- Oh, Xena! - disse Gabrielle abraçando-a pela cintura e encostando a cabeça no peito dela.

A guerreira olhou para os lados com um pouco de receio, por causa da demonstração de afeto da garota. Mas, percebeu que, todos ali só estavam preocupados em se despedir dos seus entes queridos.

O sino toca de novo e uma das portas do imenso portão é fechada, sinal que era a última chamada. Xena, então, diz:

- Vá Gabrielle, eu confio em você.
- Não vá se esquecer de mim, Xena.
- Nunca.
- Eu vou estar te esperando.
- Estarei aqui.

A guerreira fica olhando a barda entrar e sente um aperto no peito. Depois, virando-se para Argo, diz:

- É, garota, estamos novamente sozinhas, você e eu.

Xena cavalgou até o anoitecer. Pernoitou na floresta e, bem cedo, cavalgou em direção ao porto. Chegando lá, após tratar da sua ida para Amphipolis, foi dormir na mesma hospedaria que dormira com a barda.

Tinha acabado de tomar banho, quando entrou no quarto e sentiu o "cheiro".

- Apareça Ares! - disse pegando a espada em cima da cama.
- Você é a única mortal que pressente a minha presença, Xena. - disse o Deus da Guerra materializando-se.
- Eu diria que sinto sim, esse cheiro de cachorro sarnento que você tem. - disse Xena, ainda com a espada em riste.
- Porque que, toda vez que apareço, você puxa a espada?
- Para mantê-lo bem longe de mim.
- Você sabe que a espada não me impede e eu não consigo ficar longe de você, Xena, não consigo. Bem, já que, finalmente, aquela pirralha insignificante não está mais aqui, acho que podemos conversar.
- Não temos nada para conversar.
- Engana-se, Xena, temos muito.
- Se manda Ares. Estou muito cansada, quero dormir.
- Tudo bem, já esperei até agora... - disse o deus desaparecendo.

Xena pega a bolsa de montaria, coloca-a em cima da cama e, ao puxar a escova de cabelo vê a velha roupa da barda. Tira-a de dentro e estende na cama: a saia com o cinto, a blusa e o casaquinho.

- Gabrielle... - sussurrou deslizando a mão pela roupa.

Um mês depois, num domingo, logo após o almoço, Gabrielle correu para o jardim. Olhou para a colina, não havia ninguém. E, antes que começasse a chorar, disse pra si mesma:

- Calma, Gabrielle, ainda é cedo. Ela virá.

Então, começou a andar de um lado para o outro. De vez em quando olhava para a colina e o seu coração apertava. Quando estava de costas para lá ouviu um assobio familiar. Virou-se rapidamente, era ela. Acenou-lhe de volta, não apenas com a mão, mas com o coração.

A guerreira deixou Argo na sombra de uma pequena árvore e desceu a colina desaparecendo da vista da barda por uns instantes. Mas, logo após, num esplêndido salto, senta-se no muro. Gabrielle emocionada diz:

- Xena...
- Achou que eu não viria?
- Meu coração nunca duvidou. - disse num suave sorriso.

Um pouco desconcertada pelo que acabara de escutar, a guerreira diz, entregando um pequeno embrulho a barda:

- Trouxe uma coisa para você.
- Por que você não desce? - perguntou a barda pegando o pequeno embrulho.
- Não sei se devo. E se alguém me ver, o que pode acontecer? Eu não sei que conseqüência isso poderia causar a você.
- Pode ficar sossegada, ninguém vem aqui. Porque aqui não tem muito espaço e também por causa do odor das flores.
- Ninguém mesmo? Tem certeza?
- Só o jardineiro, mas ele só vem aqui de manhã.

Enquanto espera pela decisão de Xena, Gabrielle abre o embrulho e vê um bom pedaço de bolo de nozes com mel.

- Humm... - sussurrou cheirando o bolo.
- Sabia que você ia gostar. - disse a guerreira rindo.
- Desce Xena, eu também tenho uma coisa para você.

A guerreira após inspecionar bem o lugar dá um salto parando na frente da barda, que a abraça, dizendo:

- Xena senti tanto a sua falta. Principalmente a noite.

A guerreira ri e, ao olhá-la de cima à baixo, pergunta:

- Gabrielle que roupa é essa?
- É uma toga. É a roupa que usamos aqui. - disse a barda mostrando uma espécie de túnica creme, comprida e presa na cintura por um cordão marrom. E calçava sandálias, também, marrom.

A guerreira achou um horror, mas não disse nada.

- Você foi para Amphipolis? - perguntou Gabrielle saboreando o bolo.
- Fui.
- E como foi? Falou com a sua mãe? Está tudo bem por lá? E agora você vai fazer o quê? Aonde vai?... Xena, por que você não responde?
- E você deixa?! - disse a guerreira com as mãos na cintura.
- Oh, me desculpe... Mas fala!
- Bem, como eu disse, estive em Amphipolis. Mas quando cheguei, os soldados de Mezentius já haviam fugido. Agora está tudo em ordem por lá.
- E a sua mãe, você não falou com ela?

A guerreira deu um suspiro, demonstrando contrariedade, mas respondeu:

- Não quis nem me ver, quanto mais falar comigo.
- Xena, você promete que quando vier me buscar, vai me levar para Amphipolis para eu conhecer a sua mãe?
- Ainda com essa idéia na cabeça?
- Promete?
- Está bem, prometo.
- E agora o que você vai fazer?
- Vou ajudar um amigo. Um ex-soldado meu, super fiel e, que não estava no dia da traição, já tinha deixado o grupo.
- E o que você vai fazer?
- Greg tem uma pequena fazenda aqui na periferia, junto com o irmão Tulius. Os dois têm famílias. Greg tem cinco filhos e o seu irmão tem sete. Duas ninhadas! Amanhã bem cedo vou levar as suas famílias para a casa de um primo deles em Cândia. Depois volto e vou ajudá-los a acabar com uns bandidos que andam atacando por lá.
- Então você vai ficar aqui por perto?
- Vou.
- Então poderá vir me ver aos domingos.
- Não poderei Gabrielle. Não enquanto eu não conseguir acabar com a raça daqueles facínoras. Não poderei me ausentar de lá.
- Mas quando isso tudo terminar?
- Venho te ver, prometo.

O sino toca.

- Por que está tocando?
- É a chamada para o lanche.
- Sei, seu momento predileto. - disse Xena provocando a barda.
- É o meu segundo momento predileto, pois há um outro que eu gosto mais.
- E qual é, eu posso saber?
- O momento em que me encontro com você.

Pela primeira vez a guerreira não soube o que dizer e nem mesmo como agir, ficou embaraçada.

Gabrielle diz, colocando a mão no ventre da guerreira:

- Eu disse que eu tinha uma coisa para dar pra você.
- E o quê é?

Gabrielle tira o cordão do pescoço e diz:

- Isso é para você não se esquecer de vir me buscar nas minhas férias.

Após a barda ter colocado o cordão no seu pescoço, Xena diz:

- Não vou me esquecer nunca de você, Gabrielle. Estarei lá na frente do portão no dia combinado. Mas antes virei vê-la.

A barda a abraça com ternura e chora. Xena fica sem jeito com a demonstração de sentimento da barda, diz:

- Vai perder o lanche.
- Não importa, eu não quero é perder você.
- Não me perderá, porque eu te encontrei.

 

Quarenta e cinco dias depois, numa tarde de domingo, Gabrielle chega no jardim e avista na colina Argo pastando. Fica eufórica, mas não vê Xena.

- Está me procurando?_ pergunta alguém atrás dela.
- Xena!_ exclama Gabrielle se virando e se atirando nos braços da amiga.

Xena ri e após abraçá-la, entrega-lhe um embrulho.

- Será que é o que eu estou pensando? - disse Gabrielle abrindo logo o embrulho e contata: - É isso mesmo! Xena, eu adorei esse bolo, é delicioso.
- Eu percebi naquele dia. Como é que você está?
- Sentindo muita falta de você.
- Estou perguntando aqui na Academia, como você está se saindo?
- Muito bem. Tenho tirado as melhores notas e por causa disso me passaram para a turma do terceiro ano.
- Gabrielle, que maravilha! Eu não disse que você já era uma barda! E quanto aos professores e os seus colegas?
- Fiz amizades... Os professores gostam de mim, mas...
- Mas?
- Mas eu sinto que está faltando alguma coisa.
- Faltando o quê? Diga que eu trago pra você.

Gabrielle ri e perante a expressão confusa da guerreira, explica:

- Está faltando você. Sinto falta da sua companhia, das nossas conversas ao redor da fogueira, nas mesas das tabernas e de dormirmos olhando as estrelas.
- Eu também sinto. Mas daqui a alguns meses estaremos juntas. Agora, que tal mudar de assunto?
- Você conseguiu expulsar os bandidos da fazenda do seu amigo?
- Conseguimos. Tivemos que esperar um bom tempo. Enquanto isso nos preparamos. Fizemos armadilhas pela fazenda toda e nas fazendas vizinhas. Nos revisamos durante a noite. Até que numa noite o tal de Titus e seu bando atacaram.
- O que aconteceu? Você os prendeu?
- Bem, nenhum bandido escapou, foram todos presos com exceção de uns três que morreram e do próprio Titus que tive que matar, pois ele ia apunhalar pelas costas o meu amigo Greg.
- Ai, Xena, ainda bem que não aconteceu nada com você. E agora o que você pretende fazer? Vai para onde?
- Como eu disse, estou vindo de Cândia, onde fui buscar as famílias dos meus amigos de volta para casa e agora vou para Corinto, tenho que pegar umas coisas que deixei lá.
- E depois?
- Vou para um vilarejo ao sul de Corinto. Parece que tem um Senhor da Guerra cobrando impostos aos camponeses.
- E depois?
- Venho te buscar.

Gabrielle estampou um sorriso tão luminoso que Xena teve a impressão que o dia tinha clareado mais um pouco.

De repente a barda olhou para o pescoço da guerreira e agora com uma expressão triste disse:

- Xena, você não está usando o meu cordão. Deve ter perdido na luta, não foi?
- Como eu poderia perder o presente dado por minha melhor amiga e tão valioso para mim? - disse puxando por baixo da alça esquerda do traje de couro o cordão enrolado nela, acrescenta: - Está enroladinho aqui pra não perder e pra me dar sorte.

Gabrielle tornou a sorrir daquele jeito luminoso. Xena ficou impressionada como ela conseguia isso.

- Venha, vamos sentar ali atrás daquele canteiro. - disse a barda puxando a guerreira pela mão.
- É, esse lugar é muito bonito e cheiroso. - disse Xena sentando-se ao lado dela.
- É mesmo. É tão cheiroso que os outros alunos preferem ficar no pátio. Ninguém sabe que eu venho para cá quando eu sinto muito a sua falta.
- Sabia que Argo, também, sente a sua falta?
- E eu também a dela. Trouxe uma maçã que quero que você dê a ela, dizendo que fui eu quem mandou. E essa é para você.

Xena pegou as duas maçãs e antes de morder a dela, perguntou:

- Você trouxe as maçãs... Como você sabia que iria se encontrar comigo hoje?
- Pressenti. Esqueceu que eu sou uma vate? Bem, na verdade, desde o domingo passado que tenho trazido as maçãs. Como você não veio eu as comi.

Xena riu balançando a cabeça como a dizer que, aquela garota, não tinha jeito mesmo.

- Quer um pedaço? - perguntou Gabrielle saboreando o bolo.
- Não, a maçã me basta.
- Xena, já pensou: a gente vai ficar seis meses sem se ver! - disse espantada, olhando pra guerreira e segurando na frente da boca o último pedaço do bolo.

Xena que acabara de dar uma mordida na maçã, acaba de mastigar e diz:

- Seis meses passam depressa, Gabrielle.
- Só se for pra você que vai ter muito que fazer, viajar, conhecer gente. Enquanto eu vou estar presa aqui na rotina de sempre.
- Gabrielle, não reclama. Isso faz parte do seu crescimento.
- Não creio que eu vá crescer mais do isso.

Em resposta, Xena assanha com a mão a franja da barda.

- Você foi para Elêusis? - perguntou a barda lambendo os dedos.
- Não. Fazer o quê lá?
- Visitar a sua amiga Atma.

Xena passou um olhar de censura pra barda que, deu um riso amarelo em troca.

- Nem precisei ir para lá, pois me encontrei com ela em Atenas.
- Encontrou? Onde? Mas você disse que não...
- Na estrada, quando estava levando as famílias dos meus amigos para a casa do tal primo.
- E vocês combinaram alguma coisa?
- Ela marcou outro encontro.
- Onde?
- Na nova casa de... de show de Aglaia._ disse Xena gaguejando ligeiramente.
- Onde?
- Aqui mesmo em Atenas.
- Você vai?
- Acho que não.
- Acha ou vai?

Xena suspirou fundo antes de responder àquele pequeno interrogatório:

- Não, não vou. Como já havia dito pra você, viajo hoje para Corinto.

O sino toca.

- Chamada para o lanche, Gaby.
- E o momento que você vai embora. - disse a barda pesarosa.
- Ah, vamos, Gaby, sem despedida e choro. - Xena levantou-se e erguendo a barda pela mão.

Gabrielle se atira nos braços dela, apertando-a num sufocante abraço e dizendo:

- Que espécie de amiga eu sou em deixá-la partir e ficar tanto tempo sozinha. Não, Xena, eu não posso te deixar sozinha.

Xena a puxa para mais perto e segurando-a pelos braços diz olhando-a nos olhos:

- Não vou estar sozinha, Gabrielle. Você estará sempre presente no meu pensamento.

E lá se foi a menina de novo a pendurar-se no pescoço da guerreira que, ainda não estava acostumada com tal demonstração de afeto. Mas gostava muito daquele jeito da barda. E sabia que iria sentir muito a falta dela durante aqueles meses que passaria sozinha.

Xena preferiu ir por terra para Corinto. Porque, antes, iria passar num velho templo abandonado e seguir depois para o sul de Corinto onde tinha um trabalho a fazer. Parou para pernoitar na primeira clareira. Ao desatrelar Argo, confidencia-lhe:

- É garota, nunca pensei que fosse sentir tanto a falta de alguém como estou sentindo daquela barda tagarela.

Argo relincha balançando a cabeça.

- Pelo que vejo você também.

Argo torna a relinchar e balançar a cabeça como a concordar.

- Até você sabe que ela é muito especial.
- Deu agora para conversar com cavalos, Xena?

A voz ressonou no mesmo instante em que ela sentira o "cheiro". E ele materializa-se a sua frente dizendo:

- Estou surpreso, não puxou a espada...
- Não quero sujá-la, acabei de limpá-la.
- Agora sim, você está como deve ser: uma guerreira solitária em busca de novas conquistas. - disse o deus aproximando-se da guerreira.
- Como sempre, está completamente enganado, Ares. - disse a guerreira se afastando.
- Eu acho que está havendo um equívoco, Xena. É você quem anda tentando se enganar fugindo do seu próprio destino.
- Destino? O que você entende disso? Você só entende de guerra, de luta, de morte. Cai fora! Se manda, Ares!
- Você está certa, Xena. Vou te deixar por uns tempos, para que você possa pensar melhor e perceber que o quê estou lhe oferecendo é o melhor pra você. Vou te provar que sei mais do destino que você supõe.

Depois que o Deus da Guerra sumiu, a guerreira arrumou um canto no chão para dormir. Ao tirar a armadura, desenrola o cordão preso na alça do traje e olhando para a pequena letra "G" dourada, que estava presa no cordão, diz quase num sussurro "Minha pequena barda". Depois o enrola de novo na mesma alça. Então, pega do fundo da bolsa a blusa azul da barda e quando ia levá-la ao nariz diz surpreendida:

- Mas o que está acontecendo comigo? - olha para a blusa e a coloca rapidamente dentro da bolsa e diz ainda espantada: - Quando foi a última vez que eu estive com alguém?... Sei do quê eu estou precisando.

A guerreira se levanta despindo-se rapidamente e se atira no lago. Ainda dentro da água, a guerreira, mais calma, diz:

- Preciso de companhia. Na primeira oportunidade... aquele ou aquela que me agradar... humm... preciso mesmo!

 

Continua...