
by Claro Espelho
Capítulo 1:
O tempo... Meu companheiro. Acompanhou-me no cume de minhas experiências, nas mais lindas emoções e cruciantes dores. Ensinou-me a sabedoria adquirida nas duras provas e a recuperar a esperança em meu próprio coração. Ajudou-me a acreditar quando a razão diz que não vale mais a pena...
Assim é minha história...
Outubro de 2000
_Lu, estou indo em casa e volto rapidinho, está bem?!?
_Certo, Irmã Angélica.
_Qualquer coisa, é só me bipar, ok.
_Tudo bem.
Saí em direção à clausura, com a finalidade de tomar o cafezinho das 09h00min. Por trabalhar em hospital, a regra era que sempre tivéssemos um reforço alimentar, a fim de proteger e manter nosso sistema imunológico em atividade total.
Antes de chegar ao meu destino, porém, uma visão paralisou meu ser por completo. Senti como se o sol tivesse passado a brilhar dentro do meu peito, o coração pulsava acelerado, as pernas não obedeciam, e meu cérebro?!?... Bom, esse, creio que sofreu uma descarga elétrica tão forte que pareceu ter entrado em curto.
_Que mulher é essa gente?!? Será que abriram a porta do céu, e esta angelical criatura fugiu de lá?!? Ou será que o paraíso desceu aqui hoje, e esqueceram de me avisar?!?... Pensei enquanto contemplava aquela bela mulher.
Não sei dizer quanto tempo se passou, até que voltei à realidade. O desejo era ir ao encontro dela, perguntar nome, endereço, telefone, enfim, fazer a ficha completa. Mas não conseguia me mover, minhas pernas não me obedeciam, e meus olhos se negavam a ter outro foco de visão que não fosse “ela”.
_Angélica, Angélica!!!! Acorda!!!! Você é uma freira, e não pode permitir esse tipo de sentimento, essa admiração exagerada, mulher!!!!!... Pensava comigo mesma, enquanto lutava interiormente com a força arrasadora do que estava sentindo.
Uma única certeza se fez maior e rompeu minhas barreiras e reservas: “preciso conhecê-la”...
Com um esforço imenso, consegui sair da letargia em que estava... Não sabia exatamente onde tinha que ir, o que afinal eu tinha que fazer...
Depois de ir e vir, próximo ao local onde ela estava, resolvi chegar ao departamento de pessoal, com a desculpa de obter algumas orientações sobre alguns projetos que estávamos pensando em realizar no setor de trabalho.
No momento em que decidi realmente vê-la de perto, já a haviam chamado para a entrevista, e não consegui realizar meu intento, mas num diálogo informal, e de forma bem “desinteressada”, questionei sobre o número de candidatos que estavam aguardando, e em particular sobre a moça que havia visto há poucos instantes atrás, mas não tive sorte, pois segundo a psicóloga fora uma das freiras que a havia chamado para uma entrevista.
Fiquei decepcionada por não ter tido o prazer de contemplar meu sol mais de perto, mas a partir daquele olhar, sua morada estava garantida em meu pensamento, e em meu coração, mesmo sem a consciência plena disso.
Voltei para o Laboratório, local onde exercia minha função dentro do hospital, e continuei a trabalhar normalmente, ou melhor, quase normalmente, pois a partir daquele instante algo em meu coração mudou radicalmente, embora ainda não compreendesse o que de fato havia ocorrido, ou tentasse negar o fato.
Não conseguia entender o que estava acontecendo comigo, pois a cada segundo a imagem daquela mulher surgia, sem pedir licença em minha mente, e por mais que procurasse fugir desta “tentação”, ela se tornava mais e mais forte, uma vez que meu coração acelerava, como se estivesse encerrando uma corrida de São Silvestre.
Minha noite foi tumultuada de sonhos, mas minha alma bem sabia quem era a causadora daquele tumulto interior em que havia mergulhado.
Capítulo 2:
No dia seguinte, trabalhei normalmente durante a manhã, e no mesmo horário fui tomar o tão esperado cafezinho, mas ela não estava lá... O lugar por onde eu costumava passar já não tinha mais a mesma vida de antes. Sem a visão do meu sol, tudo parecia ter perdido a graça.
_Mas como?!? Perguntava-me. É possível sentir a falta de alguém que a gente nem conhece?!?Alguém a quem apenas nosso olhar contemplou uma única vez?!?... O que está acontecendo comigo, meu Deus?!?
Voltei ao meu setor e mergulhei no trabalho. Não demorou muito, fui chamada ao CTI para realizar uma coleta em um paciente, cujo acesso arterial estava bem complicado.
Passei pela secretaria e avisei onde estava indo, caso precisassem de algo urgente... Quando levei a mão para abrir a porta do laboratório, ao mesmo tempo outra irmã abre a porta, e adivinhem quem a estava acompanhando?!?.... Isso mesmo, o meu sol desconhecido!!!!!
Quase tive um ataque cardíaco... Meu coração parecia querer sair pela boca. Creio que todos naquele momento, ouviram o pulsar galopante ao qual ele se entregou.
Estava surpresa, e ao mesmo tempo feliz, uma felicidade que há muito tempo não sentia... Mas como isso era possível?!? Não nos conhecíamos, nem seu nome eu sabia, ainda assim, senti a vida circulando em minhas veias.
Irmã Aurora, que a estava acompanhando, quebrou meu silencio, injetando a dose da realidade em meu corpo...
_Irmã Angélica, quero que conheça Mayla. Ela é Assistente Social e vai trabalhar conosco a partir de hoje.
Nem mesmo sei onde encontrei voz para dizer: _Que bom Irmã Aurora!
_Mayla vai trabalhar no setor aqui ao lado e como conhece muito bem a realidade e o funcionamento de um laboratório, poderá lhe ser de grande ajuda, caso necessite.
Consegui reunir toda minha coragem, e estendi a mão à Mayla, dizendo do prazer em tê-la trabalhando conosco, que era bem vinda, e que se precisasse, com certeza, pediria sua ajuda sim, da mesma forma, também me coloquei à disposição, caso precisasse de algum auxílio.
Mayla estendeu-me sua mão, e quando este contato se fez, um arrepio percorreu minha espinha, da ponta do dedão do pé, até o último fio de cabelo.
Vê-la assim, tão próxima era mais do que havia pedido aos céus, tive a nítida sensação de que o que senti não foi imaginação, mas havia reciprocidade no ar e só podia lhe oferecer o que tinha de melhor naquele instante: um sorriso! Que foi correspondido inteiramente por ela.
Irmã Aurora e Mayla se foram. Mais uma vez, perdi a direção dos meus atos... Esqueci que estava indo ao CTI. Quando consegui retornar daquele estado, recordei do paciente que me aguardava...
-Puxa vida!!! Que será isso meu Deus?!? Pobre paciente, e agora?!? Como vou explicar a minha ausência no CTI?!? Pensei comigo mesma...
Retornei à secretaria. Liguei no ramal da bioquímica e pedi para verificar se haviam feito aquela coleta, pois ocorrera um imprevisto e não pude ir ao CTI.
_Está tudo certo Irmã Angélica, a Enfermeira de plantão colaborou e fez a coleta. Pode ficar tranqüila que o exame já está sendo processado.
_Que bom, Juliene! Obrigada.
Após esse encontro ansiado ter ocorrido de forma tão inesperada, fui para minha sala, fechei a porta, e fiquei um tempo tentando controlar minhas emoções.
_O que está acontecendo comigo?!? Acho que estou ficando louca... Preciso domar meus instintos... Custe o que custar... Calma Angélica, isso é apenas uma grande admiração que você está sentindo... É isso, nada mais. Só admiração, afinal, ela é linda, e é isso que você está contemplando, nada mais. Não há nada errado em olhar a beleza que Deus criou... _fiquei o restante da manhã, discutindo internamente, e arranjando desculpas justas para o que estava se passando comigo.
Por mais que lutasse contra, minha vontade era de estar ao lado dela no lugar de Irmã Aurora, e essa constatação me assustou. Fiquei com ciúmes por outra pessoa desfrutar da presença dela e não eu.
Nesse dia, mal consegui almoçar... Queria que o tempo passasse logo e quem sabe, tivesse a sorte de vê-la novamente, nem que fosse de longe!... Mas naquele dia isso não foi mais possível.
O final de semana, esperado por tantos, com a mais sincera ansiedade, trouxe consigo os planos meticulosamente elaborados. Aonde iriam, com quem iriam, e quem levaria isso ou aquilo, o aniversário de um ou outro enfim, cada um encontrava sua forma de diversão e relaxamento.
Em meio aos pensamentos, viajei àquela linda mulher! O que faria no final de semana?!? Será que era casada, ou namorava... Sei lá... Senti um aperto em meu peito só em imaginar que estivesse com alguém. Que coisa mais estranha! Como posso sentir isso, se nem a conheço, praticamente sei apenas seu nome... O que está acontecendo comigo, meu Deus?!?
Em meio aos devaneios, o final de semana passou, e restou apenas a sombra de uma esperança velada, a todo custo de que, o sol que aqueceu meu peito, através de um único olhar, pudesse reaparecer e novamente preencher meu interior.
Capítulo 3:
Inicio de mais uma semana!!! Cada um contando as peripécias do final de semana. Quem havia ficado com quem, enfim, os assuntos variados corriam soltos entre risos, e isso era interessante, por ser uma mera “segunda-feira”. Sabemos bem o peso que tem uma segunda feira.
Para mim, o final de semana foi diferente. Muitos pensamentos, com os quais lutei, deixaram marcas do cansaço obtido pela batalha interior, mas não impediu que o coração se enchesse de expectativa pela segunda feira.
Cheguei cedo ao laboratório e optei por ficar na secretaria, checando o sistema, vendo se todos os resultados dos exames estavam devidamente liberados. Uma estratégia usada de forma velada. Minha recompensa não tardou. A vi passando no corredor, fitou-me, deu um tchauzinho antes de se dirigir ao seu setor de trabalho.
Pronto. Bastou um sorriso, um aceno e meu coração se derreteu por completo, tudo à minha volta se iluminou, tudo brilhava. Alguém poderia me explicar o que essa mulher fazia comigo?!? Bom, até então, não tinha consciência da peça que o destino já havia pregado ao meu coração. Pois até o vidro que nos separava, havia se tornado uma verdadeira muralha que, se dependesse de minha vontade, viria abaixo, só para senti-la mais perto...
Luciana se aproximou, e perguntou:
_Irmã Angélica, você está bem?!?
_ahãn?!? Que foi que disse Lu?!?
_Perguntei se está tudo bem...
_Ah sim, está tudo bem... por quê?!?
_É que de repente, você ficou pensativa, nem ouviu quando a chamei, e olha que foram umas três vezes, hein...
_Desculpa Lu, acho que é só um pouco de cansaço. Acabei me desligando da realidade um pouquinho. O que você queria mesmo?!?
_Certo, é que estamos com uma guia de um convênio que o faturamento nos devolveu alegando a necessidade de alteração de código, pois o convênio não quer efetuar o pagamento. Disseram que o código está errado, mas não sei como fazer isso.
_Nossa Lu, isso realmente não tinha acontecido antes, nem mesmo sei como resolver, assim, de imediato...
_Posso dar uma sugestão Irmã?!?
_Claro, diz. O que ta pensando?
_Quando a Irmã Aurora nos apresentou Mayla, disse que ela entende sobre guias de convênio, sobre a funcionabilidade laboratorial, e queria sua autorização para pedir-lhe para dar uma olhada nisso pra gente e explicar o que devo fazer...O nome dela aguçou ainda mais a vontade que estava em vê-la novamente. Um pretexto convincente e providencial para que pudesse encontrá-la, sem levantar suspeitas, afinal o assunto era estritamente profissional.
_Então Irmã Angélica?!? Posso pedir a ajuda dela?!?
_Pode não Lu, deve. Faz o seguinte, liga pra ela e pergunta se pode vir até aqui, por favor. Caso esteja ocupada, já que praticamente acaba de começar o trabalho no hospital, diga que preciso falar com ela, assim que tiver um tempinho disponível.
_Certo, já estou ligando pra ela.
A espera pela resposta me deixou ansiosa, numa expectativa sem limites. Não demorou muito tenho certeza, mas para mim foi uma eternidade...
_Então Lu?!?... já questionei logo.
_Ela disse que está terminando uma conversa com a auxiliar de enfermagem e já vem.Mas que espera angustiante. Queria ir até lá e saciar aquela vontade que se agigantava mais e mais em meu peito de vê-la mais uma vez, mas não foi necessário, pois de repente senti um toque no meu braço, trazendo-me mais uma vez à realidade, através do arrepio único causado por aquele simples contato.
_Oi Irmã Angélica! A senhora mandou me chamar?!?
_Oi Mayla!!! Sim, estou precisando de sua ajuda, mas quero te pedir uma coisa, posso?!?
_Claro Irmã. O que deseja?!?
_Que não me chame de senhora, está bem?!?Sorriu, e ficou mais à vontade ao responder...
_Está certo Irmã, como desejar... sei e estou vendo que é muito jovem, mas sabe como é né?!?... é força do hábito.
_Obrigada Mayla. Eu entendo que é por respeito. Para mim também não é tão simples viver debaixo de um hábito, sabendo o peso que isso representa, mas não sou adepta desses formalismos sem pé nem cabeça, que às vezes são impostos por aí, mas tudo bem, há quem gosta não é mesmo?!? - e rimos da situação._ Bom agora vamos ao motivo pelo qual a chamei.Expliquei o que havia acontecido, mostrei a guia e imediatamente já foi ditando os passos para que Luciana pudesse resolver aquele problema, que embora parecesse irrisório, havia causado um transtorno imenso, junto ao faturamento.
Enquanto explicava, sem sentir ou mesmo pedir licença, meus olhos percorreram seu rosto e pousaram em seus lábios. Quando a fitei nossos olhos se encontraram, senti meu rosto arder em chamas, como se tivesse sido pega fazendo algo errado... Mayla, porém, limitou-se a dar um sorriso. Não comentou nada a respeito, com certeza para não me deixar mais sem graça do que estava.
_Pronto Irmã, problema resolvido. Creio que o que falei para Luciana, será o suficiente para resolver essa questão, está bem?
_Ok Mayla. Obrigada e tenha certeza, se precisar novamente, a chamarei...
_Fique à vontade Irmã. Será um prazer poder lhe ajudar.Sem que eu esperasse, ela se aproximou e me abraçou pelos ombros. Fiquei emocionada, apenas passei meu braço por sua cintura e a apertei com carinho.
Bom, nem preciso dizer o que isso significou e o que causou em meu corpo, não é mesmo?!?
Aquele contato era grandioso para mim, embora me perturbasse ao extremo, me fez bem. Essa foi a conclusão final.
Capítulo 4:
O tempo foi passando. O contato que mantínhamos era bem profissional, embora os abraços tivessem se intensificado, bem como as “desculpas” que ambas encontrávamos para estarmos sempre por perto. Riamos, conversávamos, brincávamos, e sutilmente os toques no braço, nos ombros, nas mãos, passaram a fazer parte da nossa rotina. Para mim, passou a ser uma necessidade, o que se tornou assustador para a minha consciência moral religiosa.
Mayla tornou-se alvo constante dos meus pensamentos, sonhos, sentia necessidade de vê-la, e quando isso não era possível, meu dia e tudo à minha volta, ficava sem graça, sem brilho.
Os finais de semana passaram a ser uma tortura. A segunda feira que era tortura para todos, para mim passou a ser a celebração do coração, já que ele contava as horas, minutos e segundos para ver Mayla adentrando aquele tão conhecido corredor...
A cada dia, a ausência de Mayla se tornava mais doída. Não tinha consciência do porque sentia como se parte do meu coração estivesse sendo arrancada de mim, a cada vez que a via entrar em seu carro e sair pela guarita daquele hospital.
Como freira, tinha uma vida para viver, regras a cumprir, as promessas que havia feito no dia em que me consagrei... ainda que temporariamente e certinha como era, responsável com meus votos, não permitia sequer, cogitar a possibilidade de que tudo o que estava acontecendo não fosse pura e simples admiração.
Como mulher, gente de carne e osso, sentia meu ser inteiro clamar por estar com Mayla, por um toque, um olhar. Não importava como, mas sentia falta de sua presença, de seu sorriso.
Eram tantos sentimentos juntos, que as lágrimas em determinados momentos se tornavam inevitáveis; não tinha com quem conversar, e nem podia, pois se ousasse dizer o quanto Mayla mexia comigo, o quanto havia se tornado importante para mim, o quanto me preocupava com ela, e o quanto sentia ciúmes de quem tinha o privilegio de sua companhia quando não estava no hospital, com certeza, eu seria transferida, caso viessem a descobrir os sentimentos que estava nutrindo por Mayla, e a conseqüência pior seria para ela, pois poderiam despedi-la. Não entenderiam, muito menos aceitariam meus sentimentos, nem permitiriam que pudesse ter a chance de senti-los.
Este final de semana foi complicado, as horas não passavam e tudo me irritava, fiquei super baixo astral, com uma saudade enorme de olhar aqueles olhos castanhos claros, aquele rosto lindo, aquela boca que me atraia.
E assim o tempo foi passando, enquanto lutava internamente para encontrar justificativas que amenizassem o sentimento de culpa por sentir por Mayla algo tão intenso, que me consumia a alma.
O final do ano chegou, um novo ano se iniciou. Minha luta interna continuava cada vez mais acirrada. Tinha dias em que ficava esgotada, de tanto pensar em justificar aquele mar de emoções, tão fortes mas, controversas, e que poderiam causar sérios transtornos em minha vida.
Tentei ficar longe de Mayla, fiz uma força imensa pra me manter mais à distancia, porem minha batalha sempre terminava com as armas depostas ao chão em sinal de rendição, pois bastava um único olhar, e lá estava meu coração, sedento, carente da presença daquela linda mulher.
Capítulo 5:
Certo dia a vi chegando, mas não estava como antes, faltava aquele brilho. Percebi que algo não estava bem. Seu sorriso não estava tão aberto, e seu olhar... ah, aquele olhar não me enganava, algo havia acontecido.
Aprendi a conhecer Mayla de um jeito único, e qualquer mudança não passava despercebida por mim. Fiquei com meu coração apertado, pois queria ajudar, mesmo sem saber do que se tratava.
Tinha uma prima, com quem dizia dividir o apartamento onde moravam. E de fato, sempre quando precisava falar com ela em casa, algumas vezes, a tal “prima” atendia ao telefone.
Os boatos sempre correm soltos, afinal a língua tem muitas funções, algumas prazerosas, positivas, mas em alguns casos, pode destruir alguém. E chegou aos meus ouvidos que Mayla era lésbica e que na realidade, vivia com essa mulher, que conhecíamos como sua prima. Sempre foi muito discreta, em todos os sentidos, embora a convivência já houvesse esclarecido esse detalhe para mim. Mas ela ocupava meu coração e em momento algum a tratei com diferença, mesmo sentindo ciúme daquela que dividia a mesma casa, a vida e a mesma cama com ela.
Nesse dia em que percebi aqueles olhos tão tristes, não resisti. A chamei para uma conversa a portas fechadas, onde pudesse expor o que sentia sem receio algum.
Queria realmente ajudá-la e tentar transformar aquele olhar em alegria novamente.
Liguei em sua sala.
_Alô...
_Mayla, sou eu Irmã Angélica.
_Oi Irmã, ta tudo bem?!? Precisa de algo?
_Está tudo bem Mayla, estou precisando de algo sim...
_O que é Irmã?!?
_Preciso que você venha até a secretaria do laboratório, porque quero muito falar contigo.
_Estou só adiantando uma estatística que preciso apresentar e assim que encerrar aqui, irei falar com você.
_Certo Mayla, estarei esperando.Desliguei o telefone, sentindo uma dor em meu coração. Saber que ela estava triste, me deixava sem ação, pois tudo o que desejava era vê-la sempre feliz, com aquele sorriso tão lindo, iluminando aquele rosto que me era tão caro.
À tarde, por volta de 15h30min, estava na secretaria quando a vi chegar. Pediu licença e entrou. A recebi com um abraço apertado, ao que ela retribuiu e ali ficou por uns instantes, como se precisasse daquele contato protetor.
Desvencilhou-se do abraço, olhou em meus olhos e disse:
_Então Irmã Angélica, em que posso ajudá-la?!?
_Venha ate a sala.Antes de fechar a porta, pedi à secretaria:
_Lu, preciso resolver algo muito sério com Mayla, e não quero ser interrompida, está bem?!?
_Pode deixar Irmã Angélica, qualquer coisa anotarei os recados.
_Obrigada Luciana.Fechei a porta, e indiquei a cadeira para que se sentasse e ficasse mais confortável.
_Bom Mayla, não quero parecer inconveniente, ou intrometida, mas hoje percebi que você está muito triste, e queria saber, se posso ajudar em alguma coisa...Abaixou os olhos e sem me olhar perguntou:
_Está tão visível assim, Irmã Angélica?!?
_Para mim que aprendi a conhecer você, como te disse, apesar do pouco tempo de convivência está claríssimo, mesmo com seus esforços para mostrar o contrário... mas para as outras pessoas, creio que esteja passando batido...Deu um sorriso entristecido e me olhou nos olhos, tive certeza que não errara em meu julgamento, pois vi a dor estampada naqueles lindos olhos.
Ainda tentou fugir da verdade, dizendo que eram preocupações com a mãe, que estava passando por um momento difícil de saúde.
A encarei e decidi jogar a ultima carta que tinha, já que estava disposta a ajudá-la de alguma forma. Era tudo ou nada.
_Mayla, entendo que sua mãe esteja passando por problemas de saúde, mas esse não é o motivo de sua tristeza, posso sentir isso. Sei que não temos intimidade suficiente pra falar de assuntos tão pessoais, nem quero parecer intrometida, afinal não tenho nada a ver com sua vida fora dos portões deste hospital, mas estou aqui como alguém que tem um carinho imenso por você, e que se preocupa com sua felicidade. Sou sua amiga Mayla, antes de tudo. Por isso, ouso te perguntar: sua tristeza tem algo haver com a sua “prima”, não é?!?Ela me olhou, surpresa com minha colocação e baixou os olhos, ficou em silêncio, e cheguei a pensar que ia se levantar sem falar nada, mas respirou fundo, e disse:
_Sim, Angélica, tem haver com ela sim. Parece que não consigo esconder nada de você mesmo, não é?!?
_Você pode até tentar, mas não vai conseguir, então Mayla, não se preocupe, sei que precisa conversar e saiba que nada muda entre nós por isso, afinal eu já havia percebido que ela na verdade, não é sua prima, há muito tempo.
_Como Angélica?!? como você descobriu?!? Ela falou algo pra você?!?
_Não querida, ela nunca falou nada comigo, mas tenho aprendido muitas coisas na vida, embora pareça novinha, tenho muita bagagem adquirida ao longo destes quase oito anos de vida religiosa. Apenas percebi, intuitivamente, digamos assim, e mesmo depois desta descoberta, continuei a te querer bem do mesmo jeito, portanto minha linda, nada de fugir da sua vida pra mim, combinado?!?
_Angélica, você não existe sabia!
_Existo sim Mayla, tanto que estou aqui estendendo minha mão para te ajudar da melhor forma possível, ou melhor, abrindo meus ouvidos para te escutar. Vamos lá, não se sinta intimidada por meu hábito religioso!
_Está bem, você tem razão. Agradeço por sua compreensão e por me aceitar como sou. E de fato, estou precisando conversar com alguém, senão vou acabar enlouquecendo.Bom, nossa conversa durou um bom tempo. Descobri que Mayla e Silvia, esse era o nome da “prima”, tinham um relacionamento de 13 anos. Se conheceram numa reunião de amigos da faculdade, e Silvia sendo homossexual, conseguiu conquistar o coração de Mayla, que até então, só havia se relacionado com rapazes.
Viveram bem por um longo tempo, mas nos últimos anos, a relação havia se desgastado. Silvia já não tinha mais aquele carinho, atenção, romantismo de antes e tudo sempre tinha que terminar na cama, onde ela saciava seu prazer e pouco se importava se o prazer de sua parceira havia sido completo, depois simplesmente virava pro lado e dormia. Já não conversavam mais. Agia como se fosse o “macho” da casa, pensando que uma noite de sexo, colocaria tudo no eixo.
Mayla sempre que falava em sair de casa, se via numa situação delicada, pois Silvia fazia mil ameaças, e sabia que com isso causava um abalo imenso em sua companheira.
_Sabe, Angélica, hoje me sinto totalmente sufocada, usada pela pessoa a quem dediquei tantos anos de minha vida. Já não conseguimos ficar no mesmo ambiente sem discutir. Sei que ela está ficando com outras mulheres, mas isso já não me incomoda mais. Procuro chegar mais cedo em casa, de forma a ir pra cama também mais cedo e finjo que estou dormindo quando ela se deita ao meu lado. Não estamos vivendo bem, de forma sadia e isso tem destruído ainda mais o pouco do que restava de sentimento, entende?!? Sem contar o ciúme doentio. Se atraso por algum motivo, mesmo avisando, ao chegar a casa a confusão está armada. Vem querendo saber com qual “vagabunda” eu estava me esfregando, e se havia dado conta do recado, e daí pra pior, entende.Aquela situação estava deixando-a arrasada e eu me sentia ali, frente a ela, completamente impotente. Precisava ter o devido cuidado em minhas palavras, pois não podia aumentar ainda mais a animosidade reinante naquele relacionamento, então resolvi não tecer comentários, mas incentivá-la a dizer o que pensava.
Cortava-me o coração ver a tristeza, e o esforço que estava fazendo para não chorar ali mesmo.
_Diante de tudo o que me disse Mayla, desta realidade que está conseguindo tirar o brilho dos seus olhos, o que seu coração deseja fazer?!?
_Esse é o problema Angélica. Já tomei minha decisão, e comuniquei o que vou fazer. Estarei saindo de casa. Depois de uma noite agitada, consegui fazê-la me ouvir. Expliquei tudo o que estava sentindo, e porque não podíamos continuar assim.
_E ela Mayla?!? Como reagiu?!?
_Mal Angélica. Disse que vai se matar, que as coisas não terão mais sentido, que não sabe viver sem mim, chorou muito, disse que vai mudar, mas é sempre assim, cada vez que tento dar um basta, acabo ficando com pena dela, e insistindo na relação, só que a mudança não acontece. Desta vez, porém foi diferente, e ela sentiu isso, pois mantive minha decisão, e acabou cedendo. Mas tenho receio de que faça realmente alguma besteira. É isso que tem me perturbado. Depois que conversamos, ela saiu de casa e não voltou. Estou realmente preocupada.Refleti sobre aquela situação. Meu Deus, nunca imaginei que um dia, fosse passar por algo assim. Estava travando uma luta interna comigo mesma, contra minha vontade de abraçá-la, de acariciar aquele rosto tão lindo e que estava sofrendo tanto, mas ao mesmo tempo, toda a moralidade religiosa, impregnada em meu ser, me impedia de fazer algo tão inapropriado, pelo menos, naquele momento, era o que pensava, e era também a única forma de justificar o que estava se passando comigo, como apenas uma “tentação”. Mesmo confusa, sem saber ao certo o que dizer, acabei segurando as mãos dela. Estava de cabeça baixa, então segurei em seu queixo, o ergui até que me olhasse nos olhos, e disse:
_Mayla, aprendi em um curto tempo a te conhecer um pouquinho e nem mesmo sei explicar como isso aconteceu, sei também que não sou a pessoa mais indicada pra dar opinião em seu relacionamento, mas aprendi a conhecer um pouco o ser humano e suas reações variadas frente à dor e a perda, ainda não sei nada, mas o pouco que sei e acredito, é que Silvia não vai fazer nenhuma besteira, ela precisa de tempo pra entender, aceitar e conviver com essa nova realidade que está se fazendo na vida de vocês duas. Tenho certeza de que ela vai refletir e ver que os momentos bons e lindos que viveram, precisam permanecer vivos, e que uma relação encerrada com brigas, ofensas e agressões, só tende a apagar a marca do que de bom existiu.Respirei fundo. Estava tentando apenas injetar confiança e segurança no coração daquela mulher linda, e tão fragilizada à minha frente, e no fundo rezava para que Silvia realmente enxergasse as coisas sob aquele ponto de vista... continuei...
_ Fica calma Mayla, vai ficar tudo bem, acredite. Confie no lado bom e bonito do que vocês viveram e saiba que estarei aqui, se precisar. Quando chegar hoje em casa, Silvia estará lá, então vocês sentam e conversam novamente, quem sabe, seja bem diferente do que você pensa, hein?!?
_Obrigada Angélica. Falar com você foi o que de melhor poderia ter me acontecido hoje. Esse final de semana foi terrível para mim e tenho que confessar, varias vezes cheguei a pegar no telefone para ligar para você, mas acabava desistindo, pois não sabia como explicar a situação em si e agora, vejo que não precisava ter me preocupado tanto. Se eu precisar, vou te procurar sim. Agora, tenho que ir pra casa. Chegou a hora da verdade, não é mesmo?!? O que tiver que ser, será.
_De fato, deveria ter ligado. Gosto imensamente de ti e não teria motivo algum para mudar com você, se tivesse aberto sua vida para mim. Olha, agora vá confiante, se precisar de alguma coisa, me liga, está bem?!? Não pense duas vezes.
_Certo Angélica, mais uma vez, obrigada!
_Não precisa agradecer. Agora vem cá, me dá um abraço, acho que você ta precisando deste carinho, não é mesmo?!?Nos abraçamos. Um abraço cheio de carinho, necessidade de proteção, dengo, de sentimentos positivos que podem ser transmitidos por um contato tão gostoso, sincero e puro, se bem que, as reações ocorridas em meu corpo, não foram tão puras assim, mas não me permitia pensar sobre elas.
Mais uma noite complicada. Tantos pensamentos em conflito, tantas emoções que até então, desconhecia, e o que mais me deixava assustada, era a força com que elas se manifestavam. Os sonhos eram conturbados, mas a razão era a preocupação com ela, e torcia para que tudo ficasse bem mesmo e que o dia chegasse logo, a fim de que pudesse vê-la.
***********
Capítulo 6:
O dia amanheceu sereno. Fiz minha rotina passo a passo, mecanicamente confesso, pois meu pensamento estava em Mayla.
Estava no setor de trabalho, estrategicamente sentada na recepção, quando a vi entrando. Meu coração passou a bater descompassado. A me ver, sorriu. Foi ao meu encontro, me abraçou e disse: _Você tinha razão Angélica, Silvia voltou pra casa mais calma, conversamos e acertamos os ponteiros.
_Que bom Mayla, fico feliz que tudo tenha corrido bem.
_Ela até me ajudou a organizar minhas coisas...
_Então vai se mudar hoje?
_Não, mudei ontem mesmo, só faltam algumas coisas que ainda preciso pegar, mas já estou no meu apartamento.
Sorri ao ver o brilho nos olhos dela.
_Te convido então para um cafezinho, para comemorarmos o bom andamento de tudo. Que tal?!?
_Combinado. Vou adiantar as coisas ali no setor e depois volto e a gente comemora.Já estava saindo quando olhou novamente em minha direção, e sorrindo disse: _Ah, a propósito “Bom dia” né?!? Fiquei eufórica pra te contar tudo que me esqueci...
Abri um largo sorriso em resposta... _Ótimo dia para nós, com certeza!
_Até mais Angélica.
_Até.Assim nossos dias foram seguindo um ritmo aparentemente normal. Nosso contato aumentou consideravelmente e sempre que era possível, nos encontrávamos para uma conversa, um café...
Minhas noites, passaram a ser sempre povoadas de sonhos, ora calmos, serenos, ora tumultuados, porém, pude perceber que, o primeiro pensamento ao abrir os olhos era direcionado à Mayla...
Quando amamos alguém intensamente, somos capazes de sentir e perceber a mínima reação emitida, ainda que a pessoa não esteja ao alcance dos nossos olhos. Pelo menos isso aconteceu comigo e Mayla.
Sexta Feira da Paixão. Ano 2001.
Acordei com uma sensação estranha, um abafamento interior, o coração apreensivo e como não foi diferente, pensei em Mayla. Durante a manhã, esses pensamentos se intensificaram de tal forma, que me senti sufocar. Uma sensação estranha... – Mayla! O que será que está acontecendo com ela?!? Não há outra explicação, hoje ela não está bem.
Naquele dia, não nos era permitido ligar para a família, nem para ninguém, fazia parte de um sacrifício que abraçávamos como oferta de amor a Deus... (nem escrever, nem telefonar, qualquer contato, só no domingo...)... consegui me segurar até 13h00min deste dia, mas depois não pude mais. Precisava saber como Mayla estava, se estava acontecendo alguma coisa, afinal meu coração estava extremamente inquieto.
Fui até minha sala no laboratório e liguei.
_Alô!
_Oi, Mayla! É Irmã Angélica.
_Olá Angélica, aconteceu alguma coisa?!?
_Eu é quem pergunto Mayla, passei esta noite, entre sonhos e pesadelos, embora não consiga recordar o enredo, sei que você apareceu em muitos, e desde o instante em que acordei, você não sai da minha mente, é como seu eu sentisse a angustia do seu coração. Posso estar errada, mas preciso ouvir de você. _Então me diz, por favor, o que está se passando contigo?!?Houve um silêncio do outro lado, e fiquei mais angustiada ainda quando percebi que ela estava chorando.
_Mayla, por favor, o que está acontecendo linda?!? Me diz...
_Realmente não estou bem Angélica. Sílvia ontem esteve aqui em casa, pediu para conversar, havia bebido além da conta, mas só fui ver depois que entrou no apartamento. Disse que fingiu aceitar nossa separação, mas no fundo isso não havia acontecido e queria voltar. Foi doloroso, depois de tantos anos, vê-la ali chorando, mas ao mesmo tempo não consegui sentir por parte dela, um gesto de compreensão, carinho, sei lá, tive que fazer um esforço grande demais pra não ceder mais uma vez. Por conta do efeito da bebida, tentou me agarrar, ficou dizendo que não ia conseguir viver sem mim, que tudo havia chegado ao fim pra ela, a seguir ficou perguntando quem era a outra, que com certeza havia outro rabo de saia na minha vida, mas que eu estava enganada, porque a vagabunda com quem ando ficando não vai satisfazer meus desejos, como só ela sabe fazer. Fiquei magoada com a atitude, mas por tudo o que vivemos, me sinto idiota de ainda me preocupar com ela. Pedi que fosse embora, e que quando estivesse sóbria, se quisesse poderíamos conversar, mas naquele estado, não era possível e por medo de que acontecesse algo, a levei em casa. Relutou bastante em entrar, mas acabou percebendo que realmente não havia conseguido me dobrar, como sempre fazia. Não consegui dormir, e estou com o coração estraçalhado, mas tenho consciência que não dá mais, não posso continuar assim...
_Eu tinha certeza que você não estava bem, não sei explicar como, mas eu senti.Conversamos mais um pouco, até que senti que ela estava mais calma, mais serena.
_Mayla, queria ficar mais tempo aqui contigo, mas preciso ir linda. Tenho que ajudar as irmãs na celebração de hoje, se der, mais tarde, volto a ligar, está bem?!?
_Está bem Angélica, mas antes que vá, preciso te pedir um favor.
_Pois então peça, se eu puder, farei com prazer.
_Gostaria de conversar com você Angélica, em particular, e fora do hospital, pois aí, somos constantemente vigiadas. Seria possível?!?
_Vou ver o que posso fazer Mayla, vou pensar em uma forma, e mais tarde te digo, ok.
_Certo Angélica. Vou aguardar ansiosa, sua resposta. E obrigada por ter ligado, por ter se preocupado comigo.
_Não tens que agradecer nada Mayla... já disse que gosto muito de você, e me preocupo contigo.
_Sei que você gosta de mim Angélica, e se preocupa comigo, assim como tantas outras irmãs, mas só você ligou. Essa é a diferença.
_Ok, você venceu, aceito sua gratidão.
_Assim está melhor.
_Certo, senhorita, então até mais tarde, e se cuida, ok.
_Pode deixar, me cuidarei.
_Beijo. Bye bye.
_Outro. tchau.Senti um alivio no coração, e aquela opressão se esvaiu. Consegui participar da celebração do dia, e após esse momento, tivemos um tempo livre.
Lembrei-me do pedido de Mayla. Como fazer para que conversássemos fora do hospital?!? Onde nos encontraríamos?!?
Ao mesmo tempo em que estava feliz com o convite, ficava insegura, não podia permitir que ela descobrisse sobre tudo o que estava acontecendo comigo, em relação a ela.
Será que ela poderia tentar alguma coisa?!? E se tentasse, como iria reagir?!? Ah, sim, diria que sinto muito, mas não compartilho da mesma opção que a sua, é isso, diria a verdade e a colocaria no lugar dela.
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